Mostrando postagens com marcador Ficção Científica. Mostrar todas as postagens
Mostrando postagens com marcador Ficção Científica. Mostrar todas as postagens

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Wayward Pines

Shyamal... Quem?

Temporadas: 1
Episódios: 10
Situação: Concluída
Emissora: Fox
Showrunner: Chad Hodge (M. Night Shyamalan como produtor-executivo)

Imagine um giroflex com sua intensa luz vermelha girando na escuridão acompanhada de uma insistente sirene zunindo irritantemente e impedindo que você consiga pensar em qualquer outra coisa. Com essa imagem quero deixar dois alertas para você: passe longe de Wayward Pines e, caso vá ignorar o primeiro aviso, saiba que os próximos parágrafos vão estar repletos de spoilers.

Vendida como "Twin Peaks encontra Lost" e ostentando a "grife" M. Night Shyamalan (Sexto Sentido e... Outros filmes ruins), Wayward Pines deveria pagar penitência (Shame! Shame!) por sequer ousar comparar-se a esses marcos da televisão norte-americana. Há muito pouco da atmosfera fantástica e bizarramente familiar do show de David Lynch e menos ainda da estrutura narrativa inovadora ou da construção eficiente de mistérios da série de J.J. Abrams e Damon Lindelof.

Wayward Pines é amaldiçoado por diversos problemas, mas a escalação de Matt Dillon como protagonista, um ator que consegue declamar a frase "Você quase matou meu filho!" com a mesma entonação que ele diria "Adoro sorvete de pistache", talvez seja o mais evidente. Seu discurso é monotônico e carregado de uma empostação ridícula e seu rosto alcança no máximo umas duas ou três variações de expressões, sendo que o ator sempre escolhe a menos adequada para cada momento. Outros programas conseguiram se safar tendo canastrões como protagonistas (Prison Break vem logo à mente), mas só conseguiam faze-lo por conta de um roteiro bem estruturado.

A trama de Wayward Pines nasce de uma premissa interessante e com algum potencial, mas que é mal utilizada, focando nos ângulos incorretos e apressada por uma necessidade inexplicável de construir "viradas" a cada quadro (Shame! Shame! Shyamalan...). A construção dos principais dramas pessoais é rasteira e clichê, as resoluções dos conflitos são desencontradas e anti-climáticas, os acontecimentos mais expressivos não tem consequências à altura, pois o enredo quer partir imediata e rapidamente para a próximo momento "A-há!".

O programa, que visivelmente estrutura-se para ser um mistério, consegue abusar constantemente do pior inimigo do gênero: a exposição. Tudo é explicado da maneira mais literal possível. Não há espaço para ambiguidade e para que os expectadores confabulem acerca de suas próprias teorias. Uma decisão de direção tão errada que, a maior revelação chega na primeira metade de episódios, sem deixar qualquer espaço para dúvidas e simplesmente torna irrelevante tudo o que vem depois dela.

A enfermeira Pam, interpretada pela veterana, Melissa Leo, é a personificação dessa bola de neve expositiva que desce das montanhas geladas de Wayward Pines para atropelar o espectador desavisado. Assim que conhecemos Pam, ela mostra-se um mix de sadismo e reticente loucura que rouba todas as cenas (ainda que, dividindo a tela com Dillon, isso seja o equivalente ao proverbial roubar doce de crianças). A partir da revelação principal, ela vai veloz e inexplicavelmente tornando-se uma personagem amorfa e insossa até que (pobre Melissa) termina espremida dentro de um ridículo colante prateado tentando dar dramaticidade a uma cena que já está longe de qualquer salvação. 

Ao invés de trabalhar as questões existenciais e sociológicas que o seu cenário engendraria, Chad Hodge, o showrunner, prefere focar seus esforços na ação, em dramalhões rasos e mal construído, em proto-romances desnecessários e numa discussão sobre o autoritarismo conduzida sem qualquer sutileza. Nas mãos de bons diretores e roteiristas, a premissa de Wayward Pines poderia render muito mais mistério, tensão e arrebatamento.

Inclusive não é preciso forçar a imaginação para constatar o que a série poderia ter sido, pois os primeiros episódios apresentavam alguns bons indícios da direção correta. Neles, você tinha a participação de ótimos atores e atrizes que realmente captaram o espírito - Terrence Howard (Homem de Ferro, Crash) que fez um xerife maníaco e simpaticamente aterrorizante e Juliette Lewis (Assassinos por Natureza) que fez, bem, mais uma versão de Juliette Lewis, ou seja, alguém de quem você nunca sabe onde acaba a dissimulação e começa a loucura, são ótimos, porém não os únicos exemplos. Nos poucos episódios em que eles aparecem, o enredo foca em construir narrativas possíveis, expandir cenários, criar atmosfera e não muito depois que eles deixam o elenco, a história entra numa espiral auto-destrutiva sem muitas explicações.

Como M. Night Shyamalan ainda consegue financiamento para os seus projetos depois de anos de fracassos é o mistério mais intrigante que você vai encontrar em Wayward Pines. Diferente de todos os outros que são explicados em detalhes não solicitados, esse ainda vai ficar em aberto. Suspeito que não seja a última vez que ouvimos o nome que ninguém sabe pronunciar, mas espero que nenhum executivo da Fox aprove uma segunda temporada para essa série (Shyamalan já deu entrevistas falando que têm "boas ideias" para uma continuação). Eu já cumpri mais do que meu dever ao me arrastar até o final dessa primeira empreitada e não contem comigo para fazer o mesmo num possível retorno dessa bagunça. Vai ter quem goste, com certeza, mas como dizem por aí, opinião é como... bicicleta e cada um tem a sua.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Coerência

A coerência e a subjetividade 

Direção: James Ward Byrkit
Título Original: Coherence
Duração: 89 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2014

Há pouquíssimo tempo comentei sobre os filmes estilo Mindfucker ao escrever sobre a série Black Mirror, o que resultou numa indicação amiga de um ótimo exemplar do gênero. E ontem, enfim, fui intrigado e entretido pelo recente e pouco conhecido Coerência (Coherence no original - sem título em português, tradução livre e absolutamente literal de minha parte).

