sexta-feira, 8 de abril de 2011

Rio

O Rio de Janeiro continua lindo...

Direção: Carlos Saldanha
Título original: Rio
Duração: 96 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Abr/2010

Rio é bem-humorado, tem algumas boas, ainda que esparsas, sacadas, tem personagens simples, mas relacionáveis e uma boa quantidade de ação. O roteiro é honesto, ou seja, não tenta parecer ser mais complexo do que efetivamente é - você sabe o que esperar dele, sabe de onde virão os conflitos, sabe como ele vai terminar e não há nenhum problema nisso.

Seria, enfim, apenas um bom filme para gastar o tempo, especialmente se há crianças em casa, se fosse uma animação qualquer. Só que ele se passa no Rio de Janeiro e a cidade é tão bem retratada, com tanto conhecimento, com tanta afeição, que ele se torna obrigatório para qualquer carioca e altamente recomendável para qualquer brasileiro.

Por outro lado, ainda que o Rio nunca tenha sido exibido de forma tão atraente, ele também nunca esteve tão reduzido ao trinômio carnaval-samba-futebol (ainda que seja dentro desses temas que surjam as melhores piadas do filme). Mesmo sem se furtar de subir a favela ou de mostrar os ataques a turistas (ainda que perpetrado inusitadamente por animais), ele certamente deve ajudar a atrair uma boa quantidade de visitantes para a cidade – vindos não só do resto do Brasil, mas do mundo todo. 

Blu e Jade podem não ser os personagens mais interessantes que um filme de animação já teve, mas isso não importa muito já que eles não são verdadeiramente os protagonistas do filme. A verdadeira protagonista, o Rio, é e continua sendo certamente maravilhosa e motivo mais que suficiente para dar um pulo ao cinema.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sem limites

Diga sim às drogas

Direção: Neil Burger

Título original: Limitless
Duração: 105 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Mar/2010

Sem limites tem três grandes trunfos a seu favor. O primeiro deles é a câmera nervosa de Neil Burger; ela abre para além de uma grande angular afim de registrar uma nova perspectiva, ela voa veloz com os pensamentos do personagem pelas ruas de Nova York, ela vira de ponta-cabeça quando o mundo de Edie (o protagonista) também o faz, ela foca em objetos distantes aguçando ao mesmo tempo a percepção dos expectadores e a do personagem, ela pisca e apaga por alguns segundos simulando uma amnésia narcótica, ela fica difusa e liquefeita nas extremidades enquanto os efeitos da droga se dissipam... Enfim, praticamente todos os efeitos possíveis são tentados na busca por uma imagem que defina uma nova percepção mental à qual, por premissa, não temos acesso. O segundo trunfo chama-se Bradley Cooper, um ator que inesperadaemnte consegue transitar de um perdedor completo para um charmoso, hiperativo e egocêntrico sabe-tudo, e manter a audiência torcendo por ele mesmo nos seus piores e amorais momentos. Sobre o terceiro e maior trunfo do filme não é possível comentar aqui sem tirar parte do prazer em assistí-lo, mas vale mencionar que ele está na (des)construção inteligente da narrativa que apóia-se em um gênero, transita (aparentemente de forma involuntária) por outros, até inesperadamente fazer com que você saia do cinema reavaliando quase inconscientemente os sentimentos que havia mantido na última uma hora e meia pelo filme.

