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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Precisamos falar sobre o Kevin

Tema Dificíl, Inúmeras Interpretações

Direção: Lynne Ramsay
Título Original: We need to talk about Kelvin
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2012

Há algum tempo não tenho tanta dificuldade para escrever sobre um filme. Precisamos falar sobre Kevin é um espécime bastante peculiar. Explico-me. Assim que os créditos subiram, meu sentimento era de que o filme tinha passeado por diversos pontos e não chegado a lugar algum. O filme termina em um ponto que parece incoerente com tudo que o precedeu e ao mesmo tempo há elementos que o tornam possível. Não me pareceu um filme bom. Contudo, quanto mais penso nele, mais vejo que há conteúdo de sobra e há diversas discussões interessantes esperando para serem iniciadas escondidas entre cores, expressões faciais, pedaços de história.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que fotografia e direção de arte são tocadores de bumbo dessa película. E isso é, novamente de maneira interessante, sua maior força e sua principal fraqueza. A força vem da carga simbólica que é pensada para cada cena. O filme abre com a personagem principal, Eva Khatchadourian, sendo carregada por uma multidão no que parece ser a Tomatina, a festa espanhola do tomate. Lembra uma orgia banhada a sangue. Eva está em êxtase. Eva é uma escritora-viajante, conhece o mundo e vive a vida do ultraurbano feliz e descolado, mas o banho de "sangue" prenuncia o que será a sua realidade. 

São mostrados quatro períodos distintos da vida de Eva que parecem todos ser um único. Os tempos se mesclam para tentar criar uma relação de causa-efeito ou, no mínimo, uma correlação. Cenas são encadeadas com elementos em comum para que o telespectador crie as conexões que não foram mostradas. Tudo é simbólico. Respostas não são dadas, mas induzidas. Eva toma pílulas e bebe, Eva está em choque, Eva está extasiada. Em quase todos os momentos Eva parece estar em um estado que permite interpretarmos que tudo que vemos é visto com os olhos de Eva, tudo se confunde, presente e passado são a mesma coisa. As atitudes das pessoas parece estranha: o filho é excessivamente maligno, o marido estupidamente iludido, a filha absurdamente meiga. Vemos a realidade ou vemos o mundo com as lentes de Eva? 

Tudo isso eleva o filme a patamares superiores, criando camadas de interpretação para cada uma das cenas. No entanto, a estrutura é uma fraqueza ao descreditar a, por assim dizer, camada principal, ou seja, a história "real". Descredita a ponto de, no final, você simplesmente não comprar o desfecho e o filme cair na clássica avaliação "não fez sentido" reservada a exemplares ruins. Mesmo entendendo a dinâmica entre os personagens, é difícil aceitar a conclusão. É uma daquelas situações em que a atitude da personagem parece servir ao roteiro e não ser coerente com ela mesma. Contudo, são pouquíssimas as pessoas na audiência que poderiam efetivamente alegar entender a persoangem, já que pouquíssimas estiveram nessa situação extrema.

Não havia lido ainda o livro no qual o filme se baseou, mas o final foi tão desconcertante, que comecei a ler as primeiras páginas minutos depois do Netflix começar a sugerir filmes similares para continuar assistindo. A estrutura narrativa é completamente diferente e torna o "Precisamos falar sobre Kevin" do título ao mesmo tempo muito mais literal e ainda mais irônico: o livro é escrito na forma de cartas de Eva para o marido Franklin cerca de um ano e pouco depois do fatídico crime de Kevin. Já no início dá para ver que vários pontos que ficam completamente subentendidos no filme, são tratados, ainda que de forma sutil e indireta, com muito mais densidade e aprofundamento. 

Lynne Ramsay, a diretora, quer mostrar em imagens o que no livro é discutido com palavras, muitas palavras. A já centenária expressão "uma imagem vale mais que mil palavras" parece ser o modus operandi de Ramsay. As cores dão o tom e você precisa decifrar expressões faciais, entender o contexto, ligar o ângulo da câmera com o sentimento da personagem e decifrar muitos outros símbolos para poder absorver o que ela está querendo passar. Se no livro você terá várias oportunidades para aprofundar-se na alma de Eva através de suas divagações, auto-enganos e ilusões, no filme você terá que inferir as mesmas coisas a partir de olhares, esgares, trejeitos e expressões corporais. Não há narração, nenhum Morgan Freeman explicando didaticamente o que está acontecendo. 