Vou me abster de falar sobre quaisquer detalhes do roteiro para não diminuir em nada o prazer de quem vier a assistir o filme. Em relação a outros quesitos técnicos, basta dizer que são bastante adequados: atuações sem destaque, mas efetivas; trilha sonora por vezes equivocada, mas inofensiva; edição truncada em um ponto ou outro, mas em linha com a proposta; cinematografia escura e opção pela câmera tremida para esconder limitações, mas que, mais uma vez, não impedem em nada a apreciação da história.

Coerência é essencialmente diálogo e enredo, ambos absolutamente "coerentes" e bem trabalhados. O filme cai no didatismo em pouquíssimas instâncias, ainda que em algumas delas de maneira artificiosa e afetada, mas não chega nem perto de ser reiteradamente ofensivo como, por exemplo, Triângulo do Medo. Expõe seus mecanismos básicos sem muita sutileza, mas deixa que a trama guie o filme e não que seus artifícios ou princípios o façam.

Como quanto menos se falar desse filme tanto melhor e como há ainda muitas linhas a preencher nesse espaço, dar-me-ei a liberdade de divagar sobre o processo da crítica em si. Há filmes aos quais assisto que entram na fila para ser resenhados e lá ficam por um período não determinado. Alguns estão na espera há pelo menos uns cinco anos e provavelmente nunca chegarão ao blog. Outros, como esse, não esquentam o banco sequer um dia.

Alguns filmes exigem bastante pesquisa, leitura de várias outras resenhas e estudo do assunto sobre os quais eles tratam, sendo que o texto final acaba ficando longe de ser uma opinião pessoal, ainda que reflita perfeitamente a minha avaliação do filme. Outros, como esse, sequer chegam a ser analisados e as críticas sobre eles não passam de uma recomendação positiva ou negativa. Ou são devidamente avaliados exatamente pelo que acredito que sejam, independente do entendimento de outras pessoas.

A verdade é que alguns filmes simplesmente não geram uma reação emocional tão forte quanto outros, não importa o quão excelente sejam (os ordinários e sofríveis, no entanto, nunca passam incólumes). Por mais que durante a análise ou a crítica a subjetividade seja suprimida, ela sub-repticiamente marca presença ao ser a força motriz da seleção não só de sobre o que escrever, mas muitas vezes do que você vai ou não assistir, ler ou jogar.
  
Coerência é um bom exemplo da subjetividade em ação. É daqueles filmes que, longe de serem obras-primas, conseguem fazer aflorar a curiosidade e o interesse. Exigiu minha atenção e conseguiu mante-la, e impediu até certo ponto que eu ficasse me perguntando o tempo todo se estava gostando ou não do que estava vendo, se os diálogos estavam sendo bem aproveitados, se as atuações estavam prejudicando a credibilidade da história etc. Mal entrou na fila de espera para ser assistido e rapidamente está sendo resenhado (recomendado talvez seja a melhor palavra).

Terminada a sessão aqui em casa, o filme continuou marcando presença, primeiramente na forma de uma discussão sobre seus pontos mais obscuros, validação dos entendimentos diferentes de cada um dos expectadores e uma avaliação crítica conjunta sobre o desfecho. Posteriormente, a mecânica central inspirou outros debates não relacionados diretamente ao enredo. Um bate-papo conceitual que deu origem a outras teorias e possíveis histórias. No meu caso particular, é difícil não gostar de um filme que enseje essas reações e acredito que para uma grande parte dos meus amigos também o seja, então que fique a dica!

PS: Não consegui me lembrar de quem foi que me indicou o filme. Então deixo aqui meu agradecimento genérico a todos meus tradicionais companheiros cinéfilos até que haja alguma reivindicação de autoria da sugestão. :-)

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Black Mirror

Mal do século


Temporadas: 2

Episódios: 7

Eu era, e sou, fã de Além da Imaginação (Twilight Zone). Talvez fosse muito novo para me lembrar claramente dos episódios da versão mais recente que foi reproduzida na Globo nos anos oitenta, mas pude assistir alguns episódios da série original recentemente e mesmo mais de meio século depois eles continuam fantásticos (Nick of Time e Five characters in search of an exit são ótimos). Também sou fã de uma subcategoria cinematográfica chamada Mindbender, também conhecido pela alcunha menos elegante de Mindfucker, que enquadra filmes de diferentes gêneros, mas que distorcem de alguma maneira a realidade e confundem o expectador (Donnie Darko, Primer, Amnésia e Adaptação são alguns exemplos).

Esse parágrafo introdutório é apenas para dizer que, se você também se identifica com esses quebra-cabeças audiovisuais, existe uma grande chance de que Black Mirror vá ser um programa excelente para você. Nas palavras de seu criador Charlie Brooker (do bizarro e ácido Dead Set), "se a tecnologia é uma droga, Black Mirror é um tratado sobre seus efeitos colaterais". Black Mirror é uma espécie de herdeiro de Além da Imaginação com a mesma estrutura de episódios auto-contidos, porém abordando especificamente os efeitos de nossa obsessão com tecnologia. As tramas partem de situações reconhecíveis e relacionáveis para fazer questionamentos morais e éticos com os quais já convivemos e, mais ainda, com aqueles que ainda não percebemos e sobre os quais talvez devêssemos estar nos questionando.

A evolução da inteligência artificial e suas implicações, a vigilância constante e autorizada a que nos submetemos, o obscurecimento entre o que é humano e o que é máquina, a gamificação da vida, os limites da arte, a ditadura política das redes sociais e da mídia como um todo, a ubiquidade de telas e informações, o revanchismo, escravidão e tortura que estamos ansiosos em apoiar... São muitos os temas nos quais Black Mirror quer tocar com sua visão particularmente cínica, sombria e, por vezes, niilista. 

Cada uma das duas temporadas conta com uma história mais intimista, uma sátira política e um futuro distópico. Uma temporada espelha a outra: a sátira abre a primeira temporada e fecha a segunda e a intimista fecha a primeira e abre a segunda, sendo que essas últimas são justamente as duas melhores histórias do conjunto. Ainda que o todo seja fantástico, os episódios "distópicos" acabam sendo um pouco mais fracos. Porém, mesmo com tramas mais pueris, os dois conseguem manter a atenção ao ir revelando seu estranho universo pouco a pouco e nos mantendo curiosos. Há ainda um brilhante episódio especial de Natal que foi ao ar em 2014 protagonizado por Jon Hamm (o Don Draper de Mad Men). Com uma duração um pouco maior (cerca 80 a 90 min), o episódio é estruturado de forma a alinhavar três histórias diferentes, mas interligadas, e acaba valendo por mais uma micro-temporada.

