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sexta-feira, 12 de agosto de 2016

A Entidade 2

Como piorar o que já era ruim

Direção: Ciarán Foy
Título Original: Sinister 2
Duração: 97 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Set/2015


A Entidade (2012) contava com méritos técnicos, em especial a qualidade da atuação, que nos permitiam perdoar os inúmeros pecados cometidos pela direção e pelo roteiro. Sua sequência, no entanto, não só carece de elementos redentores, como também potencializa os vícios e delitos do original. E com a mecânica do horror já estabelecida (crianças são cooptadas por uma entidade sobrenatural a assassinar suas famílias e documentar o ato em filmes), a atmosfera de mistério e suspense se dissipa e restam apenas sustos baratos e crueldade sem propósito. 

O roteiro de A Entidade 2 é uma tíbia carcaça conectando despropositadas, ruidosas e súbitas aparições do "bicho-papão" com os violentos, mas em última instância inócuos, vídeos caseiros. A estratégia é fazer com que o espectador instintivamente pule da cadeira com a repentina elevação do volume da trilha sonora ou que se contorça com as atrocidades perpetradas nas películas. Nenhuma das táticas é efetiva.

O apelo dos vídeos no filme anterior, por exemplo, calcava-se não só no contraste da violência com o idílico familiar, mas também na inocente banalidade das armas utilizadas: aparadores de grama, facas de cozinha, cordas etc. Nessa nova iteração, a crueldade parece ter saído do Manual de Horrores do Capitão Planeta: água, eletricidade, gelo, fogo e animais são os protagonistas de elaboradas máquinas da morte de causar inveja à Inquisição Espanhola. Os facínoras infantis necessitariam não só de muito planejamento como, em alguns casos, de força bruta adulta para a execução e a verossimilhança então manda lembranças. Além disso, não há impacto emocional já que as vítimas não têm fala, nome e, pela qualidade dos filmes ou por estarem encapuzadas, sequer têm rosto. Violência estilizada e desprovida de sentido.

Já os sustos, que são em grande parte protagonizados por Bughull, a "entidade" do título, são apenas isso, sustos. Não há tensão. O monstro nunca causa mal algum aos protagonistas ou parece ser uma ameaça efetiva. Ele é o bicho-papão na acepção mais infantil da palavra: aparece de algum canto escuro apenas para fazer "BÚ". O "monstro" poderia, contudo, ter sido trabalhado como uma metáfora para a disfuncionalidade das famílias ou para abuso infantil e, à maneira do primeiro filme, poderia ser retratado como uma espécie de stalker ou voyeur, sempre a observar da escuridão, um predador na iminência de saltar sobre suas presas. 

Essa linha de pensamento não fugiria à proposta do filme. O fiapo de trama da família protagonista envolve violência doméstica. Essa história, no entanto, não é direta ou indiretamente associada a de Bughull ou a dos vídeos caseiros. Não há indícios de que as outras famílias nos vídeos também tivessem problemas ou sofressem com os mesmos dramas. Outras possibilidades de simbolismo, mesmo os mais óbvios, são descartadas: o uso do porão para representar o subconsciente do menino se perde quando a direção evidencia que a ação se passa literalmente no porão sem deixar margem para ambiguidade. 

Os problemas narrativos, contudo, não estão restritos às esferas conceituais e temáticas. Os diálogos são truncados, sem criatividade e muitas vezes constrangedores. As personagens, sem exceção, são clichês e esterótipos com uma única dimensão. O pai das crianças, o pior exemplo da ausência de nuances, é, por si só e mesmo com pouco tempo de tela, motivo suficiente para desqualificar a produção. Porém, a pior decisão de roteiro foi transformar uma personagem que só poderia ser (mal) escalada como alívio cômico (e era esse seu papel no primeiro filme) em protagonista. 

A Entidade 2 é, enfim, um filme B. Leva-se a sério, mas é involuntariamente risível. Tem um roteiro infantilizado, mas com orçamento de gente grande, e só por isso consegue ter um mínimo valor. Recomendado apenas para os fãs do gênero que, como eu, acabam vendo por falta de opções. A maior parte dos filmes de terror, afinal, consegue ser ainda pior.

sexta-feira, 6 de novembro de 2015

007 contra Spectre

 De segunda mão e ultrapassado

Direção: Sam Mendes
Título Original: Spectre
Duração: 148 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Nov/2015


As luzes se apagam. Na tela, uma tomada aérea da Cidade do México em pleno dia dos mortos. A câmera encontra o protagonista esgueirando-se por uma multidão de foliões e começa a segui-lo em um plano-sequência sem cortes aparentes que culmina na primeira, e insuspeitadamente a melhor, cena de ação do filme. Uma sequência competente, bem coreografada, ainda que flerte abertamente com a inverossimilhança (uma premissa, no entanto, em filmes da franquia). O espião mais elegante do mundo sai vitorioso, como era de se esperar, e os créditos iniciais invadem a tela acompanhados pelos irritantes falsetes de Sam Smith para a música-tema  Writing in the wall. Segue-se mau gosto e breguice ímpares (a primeira tomada, por exemplo, mostra Daniel Craig sem camisa indiferente a duas mulheres  que lascivamente o acariciam em meio a chamas). Os primeiros minutos de filme até pareceram auspiciosos, mas a partir dessa abertura kitsch 007 contra Spectre entra em uma máquina do tempo para revisitar equivocadamente a história da série.

A era Craig até teve um ótimo início com Cassino Royale, uma abordagem renovada e suficientemente original para um gênero exausto, um filme com personagens memoráveis como o sinistro Le Chiffre, o vilão interpretado pelo talentoso e não menos intrigante Mads Mikkelsen (Hannibal), ou como a Bond Girl sensual e enigmática vivida por Eva Green. Depois passou pelo impenetrável e confuso Quantum of Solace, um filme do qual poucas pessoas sabem dizer de memória qual era a trama. Enfim, Sam Mendes assumiu a direção em Skyfall e aprofundou minimamente um protagonista que sempre foi mais um artifício da trama do que uma personagem propriamente dita. Mendes ficou para (supostamente) fechar a passagem de Craig com um filme ambicioso, mas que só consegue repetir todos os clichês mais antiquados do gênero e reciclar cenas e ideias dos filmes anteriores.

Bond vai para cama com as mulheres depois de passar dois minutos com elas e jura amor eterno depois de longuíssimos dois dias juntos. Em uma cena "inédita", Bond é torturado em frente ao vilão, enquanto cospe ameaças que logo se pagarão. E como remexer no passado do herói foi elogiado pela crítica em Skyfall, por que não inventar laços familiares complicados que nunca foram mencionados em mais de cinquenta anos de filmografia? Tudo em Spectre parece reciclado, reutilizado, repaginado. Poder-se-ia falar em "homenagem" a momentos e períodos célebres da série, mas o resultado soa menos como tributo e reverência e mais como pura falta de criatividade e coragem.

