sexta-feira, 1 de fevereiro de 2008

Thor v3 #01-06

Retorno de proporções divinas

Editora: Marvel Comics
Publicação: Set/2007 a Fev/2008
Roteiro: J.M.Straczynski
Arte: Olivier Coipel

Depois de algum tempo afastado do universo Marvel após o cataclísmico evento que finalizou a versão anterior de sua série, o Deus do Trovão retorna em grande estilo com a arte espetacular de Oliver Coipel e um ótimo enredo de J. Michael Straczynski.

Longe de ser forçada, a "ressurreição" de Thor abre uma discussão sobre o ser divino e sua relação com o ser humano e sua jornada para "despertar" os deuses nos corações dos homens rende ótimos momentos.

A escolha pela localização de Asgard garante um viés mais realista e prosaico para estória, permitindo alternar os momentos de grandiosidade divina com outras de pragmatismo e pé-no-chão com os personagens de uma cidadezinha no coração da América.

O ritmo também é muito bem construído e cada edição é uma estória fechada em si ao mesmo tempo que avança o enredo principal. Cada capítulo dá um passo a frente: o retorno de Thor, a recriação de Asgard, o despertar de Heimdall, depois dos três guerreiros etc.

Um grande retorno para um grande herói!

sexta-feira, 14 de dezembro de 2007

Santos e demônios

Juventude Transviada 2.0

Direção: Dito Montiel
Título original: A guide to recognizing your saints
Duração: 100 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Dez/2007

Santos e Demônios é um típico filme de "amadurecimento", acompanhando um garoto crescendo em meio a uma vizinhança tomada por gangues e conflitos interraciais e construindo sua individualidade mesmo que isso signifique cortar laços com amigos e família. O embate e a difícil comunicação entre pai e filho ou a falta de compreensão dos amigos são as principais fontes dramáticas do filme, mas há episódios de violência e tragédias suficientes para completar o sofrimento do protagonista.

Ainda que Shia LaBeouf tenha sido uma ótima escolha para o papel do jovem Dito Montiel (diretor dessa cinebiografia), Robert Downey Jr. parece um pouco deslocado - não está ruim, mas destoa - no drama e dificulta pensar nele como Dito e não como ele mesmo. Um ator menos conhecido ou menos característico teria se saído melhor. Com exceção da escolha do ator e a excessiva familiaridade do gênero, as reminiscências de Montiel em Santos e Demônios são sinceras e honestas o bastante para colocar o filme um pouco acima da média de uma sessão da tarde e satisfazer os apreciadores de dramas reais.

domingo, 30 de setembro de 2007

I'm a cyborg, but that's ok

Amor e loucura

Direção: Park Chan-Wook
Título Original: Ssaibogeujiman Gwaenchanha
Duração: 105 min
Idioma: Coreano
Lançamento: Set/2007

A premissa de Eu sou um ciborgue, mas tudo bem (tradução minha, não encontrei nome em português oficial) é a seguinte: a mulher pensa ser uma máquina, lambe baterias para se alimentar, conversa com torradeiras e coisas do tipo e o homem é um cleptomaníaco especializado no roubo de memórias e identidades. Eles estão internados no mesmo manicômio e eles se apaixonam - o filme é uma espécie de "comédia romântica" não-convencional. 

A premissa é bastante original, mas, infelizmente, o filme em si não me cativou. Sequer fui até o final, ou, pelo menos não dedicando toda minha atenção a ele - depois de um tempo estava escrevendo alguma outra resenha enquanto o filme continuava na televisão. Acho que tudo no filme é tão bizarro e a loucura dos personagens é tão definidora que é difícil você se importar com qualquer coisa que aconteça. 

Minha sensação é de que os filmes asiáticos que acabam chegando ao Brasil são apenas os mais estranhos que eles produzem. Isso, ou realmente, o abismo cultural que existe entre nossa cultura e a deles é muito maior e mais profundo do que eu imaginava. O (suposto) lado cômico do filme me pareceu por vezes de mal-gosto, outras vezes tolo ou até mesmo puramente incompreensível - as reações dos personagens não parecem ter conexão com os acontecimentos (parte ou muito por causa da loucura). 

Nos trabalhos anteriores do diretor, como Oldboy e Lady Vingança, a estranheza também está lá, mas você consegue entender de onde estão aflorando os sentimentos dos personagens, ainda que pra você não faça sentido. Com personagens insanos, é impossível saber se a personagem está rindo porque normalmente se ri quando morre alguém na Coréia ou se porque ela é louca simplesmente. 