Apesar do quão inventivas e aparentemente absurdas sejam as premissas dos episódios, paira o sentimento aterrorizante do quão plausíveis esses cenários acabam se mostrando. Talvez não agora, talvez não em dez anos, mas a grande maioria hipóteses poderia efetivamente concretizar-se, se não de forma idêntica, ao menos muito similar. Black Mirror entretém e ao mesmo tempo causa desconforto e chama à ação, principalmente no sentido de buscarmos mais conexão sem intermediários. Para Charlie Brooker estamos cada vez mais focados nas "sombras na caverna" e suas histórias estão aí para tentar nos forçar a olhar um pouco mais para o mundo como ele realmente é e principalmente como ele é para fora de nós mesmos. Parece-me uma mensagem que vale a pena ser ouvida, mas independente disso, Black Mirror é um programa satisfatório mesmo que seja só para se divertir.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mad Max - Estrada da Fúria

Luz, câmera, AÇÃO!

Direção: George Miller
Título Original: Mad Max: Fury Road
Idioma: Inglês
Duração: 120 min
Lançamento: Mai/2015

Quer conhecer a definição máxima do que seria um filme de ação contemporâneo? Então pare de ler essa resenha e corra pro cinema para assistir a Mad Max: Estrada da Fúria antes que saia de cartaz. Do início da projeção a seus minutos finais, o quarto filme da série protagonizada pelo insano e solitário Max Rockatansky vai suspender temporariamente não só sua descrença mas seu direito a respirar. Mal as luzes do cinema se apagam, os motores começam a roncar, guitarras a guinchar e Max a grunhir.  E quando você menos estiver esperando, a trama já vai ter chegado a sua resolução, os créditos terão subido, suas energias vão ter se esgotado com tanta tensão e você sairá atordoado, mas com a estranha satisfação de quem concluiu uma missão ou sobreviveu a uma provação (um daqueles filmes do tipo ame-ou-odeie).

Sem tempo para as piadinhas infames ou as dezenas de cenas de "propaganda" dos filmes da Marvel, sem tempo para as tramas rocambolescas de Bournes e Missões Imposíveis, sem tempo para ficar fazendo poses em câmera lenta e lambendo o próprio rabo dos zero-zero-Bonds, Mad Max é uma injeção de adrenalina misturada com muita testosterona e, agradavelmente, doses cavalares de estrogênio (Furiosa!). Uma mistura intoxicante que proporciona um barato de duas horas e deixa uma leve zonzeira reverberando por algum tempo depois da saída do cinema.

Mas se o filme é pura ação, deve ser estéril como o deserto onde é filmado, não? Em absoluto! Basta acompanhar o mimimi sobre a "conspiração castradora feminista" por trás do filme (não coloco o link do artigo que gerou a centelha para não alimentar o fogo dessa discussão). Ainda que a louvável crítica à opressão machista faça parte do enredo, em foco estão realmente a redenção e a esperança e todos os protagonistas e personagens secundárias sublinham esses dois temas. Porém, é na construção da ação que o roteiro efetivamente mostra seu brilhantismo. Em cada beat, cada virada, as apostas são altíssimas. Se os personagens encaram um problema, e não há escassez deles, estão sempre em jogo a liberdade e a sobrevivência de cada um. Pessoas com os quais você se importa e o perigo de perdê-los a cada minuto de projeção: o que mais um filme precisa para manter sua atenção?

Diminuir o ritmo para desenvolver melhor as personagens? Nem pensar. As personagens reagem a cada um dos problemas que aparecem de cinco em cinco segundos e pelas respostas e atitudes você entende perfeitamente quem eles são, o que precisam, o que sentem e o que buscam. Praticamente um filme mudo, de pouquíssimos diálogos, Mad Max tem mais desenvolvimento de personagens do que muitos outros que gastam horas levando os seus para uma cabana na floresta e colocando-os em terapias de grupo com a intenção de debaterem aquilo que não se conseguiu mostrar diretamente na ação.

O Mad Max de Tom Hardy é magnético, vigoroso e intenso. Um sobrevivente assolado pela insanidade e assombrado por traumas,  ele passa a maior parte do filme grunhindo e emitindo monossílabos, mas faz isso com tanto charme, naturalidade e uma estranhamente adequada afabilidade que se torna impossível não simpatizar com ele. Esse Max é uma daquelas figuras que ultrapassa sua função como personagem para se tornar uma força motriz e acaba sendo não o protagonista, mas o elemento que une e move as tramas daqueles que representam verdadeiramente a alma da história: a Imperatriz Furiosa e o mal-direcionado, mas bem-intencionado Nux. 

Charlize Theron, como Furiosa, sequestra todas as cenas e não importa o quão suja, arrebentada e aleijada ela esteja, continua soberbamente exuberante e bela. Não consigo imaginar alguém que seja tão Imperatriz e tão Furiosa ao mesmo tempo, pelo menos não enquanto a imagem de Theron estiver tão fresca na minha mente. Furiosa é humana, extremamente humana. Brutal e gentil simultaneamente, seu olhar transmite uma dor ancestral, um peso sendo carregado por anos e anos ininterruptos, mas ainda assim ela age movida pela esperança e por uma chance de redenção. Se houver um futuro para essa franquia, espero sinceramente que Furiosa esteja nele.

Demorei para reconhecer pelo visual, mas os trejeitos de atuação de Nicholas Hoult (Skins, X-men: Primeira Classe, Um grande garoto) são tão característicos que mesmo debaixo das toneladas de maquiagem necessárias para dar vida a Nux, você consegue enxergar o ator. Nux, ainda que coadjuvante, é quem encarna o arco tradicional do herói no filme. Inicialmente um entre muitos dos War Boys do vilão Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne), vítima da própria fragilidade e ignorância e transformado em algoz pelos desígnios do tirano, ele cresce para ocupar o papel clássico do fantoche disposto a cortar suas cordas, em nome do amor ou em nome de um propósito que seja seu e não de outros. Hoult amadurece a cada filme que faz, arrisca-se em diferentes gêneros, e sua carreira ganha corpo e evidência. Ele é um dos poucos atores mirins que entregou-se efetivamente ao ofício e sempre é um prazer vê-lo atuando.