Considerando isso, é essencial ter como protagonista uma atriz do porte de Tilda Swinton. Ela já tinha feito uma espetacular mãe em um filme de 2001 chamado Até o fim que poucas pessoas viram. Naquele, a mãe faz de tudo para garantir que o filho não seja acusado de assassinato, uma mãe clássica, entregue, muito diferente de Eva. A Eva de Swinton é uma mulher alquebrada, disforme, pálida e destroçada pela culpa. Em uma narrativa clássica, você se identificaria com a "vítima", mas Ramsay e principalmente Swinton não permitem que isso aconteça de forma fácil. Eva não é uma personagem simpática e de fácil identificação, porque Eva, a primeira mãe, a mulher primordial, rejeita e ao mesmo tempo sucumbe a seu papel "natural" e torna-se um alvo fácil para o julgamento não só das outras personagens da história, mas também da audiência.

Ezra Miller, assim como os pequenos Jasper Newell e Rock Duer constroem um Kevin estranho, difícil, diabólico e manipulador, porém, apesar de tais interpretações serem dignas de elogios, o resultado delas cria uma personagem que é um dos principais motivos para a difícil aceitação do desfecho da história. Sobra muito pouco ou quase nenhum espaço para qualquer análise de Kevin que não seja a do sociopata que vai gradualmente aumentando seu nível de maldade. Com um pouco mais de ambiguidade e zonas cinzentas, o filme teria também gradualmente saído no nível muito bom para excelente.

Há algumas tintas feministas de tonalidade forte no vermelho-sangue que rege o filme. Eva, dona de si, viajante, culta, independente passa a ser marionete das personagens masculinas e será apedrejada por não ter aceitado plenamente seu inevitável papel biológico e "natural". Eva submete-se inicialmente ao marido e posteriormente a Kevin, vítima de uma culpa que parece extrínseca a ela. Como conciliar a Eva pré-Kevin com a Eva pós-Kevin? Do pouco que li do livro, a discussão é mais complexa e envolve toda a cultura norte-americana ou mesmo ocidental, o vazio existencialista de nossa geração, passa por consumo e imagem e não necessariamente debruça-se sobre a opressão masculina. Porém, essa é uma interpretação válida como várias outras e daí nasce a força do filme (e mais ainda do livro).

Uma outra linha de interpretação possível é a possibilidade da fatalidade ter sido evitada se o contexto cultural fosse diferente. Precisamos falar sobre Kevin coloca o dedo em uma ferida exposta porque levanta a possibilidade de que talvez a tragédia não houvesse ocorrido se a sociedade não cobrisse de uma aura mítica a maternidade e não ditasse o que é moralmente correto relacionado a relação de uma mãe com um filho. Se Eva encontrasse em Franklin ou em qualquer outra pessoa empatia para seus sentimentos em relação a Kevin, é possível que a vida de ambos, mãe e filho, tivesse se desdobrada de outra maneira.

Apesar de se chamar "Precisamos falar sobre Kevin", o que menos os pais fazem durante o filme é falar sobre o filho. Essa incomunicabilidade, que também ocorre entre Eva e Kevin ou Kevin e Franklin (o pai), é talvez uma das principais chaves para a compreensão dos eventos. A ironia do título é ainda maior porque a mãe é não só escritora, mas uma escritora sobre viagens, que fala sobre outras culturas, tenta entender pessoas muito diferentes dela. Ela consegue entender rituais sagrados de uma tribo de  Bangladesh, mas não o próprio filho.