Há, contudo, elementos que tornam a experiência agradável: algumas cenas de rara beleza, como a da chuva na sequëncia final, outras divertidas de se ver como as em que a protagonista se transforma numa metralhadora, mas de maneira geral, Eu sou um ciborgue é só um exercício de esquisitice e (suposto) humor. Uma (declarada) intenção do autor em se afastar o máximo possível da violência e agressividade de sua trilogia da Vingança. 

Em poucas palavras: para mim, não funcionou...

sexta-feira, 24 de agosto de 2007

Possuídos

Paranóia contagiante

Direção: William Friedkin
Título original: Bug
Duração: 102 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2007

Se você conseguir deixar passar a boa, mas lenta, primeira metade de Possuídos, vai ser presenteado com uma fantástica sequência de paranóia escalante que vai atingir níveis desesperadores da metade para o final. Os protagonistas Ashley Judd e Michael Shannon vão crescendo passo-a-passo, superando-se e alcançando níveis dramáticos absurdamente intensos e assustadores. O processo de filmagem deve ter exaurido completamente seus protagonistas, pois se a carga emocional do filme é desgastante e incômodo para os próprios expectadores, quem dirá para os intérpretes. Possuídos é do mesmo diretor de o Exorcista, William Friedkin, mas dessa vez, não é necessário qualquer efeito especial para deixar a audiência apavorada. O filme não tenta em nenhum momento assustar os expectadores, mas tenta sim fazer com que eles se assustem junto com os personagens, fazer com que se importem e desesperem-se na sua impotência e incapacidade de ajudá-los e em saber que não poderiam fazer nada por eles mesmo que eles não fossem apenas personagens. Tudo considerado, Possuídos é um filme de terror excelente, porém poderia ser ainda melhor se o ritmo e a intensidade fosse distribuído mais harmoniosamente ao longo do filme. 

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O castelo de vidro - Jeannette Walls

Memórias de uma infância desajustada


Pais podem ser vilões ou heróis dependendo da luz que se joga sobre eles, do momento em que se vive ou da conveniência. Jeannette Walls consegue descrever em suas memórias situações de fazer qualquer assistente social arrepiar-se até os ossos e ao mesmo tempo ser condescendente e até mesmo (esse é o lado dela da história) magnânima na maneira como perdoa à posteriori todos os deslizes e erros dos seus nada usuais progenitores.

Crescendo de cidade em cidade, largados à própria sorte, enquanto o pai alcóolatra perdia um emprego atrás do outro e sonhava com fortunas fáceis e a mãe entregava-se à depressão e a suas manifestações artísticas, Walls e seus quatro irmãos sofrem com a fome, a insegurança, habitações periclitantes e a incompreensão (às vezes até mesmo o desprezo) do resto da sociedade.

Uma qualidade da autora é a de não se entregar a um joguinho de apontar dedos ou de não entrar em psicologia barata para justificar qualquer dificuldade atual sua ou de seus irmãos com as atitudes dos pais no passado. Ela simplesmente conta a história e tenta, na maior parte do tempo, narrar os fatos objetivamente sem julgamentos (apesar de muitas vezes não conseguir disfarçar o orgulho, ou até uma ponta de arrogância, por ter conquistado uma posição na sociedade apesar de todas as situações em que os pais os colocaram.

O livro pode chocar alguns leitores mais sensíveis porque, apesar de a autora oferecer pequenas histórias supostamente cômicas ou emocionantes, pode-se também lê-las como relatos factuais de negligência e abuso infantil, como a indiferença paterna aos avanços de homens mais velhos sobre uma de suas filhas adolescentes enquanto esses garantiam o dinheiro necessário para mais uma dose. Nesse cenário, fica difícil não torcer pelas crianças e por capitulos mais alegres e "seguros" para eles (o que você sabe que vai acontecer pelo menos com a autora já nas primeiras linhas do primeiro capítulo).

Com uma prosa fácil e descomplicada, capítulos no tamanho exato de um deslocamento para o trabalho e personagens que mesmo assustadores, tornam-se apenas "peculiares" na descrição afetuosa e aparentemente sem rancor de uma filha, O castelo de vidro é uma leitura agradável e descompromissada para ler aos poucos e aproveitar cada momento da estranha infância dos irmãos Walls.