Personagens redondos, enredo simples e efetivo, ação ininterrupta... Mas e os efeitos? As explosões? As perseguições? George Miller é um diretor veterano e John Seale, o cinematografista, coleciona também algumas décadas de carreira, sendo que ambos já levaram um Oscar pra casa. Enfim, são profissionais que sabem o que estão fazendo e isso é percebido facilmente na tela. Os efeitos digitais são utilizados não como prato principal e sim para amplificar o que foi construído "analogicamente" com dezenas de carros e dublês à disposição. E por isso, diferente da maioria dos blockbusters atuais, é fácil identificar o que está acontecendo na cena, mesmo nos momentos mais intensos. Muita atenção a detalhes e imaginação de sobra permitem povoar o pesadelo surrealista de Mad Max com as mais bizarras e grotescas criaturas e emoldurá-lo com uma paisagem árida e incrivelmente bela. Cores saturadas, cenas noturnas acachapantes, uma tempestade de areia para entrar pra história: o espetáculo visual está garantido e por si só já valeria o ingresso.

Enquanto escrevia essa crítica, fiquei tentando procurar pelos mais banais problemas que fizessem com que Mad Max não merecesse a nota máxima. Poderia dizer que a ação do clímax acaba sendo um pouco menos espetaculosa do que o que veio antes dela, mas sinceramente isso foi praticamente um alívio. Poderia dizer que a maior parte dos nomes e dos poucos diálogos são ridículos (Rictus Erectus? People Eater? Bullet Farmer?), mas isso é parte do charme da série. Poderia dizer que o plot em si é praticamente inexistente e absolutamente previsível, mas ele funciona perfeitamente para emoldurar o que realmente interessa que é a ação. Enfim, deixo aqui a única crítica negativa que encontrei para tentar balancear um possível miopia da minha parte e oficializo que, para mim, o sarrafo subiu a nível estratosféricos para os filmes de ação com Mad Max: Estrada da Fúria, e boa sorte para quem for tentar se igualar a essa façanha daqui para frente.

P.S.: Claro que não poderia deixar de ser mencionado: o carro com os tambores e o guitarrista... Soooooooo awesome! 

domingo, 22 de junho de 2014

Orphan Black

Clonicamente Viável

Temporadas: 2
Episódios: 20

Ontem assisti ao último episódio da segunda temporada de Orphan Black, uma série canadense que vai ao ar pela BBC. Confesso que foi com um pouco de tédio e desinteresse que passei por um bom tanto dos episódios anteriores, quase sempre em dúvida se o tempo dispendido com essa ficção científica realmente era válido. Todos os episódios traziam um ou outro elemento que se destacava e pedia para que eu checasse pelo menos mais uma sessão antes de tomar a decisão. E nessa balada, já chegamos ao final de duas temporadas.

Não me entendam mal, Orphan Black é um bom programa, realmente bom, só que escorrega em pontos importantes e passeia muito frequentemente pelo tosco. Sabe aquelas situações quando você percebe qual a intenção dos roteiristas, vê claramente que não está sendo atingida e bate uma certa vergonha alheia? Orphan Black tem muitas dessas. Porém, também há muitas outras vezes em que mesmo eles usando subterfúgios manjados, fazem de tal maneira que é impossível não sorrir e pensar "Mandou bem demais!".

Orphan Black dá início a sua saga com Sarah, um tipo não muito honesto que aparentemente vive de pequenos golpes. Em um dia qualquer, ela presencia o suicídio de uma mulher praticamente idêntica a ela no metrô de Toronto. Sarah, malandra como só, resolve assumir a identidade da falecida com o intuito detirar alguma vantagem da situação (além da natural curiosidade de saber mais sobre sua recém-descoberta "irmã gêmea"). Isso obviamente não acaba bem e ela se vê envolvida em uma trama conspiratória daquelas que qualquer pessoa com juízo gostaria de passar longe.

Segue um spoiler à frente, mas que na verdade, é tão spoiler quanto falar que Os Sopranos é uma série sobre a máfia: Orphan Black é sobre clonagem, ou se preferir, é sobre uma atriz usando diversos tipos de perucas diferentes, falando em diferentes sotaques, criando personagens as mais diversas possível com extrema competência e virtuosidade (e mesmo assim acaba esnobada pelo Emmy por dois anos seguintes). 

Tatiana Maslany, que interpreta a(s) protagonista(s), faz horas extras para levar a equipe nas costas. As melhores personagens sem dúvida são as diferentes versões dela mesma. E não só porque é sempre um prazer vê-la se esforçar para dar maneirismos, sotaques, expressões diferentes para cada um deles, mas sim porque elas são as personagens que possuem algum tipo de personalidade bem definida e funções proeminentes na história.

Há outras boas surpresas em termos de caracterizações, mas algumas delas só se desenvolvem depois de um tempo. Até é um prazer ver os roteiristas tentando tornar alguns dos personagens mais interessantes ao longo dos episódios, mas infelizmente a maioria das tentativas não é bem sucedida. Um dos personagens mais importantes da primeira temporada passa a segunda sem ter o que fazer e faz participações que chegam a ser constrangedoras de tão forçadas. Outro, no entanto, cresce a cada nova revelação e é interpretado por um dos poucos atores da série que conseguem evocar mais do que dois sentimentos.

De maneira geral, as personagens femininas (quase todas intepretads por Maslany) têm bastante profundidade, enquanto as masculinas, são rasas e ainda prejudicadas por interpretações que beiram o ridículo. Talvez seja proposital, já que a série parece ter um subtexto de objetificação da mulher, da invasão da privacidade e muitas vezes do corpo e do DNA feminino. Os homens da série parecem estar lá apenas para ser o interesse romântico da(s) protagonista(s) ou ser a representação unidimensional de um aspecto masculino não desejável (invasivo, distante, ameaçador etc.). 

Orphan Black não consegue evitar os clichês mais básicos do gênero sci-fi como corporações maligna, conspirações, cultos etc. O grande esquema ou o contexto maior às vezes parece não trazer nada de novo para mesa, mas consegue surpreender de vez em quando. Contudo, são nos elementos humanos que o programa se sobressai. Muitas vezes as cenas aparentemente banais da mãe suburbana Alison são muito mais interessantes do que as investigações, perseguições e similares vividas pela "protagonista" Sarah.

