sexta-feira, 18 de fevereiro de 2011

127 horas

Os triunfos de um sobrevivente, um diretor e um ator
 

Direção: Danny Boyle 

Título original: 127 hours 
Duração: 94 min 
Idioma: Inglês 
Lançamento: Fev/2011 

Não há grandes surpresas no roteiro de 127 horas para além do que quase todo mundo a essa altura já sabe: homem precisa amputar o próprio braço para poder sobreviver. Contudo a a criatividade de Danny Boyle arranja diversas maneiras de agüentar o tédio de tantas horas em um mesmo ponto (mimetizando as invencionices de seu próprio personagem tentando passar o tempo). A música é com certeza um dos pontos altos, propositalmente deslocada em algumas cenas e apoteoticamente exagerada em outras, mas também são favoráveis as belíssimas tomadas aéreas, a granularidade de filme mais densa para enfatizar a textura das rochas, a iluminação (ou falta de) adequadamente simbólica, a edição frenética das imagens, os ângulos não-convencionais da câmera e até mesmo o timing perfeito com que o título do filme surge na tela, tudo beira a perfeição visual e sonora em 127 horas. 
Toda essa qualidade técnica seria, no entanto, em vão se na pele do solitário protagonista, comandando um longo "monólogo", não estivesse James Franco, em sua mais fascinante performance até o momento. Inventivo, arrogante, charmoso, inteligente, desesperado, corajoso... Enfim, Franco realmente dá uma complexa vida interior a seu Aron Ralston e faz com que queiramos passar com ele esses angustiantes e aparentemente eternos cinco dias e torcer com tristeza para que chegue logo a sua inevitável, mas libertadora, conclusão. 

127 horas é um filme fantástico que só não alcança um lugar entre os melhores, porque por mais que a direção seja engenhosa e a atuação impecável, o roteiro, por premissa, faz com que o filme passe a impressão de se arrastar por muito mais tempo do que os seus 94 minutos.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O discurso do rei

Genuinamente um candidato ao Oscar

Direção: Tom Hooper
Título original: The king's speech
Duração: 118 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2011


O discurso do rei é um filme visivelmente idealizado para ser indicado ao Oscar e dada a competência da execução fica fácil entender porque acabou levando a estatueta. Uma história sobre amizade com pano de fundo político e histórico e dois atores de peso para contracenar - como poderia dar errado? Infelizmente, essa ânsia pela premiação acaba sendo o maior defeito do filme, que torna cenas mais triviais (o próprio discurso do título) em momentos apoteóticos de superação humana. Uma extravagância que, no entanto, não tira o brilho das interpretações geniais de Colin Firth (merecido Oscar) e Geoffrey Rush ou dos diálogos inspirados do roteiro de David Seidler. Nem sempre o vencedor do Oscar é um filme que valha o tempo investido, mas certamente não é esse o caso.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cisne negro


Angustiante Obssessão

Direção: Darren Aronofsky
Título original: Black Swan
Duração: 108 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2011

Já se falou tanto nesse filme, que nem vale a pena perder muito tempo na resenha: sim, ele é fantástico e cai facilmente na categoria "obrigatório". Foi merecido o Oscar de melhor atriz que Natalie Portman levou por seu retrato angustiante de uma obssessão auto-destrutiva pela perfeição, assim como também foi merecida a nominação para a direção tensa e enervante de Darren Aronofsky. O filme conta ainda com outras estrelas em atuações "naturais", resultantes de acertada escolha de elenco: Mila Kunis, Winona Ryder e Barbara Hershey. Outro ponto positivo é que não é necessário entender nada do competitivo mundo do balé clássico, pois o roteiro é didático o suficiente para te colocar a par não só do enredo de O Lago dos Cisnes, obviamente essencial à trama, mas também do que essa montagem e a posição de primeira-bailarina significam para quem respira balé. 

Acompanhar a degradação alucinante de Nina Sayers em busca da perfeição é uma jornada cansativa e desgastante, ainda que recompensadora. Aronofsky já nos tinha colocado antes nessa posição de expectadores de inevitáveis derrocadas - seja pelas drogas (Requiém para um sonho), pela loucura (Pi), pela decadência (O Lutador) ou pela perda (A fonte da vida), e aqui estamos nós mais uma vez para uma sessão de "tortura psicológica" da melhor qualidade.

terça-feira, 1 de fevereiro de 2011

The Big Short - Michael Lewis

A arte de atirar pedras em cachorro morto 


The Big Short segue a história de quatro personagens: três gerentes de pequenos fundos de investimento e um broker do Deutsche Bank. Nenhum deles figurou entre os vários nomes circulando nos jornais durante a crise dos últimos três anos, mas os quatro de uma maneira ou de outra previram o que ia acontecer com certa antecedência e foram capazes de apostar contra o mercado de securitização de hipotecas subprime, fazendo muito dinheiro enquanto o mundo entrava em desespero. 