As discussões podem passar também pela alegoria pois, para somar insulto à injúria, Kevin é geneticamente muito similar à sua mãe. Ezra Miller, que interpreta Kevin adolescente, veste-se de maneira andrógina e tem um rosto muito parecido com o da "estranha" e pálida Tilda Swinton. Essa semelhança permite-nos ver Kevin como um alter-ego de Eva, ou como se ela tivesse expurgado de si um mal inexplicável sobre o qual ela permanecerá sempre responsável por acreditar ser versão monocromática de si mesma. Diferentemente dos horrores de um Alien ou de O bebê de Rosemary em que a mãe carrega o mal em seu ventre, Eva não deu a luz a um mal extrínseco a ela, mas apenas libertou o seu próprio lado sombrio. Como sua homônima bíblica, Eva deu a luz a Caim, mas também a Abel (Celia, a filha, é absurdamente boa) e tornou-se uma casca vazia, cuja moral e ética dependem dos seres a quem ela deu a vida e já não pode controlar.

Precisamos falar sobre Kevin é um ótimo filme que ultrapassa a barreira das suas quase duas horas de duração, abrindo margem para questionamentos posteriores. Acredito que ele fique ainda mais interessante se acompanhado à leitura do livro e estou eu mesmo entregando-me a essa tarefa atualmente (resenha do livro em breve). Vale a pena ver em um dia em que a pedida for por algo mais contemplativo e instigante e não pelo mero entretenimento. Aos amigos que já o viram: precisamos falar sobre esse filme.

Outras críticas de bons dramas no Crítica em Série:
Dúvida
Melancolia

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A pele que habito

A crítica que escrevo 


Direção: Pedro Almodóvar
Título original: La piel que habito
Duração: 120 min
Idioma: Espanhol
Lançamento: Nov/2011

Todos os filmes de Almodóvar parecem iguais, todos parecem ter sido feitos há pelo menos uns vinte anos, todos envolvem bizarrices sexuais e todos são interessantes mesmo sendo exatamente variações do mesmo tema milimetricamente calculadas para não parecerem variações (mas parecem). A pele que habito está longe de fugir desse padrão, mas ao menos dá uma segurada na mão no tradicional exagero cromático do diretor e dá uma folga para Penelope Cruz (apesar de contar com os veteranos Antonio Banderas e Marisa Paredes, também prata da casa).

Como sempre, dei uma olhada no que andou falando a "concorrência" e a maioria dos críticos entram na onda dos simbolismos, do existencialismo-filosófico, das releituras clássicas, do retorno às raízes e outras avaliações mais acadêmicas. Incrivelmente o filme consegue ser elástico o suficiente para dar espaço para toda essa gama de interpretações, mas ao mesmo tempo fica a impressão de que justamente por isso nunca alcança a plenitude que justifique perfeitamente nenhuma delas.

Como não segue o padrão econômico e eficiente do norte-americano de fazer cinema (o qual o brasileiro segue quase á risca), a narrativa do filme parece muitas vezes "quebrada", com personagens aparecendo e desaparecendo do nada, motivações obscuras ou incoerentes e alguns exageros que precisam ser tomados como "licença poética" para que você possa efetivamente apreciar o filme sem se sentir ofendido: informações importantes que em filmes mais tradicionais seriam consideradas reviravoltas são, ao final, irrelevantes para o roteiro - como bem pontuou Roger Ebert, é apenas Almodóvar engrossando o caldo.

A maior parte do filme vai te manter no estado "onde diabos esse cara quer chegar" e conforme ele vai revelando suas cartas, vamos tentando entender que "tipo" de filme estamos vendo afinal de contas (para os que não leram críticas demasiadamente esclarecedoras na internet obviamente). Infelizmente o destino parece à primeira vista não tão interessante quanto a jornada, a não ser que nós façamos uma leitura de que aquela desorientação e o vazio que o fechamento anti-climático nos deixou devesse espelhar os sentimentos da protagonista. Essa interpretação eu deixo para os meus colegas mais acadêmicos, pois na crítica que escrevo, A pele que habito é apenas um filme intrigante que se perdeu rumo à linha de chegada.

P.S. - A nota dada pode parecer um pouco acima do que o texto faz parecer que o filme mereça. Almodóvar, mesmo quando não está em sua melhor forma (Tudo sobre minha mãe, Volver, Fale com ela etc.), mais do que vale o ingresso. Vide Abraços Partidos.

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Melancholia

Justine ou Claire?