Talvez a mais incômoda característica de Spectre seja que o filme pretende ser um fechamento que interlace e conclua todos os anteriores, mas executa esse plano da maneira mais preguiçosa possível. Mendes quer tentar nos convencer de que tudo foi arquitetado para construir a apoteose de Spectre, mas, sem qualquer menção em filmes anteriores, a única ligação é que todos os vilões dos filmes anteriores trabalhavam para o vilão de Spectre. Talvez se o vilão ou o interesse romântico do novo filme tivessem dado as caras, mesmo que apenas como referências, nos episódios anteriores, ou se houvesse uma ligação real entre as personagens e não uma criada em poucos minutos de tela, talvez o filme tivesse atingido parcialmente o impacto esperado.

Essa falta de vigor narrativo impacta também as atuações. Craig, burocrático, parece estar apenas simulando suas próprias interpretações prévias e não encarnando efetivamente o personagem. Ainda que, em favor do ator, ele faz o que pode com o que lhe reservaram: piadinhas requentadas, cantadas baratas, cenas de ação sem qualquer tensão ou inovação. Ao sempre excelente Christoph Waltz é relegado um vilão cartunesco que parece mais adequado ao paródico Austin Powers ou a um período mais ingênuo da franquia 007. A própria organização criminosa Spectre estaria mais à vontade em um filme dos Vingadores do que em um que se presta a uma vertente mais realística.

Nunca fui fã de James Bond e confesso que só comecei a dar uma chance aos filmes da série no período atual seduzido pela crítica que o classificava como "cerebral", uma visão pós-modernista do personagem, uma revisão da masculinidade e outras subjetividades do tipo. Spectre foge desses progressismos e tenta reintroduzir conceitos ultrapassados e não mais adequados para uma nova audiência. Contudo, para quem não estava satisfeito com o rumo atual da franquia (e provavelmente também não esteja satisfeito com o rumo atual do mundo em geral), ou para quem estava com saudades de tempos mais ingênuos, simplórios e formulaicos, tempos de respostas fáceis e de matizes bem definidas, enfim, para essa audiência, é bem possível que Spectre agrade em cheio.

terça-feira, 21 de julho de 2015

Corrente do Mal

Perseguidos pela inevitabilidade


Direção: David Robert Mitchell
Título Original: It Follows
Duração: 100 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2015


As expectativas eram altas para Corrente do Mal: recomendações positivas de amigos sabidos, aquele hype suspeito da crítica, material promocional intrigante e tudo o mais. E expectativas são a ruína de qualquer cinéfilo: elas raramente contribuem para o aperfeiçoamento da experiência. Por causa delas, ao final da sessão, frustrei-me. Não porque não fosse um bom filme, mas porque estava longe de ser a obra-prima que vendiam. No entanto, ao longo do dia seguinte e enquanto escrevia essa resenha, algo me seguia, cada vez mais próximo, mais ameaçador,  e com os mais diferentes aspectos. Percebi que, enfim, me tornara mais um elo naquela corrente...

Uma das razões para a frustração inicial é que tudo relacionado a Corrente do Mal apontava para uma história de terror, gênero ao qual ele inegavelmente pertence, mas não o que o mais caracteriza. Corrente do Mal é antes um filme de formação que um slasher adolescente. E o mesmo vale para outro hypado com tantas similaridades que sujeita Corrente a inevitáveis comparações: o sueco Deixe ela entrar. Ambos iluminam a crise existencial daquele período insano entre a inocência da infância e as responsabilidades da vida adulta; ambos rastejam por pretensiosas, lentas e entediantes cenas, e ambos são geniais. Chatos... mas geniais...

Corrente do Mal conta de uma garota que transa com um aleatório e passa a ser perseguida pela "entidade". Para que se livre do assédio sobrenatural, ela precisa transar a "entidade" para frente. Uma espécie de "comigo-não-tá" erótico. Simples assim. Estúpido assim. Insuspeitadamente inteligente  assim. É preciso deixar os símbolos e alegorias aos poucos sedimentarem em interpretações. E algumas delas podem até dar sentido ao festival de ambiguidades do diretor David Robert Mitchell. 

Mitchell é um quase-estreante esforçado que já assimilou truques de cineastas muito mais experientes que ele. Aprendeu, por exemplo, que uma câmera teimosamente parada tensiona e inquieta; ou que os elementos em segundo plano podem contar mais da história do que a ação no primeiro; que cada ruído, objeto, ângulo de câmera precisa adicionar ao contexto e subtexto do filme.

Subtexto esse que deixa eventualmente de ser sub para ser apenas texto de tão reforçado que é em todos os instantes: crianças brincam de pega-pega, os adolescentes jogam burro e o casal na fila do cinema brinca de "quem você seria" em alusões a mecânica da corrente; a água abunda em piscinas, em lagos ou na chuva remetendo ao desejo sexual; as decadentes e onipresentes casas e fábricas abandonadas de Detroit denunciam a natureza da "entidade"; a ausência de adultos na tela remete ao distanciamento e isolamento dos adolescentes que acompanham o amadurecimento sexual. 

Essas analogias e símbolos alimentam variadas interpretações para Corrente do Mal. Pode-se argumentar que o filme seria uma alegoria para a maturidade e o abandono de noções infantis de imortalidade. A entidade representaria a lenta aproximação da morte. Certamente não sem propósito, ela manifesta-se como pessoas mais velhas, decadentes, nuas, vulneráveis ou simplesmente já falecidas. Lembretes insistentes da nossa inescapável senescência. O sexo ao mesmo tempo traria essa percepção da brevidade e seria o meio para afastá-la.  

Em outra perspectiva, a entidade representaria a perda das certezas da infância e a necessidade de buscar constantemente por respostas para perguntas que você mal sabe quais são. O sexo alivia a angústia temporariamente (e afasta a entidade), mas é só questão de tempo até voltarem a assombrar. A corrente poderia ser também o remorso do pós-transa, a culpa católica pelo sexo pré-casamento e um punhado de outros significados.

O filme, enfim, dá um caráter ancestral aos questionamentos sexuais típicos da adolescência. Da "corrente", não se sabe como começou ou a razão de sua existência, e podemos assumir que é tão antiga quanto a humanidade e todos em algum momento nos tornamos parte dela. A aflição e o desespero das personagens reverbera em emoções e sentimentos facilmente reconhecíveis pela maioria das pessoas. 

Esse efeito de familiaridade e universalidade é amplificado com competência na concepção visual da direção de arte. Máquinas de escrever, carros antiquados e jaquetas jeans dividem a tela com celulares avançados numa esquizofrenia anacrônica que tornam impossível definir exatamente em que década o filme se passa e conferem a ele atemporalidade. As locações nos subúrbios estéreis,  vazios e amorfos de Detroit com ruas de horizontes a perder de vista também deixam mais densa a atmosfera de imprecisão e indistinção. 