Esses trunfos, em especial a atuação de Cooper e a direção de Burger, amplificam e dão muito mais cores a um roteiro bastante tradicional e formulaico. Ainda que parte da aparente falta de originalidade seja proposital, necessária para impedir que a audiência espere mais do filme, "aguce" sua percepção e perceba padrões antes do momento devido, fica ainda a impressão de que os roteiristas de Sem Limites não tomaram NZT para auxiliá-los na construção da história. Além disso, a agilidade da câmera e o sorriso-de-um-milhão-de-dólares de Cooper parecem querer esconder as falhas ou não deixar espaço para questionamentos sobre as óbvias (a posteriori) incongruências da trama, quase todas relacionadas a reviravoltas que, se nós na audiência poderíamos prever com facilidade, quem dirá um indivíduo com "QI de quatro dígitos". Para não falar de algumas pontas soltas, que, com boa vontade, você poderia classificar como intencionais dada à desconstrução em certa altura de algumas premissas equivocadas em que a audiência estava se apoiando. Isso seria dar mais crédito ao roteiro do que talvez ele merecesse, mas minha simpatia pelo filme me permite dar esse benefício da dúvida.

Enfim, sem muito marketing (aparentemente não só aqui, mas nos EUA e Europa também), Sem Limites já começa a se vender no boca-a-boca - uma estratégia muito mais válida para segurar as poucas e boas reviravoltas do filme ainda surpreendentes - e deve alcançar a bilheteria que um ótimo, ainda que não excelente, filme merece.

Sucker Punch - Mundo Surreal

Surrealmente Vazio

Direção: Zack Snyder
Título Original: Sucker Punch
Duração: 110 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Mar/11

Qual é a graça de um videogame se você não pode interagir com ele e efetivamente "jogá-lo"? Essa é a pergunta que não quer calar durante toda a projeção de Sucker Punch - Mundo Surreal. Apesar da qualidade gráfica do filme estar acima da capacidade que os melhores consoles podem atualmente alcançar, é impossível não compará-lo às elaboradas "cut-scenes" dos jogos mais recentes, ainda que a comparação, na verdade, seja um demérito para jogos como Metal Gear Solid, Grand Theft Auto ou God of War que possuem roteiros muito mais sofisticados que os do filme de Snyder. 

Estágios com começo e fim bem delineados, objetivos específicos (pegue a chave, pegue o mapa, pegue o isqueiro etc.) e os gêneros mais clichês de games: a decrépita e sombria instituição mental, o bordel abjeto, nazistas demoníacos, o futuro tomado por máquinas, os samurais gigantescos, enfim... falta de imaginação somada a um festival de explosões e fantasias fetichistas que tentam esconder os buracos de um roteiro vazio e,  pior ainda, misógino.

Mulheres em constante ameaça, eminentes vítimas de estupro, violência ou assassinato - objetificação pura e simples disfarçada com alguma mensagem final feminista e moralista que não compensa todos os minutos de poses, caras, bocas e degradação feminina que mal funcionam em um videoclipe de banda adolescente (ruim), quem dirá num longametragem.

Vinte minutos são mais do que suficientes para você descobrir que Sucker Punch não vai dar em nada, mas como as imagens até que são "cool" e a trilha sonora é legal, de repente vale ver descompromissados cinco a dez minutos a cada dia - o que equivale a cada uma das "fases" e é o limite de tempo para o tédio chegar ou sua paciência acabar.

sexta-feira, 25 de fevereiro de 2011

Poesia


Sensibilidade para poucos

Direção: Chang-Dong Lee
Título original: Shi
Duração: 139 min
Idioma: Coreano
Lançamento: Fev/2011

Mais de trinta anos pesando na cabeça e algumas centenas de filmes no portfólio e ainda assim ainda não aprendi uma das regras básicas para a seleção do que ver: se os críticos são unânimes nos elogios rasgados, mas ningúem está falando no filme, é porque ele é um daqueles do qual ninguém gosta, mas se você falar mal é porque não entende nada de cinema.

A maioria dos filmes iranianos, mongóis, vietnamitas ou quaisquer outros em que o exotismo da origem tem mais valor que o filme em si cai nessa categoria: são insuportáveis, mas você só tem direito ao seu óculos de aro grosso, sua calça xadrez e um tíquete para o festival de cinema do Rio, se você disser que ele é sublime e de uma sensibilidade ímpar.

