quinta-feira, 21 de abril de 2011

Sobrenatural

Os erros superam os acertos

Direção: James Wan
Título original: Insidious
Duração: 103 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Abr/2011

Porque é tão difícil conseguir bons filmes de terror hoje em dia? Esgotaram-se as boas idéias? O gosto do público se alterou e com eles os filmes?

Sobrenatural até começa bem e garante pelo menos uns quarenta minutos tensos, com velhas idéias conhecidas, mas ambientação bem executada e uma pitada de novidade sobre um artifício batido para arrematar. Fugimos um pouco do conceito puro e simples da casa assombrada para algo similar, mas que traz algumas possibilidades novas. As cenas são bem executadas, bom uso dos sons, de câmeras, sombras e luz e conforme a tensão vai aumentando.

E então, quando tudo parecia caminhar para um "fantástico", chegamos à meia hora final e o filme descamba para uma comédia tosca, mesmo que essa não tenha sido a intenção dos diretores. Ainda enquanto o filme navegava por águas sombrias e o demônio ou algo similar escondia-se nas sombras do teto (muito boa a idéia), foram introduzidos elementos cômicos totalmente desnecessários e que eram apenas o prenúncio para as vergonhosas cenas que viriam depois.

Sei que pode parecer loucura, mas vale a pena assistir até aproximadamente cinquenta minutos do filme, desligar e inventar o seu próprio desfecho - o que não vale é de maneira alguma aguentar a parada de clichês e figurinos ridículos do terço final dessa palhaçada. 

Espero que Rose Byrne (Damages) e Patrick Wilson (Watchmen, Pecados Íntimos) tenham trocado de agente depois de terem acabado com essa pequena bomba no currículo.

sexta-feira, 15 de abril de 2011

Pânico 4


Nova década, velhas regras

Direção: Wes Craven
Título Original: Scream 4
Duração: 111 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Abr/2011

Nenhum fã de Pânico vai ter como reclamar que o quarto filme não foi fiel à franquia - as sacadas metalinguisticas (do filme dentro do filme dentro do filme) e o humor paródico do gênero terror slasher estão lá. Ajuda bastante também o tom da produção estar muito mais próximo do do primeiro filme do do humor escrachado que acabou tomando conta dos outros dois, especialmente o terceiro.

O que não funciona muito bem é o filme de terror em si. Por mais bem-humorado que fosse o original e por mais que a mira de Ghostface fosse ruim, ele ainda conseguia provocar algum medo, por mínimo que fosse. Em Pânico 4, com exceção de uma ou outra, as mortes são o mais previsível possível e no máximo você erra onde Ghostface vai aparecer, na janela ou na porta de trás.

Para um filme que se vendeu com a chamada "Nova década, novas regras" e cujos "narradores" - aqueles personagens que entendem tudo de filmes de terror e ditam as regras para a platéia - alegam que hoje em dia o "inesperado é o novo clichê", o filme não se esforça em trazer qualquer inovação e abraça realmente o clichê do inesperado com um roteiro inteiramente dentro do esperado. Completar todo o checklist de referências a ferramentas modernas como Twitter, Facebook e YouTube também não torna imediatamente o filme moderno.

Pânico 4 ridiculariza o gênero, mas ele mesmo não consegue produzir um bom filme de terror. Certamente é divertido e tem algumas ótimas sacadas, a melhor delas já nas cenas iniciais, mas se conseguisse  juntar tensão e suspense aos bons diálogos e às ótimas referências, talvez suas críticas fossem mais contundentes.

PS.: Tudo que vem após a revelação da identidade do assassino é absolutamente ridículo, das motivações cretinas pelos assassinatos, passando pelas explicações de como o crime foi cometido à la vilão de Scooby-doo e principalmente as últimas ações do "plano"... Mas falo isso com boas intenções: o nível do ridículo é tão fora da escala que não dá para não achar engraçado - parece um episódio filmado de Family Guy  e praticamente só para isso já vale ver o filme.

sexta-feira, 8 de abril de 2011

Rio

O Rio de Janeiro continua lindo...

Direção: Carlos Saldanha
Título original: Rio
Duração: 96 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Abr/2010

Rio é bem-humorado, tem algumas boas, ainda que esparsas, sacadas, tem personagens simples, mas relacionáveis e uma boa quantidade de ação. O roteiro é honesto, ou seja, não tenta parecer ser mais complexo do que efetivamente é - você sabe o que esperar dele, sabe de onde virão os conflitos, sabe como ele vai terminar e não há nenhum problema nisso.

Seria, enfim, apenas um bom filme para gastar o tempo, especialmente se há crianças em casa, se fosse uma animação qualquer. Só que ele se passa no Rio de Janeiro e a cidade é tão bem retratada, com tanto conhecimento, com tanta afeição, que ele se torna obrigatório para qualquer carioca e altamente recomendável para qualquer brasileiro.

Por outro lado, ainda que o Rio nunca tenha sido exibido de forma tão atraente, ele também nunca esteve tão reduzido ao trinômio carnaval-samba-futebol (ainda que seja dentro desses temas que surjam as melhores piadas do filme). Mesmo sem se furtar de subir a favela ou de mostrar os ataques a turistas (ainda que perpetrado inusitadamente por animais), ele certamente deve ajudar a atrair uma boa quantidade de visitantes para a cidade – vindos não só do resto do Brasil, mas do mundo todo. 