O filme, contudo, não é isento de problemas e tem até uma cota considerável deles. Entre esses, por exemplo, cenas irrelevantes com adolescentes apáticos engajados em diálogos despropositadamente truncados e banais que não avançam o enredo. Ou uma personagem cuja única função é citar Dostoiévski (cita-lo uma vez já é indicativo perigoso de pretensão e várias vezes é um atestado de desespero para ser visto como "arte") e tais citações só servem para pontuar analogias que você poderia ter inferido pelo contexto. Por fim, a exígua trilha sonora é composta de ruídos irritantes arrancados de um teclado oitentista e por mais que remeta à tal "atemporalidade", simplesmente não funciona. 

Não espere sustos e não espere horror, ainda que haja bons momentos do gênero. Corrente do Mal é muito mais arte e introspecção, ainda que, por vezes, pretensiosa e óbvia. Uma pérola sem polimento ou polida demais a depender do ponto de vista, mas ainda assim uma pérola em um gênero que não produz muitas. A intenção de Corrente do Mal não é te assustar, e sim te perseguir até que você passe-o à frente. Está com você agora.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Coerência

A coerência e a subjetividade 

Direção: James Ward Byrkit
Título Original: Coherence
Duração: 89 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2014

Há pouquíssimo tempo comentei sobre os filmes estilo Mindfucker ao escrever sobre a série Black Mirror, o que resultou numa indicação amiga de um ótimo exemplar do gênero. E ontem, enfim, fui intrigado e entretido pelo recente e pouco conhecido Coerência (Coherence no original - sem título em português, tradução livre e absolutamente literal de minha parte).

Vou me abster de falar sobre quaisquer detalhes do roteiro para não diminuir em nada o prazer de quem vier a assistir o filme. Em relação a outros quesitos técnicos, basta dizer que são bastante adequados: atuações sem destaque, mas efetivas; trilha sonora por vezes equivocada, mas inofensiva; edição truncada em um ponto ou outro, mas em linha com a proposta; cinematografia escura e opção pela câmera tremida para esconder limitações, mas que, mais uma vez, não impedem em nada a apreciação da história.

Coerência é essencialmente diálogo e enredo, ambos absolutamente "coerentes" e bem trabalhados. O filme cai no didatismo em pouquíssimas instâncias, ainda que em algumas delas de maneira artificiosa e afetada, mas não chega nem perto de ser reiteradamente ofensivo como, por exemplo, Triângulo do Medo. Expõe seus mecanismos básicos sem muita sutileza, mas deixa que a trama guie o filme e não que seus artifícios ou princípios o façam.

Como quanto menos se falar desse filme tanto melhor e como há ainda muitas linhas a preencher nesse espaço, dar-me-ei a liberdade de divagar sobre o processo da crítica em si. Há filmes aos quais assisto que entram na fila para ser resenhados e lá ficam por um período não determinado. Alguns estão na espera há pelo menos uns cinco anos e provavelmente nunca chegarão ao blog. Outros, como esse, não esquentam o banco sequer um dia.

Alguns filmes exigem bastante pesquisa, leitura de várias outras resenhas e estudo do assunto sobre os quais eles tratam, sendo que o texto final acaba ficando longe de ser uma opinião pessoal, ainda que reflita perfeitamente a minha avaliação do filme. Outros, como esse, sequer chegam a ser analisados e as críticas sobre eles não passam de uma recomendação positiva ou negativa. Ou são devidamente avaliados exatamente pelo que acredito que sejam, independente do entendimento de outras pessoas.

A verdade é que alguns filmes simplesmente não geram uma reação emocional tão forte quanto outros, não importa o quão excelente sejam (os ordinários e sofríveis, no entanto, nunca passam incólumes). Por mais que durante a análise ou a crítica a subjetividade seja suprimida, ela sub-repticiamente marca presença ao ser a força motriz da seleção não só de sobre o que escrever, mas muitas vezes do que você vai ou não assistir, ler ou jogar.
  
Coerência é um bom exemplo da subjetividade em ação. É daqueles filmes que, longe de serem obras-primas, conseguem fazer aflorar a curiosidade e o interesse. Exigiu minha atenção e conseguiu mante-la, e impediu até certo ponto que eu ficasse me perguntando o tempo todo se estava gostando ou não do que estava vendo, se os diálogos estavam sendo bem aproveitados, se as atuações estavam prejudicando a credibilidade da história etc. Mal entrou na fila de espera para ser assistido e rapidamente está sendo resenhado (recomendado talvez seja a melhor palavra).

Terminada a sessão aqui em casa, o filme continuou marcando presença, primeiramente na forma de uma discussão sobre seus pontos mais obscuros, validação dos entendimentos diferentes de cada um dos expectadores e uma avaliação crítica conjunta sobre o desfecho. Posteriormente, a mecânica central inspirou outros debates não relacionados diretamente ao enredo. Um bate-papo conceitual que deu origem a outras teorias e possíveis histórias. No meu caso particular, é difícil não gostar de um filme que enseje essas reações e acredito que para uma grande parte dos meus amigos também o seja, então que fique a dica!

PS: Não consegui me lembrar de quem foi que me indicou o filme. Então deixo aqui meu agradecimento genérico a todos meus tradicionais companheiros cinéfilos até que haja alguma reivindicação de autoria da sugestão. :-)

sábado, 20 de junho de 2015

O Abrigo

Lenta tempestade de símbolos e metáforas


Direção: Jeff Nichols
Título Original: Take Shelter
Duração: 120 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2011

O Abrigo precisa ser analisado por duas óticas diferentes, a de documentação do desenvolvimento de uma enfermidade mental e de como ela afeta o indivíduo e seus relacionamentos e a outra é como mero entretenimento dramático. O filme obtém muito sucesso na primeira vertente e um pouco menos na segunda.

O protagonista Curtis (Michael Shannon de O Homem de Aço, Possuídos, Boardwalk Empire) é um pacato operário e pai de família em uma cidadezinha no interior de Ohio. Ele começa a ter pesadelos com uma tempestade que se aproxima e com ataques violentos de entes queridos a ele. Pouco a pouco tais visões que Curtis acredita serem premonitórias passam a assolá-lo também quando desperto. A dificuldade em reconhecer onde termina a realidade de todos e começa a sua particular cresce junto com a angústia e o desespero, não só dele, mas de seus amigos, familiares e também de nós expectadores. 

Apoiado nas interpretações magistrais não só de Shannon, um ator que mereceria muito mais reconhecimento e exposição do que recebe, mas também da sempre competente Jessica Chastain (A hora mais escura, Histórias Cruzadas, A árvore da vida), O Abrigo é daqueles filmes em que não se fala muito, contemplação supera a ação em quase que toda a totalidade, e os conflitos acontecem em pequenos gestos e trocas de olhares. O ritmo arrastadíssimo é quebrado em algumas cenas fantásticas como a de um jantar beneficente comunitário em que Shannon tem a oportunidade de dar um daqueles inesquecíveis shows de interpretação.