Direção: Lars Von Trier
Título original: Melancholia
Duração: 136 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

É um alívio que o incômodo que Lars Von Trier queira causar em Melancholia já não seja mais do mesmo tipo gráfico do de Anticristo. Também não é como a revolta e a angústia imediata de dar nó na garganta como em Dançando no escuro ou Dogville. Melancholia é um filme que te pega na saída, quando você menos percebe, depois que você já praticamente se esqueceu dele.

À primeira vista, é um filme lento, com muitos personagens unidimensionais e caricatos (na realidade, à segunda e terceira vista, continuo achando isso, mas isso não é o mais importante), porém as duas personagens principais, as irmãs interpretadas magistralmente por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg têm, individualmente e em sua relação, profundidade suficiente para carregar o resto do elenco de personagens (que talvez sejam pálidos justamente para reforçar as cores das duas) e dar ao filme uma dimensão que nos faz perdoar o quão maçante e monótono ele é.

Justine (Dunst) é a irmã depressiva, niilista, que despreza as convenções, que faz o que quer e não consegue se encaixar no modelo que é esperado dela por pais, por amigos, pelo noivo e por todas as outras pessoas a quem ela aparentemente despreza por ignorarem, em termos literais, um meteoro que vem em sua direção e a proximidade da extinção da humanidade e, em termos simbólicos, a inevitabiliade da morte e a ausência de significado para a vida. Durante toda a primeira parte do filme, acompanhamos a náusea (a la Sartre) de Justine aumentar progressivamente conforme ela se distancia cada vez mais do mundo. Claire (Gainsbourg) permanece o tempo todo, prática, forte e decidida catando os pedaços de todas as relações quebradas pela irmã. 

Quando Justine é vencida pela depressão, Claire toma a frente e começa a segunda parte da história que mostra a lenta queda do pragmatismo e da conformidade frente ao fim. Charlotte Gainsbourg torna-se maior que o próprio filme conforme sua personagem vai sendo tomada pelo desespero e refugiando-se cada vez mais nas pequenas coisas, nos pequenos afazeres e em solucionar problemas com o intuito de manter sua sanidade enquanto tudo desmorona-se à sua volta. Dessa vez é Justine quem aparece pouco e torna-se o porto seguro para a irmã com a serenidade daqueles que se vêem justiçados.

Melancholia é chato na maior parte do tempo e faz algumas escolhas questionáveis, mas a justaposição entre as duas partes do filme é bem arquitetada e ambas incluem muitas cenas de fotografia e direção de arte acachapantes. O importante, no entanto, é que Von Trier alcança novamente seu objetivo de provocar, de incomodar e de não permitir que você fique indiferente ao filme.

É pouco provável que um meteoro vá nos atingir e acabar com todos os nossos sonhos, nossas rotinas, nossos pequenos e intensos momentos de felicidade... Mas, de acordo com Justine (e Von Trier) todos estamos caminhando em direção ao fim de qualquer maneria e todo o resto é irrelevante. Justine ou Claire? A resposta do diretor parece clara, mas como para todas as questões do tipo, é mais provável que não esteja nem em uma nem em outra, e sim na relação entre elas.

sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O discurso do rei

Genuinamente um candidato ao Oscar

Direção: Tom Hooper
Título original: The king's speech
Duração: 118 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2011


O discurso do rei é um filme visivelmente idealizado para ser indicado ao Oscar e dada a competência da execução fica fácil entender porque acabou levando a estatueta. Uma história sobre amizade com pano de fundo político e histórico e dois atores de peso para contracenar - como poderia dar errado? Infelizmente, essa ânsia pela premiação acaba sendo o maior defeito do filme, que torna cenas mais triviais (o próprio discurso do título) em momentos apoteóticos de superação humana. Uma extravagância que, no entanto, não tira o brilho das interpretações geniais de Colin Firth (merecido Oscar) e Geoffrey Rush ou dos diálogos inspirados do roteiro de David Seidler. Nem sempre o vencedor do Oscar é um filme que valha o tempo investido, mas certamente não é esse o caso.

sábado, 1 de janeiro de 2011

O primeiro que disse


Pastelão Italiano

Direção: Ferzan Ozpetek
Título Original: Mine Vaganti
Duração: 110 min
Idioma: Italiano
Lançamento: Nov/2010

Comédia italiana que faz humor em cima dos estereótipos machistas da cultura local e conta com algumas piadas fáceis no mesmo estilo de A gaiola das loucas. A trama envolve um rapaz que foi estudar em Roma  e retorna agora à casa, no conservadoríssimo sul da Itália, decidido a contar para sua família que é gay, mas seu irmão toma a dianteira e solta a mesma bomba antes dele, fazendo com que o protagonista seja obrigado a lidar com as consequências e continuar a fingir ser algo diferente do que é.

