sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Super 8


Sessão Nostalgia

Direção: J.J. Abrams
Título original: Super 8
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

Não era preciso esperar a estréia de Super 8 para se provar que com pouco se faz um bom filme, mas J.J. Abrams conseguiu montar um dos melhores exemplos para esse argumento. Existem alguns critérios básicos que atendidos garantem no mínimo algumas boas horas de saudável escapismo - personagens cativantes com os quais você possa se identificar, um roteiro sólido e uma direção competente - e Super 8 atende a todos eles.

Super 8 tem uma premissa bastante simples e sem qualquer originalidade: envolve crianças, alienígenas e militares. Não há qualquer intenção de parecer mais do que é: uma "homenagem" a clássicos oitentistas como E.T., Goonies e Conta Comigo. Junte-se a esses elementos familiares a qualquer jovem adulto contemporâneo as características básicas de direção e produção de Abrams presente em Lost, Star Trek e Cloverfield - e você tem os grandes sucessos da sua infância repaginados, mas com o mesmo encanto de antigamente.

Elle Fanning e Joel Courtney chamam a atenção em um elenco composto quase que inteiramente por rostos desconhecidos e fazem você se importar com o resultado dos conflitos e dilemas do filme, por mais simplistas e ingênuos que eles sejam. Difícil fugir da básica classificação "fofo" para descrever o casal, então fica essa mesmo. O resto das crianças/adolescentes ajuda a complementar a sensação nostálgica e a saudade de uma época menos complexa e ainda assim extremamente profunda, de sentimentos básicos, mas verdadeiros.

E a narrativa de Super 8 também é extremamente agradável. Nada surpreende pela originalidade, mas a estória avança num ritmo adequado, os elementos de mistério são entregues aos poucos, os personagens tem seus momentos de palco na hora correta e pouca coisa parece ser supérflua no filme. Até mesmo no momento máximo de pieguice e sentimentalismo com uma metáfora de "amadurecimento" nada sutil, Super 8 consegue atingir seus objetivos sem "ofender" a platéia.

Ainda que seja diversão garantida no cinema, a "homenagem" a outros filmes deixa Super 8 com um aspecto exageradamente "requentado" muito grande. Impossível não ficar com o incômodo sentimento de "já vi isso antes" durante praticamente todo o filme. Para o benefício de Abrams, o "isso antes" é material que deixou memórias muito boas para um universo grande de expectadores que não vão se importar tanto assim com o "plágio". E provavelmente há um universo ainda maior de crianças e adolescentes contemporâneos que vão poder ter o seu próprio E.T..

Definitivamente, Super 8 é o melhor filme para crianças de trinta e poucos anos dessa temporada e certamente vale o ingresso e as horas investidas no cinema, mesmo (ou principalmente porque) que "você já tenha visto antes".

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quero matar meu chefe


Quero matar meu chefe imaginário

Direção: Seth Gordon
Título Original: Horrible Bosses
Duração: 98 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

Há muito o que se dizer de uma comédia quando mesmo em um cinema relativamente cheio, você ouve pouquíssimas risadas. A probabilidade é alta de que uma em pelo menos trinta pessoas assistindo a uma comédia ria de qualquer coisa sem sentido que apareça na tela. Por algum motivo, a probabilidade falhou em Quero matar meu chefe e nem o prazer de rir por inércia das risadas dos outros eu consegui ter.

O filme segue uma tendência mal-sucedida pós-Se beber, não case de juntar homens se envolvendo em situações absurdas relacionadas com sexo, drogas e violência. Parto de viagem é um desses filhotes bastardos e rejeitados dos caras com amnésia alcóolica de Las Vegas. Só que mesmo com seus problemas, ele ao menos contava com Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis no elenco. Em Quero matar seu chefe você tem, quando muito, a histeria de Charlie Day (It's always sunny in Philadelphia).

Parece-me que Hollywood não entendeu muito bem o porque do sucesso de Se beber, não case. Você tinha personagens (excluindo o de Galifianakis) que pareciam-se com qualquer homem normal que misturando álcool e drogas com uma pré-disposição para "comemoração" poderiam efetivamente ter se envolvido em algumas situações absurdas. Ou seja, é pouco provável, mas poderia ter acontecido e isso é que faz a graça do filme.