Jeff Nichols, em seu primeiro longa como diretor, consegue manter enevoada até o último segundo de projeção a linha entre o que é real e é o que alucinação, permitindo que o expectador sinta o drama vivenciado pelo personagem. Nichols também escreve o roteiro e abusa de simbolismo e metáforas visualmente lindas e imageticamente profundas. A tempestade que se aproxima casa com as gradativas mudanças psico-fisiológicas do personagem e a deterioração de seus relacionamentos, relâmpagos rasgam o céu como impulsos elétricos passeiam desgovernados pelas sinapses de Curtis, pássaros voam em formação estranha como desbalanceamentos químicos, a chuva de óleo simboliza o corpo como máquina deteriorada, os ataques de entes queridos, a paranoia que leva esquizofrênicos ao isolamento e por aí segue.

O filme (in)felizmente conclui com uma "chuva de rãs" à la Magnolia, um evento que não se explica perfeitamente e parece ferir a lógica interna do filme, mas que também abre precedentes para discussões filosóficas sobre seu significado. Uma cena que chega não muito depois de um clímax minimalista de altíssimo nível que se passa no abrigo que dá título ao filme. Mais um momento para ver bons atores trabalhando e um roteirista fechando com maestria uma história bem amarrada. 

Um filme competentíssimo em todos os sentidos que como obra de arte mereceria a classificação máxima ou próximo disso, porém um filme lento, arrastado, silencioso, contido e todos os outros adjetivos que costumam ser eufemismos para o que qualquer expectador comum de cinema simplesmente chamaria de "chato". Recomendado para aqueles momentos em que você está com o sono em dia, paciência de sobra e vontade de se sentir um pouco mais inteligente.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mad Max - Estrada da Fúria

Luz, câmera, AÇÃO!

Direção: George Miller
Título Original: Mad Max: Fury Road
Idioma: Inglês
Duração: 120 min
Lançamento: Mai/2015

Quer conhecer a definição máxima do que seria um filme de ação contemporâneo? Então pare de ler essa resenha e corra pro cinema para assistir a Mad Max: Estrada da Fúria antes que saia de cartaz. Do início da projeção a seus minutos finais, o quarto filme da série protagonizada pelo insano e solitário Max Rockatansky vai suspender temporariamente não só sua descrença mas seu direito a respirar. Mal as luzes do cinema se apagam, os motores começam a roncar, guitarras a guinchar e Max a grunhir.  E quando você menos estiver esperando, a trama já vai ter chegado a sua resolução, os créditos terão subido, suas energias vão ter se esgotado com tanta tensão e você sairá atordoado, mas com a estranha satisfação de quem concluiu uma missão ou sobreviveu a uma provação (um daqueles filmes do tipo ame-ou-odeie).

Sem tempo para as piadinhas infames ou as dezenas de cenas de "propaganda" dos filmes da Marvel, sem tempo para as tramas rocambolescas de Bournes e Missões Imposíveis, sem tempo para ficar fazendo poses em câmera lenta e lambendo o próprio rabo dos zero-zero-Bonds, Mad Max é uma injeção de adrenalina misturada com muita testosterona e, agradavelmente, doses cavalares de estrogênio (Furiosa!). Uma mistura intoxicante que proporciona um barato de duas horas e deixa uma leve zonzeira reverberando por algum tempo depois da saída do cinema.

Mas se o filme é pura ação, deve ser estéril como o deserto onde é filmado, não? Em absoluto! Basta acompanhar o mimimi sobre a "conspiração castradora feminista" por trás do filme (não coloco o link do artigo que gerou a centelha para não alimentar o fogo dessa discussão). Ainda que a louvável crítica à opressão machista faça parte do enredo, em foco estão realmente a redenção e a esperança e todos os protagonistas e personagens secundárias sublinham esses dois temas. Porém, é na construção da ação que o roteiro efetivamente mostra seu brilhantismo. Em cada beat, cada virada, as apostas são altíssimas. Se os personagens encaram um problema, e não há escassez deles, estão sempre em jogo a liberdade e a sobrevivência de cada um. Pessoas com os quais você se importa e o perigo de perdê-los a cada minuto de projeção: o que mais um filme precisa para manter sua atenção?

Diminuir o ritmo para desenvolver melhor as personagens? Nem pensar. As personagens reagem a cada um dos problemas que aparecem de cinco em cinco segundos e pelas respostas e atitudes você entende perfeitamente quem eles são, o que precisam, o que sentem e o que buscam. Praticamente um filme mudo, de pouquíssimos diálogos, Mad Max tem mais desenvolvimento de personagens do que muitos outros que gastam horas levando os seus para uma cabana na floresta e colocando-os em terapias de grupo com a intenção de debaterem aquilo que não se conseguiu mostrar diretamente na ação.

O Mad Max de Tom Hardy é magnético, vigoroso e intenso. Um sobrevivente assolado pela insanidade e assombrado por traumas,  ele passa a maior parte do filme grunhindo e emitindo monossílabos, mas faz isso com tanto charme, naturalidade e uma estranhamente adequada afabilidade que se torna impossível não simpatizar com ele. Esse Max é uma daquelas figuras que ultrapassa sua função como personagem para se tornar uma força motriz e acaba sendo não o protagonista, mas o elemento que une e move as tramas daqueles que representam verdadeiramente a alma da história: a Imperatriz Furiosa e o mal-direcionado, mas bem-intencionado Nux. 

Charlize Theron, como Furiosa, sequestra todas as cenas e não importa o quão suja, arrebentada e aleijada ela esteja, continua soberbamente exuberante e bela. Não consigo imaginar alguém que seja tão Imperatriz e tão Furiosa ao mesmo tempo, pelo menos não enquanto a imagem de Theron estiver tão fresca na minha mente. Furiosa é humana, extremamente humana. Brutal e gentil simultaneamente, seu olhar transmite uma dor ancestral, um peso sendo carregado por anos e anos ininterruptos, mas ainda assim ela age movida pela esperança e por uma chance de redenção. Se houver um futuro para essa franquia, espero sinceramente que Furiosa esteja nele.

Demorei para reconhecer pelo visual, mas os trejeitos de atuação de Nicholas Hoult (Skins, X-men: Primeira Classe, Um grande garoto) são tão característicos que mesmo debaixo das toneladas de maquiagem necessárias para dar vida a Nux, você consegue enxergar o ator. Nux, ainda que coadjuvante, é quem encarna o arco tradicional do herói no filme. Inicialmente um entre muitos dos War Boys do vilão Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), vítima da própria fragilidade e ignorância e transformado em algoz pelos desígnios do tirano, ele cresce para ocupar o papel clássico do fantoche disposto a cortar suas cordas, em nome do amor ou em nome de um propósito que seja seu e não de outros. Hoult amadurece a cada filme que faz, arrisca-se em diferentes gêneros, e sua carreira ganha corpo e evidência. Ele é um dos poucos atores mirins que entregou-se efetivamente ao ofício e sempre é um prazer vê-lo atuando.