Está armado o cenário para situações típicas como a dos amigos extremamente afeminados de Roma que estão visitando a casa fingindo-se de machos para não causar constrangimentos e gerando os resultados constrangedores já esperados por qualquer um que tenha visto novelas ou cinema (médio) nos últimos anos. A salvação é que o idioma e o hábito de falar mais com o restante do corpo do que com a boca dos italianos torna as cenas mais engraçadas do que naturalmente seriam. Além disso, as paisagens italianas são espetaculares, o sol parece brilhar o tempo inteiro e o filme ganha bastante com ar romântico da velha civilização.

Nem mais, nem menos, somente aquilo que já era esperado de uma estória já contada diversas vezes sem grandes mudanças, com o diferencial de se passar na Itália, um daqueles poucos lugares no mundo ocidental em que esse tema-pastelão ainda faz sentido.

sexta-feira, 2 de julho de 2010

O pequeno Nicolau

Para ficar de bem com a vida

Direção: Laurent Tirard
Título Original: Le Petit Nicolas
Idioma: Francês
Lançamento: Jul/10

O pequeno Nicolau tem: crianças cativantes e carismáticas falando com "biquinho" (como a fofa garotinha do youtube); um clima de nostalgia e de saudosismo por uma época mais ingênua e simples; um roteiro propositalmente sem muita sofisticação. O pequeno Nicolau não tem: referências à cultura pop; piadas satirizando a sociedade moderna; alusões a temas que só os adultos entendem.

Enfim, é um filme para crianças baseado em um livro (ou uma série deles) para crianças. Os mais velhos certamente podem se divertir também com ele, mas o filme não foi pensado para todas as gerações, como costuma acontecer com animações do tipo Shrek, Madagascar etc. Mesmo os dramas "adultos", como o jogo político do pai por uma promoção, são mostrados com a ótica simplificadora de uma criança.

O filme é leve e ideal para quando você está querendo apenas rir com piadas inocentes e se sentir bem ao final. Sem impor qualquer conflito ou levar o telespectador a qualquer tipo de reflexão, O Pequeno Nicolau é uma ótima pedida para acabar com a melancolia de um final de domingo preguiçoso.

Algumas resenhas ou comentários pela net o chamaram de "Amèlie Poulain" infantil e realmente há algumas semelhanças: ambos são franceses, carregados nas cores e alegres ("feel-good-movies"). Pelo bem ou pelo mal, param por aí.

sexta-feira, 7 de maio de 2010

O imaginário do Dr. Parnassus

Agradáveis alucinações

Direção: Terry Gilliam
Título original: The imaginarium of Dr. Parnassus
Duração: 123 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Mai/2010


Apesar de ter ficado conhecido principalmente pelo suicídio de seu protagonista no meio das filmagens, O imaginário do Dr. Parnassus teria chamado a atenção por si só com seu enredo intrincado e seu visual onírico e alucinado. É bem verdade que a morte de Heath Ledger um pouco antes de as cenas finais terem sido filmadas e sua substituição porJohnny Depp, Jude Law e Colin Farrell deixaram o resultado ainda mais interessante. O que poderia ter afundado o filme, nesse caso, fez com que o roteiro fosse reescrito de forma a amplificar as qualidades originais do material e quatro (bons) atores fazendo o mesmo papel fez mais sentido do que um só teria feito. A conclusão, assim como uma ou outra cena ao longo do caminho, desce um pouco quadrada, mas o resto da película oferece um banquete de ilusões, mistérios e imagens agradavelmente sem sentido que mais do que compensam os deslizes do roteiro.

sexta-feira, 12 de fevereiro de 2010

A fita branca

Penitência


Direção: Michael Haneke
Título Original: Das Weisse Band
Duração: 144 min
Idioma: Alemão
Lançamento: Set/09

Inadvertidamente, assisti ao A fita branca de Michael Haneke e não entendi o auê. Digo inadvertidamente porque não liguei o diretor ao filme e não me lembrei de que ele era o responsável pelo insuportável Caché de alguns anos atrás. Se tivesse pego essa referência não teria me dado ao trabalho de assistir a quase duas horas e meias de lentas cenas em preto e branco que não levam a lugar algum.