As duas temporadas que já foram ao ar são carregadas de tensão e ação. A primeira trabalha com antagonistas individuais e a segunda toma proporções maiores e começa a envolver grupos e abstrações. A série sabe trabalhar muito bem no primeiro caso, mais contida, mas começa a se perder quando o enredo exige o tratamento de conceitos maiores. O último episódio da segunda temporada abriu espaço para Orphan explorar um território ainda mais amplo, o que, se não vier acompanhado de um orçamento maior, pode fazer com que a série se desgaste contando histórias que ela não tem capacidade de contar com qualidade.

Orphan Black volta para sua terceira temporada já agora em abril, com todo um novo universo para explorar. Pode ser que ela consiga sair do mediano e tornar-se uma das melhores séries da TV, ou pode ser que finalmente perca completamente a direção. Orphan é do time de Bates Motel: nunca chega a ser espetacular, mas tem personagens interessantes o suficiente para que você queira continuar acompanhando sua jornada e potencial de se tornar a série que você acredita que ela merece ser.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O segredo da cabana

Apenas por diversão, e se...

Direção: Drew Goddard
Título original: The cabin in the woods
Duração: 95 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Abr/2012

Cinco jovens vão passar o feriado em uma cabana isolada à beira de um lago no meio de uma floresta...Você já conhece a história e você já conhece o lugar, mas ainda assim, por algum motivo insano, se zapeando sem propósito pela TV tarde da noite você perceber que esse é o cenário armado, é nesse canal que você vai parar.

Contudo se a cabana do parágrafo acima for a cabana de O segredo da cabana, você provavelmente não terá suas expectativas correspondidas, mas provavelmente vai se deparar com algo ainda mais divertido e inteligente e talvez você tenha a resposta para o porque você parou no canal para começo de conversa.

Eu poderia discorrer por pelo menos uns vinte parágrafos a mais sobre o filme, citando o que deu (muito) certo e o que deu (infelizmente) errado, enumerando as referências a diretores, contando os clichês etc., mas a cada frase que escrevo, mais perto de estragar a experiência para meus caros leitores do Crítica em Série eu fico. Sou obrigado a deixar todas essas discussões transcendentais para uma mesa de bar (ou para a seção de comentários).

Porém, como essa crítica é absurdamente vaga, vale pelo menos dizer que esse é o típico filme "ame ou odeie", mas se o nome Joss Whedon remete a mais do que "o diretor de Os Vingadores", baixas são as chances de que você, muito provavelmente um(a) nerd como eu, vá estar no lado do "odeio". 

E, por fim, porque Roger Ebert é o crítico dos críticos (mas não leia a crítica dele antes de ver o filme, ela entrega mais do que deveria), é dele a palavra final:
"With most genre films, we ask, "Does it work?" In other words, does this horror film scare us? The cabin in the woods does have some genuine scares, but they´re not really the point. This is like a final exam for fanboys"
P.S. - E você sabe que um filme é feito por e para nerds, quando ele tem referências suficientes para gerar uma wiki própria (contenha-se e abra o link apenas se já tiver assistido ao filme).

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Planeta dos Macacos: A origem

Ave Ceasar 


Direção: Rupert Wyatt 
Título original: Rise of the Planet of the Apes 
Duração: 105 min 
Idioma: Inglês 
Lançamento: Ago/2011 

A maior inovação para a cerimônia do Oscar de 2012 deve ser a nomeação de um chimpanzé para a categoria de melhor ator. Ceasar, o protagonista de Planeta dos Macacos: A Origem é um dos melhores personagens do ano e a prova cabal de que a tecnologia digital já atingiu estágio tal que permite transformar qualquer ideia em imagens - talvez por isso, finalmente as estórias que só faziam sucesso nos quadrinhos estão conseguindo o mesmo na sétima arte. 

A evolução de Ceasar é emocionante e vale certamente o ingresso do cinema, ainda que os 105 minutos de projeção do filme sejam muito menos do que a estória e o personagem mereçam. O tempo se esvai despercebido entre as acrobacias e o gênio estratégico-militar do "general". 

Ceasar foi criado de maneira tão realista que causa aquela estranheza natural ao vermos algo que foge dos nossos parâmetros esperados. No caso, o quanto de humanidade esperamos ver em um chimpanzé. Andy Serkis, o Gollum de O senhor dos Anéis e o King Kong do homônimo filme, confere tanta vida e emoção ao macaco que fica muito evidente que o resto dos atores, incluindo o simpático James Franco e a bela Freida Pinto, estão interpretando e seus personagens ficam parecendo mais caricaturas do que seres humanos. 

Infelizmente o tom moralista, os exageros, os dilemas preto-no-branco e a epidemia do "atingindo todos os públicos" que já conhecemos típicas do cinema norte-americano estão lá e limitam consideravelmente o potencial do filme:

- Personagens caricatos como o ganancioso diretor de empresa, o funcionário público corrupto, o cientista idealista e outros marcam presença; 
- Não há espaço para dúvidas, o roteiro escolhe um lado na briga natureza vs seres humanos e não permite que qualquer tom de cinza confunda o expectador;
- Assim como o recente Capitão América, é um filme asséptico em que a violência é velada e o sangue fica de fora (mesmo com gorilas gigantescos e rancorosos soltos pela cidade);

Contudo, ainda que seja praticamente um desenho da Disney dos anos 80 no formato, Planeta conta também com um diretor que soube contar a estória da melhor forma possível, uma resolução interessante e, não cansa lembrar, um surpreendente protagonista.

No mais, só para constar e informar, vale dizer que A origem explica como o mundo se transformou no planeta dominado por símios em que Charlton Heston caiu em 1968 e Mark Wahlberg em 2001, seja ele uma realidade alternativa ou o nosso próprio planeta em um futuro não muito distante.

Enfim, aparte os personagens humanos unidimensionais e o tom moralista ou moralizante do filme, Planeta dos Macacos: A origem é diversão garantida no cinema e altamente recomendado para qualquer tipo de expectador. 