Personagens redondos, enredo simples e efetivo, ação ininterrupta... Mas e os efeitos? As explosões? As perseguições? George Miller é um diretor veterano e John Seale, o cinematografista, coleciona também algumas décadas de carreira, sendo que ambos já levaram um Oscar pra casa. Enfim, são profissionais que sabem o que estão fazendo e isso é percebido facilmente na tela. Os efeitos digitais são utilizados não como prato principal e sim para amplificar o que foi construído "analogicamente" com dezenas de carros e dublês à disposição. E por isso, diferente da maioria dos blockbusters atuais, é fácil identificar o que está acontecendo na cena, mesmo nos momentos mais intensos. Muita atenção a detalhes e imaginação de sobra permitem povoar o pesadelo surrealista de Mad Max com as mais bizarras e grotescas criaturas e emoldurá-lo com uma paisagem árida e incrivelmente bela. Cores saturadas, cenas noturnas acachapantes, uma tempestade de areia para entrar pra história: o espetáculo visual está garantido e por si só já valeria o ingresso.

Enquanto escrevia essa crítica, fiquei tentando procurar pelos mais banais problemas que fizessem com que Mad Max não merecesse a nota máxima. Poderia dizer que a ação do clímax acaba sendo um pouco menos espetaculosa do que o que veio antes dela, mas sinceramente isso foi praticamente um alívio. Poderia dizer que a maior parte dos nomes e dos poucos diálogos são ridículos (Rictus Erectus? People Eater? Bullet Farmer?), mas isso é parte do charme da série. Poderia dizer que o plot em si é praticamente inexistente e absolutamente previsível, mas ele funciona perfeitamente para emoldurar o que realmente interessa que é a ação. Enfim, deixo aqui a única crítica negativa que encontrei para tentar balancear um possível miopia da minha parte e oficializo que, para mim, o sarrafo subiu a nível estratosféricos para os filmes de ação com Mad Max: Estrada da Fúria, e boa sorte para quem for tentar se igualar a essa façanha daqui para frente.

P.S.: Claro que não poderia deixar de ser mencionado: o carro com os tambores e o guitarrista... Soooooooo awesome! 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Whiplash - Em busca da perfeição

Um Jazz de uma (ótima) nota só

Direção: Damien Chazelle
Título Original: Whiplash
Duração: 107 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2015


Whiplash ganhou os prêmios de melhor som, melhor edição e melhor ator coadjuvante esse ano na cerimônia do Oscar. A resenha poderia parar nessa frase, pois ela praticamente delineia exatamente o que esperar do filme: uma edição visceral e pungente, adornada pelas batidas frenéticas e o extasiante efeito do jazz, garante a plataforma perfeita para que um excelente ator encontre o seu momento de glória. E isso é tudo por hoje, pessoal.

Não exatamente.

Seria simplista demais reduzir Whiplash a esses três fatores e desconsiderar outros bons aspectos do filme, porém seu calcanhar de Aquiles é justamente na categoria que mais interessa a mim e ao Crítica em Série: a história, o roteiro, a narrativa. Contudo, antes de falarmos dela, sigamos com os pontos positivos.

Nunca a expressão "sangue, suor e lágrimas" foi tão literalmente trabalhada quanto nesse filme. A edição alterna entre enquadramentos fechados desses fluidos em todas as suas variações possíveis. Tudo é atmosfera e contexto. Cada detalhe precisa intensificar o tema central, a obsessão e toda a transpiração e sacrífico associados. Afinal, o embate de um baterista e seu mentor "em busca da perfeição", como deixa claro o subtítulo do filme no Brasil, não é exatamente o material mais óbvio para um thriller. Para transformar essa premissa em algo emocionante, vai ser necessária muita técnica.

E técnica é o que não falta a um ator veterano como J.K. Simmons, que em Whiplash parece ter alcançado sua apoteose. Simmons definitivamente é um daqueles atores que se destacam em qualquer produção mesmo em papéis menores (vide Oz ou a trilogia original do Homem-Aranha), porém é, ao mesmo tempo, um ator de um único papel (vide Robert Downey Jr.). Fletcher, o regente a quem o ator dá vida, parece ter sido criado especialmente para ele. Fletcher é pura voz e entonação e é só checar a página de Simmons no IMDB para ver que boa parte do seu histórico é composta de trabalhos como dublador em desenhos animados e até jogos (ele é um dos melhores elementos do mais que excelente Portal 2, por exemplo).

Simmons é virtuosidade pura em cena, praticamente impecável, mas não teria tido tanto sucesso se não encontrasse em Miles Teller um oponente à altura. O jovem ator, e também músico diga-se de passagem, consegue misturar em medidas corretas arrogância e prepotência com confusão e insegurança, o que permite a seu Andrew ser simultaneamente vítima e contumaz adversário.

O diretor e também roteirista Damien Chazelle, que ainda não conta com praticamente nada no currículo, conseguiu se afastar absurdamente do festival de bobagens que foi seu roteiro em Toque de Mestre e calcar sua história em elementos dramaticamente mais coerentes. Contudo, a narrativa de Whiplash é um jazz de uma nota só, uma sequência de cenas tematicamente monotônicas, que repetem à exaustão uma única batida.

Andrew e Fletcher são personagens unidimensionais, arquétipos que representam uma ideia e não seres humanos completos. E ainda que isso sirva perfeitamente ao propósito do filme e que a única dimensão que eles possuam seja de uma potência brilhante, eu particularmente gostaria de tê-los visto tocarem mais de uma melodia. Quem é Andrew ou quem é Fletcher além da força motriz que os impulsiona? 

As poucas cenas que tentam ampliar o espectro psicológico dos dois protagonistas, como o romance de Andrew ou a desolação com a morte de um estudante de Fletcher, provam-se apenas subterfúgios para reforçar ainda mais a mensagem principal. Alguém uma vez disse que Dave Matthews não era um vocalista, mas que sua voz era só mais um instrumento da banda. Andrew e Fletcher não são personagens, são apenas engrenagens de um roteiro milimetricamente ajustado.

Minha primeira impressão, ao terminar o filme, foi de ter visto um Cisne Negro sem a profundidade de caracterização e sem os truques narrativos. Uma párabola sobre a obsessão contada em uma única camada. Foram necessárias algumas conversas com amigos e a leitura de um tanto de outras resenhas para começar a avaliar o filme com lentes diferentes. Alguns expectadores vão enxergar perfeição cinematográfica em um roteiro que não foge do seu objetivo nem por um segundo, enquanto que outros, como eu, vão sentir o vazio de uma produção focada em personagens que terminam sua jornada no mesmo ponto em que a iniciaram. O que importa é que independente de que lado você esteja, dificilmente estará indiferente.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Tecnicamente irrepreensível, mas...

Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Título Original: Birdman or (The unexpected virtue of ignorance)
Duração: 119 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2015

Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) ganhou o último e mais importante prêmio da cerimônia do Oscar, o de melhor filme. Levou também os prêmios de melhor diretor, fotografia e roteiro original. Foi justo? Como acontece com quase todas as perguntas para as quais damos pelo menos uma certa importância na vida, a resposta é simplesmente "depende". Depende muito do que você espera de um vencedor do Oscar, depende dos seus valores, depende da sua conexão emocional com o filme, dentre outros parâmetros.