Recordava-me que na época em que foi lançado no Brasil, a crítica falou bem do filme, alguns amigos mais intelectualizados o "amaram" e, ingenuamente, coloquei na lista de filmes a ver e fui sempre inconscientemente deixando-o para depois. Era só ter relido algumas resenhas da época para ter a certeza de que ele seria chato. Muito se falava das metáforas, do contexto histórico, de interpretações profundas e blá, blá, blá... Nenhum indício de diversão envolvida.

Se não me fiz claro ainda: A fita branca é chato, muito chato. 

E é o pior dos tipos de filmes chatos, porque é o chato que sinaliza que vai deixar de sê-lo e te impede de simplesmente abandoná-lo.

Normalmente, você percebe que caiu numa cilada já nos primeiros dez a quinze minutos do filme, como com I'm a cyborg, but that's ok ou, mais recentemente, Amor e outras drogas (esse precisou de menos de três minutos). Eu acabo continuando a ver o filme, para poder resenhá-lo depois, mas arranjo outra coisa para fazer enquanto isso (checar e-mails, brincar com o cachorro, etc.) e não precisar me concentrar em algo que, no máximo, vai ser medíocre.

Em A fita branca, a situação é diferente porque, desabafo feito e com um pouco mais de objetividade, ele realmente apresenta um retrato interessante e muito bem feito de uma época, algumas cenas isoladas são verdadeiramente carregadas de bastante tensão e há uma iminente ameaça e um horror implícito em todas elas. 

Então você continua, aguentando estoicamente as cenas mais lentas ou aparentemente despropositadas e os núcleos narrativos que parecem não acrescentar muito à trama principal - supondo que há uma e que você entendeu qual é ela. E o esperado clímax parece estar sempre quase a chegar, mas, quando menos você espera, os créditos já estão subindo pela tela. É similar àquelas músicas eletrônicas em que a velocidade da batida vai aumentando, o refrão parece estar chegando e de repente... nada, volta pro começo e a tudo continua na mesma.

Consigo até acreditar que muita gente sinceramente viu nesse filme uma obra-prima e recomendo para aqueles que acreditam que também vão gostar, mas eu particularmente só queria as minhas duas horas e meia de vida de volta (ou um pouco mais se somar às de Cachè a elas)...

Ok, capitulo e aceito que minha inteligência e sensibilidade são limitadas demais... Um blockbuster pra viagem, por favor!

sexta-feira, 4 de dezembro de 2009

Abraços partidos

Não o melhor, mas de qualidade


Direção: Pedro Almodóvar
Título original: Los abrazos rotos
Duração: 127 min
Idioma: Espanhol
Lançamento: Dez/2009

Abraços Partidos é carregado nas cores, exagerado nas emoções, cheio de cenáros kitsch e personagens estranhos, conta uma história bizarra e é, enfim, o que aprendemos a esperar de um Almodóvar. Abraços partidos é uma manifestação de amor ao cinema, à película, à fantasia. Penèlope Cruz é o objeto de desejo mais uma vez, a mulher fetiche, com muito batom, perucas, saltos altos, beicinhos e olhares resvalados. Muito simbolismo e muitas referências cinematográficas estão espalhados pelos nomes dos personagens, pelas fotos, pelos livros na estante e o que mais estiver em cena. Não é necessário escrever muito mais: se não é um Tudo sobre minha mãe ou um Carne Trêmula, e se se excede na breguice ou se arrasta mais do que deveria, Abraços Partidos é um Almodòvar de qualidade e, para quem gosta do "gênero", isso é informação suficiente.