O Bonequinho pode ter até ter aplaudido de pé, o Omelete ter lançado quatro ovos e a maioria das mais respeitadas publicações norte-americanas e européias ter se jogado no chão de amores por ele, mas a verdade é que Poesia é desnecessariamente longo e absolutamente sem-graça. Ele é um daqueles filmes que você assiste e fica se sentindo um idiota por estar olhando por mais de cinco minutos para as folhas de uma árvore balançando com o vento e imaginando se não poderia estar fazendo algo melhor com a sua vida (mesmo que seja ir apreciar folhas de verdade balançando com o vento).

Não ajuda muito também a maneira blasé com que elementos como estupro, corrupção, assédio sexual, mal de Alzheimer e outras drogas pesadas que geram obras inteiras por si entram e saem do contexto sem muito alarde, enquanto o filme foca no aprendizado poético de Mija, a protagonista. Poesia parece gritar para você a todo momento a sua superioridade ao estar mais interessado nas sutis metáforas embutidas em cada uma das microscópicas ações de Mija ou nas suas enigmáticas interações com os diversos personagens masculinos do que com os traumáticos e relevantes eventos em si.

Enfim... Ler as resenhas sobre o filme e ver até onde as pessoas conseguem tirar significados ocultos em cada um dos intermináveis e soníferos planos de Poesia é muito mais divertido do que efetivamente assistir o filme.

Incêndios


Velha e maldosa expectativa

Direção: Denis Villeneuve
Título original: Incendies
Duração: 130 min
Idioma: Francês / Árabe
Lançamento: Fev/2011

Mesmo com os prêmios que levou pra casa, Incêndios não me despertou muito a curiosidade na época de seu lançamento. Talvez tenha sido a sensação de que fosse mais um daqueles filmes que ganha o amor da crítica mais pelo contexto histórico-sócio-econômico do que pelo seu valor como narrativa e cinema em si. Ou talvez tenha sido a dobradinha oriente médio-guerra religiosa que é mais feijão-com-arroz do que nordeste-miséria, rio-favela ou filme histórico brasileiro-ditadura. Isso não importa...

O que importa realmente é que fiquei impressionado com a quantidade de amigos que vieram espontaneamente me recomendar o filme, sempre acompanhando a dica com um "muito bom", "fantástico" ou "impressionante". Não dava para não ver depois de tanto aplauso e obviamente já não dava mais ver sem muita expectativa.

O filme realmente é bom ou, pelo menos, interessante, mas está longe da expectativa que criei para ele. Acreditei, principalmente pela qualidade da opinião dos amigos que o recomendaram, que ele teria uma abordagem fresca sobre a questão religiosa, ou uma narrativa inovadora ou um roteiro extremamente original. Incêndios infelizmente não tem nada disso, mas ao menos tem boas atuações e um roteiro sólido, ainda que apelativo.

O filme tem bons momentos de tensão, mas na maior parte do tempo uma narrativa fraca entrega antecipadamente e sem efeito os principais trunfos que tem na manga. As grandes viradas do filme são telegrafadas em cenas anteriores e fica um pouco constrangedor a formalidade e tom solene dos momentos de revelação que usualmente só confirmam o que o expectador já tinha tido tempo para absorver. 

Contudo, o ponto mais fraco do filme é o conjunto de coincidências ou os mecanismos do "destino" que são o cerne, o âmago do roteiro. Por demais inverossímeis, ainda que possíveis, a confluência de acontecimentos que abrem e fecham o filme é exagerada, apelativa e ainda me deixou com uma sensação de "já vi isso antes" (ainda que não tenha conseguido identificar onde). Menos certamente teria sido mais nesse caso.

Enfim, Incêndios leva uma recomendação um pouco melhor (4 de 5) do que mereceria pela experiência proporcionada porque foi prejudicado pelas altas expectativas que me criaram recomendações anteriores. Sem elas, no entanto, eu provavelmente nem o teria visto e acho que ele é muito melhor do que muitos filmes que acabei decidindo ver ultimamente.