Longa vida a Ceasar!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Super 8


Sessão Nostalgia

Direção: J.J. Abrams
Título original: Super 8
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

Não era preciso esperar a estréia de Super 8 para se provar que com pouco se faz um bom filme, mas J.J. Abrams conseguiu montar um dos melhores exemplos para esse argumento. Existem alguns critérios básicos que atendidos garantem no mínimo algumas boas horas de saudável escapismo - personagens cativantes com os quais você possa se identificar, um roteiro sólido e uma direção competente - e Super 8 atende a todos eles.

Super 8 tem uma premissa bastante simples e sem qualquer originalidade: envolve crianças, alienígenas e militares. Não há qualquer intenção de parecer mais do que é: uma "homenagem" a clássicos oitentistas como E.T., Goonies e Conta Comigo. Junte-se a esses elementos familiares a qualquer jovem adulto contemporâneo as características básicas de direção e produção de Abrams presente em Lost, Star Trek e Cloverfield - e você tem os grandes sucessos da sua infância repaginados, mas com o mesmo encanto de antigamente.

Elle Fanning e Joel Courtney chamam a atenção em um elenco composto quase que inteiramente por rostos desconhecidos e fazem você se importar com o resultado dos conflitos e dilemas do filme, por mais simplistas e ingênuos que eles sejam. Difícil fugir da básica classificação "fofo" para descrever o casal, então fica essa mesmo. O resto das crianças/adolescentes ajuda a complementar a sensação nostálgica e a saudade de uma época menos complexa e ainda assim extremamente profunda, de sentimentos básicos, mas verdadeiros.

E a narrativa de Super 8 também é extremamente agradável. Nada surpreende pela originalidade, mas a estória avança num ritmo adequado, os elementos de mistério são entregues aos poucos, os personagens tem seus momentos de palco na hora correta e pouca coisa parece ser supérflua no filme. Até mesmo no momento máximo de pieguice e sentimentalismo com uma metáfora de "amadurecimento" nada sutil, Super 8 consegue atingir seus objetivos sem "ofender" a platéia.

Ainda que seja diversão garantida no cinema, a "homenagem" a outros filmes deixa Super 8 com um aspecto exageradamente "requentado" muito grande. Impossível não ficar com o incômodo sentimento de "já vi isso antes" durante praticamente todo o filme. Para o benefício de Abrams, o "isso antes" é material que deixou memórias muito boas para um universo grande de expectadores que não vão se importar tanto assim com o "plágio". E provavelmente há um universo ainda maior de crianças e adolescentes contemporâneos que vão poder ter o seu próprio E.T..

Definitivamente, Super 8 é o melhor filme para crianças de trinta e poucos anos dessa temporada e certamente vale o ingresso e as horas investidas no cinema, mesmo (ou principalmente porque) que "você já tenha visto antes".

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sem limites

Diga sim às drogas

Direção: Neil Burger

Título original: Limitless
Duração: 105 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Mar/2010

Sem limites tem três grandes trunfos a seu favor. O primeiro deles é a câmera nervosa de Neil Burger; ela abre para além de uma grande angular afim de registrar uma nova perspectiva, ela voa veloz com os pensamentos do personagem pelas ruas de Nova York, ela vira de ponta-cabeça quando o mundo de Edie (o protagonista) também o faz, ela foca em objetos distantes aguçando ao mesmo tempo a percepção dos expectadores e a do personagem, ela pisca e apaga por alguns segundos simulando uma amnésia narcótica, ela fica difusa e liquefeita nas extremidades enquanto os efeitos da droga se dissipam... Enfim, praticamente todos os efeitos possíveis são tentados na busca por uma imagem que defina uma nova percepção mental à qual, por premissa, não temos acesso. O segundo trunfo chama-se Bradley Cooper, um ator que inesperadaemnte consegue transitar de um perdedor completo para um charmoso, hiperativo e egocêntrico sabe-tudo, e manter a audiência torcendo por ele mesmo nos seus piores e amorais momentos. Sobre o terceiro e maior trunfo do filme não é possível comentar aqui sem tirar parte do prazer em assistí-lo, mas vale mencionar que ele está na (des)construção inteligente da narrativa que apóia-se em um gênero, transita (aparentemente de forma involuntária) por outros, até inesperadamente fazer com que você saia do cinema reavaliando quase inconscientemente os sentimentos que havia mantido na última uma hora e meia pelo filme.

Esses trunfos, em especial a atuação de Cooper e a direção de Burger, amplificam e dão muito mais cores a um roteiro bastante tradicional e formulaico. Ainda que parte da aparente falta de originalidade seja proposital, necessária para impedir que a audiência espere mais do filme, "aguce" sua percepção e perceba padrões antes do momento devido, fica ainda a impressão de que os roteiristas de Sem Limites não tomaram NZT para auxiliá-los na construção da história. Além disso, a agilidade da câmera e o sorriso-de-um-milhão-de-dólares de Cooper parecem querer esconder as falhas ou não deixar espaço para questionamentos sobre as óbvias (a posteriori) incongruências da trama, quase todas relacionadas a reviravoltas que, se nós na audiência poderíamos prever com facilidade, quem dirá um indivíduo com "QI de quatro dígitos". Para não falar de algumas pontas soltas, que, com boa vontade, você poderia classificar como intencionais dada à desconstrução em certa altura de algumas premissas equivocadas em que a audiência estava se apoiando. Isso seria dar mais crédito ao roteiro do que talvez ele merecesse, mas minha simpatia pelo filme me permite dar esse benefício da dúvida.

Enfim, sem muito marketing (aparentemente não só aqui, mas nos EUA e Europa também), Sem Limites já começa a se vender no boca-a-boca - uma estratégia muito mais válida para segurar as poucas e boas reviravoltas do filme ainda surpreendentes - e deve alcançar a bilheteria que um ótimo, ainda que não excelente, filme merece.

sexta-feira, 24 de dezembro de 2010

Estréia - The Event

Burocracia e muita preguiça

The Event estreou em meados de setembro pela NBC com muito alarde e muito marketing, então inevitavelmente, grandes expectativas foram criadas (parece que ninguém aprendeu a lição que a ABC tomou com Flashforward o ano passado). Infelizmente, a série nos presenteou um roteiro preguiçoso e extremamente burocrático que não consegue nem de perto alcançar o hype criado.

Começando com um esquema narrativo bastante equivocado, com idas e voltas temporais (sem viagens no tempo dessa vez, ainda bem), mas no qual o passado explica pouco ou nada do presente e serve somente, na maioria das vezes para contextualizar as ações (de maneira excruciantemente didática) dos personagens no momento atual.