Pessoalmente, se tivesse que escolher o melhor filme desse ano, teria dado a estatueta para O Grande Hotel Budapeste. Acredito que um Wes Anderson merece ganhar pelo menos uma vez e vai ser difícil você conseguir ser mais Wes Anderson do que em O Grande Hotel Budapeste. Assisti a apenas mais três dos filmes que concorreram, mas por trailers e cenas que já rodaram na internet e na própria cerimônia do Oscar, entendo que Birdman tenha levado o prêmio porque ousou tecnicamente, acertou no roteiro e foi muito feliz na escolha de seu elenco. 

A ousadia de Birdman evidencia-se principalmente no formato que é puro experimentalismo e descarada vontade de mostrar que "sim, é possível" fazer um filme inteiro como um grande plano-sequência. O prêmio de fotografia (ou atualmente cinematografia) era uma barbada, já que boa parte da diversão do filme é tentar entender onde foram feitos as quebras entre as cenas ou como certas tomadas que atravessam grades, paredes etc, foram realizadas.

Talvez seja um pouco de exagero adjetivar o roteiro como inovador, mas fato é que ele ao menos não é tradicional e fala de temas que tocam a sensibilidade dos tais "membros da Academia", aquelas figuras míticas que são citadas a todo minuto na cerimônia do Oscar, mas que ninguém parece saber exatamente quem são. Birdman narra os dias que antecedem a estreia na Broadway de um ator mundialmente conhecido por ser um pioneiro da onda de filmes de super-heróis que tomou conta de Hollywood nas duas últimas décadas. 

Riggan Thomson, interpretado por Michael Keaton, quer provar para o mundo e para si mesmo que é mais que um corpo em uma roupa de látex fingindo voar pela cidade. Para isso ele escreve, produz e protagoniza uma peça baseada em um antigo material de Raymond Carver. Somando ao estudo de personagem que já surgiria dessa premissa estão elementos fantásticos e metafóricos associados à psique de Riggan: ele acredita que tem (ou realmente tem) poderes super-humanos como seu antigo alter-ego, o super-herói Birdman (alter-ego esse que está constantemente discutindo com Riggan).

Se alguém associou a escolha de Michael Keaton ou Birdman com a série de filmes do Batman, tome aqui uma sardinha. Não só ele, mas também alguns de seus companheiros de elenco são profissionais conceituados que também já colocaram seu talento em prol da quadrinização do cinema. Emma Stone e Edward Norton, no entanto, levaram suas indicações aos prêmios de melhor ator e atriz coadjuvante sem muito esforço, tendo acertado em cheio uma ou duas cenas (Norton mais que Stone), mas Keaton permanece a maior parte do tempo em tela e muitas vezes está irreconhecível. Não levou o Oscar, mas arrebatou vários outros prêmios nas semanas que antecederam a cerimônia. 

A performance de Keaton não é pro meu gosto pessoal, pois ele parece uma versão melhorada (e muito) da escola cocainômana de atuação Fábio Assunção, sempre se movendo, sempre de olhos arregalados e tensos, mesmo quando a cena pede uma postura mais relaxada (que são poucas no caso de Birdman). Porém é impossível não admitir que foi um trabalho de atuação digno de aplausos e que nos deixa, no mínimo, uma cena antológica em que ele anda de cuecas pela Times Square, enquanto é assediado por fãs.

A superposição do fantasioso com o real, a loucura metafraseando a realidade, os paralelos das carreiras dos atores envolvidos no filme com o que os personagens estão vivendo: todas essas camadas tornam a experiência de Birdman muito mais interessante do que a de seus concorrentes. Além da experiência estética, das boas atuações, soma-se esse roteiro que brinca em seus diálogos e situações com símbolos e metáforas de uma maneira orgânica e inteligente.

E se a cinematografia, o roteiro e as atuações beiram o impecável, por outro lado, há aspectos que podem criar uma sensação de desconexão ou afastamento do expectador com o filme. Birdman é, por exemplo, bastante exaustivo e cansativo. Todos os personagens são intensos, todas as emoções estão constantemente a extravasar pela tela. Não há alívio, não há mudança de tempo, são duas horas em uma batida forte e mesmo quando o ritmo dá uma trégua (nas cenas de Riggan com sua ex-esposa, por exemplo), há um mal-estar ou uma tensão oculta no ar.

Além disso, fora do meio artístico e principalmente do cinema/teatro, é difícil se conectar com o dilema vivido pelo protagonista (ainda que seja relativamente fácil de compreende-lo). É como se eu conseguisse perfeitamente entender o que o filme está querendo entregar, mas não valorizar a mensagem. Essa falta de empatia não me permite apreciar o filme tanto quanto o meu lado racional acredita que deveria.  

No discurso no Oscar, o diretor Alejandro Iñarritu mencionou, para meu espanto, ter ficado feliz de finalmente fazer uma comédia. Uma declaração que só faz sentido se acreditarmos que seja uma tremenda ironia ou se buscarmos um nível muito mais conceitual do que seria uma comédia. Ainda que haja momentos, e muitos, tragicômicos, a tragédia é quem dá o tom e faz-se muito mais imponente nessa tour-de-force teatral. Contudo, quando fica dificíl encaixar uma obra de arte em uma caixinha específica já é um bom sinal de que algo de interessante está acontecendo ali.

Mais Oscar 2015 no Crítica em Série:


terça-feira, 11 de novembro de 2014

Precisamos falar sobre o Kevin

Tema Dificíl, Inúmeras Interpretações

Direção: Lynne Ramsay
Título Original: We need to talk about Kelvin
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2012

Há algum tempo não tenho tanta dificuldade para escrever sobre um filme. Precisamos falar sobre Kevin é um espécime bastante peculiar. Explico-me. Assim que os créditos subiram, meu sentimento era de que o filme tinha passeado por diversos pontos e não chegado a lugar algum. O filme termina em um ponto que parece incoerente com tudo que o precedeu e ao mesmo tempo há elementos que o tornam possível. Não me pareceu um filme bom. Contudo, quanto mais penso nele, mais vejo que há conteúdo de sobra e há diversas discussões interessantes esperando para serem iniciadas escondidas entre cores, expressões faciais, pedaços de história.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que fotografia e direção de arte são tocadores de bumbo dessa película. E isso é, novamente de maneira interessante, sua maior força e sua principal fraqueza. A força vem da carga simbólica que é pensada para cada cena. O filme abre com a personagem principal, Eva Khatchadourian, sendo carregada por uma multidão no que parece ser a Tomatina, a festa espanhola do tomate. Lembra uma orgia banhada a sangue. Eva está em êxtase. Eva é uma escritora-viajante, conhece o mundo e vive a vida do ultraurbano feliz e descolado, mas o banho de "sangue" prenuncia o que será a sua realidade. 

São mostrados quatro períodos distintos da vida de Eva que parecem todos ser um único. Os tempos se mesclam para tentar criar uma relação de causa-efeito ou, no mínimo, uma correlação. Cenas são encadeadas com elementos em comum para que o telespectador crie as conexões que não foram mostradas. Tudo é simbólico. Respostas não são dadas, mas induzidas. Eva toma pílulas e bebe, Eva está em choque, Eva está extasiada. Em quase todos os momentos Eva parece estar em um estado que permite interpretarmos que tudo que vemos é visto com os olhos de Eva, tudo se confunde, presente e passado são a mesma coisa. As atitudes das pessoas parece estranha: o filho é excessivamente maligno, o marido estupidamente iludido, a filha absurdamente meiga. Vemos a realidade ou vemos o mundo com as lentes de Eva? 