sexta-feira, 2 de outubro de 2009

Deixa ela entrar

Sentimentos Conflitantes


Direção: Tomas Alfredson
Título original: Låt den rätte komma in
Duração: 115 min
Idioma: Sueco
Lançamento: Out/09

Ok, entendi que o filme é sutil, é metafórico, é simbólico, é referencial blá blá blá... mas é bom? É... Mas é legal? Essa é para se pensar... Deixa ela entrar encaixa-se na famosa categoria "fantastichato" : a crítica adora, todo mundo fala bem, dizem que é um exercício de cinema fantástico e outras coisas do tipo, mas quando você resolve finalmente assistir fica com aquela sensação de... Por que afinal todo mundo estava falando tanto disso?

Minha última experiência desse tipo foi com o aclamado Como festejei o fim do mundo, um filme romeno sobre dois irmãos à época da queda do ditador Ceausecu no fim da guerra fria. Assisti o filme pausando a todo momento porque meu pensamento volta e meia escapava para alguma coisa sem importância, mas que naquele momento parecia mais interessante. Mas o filme era ruim? Certamente não... Os atores trabalhavam bem, tinha cenas muito bonitas, a trilha sonora era bacana... mas não rolou a química. Vai entender...

Assistir Deixa ela entrar rendeu sensações muito parecidas. Em nenhum momento diria que é um filme ruim, porque as tomadas são realmente muito legais, a câmera sempre procura ângulos diferentes e os diálogos são instigantes, meio surreais. Considerando que é um fime sueco, vale dizer que é como assistir um Ingmar Bergman sobre vampiros: é bom, mas tem horas que você acha que não vai conseguir resistir ao sono (tudo bem, assisti no meio da semana depois de um dia pesado no trabalho, mas ainda assim...).

O filme é econômico em tudo: na trilha sonora, nas cenas de ação, nos diálogos... E o pouco que é mostrado ou executado acaba tendo muito mais significado do que uma sucessão frenética e videoclíptica de imagens e mesmo cenas relativamente comuns em outros filmes ficam muito mais marcantes nesse. 

Enfim, não é certamente o mais fácil dos filmes e talvez eu tenha tido um problema de expectativa com ele, mas ainda assim o recomendo. No mínimo é garantido que, para o bem ou para o mal, você não vai sair com a impressão de que já viu isso antes. 

sexta-feira, 23 de janeiro de 2009

Rumba

Palmas pela originalidade, e só


Direção: Dominique Abel e Fiona Gordon
Título Original: Rumba
Duração: 77 min 
Idioma: Francês 
Lançamento: set/08 

Para os desavisados, grupo em que me incluía, Rumba é simplesmente surreal e inesperado. As críticas elogiaram e teoricamente o público também, já que sites como Metacritic e Rotten Tomatoes resultam boas classificações para o filme. Desconfio que nesse caso, foram tão poucos os expectadores que esse grupo se confunde com o grupo de críticos.

O filme é uma comédia-triste, com pouquíssimos diálogos (praticamente cinema mudo), de humor físico e inocente, um tanto retrô e nostálgico. Nada de escatologia, drogas ou piadas de cunho sexual - Rumba é leve e arranca mais sorrisos do que gargalhadas histéricas e consegue gerar uma certa simpatia pelos seus parcos três personagens: o casal dançarino que sofre um acidente, ela perde os movimentos da perna e ele a memória, após tentar desviar de um depressivo suicida.

Mas é só isso (ou tudo isso), e para um geração Y frenético, acostumado com roteiros carregados, cheios de reviravoltas, diálogos-metralhadora e edição ágil, fica a sensação de que a inocência e a leveza já não têm mais seu lugar e o filme é totalmente datado. Pelo sim ou pelo não, confira você mesmo para checar se consegue apreciar uma obra imune ao frenesi intenso do cinema contemporâneo.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Senhores do Crime

Cru e Intenso


Direção: David Cronenberg
Título original: Eastern promises
Duração: 100 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2008