Para piorar, a direção segue uma cartilha pisada e repisada: se você acha que a próxima cena irá mostrar um evento no passado daquele personagem que está sendo focado no final da cena, você não vai se decepcionar. Se você acha que a estória de um personagem acabou de atingir seu ápice e que a série vai voltar ao que está acontecendo em uma outra história paralela, mais uma vez você está certo.

Os diálogos, por sua vez, começaram padronizados, mas efetivos, e aos poucos, ao longo dos episódios, foram ficando cada vez mais "literários": o diretor parece esquecer que as imagens já naturalmente dizem mais do que mil palavras e resolve colocar mais algumas para garantir que a cena seja explicada também através da narração dos personagens.

Contudo, a série é também muito "profissional" e boa parte do elenco consegue convencer mesmo quando obrigados a proferir as frase mais manjadas (e algumas vezes constrangedoras) desse tipo de atração (ficção científica, conspirações e muita ação). Outro ponto positivo é a capacidade do show de manter um ritmo acelerado ao longo de todos episódios, mesmo que isso signifique cair na redundância algumas vezes e na inverossimilhança na maior parte das vezes.

Vale à pena também dar crédito também aos roteiristas por "lições aprendidas": depois de Lost segurar milhões de pessoas por seis anos, para não responder nem metade das respostas que abriu e dividir opiniões quanto ao seu final, The Event não espera mais que três episódios para solucionar situações e solucionar mistérios (ainda que eles não fossem muito interessantes para começo de conversa).


The Event não chega a ofender, mas também não vale, sinceramente, o tempo investido. Admitidamente, há algumas boas idéias com potencial (usualmente desperdiçado) e um bom par de surpresas (geralmente no último minuto dos episódios) ao longo do caminho. 

Sinto-me até mal em escrever isso: mas acho que, noves fora, Persons Unknown, por mais doloroso que fosse em alguns (ou muitos?) momentos, pelo menos tinha uma premissa que realmente prendia a atenção e que fazia você flagelar-se com os diálogos estúpidos para poder saber para onde aquela estória estava indo. Em The Event, você já sabe para onde ela vai, resta saber apenas se você quer vê-la confirmada na tela (vale lembrar: o show geralmente não vai te decepcionar em suas expectativas...).

Ainda faltam uns três meses para decidir se eu quero saber SPOILER ALERT o que o sinal enviado vai causar ou as implicações da origem mestiça de Leila. Por enquanto, meu sentimento é apenas um: quem se importa?

De qualquer maneira, segue o trailer para quem já não pegou alguma cena zapeando pela tv:

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Origem

Nolan é o cara!

Direção: Christopher Nolan
Título Original: Inception
Duração: 148 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/10


Ele começou em 2000 com a original narrativa invertida de Amnésia. Seguiu com a tensão noir na plena luz do infinito dia de verão do Alasca com Insônia. Na sequência, ele mostrou como montar uma origem impecável para um super-herói em Batman Begins. Com Christian Bale de novo elenco, adicionou Hugh Jackman e Scarlett Johansson e Presto!, um filmaço sobre obsessões com O Grande Truque. Ainda não satisfeito, foi lá e montou o filme "definitivo" do Batman com o Coringa mais aterrorizante já imaginado em The Dark Knight. Agora, Christopher Nolan atinge seu ápice (temporário) com A Origem.

Recomendação baseada única e exclusivamente na minha opinião: A Origem é essencial - vá para o cinema na primeira oportunidade!

Resumo rápido e objetivo do enredo para quem não dá a mínima para a minha opinião e só quer saber o básico sobre o filme para decidir se vai ao cinema: profissional especializado em roubar segredos da mente das pessoas invadindo seus sonhos precisa juntar uma equipe para o seu trabalho final e também o mais complexo e elaborado de todos - implantar uma idéia na cabeça de um jovem milionário.

Resumo rápido e subjetivo para quem acha que a objetividade anterior não ajuda em nada no processo decisório: A Origem = O Plano Perfeito + Waking Life + Matrix - uma história de "roubo de banco" com os usuais planos mega-elaborados dependentes de perfeita sincronia, habilidades especiais e muita dissimulação, só que ao invés de bancos, mentes e ao invés de dinheiro, idéias, tudo isso no esquema Matrix de "o que é real e o que é ilusão?" com efeitos especiais de ponta.

Assim como o último filme que critiquei com Leonardo Di Caprio no elenco (Ilha do Medo), fica difícil falar sobre o roteiro de A Origem de uma maneira que não estrague a experiência. Vale dizer apenas que você pode ir sossegado para o cinema porque, no mínimo, A Origem é um ótimo filme de ação com um roteiro inteligente. Contudo você pode aproveitar também as outras inúmeras "camadas" ou "níveis" de experiência que ele oferece. Deixe seu subconsciente buscar livremente os elementos estranhos, perca-se entre as aparentes incoerências e permita-se enganar pelas ilusões de A Origem.

Ao assistir o filme, tenha em mente que Nolan ficou aparando arestas e revisando o roteiro durante mais de dez anos. Nada escapou a esse refinamento e cada diálogo, cada detalhe da cena foi escolhido e incluído com algum objetivo (ou vários). Lembre-se também do currículo dele e que você está assistindo um filme que trata de quebra-cabeças, labirintos, ilusões. Inevitavelmente, um bom diretor vai incluir uma camada metalinguística nesse texto e te colocar na mesma situação dos personagens: perplexo e desorientado, sem saber o que é real ou não.

A trama é muito envolvente e não perde o ritmo em nenhum ou no máximo em pouquíssimos momentos (geralmente quando repete mais de uma vez a mesma "regra de funcionamento") e o elenco é mais do que sólido. Desde aqueles novatos no universo do diretor como Di Caprio, Joseph Gordon-Levitt (500 dias com ela), Ellen Page (Juno) e Marion Cotillard (Piaf), passando pelos que estão repetindo a dose como Cillian Murphy e Ken Watanabe (Batman Begins) e fechando com a aparição relâmpago, mas sempre relevante do arroz-de-festa Michael Caine (já no seu quarto trabalho com Nolan).