Tudo isso eleva o filme a patamares superiores, criando camadas de interpretação para cada uma das cenas. No entanto, a estrutura é uma fraqueza ao descreditar a, por assim dizer, camada principal, ou seja, a história "real". Descredita a ponto de, no final, você simplesmente não comprar o desfecho e o filme cair na clássica avaliação "não fez sentido" reservada a exemplares ruins. Mesmo entendendo a dinâmica entre os personagens, é difícil aceitar a conclusão. É uma daquelas situações em que a atitude da personagem parece servir ao roteiro e não ser coerente com ela mesma. Contudo, são pouquíssimas as pessoas na audiência que poderiam efetivamente alegar entender a persoangem, já que pouquíssimas estiveram nessa situação extrema.

Não havia lido ainda o livro no qual o filme se baseou, mas o final foi tão desconcertante, que comecei a ler as primeiras páginas minutos depois do Netflix começar a sugerir filmes similares para continuar assistindo. A estrutura narrativa é completamente diferente e torna o "Precisamos falar sobre Kevin" do título ao mesmo tempo muito mais literal e ainda mais irônico: o livro é escrito na forma de cartas de Eva para o marido Franklin cerca de um ano e pouco depois do fatídico crime de Kevin. Já no início dá para ver que vários pontos que ficam completamente subentendidos no filme, são tratados, ainda que de forma sutil e indireta, com muito mais densidade e aprofundamento. 

Lynne Ramsay, a diretora, quer mostrar em imagens o que no livro é discutido com palavras, muitas palavras. A já centenária expressão "uma imagem vale mais que mil palavras" parece ser o modus operandi de Ramsay. As cores dão o tom e você precisa decifrar expressões faciais, entender o contexto, ligar o ângulo da câmera com o sentimento da personagem e decifrar muitos outros símbolos para poder absorver o que ela está querendo passar. Se no livro você terá várias oportunidades para aprofundar-se na alma de Eva através de suas divagações, auto-enganos e ilusões, no filme você terá que inferir as mesmas coisas a partir de olhares, esgares, trejeitos e expressões corporais. Não há narração, nenhum Morgan Freeman explicando didaticamente o que está acontecendo. 

Considerando isso, é essencial ter como protagonista uma atriz do porte de Tilda Swinton. Ela já tinha feito uma espetacular mãe em um filme de 2001 chamado Até o fim que poucas pessoas viram. Naquele, a mãe faz de tudo para garantir que o filho não seja acusado de assassinato, uma mãe clássica, entregue, muito diferente de Eva. A Eva de Swinton é uma mulher alquebrada, disforme, pálida e destroçada pela culpa. Em uma narrativa clássica, você se identificaria com a "vítima", mas Ramsay e principalmente Swinton não permitem que isso aconteça de forma fácil. Eva não é uma personagem simpática e de fácil identificação, porque Eva, a primeira mãe, a mulher primordial, rejeita e ao mesmo tempo sucumbe a seu papel "natural" e torna-se um alvo fácil para o julgamento não só das outras personagens da história, mas também da audiência.

Ezra Miller, assim como os pequenos Jasper Newell e Rock Duer constroem um Kevin estranho, difícil, diabólico e manipulador, porém, apesar de tais interpretações serem dignas de elogios, o resultado delas cria uma personagem que é um dos principais motivos para a difícil aceitação do desfecho da história. Sobra muito pouco ou quase nenhum espaço para qualquer análise de Kevin que não seja a do sociopata que vai gradualmente aumentando seu nível de maldade. Com um pouco mais de ambiguidade e zonas cinzentas, o filme teria também gradualmente saído no nível muito bom para excelente.

Há algumas tintas feministas de tonalidade forte no vermelho-sangue que rege o filme. Eva, dona de si, viajante, culta, independente passa a ser marionete das personagens masculinas e será apedrejada por não ter aceitado plenamente seu inevitável papel biológico e "natural". Eva submete-se inicialmente ao marido e posteriormente a Kevin, vítima de uma culpa que parece extrínseca a ela. Como conciliar a Eva pré-Kevin com a Eva pós-Kevin? Do pouco que li do livro, a discussão é mais complexa e envolve toda a cultura norte-americana ou mesmo ocidental, o vazio existencialista de nossa geração, passa por consumo e imagem e não necessariamente debruça-se sobre a opressão masculina. Porém, essa é uma interpretação válida como várias outras e daí nasce a força do filme (e mais ainda do livro).

Uma outra linha de interpretação possível é a possibilidade da fatalidade ter sido evitada se o contexto cultural fosse diferente. Precisamos falar sobre Kevin coloca o dedo em uma ferida exposta porque levanta a possibilidade de que talvez a tragédia não houvesse ocorrido se a sociedade não cobrisse de uma aura mítica a maternidade e não ditasse o que é moralmente correto relacionado a relação de uma mãe com um filho. Se Eva encontrasse em Franklin ou em qualquer outra pessoa empatia para seus sentimentos em relação a Kevin, é possível que a vida de ambos, mãe e filho, tivesse se desdobrada de outra maneira.

Apesar de se chamar "Precisamos falar sobre Kevin", o que menos os pais fazem durante o filme é falar sobre o filho. Essa incomunicabilidade, que também ocorre entre Eva e Kevin ou Kevin e Franklin (o pai), é talvez uma das principais chaves para a compreensão dos eventos. A ironia do título é ainda maior porque a mãe é não só escritora, mas uma escritora sobre viagens, que fala sobre outras culturas, tenta entender pessoas muito diferentes dela. Ela consegue entender rituais sagrados de uma tribo de  Bangladesh, mas não o próprio filho.

As discussões podem passar também pela alegoria pois, para somar insulto à injúria, Kevin é geneticamente muito similar à sua mãe. Ezra Miller, que interpreta Kevin adolescente, veste-se de maneira andrógina e tem um rosto muito parecido com o da "estranha" e pálida Tilda Swinton. Essa semelhança permite-nos ver Kevin como um alter-ego de Eva, ou como se ela tivesse expurgado de si um mal inexplicável sobre o qual ela permanecerá sempre responsável por acreditar ser versão monocromática de si mesma. Diferentemente dos horrores de um Alien ou de O bebê de Rosemary em que a mãe carrega o mal em seu ventre, Eva não deu a luz a um mal extrínseco a ela, mas apenas libertou o seu próprio lado sombrio. Como sua homônima bíblica, Eva deu a luz a Caim, mas também a Abel (Celia, a filha, é absurdamente boa) e tornou-se uma casca vazia, cuja moral e ética dependem dos seres a quem ela deu a vida e já não pode controlar.