Tratando de temas comuns a filmes sobre máfias, nesse caso a Vory v Zakone russa, tais como laços de família, honra, traição e violência e apimentando  essa já enojante sopa com o sórdido tema da escravidão e exploração sexual de adolescentes, Senhores do Crime aumenta a filmografia "suja" de David Cronenberg - diretor de filmes como Marcas da violência, Crash, Spider e A Mosca. Tirando a eventual canastrice de Vincent Cassel, o elenco que conta com Naomi Watts e alguns figurões europeus faz um excelente trabalho, mas é Viggo Mortensen quem mais uma vez, entrega-se com gana impressionante a seu papel, interpretando com maestria um personagem moralmente ambíguo, hermético, insondável e ao mesmo tempo atraente e amedrontador. Pesado, intrigante e escuro, o filme é daqueles que ficam por mais tempo em sua mente do que você gostaria. Resta inevitavelmente um resquício de nojo e asco pela humanidade, mesmo que algumas cenas não soem tão autênticas e tirem um pouco da força da história. E se de alguns filmes algumas cenas ficam para sempre, a intensa e visceral luta na sauna deve ficar tão associada a Senhores do Crime quanto a dança de Uma Thurman e John Travolta a Pulp Fiction com sua fetichista, violenta e crua intensidade.

sexta-feira, 8 de fevereiro de 2008

Sweeney Todd - O barbeiro demoníaco da rua Fleet

Sombria cantoria


Direção: Tim Burton

Título original: Sweeney Todd - The demon barber of Fleet street

Duração: 116 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2008

Sombria e amedrontadora, a tomada aérea inicial de uma enevoada Londres de tempos idos já proporciona a ambientação morbidamente perfeita esperada de um filme de Tim Burton. A câmera desce para um antigo navio, foca em um personagem e então... a cantoria começa! E, infelizmente, não pára mais. Sem deixar espaço para muitas falas, as intermináveis e encadeadas canções acabam eclipsando todas as outras qualidades do filme. Johnny Depp, Helena Bonham Carter e todos os outros atores não desafinam e parecem divertir-se em seus personagens exageradamente bizarros ou cruéis, mas a história, que está longe de ser ruim, perde muito ao ser cantada ao invés de simplesmente "dialogada". Muito sangue jorra da cadeira do demoníaco barbeiro da rua Fleet, e o roteiro proporciona alguns bom momentos de tensão e suspense em uma trama propositalmente clássica que segue os padrões pré-estabelecidos das tragédias, mas se Sweeney Todd tem o DNA Tim Burton no visual, no áudio é o de um musical sem grandes atrativos. A não ser que você seja um grande fã do estilo do diretor, pode deixar Sweeney Todd passar direto.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

O tempo que resta

Sobre escolhas inusitadas

Direção: François Ozon
Título original: Le temps qui rest
Duração: 81 min
Idioma: Francês
Lançamento: Ago/2006

Um protagonista complicado, extremamente grosseiro, egoísta e infantil recebe a notícia de que lhe resta pouco tempo de vida. Nas próximas semanas, ele vai tentar fazer tudo o que sempre quis e não tinha tido chance e, ao longo do caminho aprender quais são as coisas que realmente importam na vida, até tornar-se uma pessoa mais sábia e completa (um pouco antes de partir em uma cena triste e comovente). Seria essa, dada a premissa, a evolução esperada do roteiro, porém, estamos falando de um filme francês. Então não há porque esperar qualquer lampejo de otimismo ou qualquer evolução do personagem no sentido de tornar-se uma pessoa minimamente agradável. É louvável a quebra de modelos pré-estabelecidos de um gênero (ou subgênero, no caso), mas entrei particularmente com o espírito "errado", resistente ao formato inesperado e simplesmente não consegui aceitar as escolhas do protagonista, incomodado o tempo todo com o desprezo pelas regras já acordadas da relação do ser humano com a morte. Longe de ser ruim, com seus longos e belos planos contemplativos, o filme não funcionou especificamente para mim, assim como imagino não vá funcionar para várias pessoas (já considerando apenas aquelas que se prestariam a assistir um filme francês pra começo de conversa). No final, valeu a experiência, mesmo que tenha sido apenas para perceber o quão mais fácil é aceitar a maneira como as pessoas decidem viver do que como elas decidem morrer.