Lewis escolheu personagens bastante peculiares e ele consegue pintá-los ainda com mais cores, a ponto de dar a eles mais humanidade do que as suas versões da vida real devem efetivamente transparecer. Essas personas, aliados a uma prosa inflamada, rápida e fluida, fazem de The Big Short um livro agradável e relativamente fácil, mesmo versando sobre um assunto denso (apesar de afetar a vida de praticamente todas as pessoas) e supostamente complicado. 

Não há porque esperar nesse livro uma visão imparcial das motivações, causas e efeitos que levaram à derrocada financeira norte-americana de 2008, principalmente porque os personagens estavam todos em apenas um dos lados da complexa equação. Dessa maneira, agências de avaliação de risco de crédito, bancos de investimento, seguradoras como AIG e outras figuras da indústria financeira, todos levam pauladas de todas as direções possíveis e os insultos vão da mera incompetência, passando pela estupidez até a canalhice pura. 

Wall Street e suas mágicas financeiras são pouco a pouco desmistificadas e simplificadas ao ponto de você não conseguir ver todo o mercado de securitização como algom mais que um bando de idiotas apostando somas gigantescas em um grande jogo de roleta (com o dinheiro dos outros, obviamente). Em nenhum momento, porém,  o discurso descamba para a falta de bom senso e extremismo que geralmente permeiam a inflamada oratória esquerdista contra o capitalismo e lembra muito mais um "idealista" que acredita na indústria e descobriu seus princípios traídos por aqueles que a compõe. Mais uma vez: imparcialidade e auto-crítica não são exatamente grandes qualidades do livro. 

Enfim, para aqueles para quem o mundo das finanças é tão alienígena quanto às onze ou não sei mais quantas dimensões da realidade quântica, o livro de Lewis pode parecer intrincado e convoluto demais e passará longe de ser considerado uma leitura agradável. Para aquele nicho de leitores, interessados em compreender de maneira mais ampla como o mundo chegou à complicada crise dos últimos anos, The Big Short, generalizações e caricaturas à parte, certamente é uma leitura intrigante e recompensadora. 

sexta-feira, 28 de janeiro de 2011

Amor e outras drogas

Droga de filme


Direção: Edward Zwick
Título Original: Love and other drugs
Duração: 113 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Nov/10

O começo de Amor e outras drogas é ruim de fazer sair do cinema ou, no meu caso, de desligar a TV. Mesmo quando, dias depois, permiti que ele seguisse na tela como "som ambiente" enquanto resolvia outras coisas na sala, volta e meia eu era lembrado do porque tinha desistido da primeira vez. A macarena pirotécnica na apresentação das drogas da Pfizer é constrangedora, a cópia barata e sem graça de Jack Black que interpreta o irmão do protagonista é ridícula, o efeito cômico desejado dos exageros e dos constrangimentos não possuem atores à altura para levá-los a cabo ou simplesmente fazem humor com assuntos que não têm graça.

Jake Gyllenhaal é o vendedor ambicioso e mulherengo e Anne Hathaway, a autêntica e indepente artista/garçonete que sofre com o estágio inicial de Parkinson. O casal consegue demonstrar química, especialmente nas inúmeras cenas em que contracenam nus (haja concentração no texto) e o relacionamento quase chega a fazer sentido e despertar alguma emoção. Porém, tudo é hiperlativo, as atuações são exageradas, os diálogos não são naturais e não há química entre atores que resista a inexistência de personagens de verdade se relacionando. E certamente não é culpa dos dois, já que, em um estilo completamente diverso, eles tornaram crível o relacionamento disfuncional e desprovido de amor de seus personagens em Brokeback Mountain.

Isso tudo sem nem discutir a suposta crítica sobre a indústria farmacêutica - o filme atipicamente usa os nomes e marcas verdadeiros das companhias que cita e, apesar de mostrar um mundo assepticamente inescrupuloso, as drogas funcionam e são um sucesso (pode passar na farmácia mais próxima depois do filme). E tem ainda a evolução da doença de Hathaway, que, para simbolizar bem o clima "fake plastic trees" do filme nunca chega a realmente a de forma   visual apresentar o drama que supostamente deveria ser.

Existe salvação para as comédias românticas ainda?