Precisamos falar sobre Kevin é um ótimo filme que ultrapassa a barreira das suas quase duas horas de duração, abrindo margem para questionamentos posteriores. Acredito que ele fique ainda mais interessante se acompanhado à leitura do livro e estou eu mesmo entregando-me a essa tarefa atualmente (resenha do livro em breve). Vale a pena ver em um dia em que a pedida for por algo mais contemplativo e instigante e não pelo mero entretenimento. Aos amigos que já o viram: precisamos falar sobre esse filme.

Outras críticas de bons dramas no Crítica em Série:
Dúvida
Melancolia

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Detona Ralph

Parece novidade, mas não é


Direção: Rich Moore

Título original: Wreck-it Ralph

Duração: 108 min

Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2013


Detona Ralph é uma animação segura que segue um (bom) manual e não se arrisca em praticamente nenhum aspecto. Ela é produzida por John Lasseter, ex-Pixar, e é um produto com a marca Disney. Essas duas informações são o fundamento de tudo o que há de bom e de ruim no filme e base para a maioria dos comentários abaixo.

De maneira geral, o fato de Lasseter ser o produtor faz com que o filme pareça ser requentado, mesmo tratando-se de um universo ainda não utilizado em outras animações "mainstream". O roteiro segue em boa parte a estrutura de Toy Story, Monstros S.A. e outras animações da Pixar. Ralph é visivelmente uma versão "humana" de Sulley de Monstros, assim como Vanellope é uma Boo com mais idade. A reunião do "Vilões Anônimos" remete à terapia grupal dos brinquedos descartados de Toy Story e é muito difícil não comparar o vilão com o de Os Incríveis. Enfim, parece que é novo, mas foi só pintado e reformado.

O fato de ser Disney, por sua vez, faz com que o roteiro não fuja muito do tradicional, as lições de moral sejam dialogadas ao invés de simplesmente mostradas e no geral o filme seja muito mais formulaico do que poderia ser. Ao invés de focar na estória de Ralph e aproveitar para passar por diversos tipos de ambientes clássicos dos mais diferentes tipos de jogos, mais da metade do filme se passa no game "Sugar Rush", um jogo de corrida tipo Mario Kart com Princesas e outras personagens "fofinhos" que atendem melhor ao público que a Disney quer atingir (ou pelo menos é o que os executivos da empresa parecem acreditar).

Não ajuda muito também a menininha-em-perigo do filme ser propositadamente azucrinante e ainda ser dublada pela voz über-irritante de Sarah Silverman. Na prática o drama principal do filme é o dessa personagem e não o de Ralpha e ao mesmo tempo é muito difícil você se relacionar com ela e efetivamente se importar com o seu destino. Na primeira vez em que o "tilt" aconteceu e a personagem desapareceu por um segundo, torci sinceramente para que aquele fosse o fim daquela parte da estória e o roteiro seguisse para outra direção.

Apesar dessas escolhas que devem agradar as crianças e aborrecer os adultos, a primeira metade do filme ajuda bastante a levantar a avaliação. Há várias referências legais a jogos clássicos como Pac-Man e Street Fighter. O visual retrô do game "Fix-it Felix" onde Ralph vive e seus personagens pixelados com movimentos discretos e não contínuos é muito bacana, assim como o estilo ultra-moderno do ambiente do jogo "Hero's Duty" que Ralph invade.

Certamente se o filme tivesse continuado seguido a busca de Ralph pela medalha de ouro que o faria deixar de ser um vilão, Detona Ralph teria se tornado uma das melhores animações dos últimos anos. Imaginar o que poderia ter sido na mão de outra empresa é muito frustrante, mas ainda que  não cumpra com as expectativas de um jogador de video-game e fã de animações de longa data, ele certamente é um produto de qualidade com a "segurança" da marca Disney. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

As aventuras de Pi - O filme

Limitações cinematográficas

Direção: Ang Lee
Título original: Life of Pi
Duração: 127 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Dez/2012

Seria praticamente impossível avaliar o filme apenas pelo que ele é depois de ter acabado de ler e resenhado o livro ainda ontem, então não vou nem tentar. E para tornar uma longa conversa curta, o resumo da jornada é que a experiência cinematográfica é certamente válida, mas, como de costume, a literária é insuperavelmente melhor.

E vamos às razões (ou melhor ainda às crenças):

Parte da genialidade do livro é permitir que o leitor vá visualizando uma estória em sua mente, seja ela mais crua e gráfica, seja ela mais fantasiosa e onírica, seja ela pautada no épico ou simplesmente na descrição enfadonha e rotineira do dia-a-dia no mar. Não importa qual seja a estória que você está lendo, o dado relevante é que é uma estória que VOCÊ e só você está lendo. Você traz para a mesa seus próprios valores e crenças, assim como Pi o faz, já que a narração é em primeira pessoa.

No filme, muito já está decidido por você e a direção segue um caminho bem definido pautado pelo fabuloso, pintando com cores fortes, muita luz e muita grandiosidade os eventos que se seguem. O mar é um elemento mágico, o tigre é de uma vivacidade fantástica, ambos de uma beleza ímpar e selvagem. A presença divina manifesta-se do começo ao fim, desde as ensolaradas e bucólicas cenas dos créditos até os momentos finais.

Com tudo isso, o filme deixa muito pouco espaço para reinterpretações e releituras. Onde o livro permite uma multitude de significados e o envolvimento completo do leitor com a estória, o filme parece querer dar uma resposta "certa" e garantir um fechamento apropriado. Você só pode escolher uma das opções se aceitar ao mesmo tempo que ela não é a real e que você só a escolhe porque tudo indica que ela é a "melhor estória".

É fé baseada em escolha, não fé baseada em entrega ou em crença cega. É a fé que nasce do querer acreditar e não simplesmente do acreditar. Algo que vai contra a própria definição desse sentimento.

Algumas passagens mais fantásticas do filme são, no livro, muito mais calcadas na realidade, apoiada em tecnicismos de zoologia, botânica e navegação. No livro, a máxima com que o filme é vendido em seus pôsteres não é tão óbvia: não é necessário "acreditar no inacreditável", basta acreditar no improvável, o que é bem diferente.

Particularmente frustrante para mim, que acabara de ler o livro, foi a escolha do diretor, ainda que corajosa, de deixar que um personagem narrasse a estória em determinado momento crítico ao invés de mostrá-la, de utilizar imagens para torna-la mais real. Uma escolha deliberada que só reforça meu ponto anterior: a intenção parece ser entregar de bandeja um fechamento e só permitir ao público uma ilusão de escolha, fazendo com que muitos sintam que o final ficou "em aberto". 

Por esses e alguns outros equívocos As aventuras de Pi (o filme) nunca alcança a profundidade filosófica e o preciosismo estrutural de sua matriz literária. Está longe, porém, de ser um filme ruim. Tecnicamente fantástico, com cenários deslumbrantes e uma direção mais do que segura de Ang Lee, o filme mais do que vale a conferida, se não por todos esses bons atributos citados, ao menos pela "atuação" emocionante e verossímil de Richard Parker, o tigre que acompanha Pi em sua jornada. Um tigre para você "olhar nos olhos e enxergar a si mesmo".