Blu e Jade podem não ser os personagens mais interessantes que um filme de animação já teve, mas isso não importa muito já que eles não são verdadeiramente os protagonistas do filme. A verdadeira protagonista, o Rio, é e continua sendo certamente maravilhosa e motivo mais que suficiente para dar um pulo ao cinema.

sexta-feira, 25 de março de 2011

Sem limites

Diga sim às drogas

Direção: Neil Burger

Título original: Limitless
Duração: 105 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Mar/2010

Sem limites tem três grandes trunfos a seu favor. O primeiro deles é a câmera nervosa de Neil Burger; ela abre para além de uma grande angular afim de registrar uma nova perspectiva, ela voa veloz com os pensamentos do personagem pelas ruas de Nova York, ela vira de ponta-cabeça quando o mundo de Edie (o protagonista) também o faz, ela foca em objetos distantes aguçando ao mesmo tempo a percepção dos expectadores e a do personagem, ela pisca e apaga por alguns segundos simulando uma amnésia narcótica, ela fica difusa e liquefeita nas extremidades enquanto os efeitos da droga se dissipam... Enfim, praticamente todos os efeitos possíveis são tentados na busca por uma imagem que defina uma nova percepção mental à qual, por premissa, não temos acesso. O segundo trunfo chama-se Bradley Cooper, um ator que inesperadaemnte consegue transitar de um perdedor completo para um charmoso, hiperativo e egocêntrico sabe-tudo, e manter a audiência torcendo por ele mesmo nos seus piores e amorais momentos. Sobre o terceiro e maior trunfo do filme não é possível comentar aqui sem tirar parte do prazer em assistí-lo, mas vale mencionar que ele está na (des)construção inteligente da narrativa que apóia-se em um gênero, transita (aparentemente de forma involuntária) por outros, até inesperadamente fazer com que você saia do cinema reavaliando quase inconscientemente os sentimentos que havia mantido na última uma hora e meia pelo filme.

Esses trunfos, em especial a atuação de Cooper e a direção de Burger, amplificam e dão muito mais cores a um roteiro bastante tradicional e formulaico. Ainda que parte da aparente falta de originalidade seja proposital, necessária para impedir que a audiência espere mais do filme, "aguce" sua percepção e perceba padrões antes do momento devido, fica ainda a impressão de que os roteiristas de Sem Limites não tomaram NZT para auxiliá-los na construção da história. Além disso, a agilidade da câmera e o sorriso-de-um-milhão-de-dólares de Cooper parecem querer esconder as falhas ou não deixar espaço para questionamentos sobre as óbvias (a posteriori) incongruências da trama, quase todas relacionadas a reviravoltas que, se nós na audiência poderíamos prever com facilidade, quem dirá um indivíduo com "QI de quatro dígitos". Para não falar de algumas pontas soltas, que, com boa vontade, você poderia classificar como intencionais dada à desconstrução em certa altura de algumas premissas equivocadas em que a audiência estava se apoiando. Isso seria dar mais crédito ao roteiro do que talvez ele merecesse, mas minha simpatia pelo filme me permite dar esse benefício da dúvida.

Enfim, sem muito marketing (aparentemente não só aqui, mas nos EUA e Europa também), Sem Limites já começa a se vender no boca-a-boca - uma estratégia muito mais válida para segurar as poucas e boas reviravoltas do filme ainda surpreendentes - e deve alcançar a bilheteria que um ótimo, ainda que não excelente, filme merece.

Sucker Punch - Mundo Surreal

Surrealmente Vazio

Direção: Zack Snyder
Título Original: Sucker Punch
Duração: 110 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Mar/11

Qual é a graça de um videogame se você não pode interagir com ele e efetivamente "jogá-lo"? Essa é a pergunta que não quer calar durante toda a projeção de Sucker Punch - Mundo Surreal. Apesar da qualidade gráfica do filme estar acima da capacidade que os melhores consoles podem atualmente alcançar, é impossível não compará-lo às elaboradas "cut-scenes" dos jogos mais recentes, ainda que a comparação, na verdade, seja um demérito para jogos como Metal Gear Solid, Grand Theft Auto ou God of War que possuem roteiros muito mais sofisticados que os do filme de Snyder. 

Estágios com começo e fim bem delineados, objetivos específicos (pegue a chave, pegue o mapa, pegue o isqueiro etc.) e os gêneros mais clichês de games: a decrépita e sombria instituição mental, o bordel abjeto, nazistas demoníacos, o futuro tomado por máquinas, os samurais gigantescos, enfim... falta de imaginação somada a um festival de explosões e fantasias fetichistas que tentam esconder os buracos de um roteiro vazio e,  pior ainda, misógino.

Mulheres em constante ameaça, eminentes vítimas de estupro, violência ou assassinato - objetificação pura e simples disfarçada com alguma mensagem final feminista e moralista que não compensa todos os minutos de poses, caras, bocas e degradação feminina que mal funcionam em um videoclipe de banda adolescente (ruim), quem dirá num longametragem.

Vinte minutos são mais do que suficientes para você descobrir que Sucker Punch não vai dar em nada, mas como as imagens até que são "cool" e a trilha sonora é legal, de repente vale ver descompromissados cinco a dez minutos a cada dia - o que equivale a cada uma das "fases" e é o limite de tempo para o tédio chegar ou sua paciência acabar.