sexta-feira, 30 de julho de 2010

Ponyo - Uma amizade que veio do mar

Uma inocente e onírica história de amor 



Direção: Hayao Miyasaki 
Título original: Gake no Ue no Ponyo 
Duração: 101 min 
Idioma: Japonês 
Lançamento: Jul/10 

Ponyo é uma daquelas obras que te deixa sem saber se alguns elementos "estranhos" do roteiro são uma intenção deliberada do autor ou simplesmente um daquelas pequenas idiossincrasias culturais tão difíceis de se compreender e aceitar naturalmente. Não que haja qualquer coisa essencialmente bizarra ou incompreensível, mas sim pequenos detalhes, diálogos deslocados, reações aparentemente desconexas dos personagens, um distaciamento da estrutura narrativa com que estamos acostumados. 

Um estranhamento constante me aflige, como se meu cérebro estivesse procurando uma lógica familiar e não consegue encontrá-la. Elementos corriqueiros parecem impróprios: minha dificuldade em estabelecer a relação entre os personagens - se eles são realmente mãe e filho, uma vez que só se chamam pelo primeiro nome e tem uma relação um diferente da que estou acostumado; algumas atitudes que parecem ser rudes em algum momento, mas que os outros personagens parecem alheios a elas ou mesmo as declarações de amor eterno e aceitação mútua de crianças de cinco anos que para nossas cabeças ocidentais parece mais adequada a adultos. 

Em um nível ainda mais amplo e, por isso, mais intrigante, o grande desafio que os personagens principais enfrentam parece encolher-se e sua mecânica (ou as regras) não parecem ficar clara em qualquer momento. O próprio destino da humanidade e a catástrofe iminente é diminuída perto do relacionamento dos pequenos. É possível que outras crianças da mesma idade não terão esses mesmos sentimentos, já que para elas esse esquema pode ser justamente a lógica esperada (pontos para Myiaki se essa tiver sido sua intenção). 

O ritmo também não lembra nem um pouco as frenéticas animações americanas como Shrek ou Toy Story e Miyasaki deixa tempo suficiente para o expectador apreciar suas paisagens, suas cores de fundo, o bailado de traços na tela e perde menos tempo com a ação em si. O prazer de ver essa animação vem muito menos do riso e da adrenalina e muito mais de um voyeurismo natural - aquele prazer de sentar-se em um parque e simplesmente observar as pessoas e a maneira como elas se relacionam - nos pequenos detalhes, nos gestos mais simples e na cumplicidade absoluta. 

Alguns elementos, como em outros trabalhos de Myiasaki, são desenhados de maneira quase primária, pois não é a destreza dos traços que importa, mas sim para que eles são utilizados. Assim ondas tão simples quanto um par de curvas tornam-se um emaranhado onírico de um azul-escuro ameaçador e, em um dos melhores momentos do filme, a "rabiscada" Ponyo ganha um porte poderoso e dinâmico enquanto plana velozmente sobre as ondas e persegue o carro que dança pelos penhascos fugindo da tsunami. 

Ponyo é muito mais leve que e não alcança a beleza simbólica e fantástica de A viagem de Chihiro, mas está certamente muito acima de outras animações ocidentais recentes (ainda que seja injusto compará-las, já que se propõe a estilos completamente diferentes). Ponyo é uma pausa merecida para respirar, um filme que te permite mergulhar no prolongado e estroboscópico silêncio da sequência inicial ou desfrutar do distanciamento que uma língua indecifrável pressupõe (não há nem discussão, quanto assistí-lo no idioma original ou dublado). 

Enfim... fascínio, escapismo e inocente divertimento garantidos. 

Futurama S06E01 a S06E07

Boas idéias nem sempre engraçadas

Futurama tem uma história conturbada de cancelamentos e mudanças de canal. Passou por quatro temporadas na Fox, sendo que a última foi transformada em duas. Depois, passou a ser exibido em longa-metragens pelo Comedy Central, quatro deles. E agora, finalmente, o próprio Comedy Central resolver voltar ao formato seriado. 

Futurama continua a ser produzida por Matt Groening e David X. Cohen, respectivamente também criador e ex-roteirista de Os Simpsons. E os personagens (Fry, Leela, Bender etc.) continuam basicamente os mesmos, assim como o estilo satírico e paródico. 

Futurama é sempre divertida, ainda que não te faça realmente rir como Family Guy ou American Dad. O show sempre aparece com algumas idéias  interessantes e até consegue que algumas delas fiquem mais tempo amadurecendo na sua cabeça. 

Mas vamos a essa nova temporada: no primeiro episódio, Rebirth, eles trazem de volta os personagens com uma explicação rocambolesca para todas as inúmeras mudanças anteriores (canais e formatos). Para fechar, o episódio trata sobre clonagem e identidade pessoal de uma forma ainda mais complicada do que qualquer filme sobre esses assuntos já tenha feito.  

Em, In-A-Gadda-Da-Leela, o segundo episódio, o alvo é o falso puritanismo americano: um satélite chamado V-Giny vai destruir a terra por causa de seus programas de TV depravados. Fora da Fox, Futurama pôde começar a tratar mais explicitamente seus temas mais "controversos" e usar uma palavreado mais "livre". Esse é o primeiro episódio a mostrar essas mudanças.