Quanto mais penso e discuto sbore cada uma das cenas, mais idéias vêm à cabeça... Não é a praia de todo mundo, mas certamente vai deixar alguns cinéfilos bem contentes. Gostaria muito de explorar mais o filme nesse espaço, mas é impossível sem spoilers. Guardo para os próximos chopps (ou simplesmente para o espaço de comentários abaixo).

Agora, o jeito é esperar para ver a terceira investida do diretor com o homem-morcego com estréia no longínquo verão (nosso inverno) de 2012 e assistir novamente A Origem assim que der.


PS. - Para balancear com uma avaliação menos positiva, clique aqui.

terça-feira, 18 de maio de 2010

V

"We are of peace, always!"

Alerta: serão reveladas abaixo informações sobre a primeira temporada da série que podem estragar a experiência de quem ainda não a assistiu - SPOILER ALERT!

Por vários motivos, eu quero muito gostar de V. A série trata de temas que me são caros e normalmente geram boas histórias como paranóia, fé, dissimulação, terrorismo, manipulação de massas etc. Além disso, ela é protagonizada por minha atriz preferida de Lost, Elizabeth Mitchel, e co-protagonizada por uma brasileira que foi a escolha perfeita para o papel da líder dos Visitantes. No mais, a ABC realmente investiu na série e apesar do excessivo uso do "fundo azul", os efeitos são suficientes para te inserir na realidade da história.

E, na maior parte do tempo, eu gosto bastante de V. A série empolga e proporciona bons momentos espalhados aqui e ali. Cada episódio normalmente se constrói sobre um tema no mínimo interessante e que é solucionado ou concluído, nem que seja parcialmente, naquele mesmo episódio. Simultaneamente a história maior vai avançando de gancho em ganho enquanto o cenário para o final vai se formando. Há, contudo, um problema estrutural que ameaça constantemente colocar a série abaixo.

Essa grande falha é, sem dúvida, a falta de proporcionalidade entre os antagonistas. Apesar do quarteto principal da resistência ir colecionando pequenas vitórias que dão algum gás para trama ao longo do caminho, o poder de fogo do lado dos visitantes é tão absurdamente maior que parece impossível uma virada que não venha através de um "Deus Ex Machina". Isto é, um elemento externo e não mencionado previamente aparece e soluciona o que não tinha solução. Eu só espero que, quando já tiverem passado do ponto sem retorno para onde estão rumando, os alienígenas não sejam derrotados por uma "gripe".

Esse problema estrutural poderia ter se resolvido, quando na metade da temporada surgiu o conceito da Quinta Coluna. A idéia é que haveriam ao redor do mundo várias células dormentes de Visitantes e Humanos dispostos a lutar contra Anna. Isso poderia rebalancear um conflito absolutamente desigual, só que infelizmente, eles começaram a descontruir a Quinta Coluna logo nos episódios subsequentes.

Porém o que realmente pode ter enterrado qualquer chance equilíbirio foram os eventos do final da temporada. Com uma frota gigantesca a caminho e o céu ficando vermelho, aparentemente indicando que os Visitantes já estariam prematuramente dispostos a deixar o caminho diplomático, parece pouco provável que os seres humanos (para não falar de quatro pessoas) efetivamente consigam rechaçar a invasão. Mesmo que todos os povos se unissem contra os Visitantes agora, que chance teríamos contra inimigos com armas e tencologia muito mais avançadas que as nossas?

Há outros problemas menores que estão no campo das oportunidades perdidas, como, por exemplo, não montar a série de forma que nenhum dos dois lados pudesse ser considerado o "mal" ou o "bem". Estou torcendo para que todas as "maldades" que os Visitantes já perpetraram - como assassinar membros da Quinta Coluna e seus familiares, fazer experiências em humanos, eliminar Visitantes que "humanizaram-se", colocar rastreadores nas pessoas etc. - sejam por um "bem maior", e que no final das contas os dois lados estejam lutando pela mesma coisa (i.e. o bem da humanidade) de maneiras divergentes. Mesmo que, no caso dos Visitantes, essa maneira seja o bom e velho esquema do "salvar a humanidade dela mesma".

Outra oportunidade que ainda não foi perdida, mas que parece que vai ser, refere-se à "lealdade" de Chad Decker, o repórter. Em determinados momentos nos episódios finais, era impossível dizer qual era a agenda da personagem. Ele realmente está servindo Anna? Ele está traindo o Padre Jack ou precisa enganá-lo para poder conquistar ainda mais a confiança de Anna? Ou ele tem a sua própria agenda e vai ficar mudando de lado conforme for mais conveniente? Apesar dos ótimos diálogos que já foram escritos, parece que realmente ele já foi "fisgado" por Anna. Vai ser preciso esperar para ver.

Quanto ao elenco da série, pelo menos entre os protagonistas não há performances realmente ruins. Elizabeth Mitchell passa confiança como a agente do FBI Erica Evans, mas consegue demonstrar fragilidade quando seu filho está em perigo. Joel Gretsch convence também como o padre Jack, e a presença de uma personagem como essa me deixou um pouco preocupado no começo, mas com temas/conceitos como o "Bliss" de Anna ou o projeto dos Visitantes de serem adorados como deuses, ele parece uma escolha adequada. Mark Hildreth, por sua vez, não é nenhum candidato ao Emmy, mas, ao menos, seu personagem Joshua foi o pivô das duas melhores viradas de roteiro, a primeira quando ele mata Dale, o ex-parceiro de Erica, e no final da série quando descobrimos que ele não foi morto por Erica.

Porém, Morena Baccarin é que é realmente a grande estrela da série. Sem seu sorrisinho discreto, sua beleza exótica e (pode ser jogo de câmera) levemente reptiliana, a história não funcionaria tão bem. Nenhum outro V consegue ser tão enigmático quanto ela, principalmente a sua inexpressiva filha Lisa (Laura Vandervoot), a Barbie do Espaço.

Se V, na segunda temporada, conseguir resolver seu problemas estrutural básico e desenvolver melhor alguns dos muitos conceitos legais que foram mal aproveitados na primeira, V pode entrar para a lista das melhores séries de ficção científica ao lado de Lost, Battlestar Galactica, Arquivo X e outras. Por enquanto, ela é só um bom programa com alguns problemas de roteiro, mas ainda assim divertido.

Eu continuo apoiando e acreditando na ABC e seus Visitantes.

We are of peace, always!