Em Attack of the Killer App, os zumbis-clientes da Apple, o hype desmedido pelo Twitter e a efemeridade de fenômenos instantâneos como Susan Boyle são a piada da vez. Já Proposition Infinity sacaneia o conservadorismo americano em relação ao episódio da Proposição Oito que permitiria o casamento gay na Califórnia. 

Lethal Inspection é uma sátira aos filmes de "descoberta da mortalidade", onde a descoberta da fragilidade humana leva a personagem a apreciar mais a vida e cada um dos seus momentos. Interessante nesse episódio é que ele foca em uma dupla que ainda não tinha "trabalhado junto" antes: Bender e Hermes, o burocrata.

Dan Brown é a vítima de The Duh-Vinci Code onde os seus excessivamente elaborados roteiros são ridicularizados sem muito esforço. E, finalmente, The late Philip J. Fry faz o que Futurama faz de melhor: levar a níveis absurdos os temas mais rocambolescos e paradoxais da ficção científica: nesse caso as viagens no tempo.

Futurama voltou a ser meus vinte minutos semanais de diversäo bem elaborada e com conteúdo. Continuo seguindo essa sexta temporada e torcendo para que ela agora garanta uma vida longa à série sem tantos percalços.

quinta-feira, 29 de julho de 2010

A ilusão da alma - Eduardo Gianetti

Sobre cérebros e almas


A nova investida literária de Eduardo Gianetti (autor de ótimos livros como O valor do amanhãFelicidade e Auto-engano) é para aqueles leitores que sentam em uma mesa de bar e algumas poucas cervejas depois já estão acaloradamente discutindo se vivemos na "Matrix", ou se o mundo que cada um enxerga é o mesmo, ou se efetivamente existe realmente um mundo para ser enxergado? 

Se a existência de um "eu" ou a natureza da realidade ou onde nasce o pensamento interessam minimamente a você, a nova investida de Eduardo Gianetti pode ajudar na empreitada de queimar alguns neurônios com esses amados assuntos sem real praticidade ou na tentativa de responder perguntas que nunca terão respostas definitivas (mas também dificilmente deixaremos de discutí-las).  



Talvez o pedante, prolixo e de tempos em tempos arrogante narrador seja irritante o suficiente para fazer com que o leitor abandone o livro já nas primeiras páginas, porém aqueles que conseguirem ignorar os comentários mais pessoais e concentrar-se na lógica e na argumentação bem estruturadas ou, melhor ainda, nos intrigantes exemplos, estudos e experiências que são citados serão recompensados com uma ótima experiência filosófica. 

O livro tem letras grandes, espaçamento considerável , o texto flui fácil e os capítulos são pequenos e em grande parte auto-contidos, então, depois de apenas algumas poucas horas de discussão, o leitor vai terminar com bastante combustível para futuras discussões sobre o significado da vida, do universo e tudo o mais (royalties para Scott Adams). 

terça-feira, 27 de julho de 2010

Memphis Beat S01E06 - "Run On"

Muita cor, muita música e pouca história


Mais um crime em Memphis, mais uma "celebridade" local envolvida. Dessa vez entramos no mundo undergroud do Boxe. Atleta é espancado e suspeita recai sobre o agente, mas conforme a trama segue, novas pistas vão levando tediosamente a diferentes personagens e "tipos" locais. 

A subtrama envolve Sutton (DJ Qualls) buscando uma paixão de infância para quem ele nunca teve coragem antes de declarar seu amor. Fica difícil ter certeza se era para ser uma passagem dramática ou cômica porque o seriado não consegue se decidir entre as duas, no final acaba simplesmente sendo sem-graça.

O episódio mais sem-graça em termos de enredo até o momento, mas provavelmente o melhor em termos de música e o que mais abusou de cortes com imagens da cidade. Eu gostaria até de parar de acompanhar a série, mas para quem já chegou até aqui, o que são mais alguns episódios?

Mais detalhes sobre as locações, músicas e referências podem ser encontrados nessa resenha aqui.

domingo, 25 de julho de 2010

Scoundrels S01E05 - "Yes, Sir, Yes, Sir, Three Bags Full"

Passeio pelo deserto

Certamente é um mau sinal quando você percebe que só está querendo ver o episódio de uma série para poder checar a paisagem e as locações. É quase como ficar ansioso para ver o filme ganhador do Oscar de melhor fotografia. Se não há conteúdo para acompanhar, são só imagens agradáveis sem consequência. 

Foi essa a minha sensação com o episódio de hoje de Scoundrels. As únicas coisas que realmente me empolgaram foram a paisagem que pode ser apreciada das janelas da mansão da família Hong, os flashes com externas de Palm Springs, o céu infinito do deserto na cena com o trailer de Sparky.

A história em si foi muito rasa e com pouco a destacar. A subtrama de Hope com os vídeos piratas foi a que chegou mais próxima de representar algum avanço ou mudança de status para um personagem. O debut de Heather como stripper ou a trama paralela de Logan e Cal onde nada efetivamente acontece são pura perda de tempo e beiram perigosamente os limites do Pastelão.

Scoundrels já passou da metade da temporada e efetivamente não conseguiu achar um nicho nem no drama, nem na ação e nem na comédia, deixando a desejar em qualquer um dos estilos. Assim como Memphis Beat, vou continuar até o final dessa temporada, mas a não ser que haja uma mudança repentina e extrema de direção, vou procurar por outra fonte de imagens do deserto californiano.