O que afunda Quero matar meu chefe é justamente a impossibilidade de você imaginar que "poderia ter acontecido" e não estamos nem falando aqui de alguém tentar matar ou não o chefe (isso realmente poderia ter acontecido), mas de algo muito mais básico: os chefes e o relacionamento deles com os empregados é que não são críveis. Considerando que boa parte da população possui um chefe e uma grande parcela tem um outro problema com ele, seria muito fácil que o público se identificasse com o que vê na tela, mas o diretor Seth Gordon garantiu que isso não acontecesse ao construir chefes  mais inverossímeis do que o sequestro do tigre do Mike Tyson.

O psicopata de Kevin Spacey não é um psicopata daqueles que você encontra diariamente em qualquer escritório normal, ele está muitos graus acima no nível de loucura e simplesmente  já estaria internado ou preso muito antes de ter chegado a presidente ou diretor de uma companhia. O idiota drogado de Colin Farrell seus comentários absurdos e politicamente incorretos é puro constrangimento e inverossimilhança.

Porém a pior de todas as motivações para assassinato vêm da relação de Dale e sua chefe, Jennifer Aniston. Jura? Jura mesmo que alguém por um minuto sequer acreditaria que Dale preferiria assassinar a única pessoa que daria emprego a ele porque ela está o forçando a trair a noiva? Mencionei anteriormente que essa pessoa é uma ninfomaníaca Jennifer Aniston? O absurdo e a falta de lógica não é engraçada, é simplesmente absurda... Só que infelizmente é dessa premissa inicial que depende as motivações do personagem para tudo o que acontece no filme.

Quero matar meu chefe parte de um conceito que já foi utilizado por outros filmes anteriormente (exemplos: Pacto sinistro e Jogue a mamãe do trem) e até com boas intenções admite isso. Além disso, conta com uma boa química entre os atores que conseguem manter dinamismo nos diálogos e mesmo quando você já "conhece a piada", como na cena com a cocaína, ela é bem conduzida e no mínimo fica divertida.

Para arrancar risadas, no entanto, é necessário uma mínima lógica interna para que quando subvertida, o humor apareça. Sem lógica alguma, Quero matar meu chefe acaba sendo uma sequëncia de cenas isoladas moderadamente divertidas, mas que não constroem um contexto coeso que permita que elas sejam realmente engraçadas.

Certamente não ofende, mas é para ver na TV se não houver nada melhor para se fazer.

Melancholia

Justine ou Claire?


Direção: Lars Von Trier
Título original: Melancholia
Duração: 136 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

É um alívio que o incômodo que Lars Von Trier queira causar em Melancholia já não seja mais do mesmo tipo gráfico do de Anticristo. Também não é como a revolta e a angústia imediata de dar nó na garganta como em Dançando no escuro ou Dogville. Melancholia é um filme que te pega na saída, quando você menos percebe, depois que você já praticamente se esqueceu dele.

À primeira vista, é um filme lento, com muitos personagens unidimensionais e caricatos (na realidade, à segunda e terceira vista, continuo achando isso, mas isso não é o mais importante), porém as duas personagens principais, as irmãs interpretadas magistralmente por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg têm, individualmente e em sua relação, profundidade suficiente para carregar o resto do elenco de personagens (que talvez sejam pálidos justamente para reforçar as cores das duas) e dar ao filme uma dimensão que nos faz perdoar o quão maçante e monótono ele é.

Justine (Dunst) é a irmã depressiva, niilista, que despreza as convenções, que faz o que quer e não consegue se encaixar no modelo que é esperado dela por pais, por amigos, pelo noivo e por todas as outras pessoas a quem ela aparentemente despreza por ignorarem, em termos literais, um meteoro que vem em sua direção e a proximidade da extinção da humanidade e, em termos simbólicos, a inevitabiliade da morte e a ausência de significado para a vida. Durante toda a primeira parte do filme, acompanhamos a náusea (a la Sartre) de Justine aumentar progressivamente conforme ela se distancia cada vez mais do mundo. Claire (Gainsbourg) permanece o tempo todo, prática, forte e decidida catando os pedaços de todas as relações quebradas pela irmã. 

Quando Justine é vencida pela depressão, Claire toma a frente e começa a segunda parte da história que mostra a lenta queda do pragmatismo e da conformidade frente ao fim. Charlotte Gainsbourg torna-se maior que o próprio filme conforme sua personagem vai sendo tomada pelo desespero e refugiando-se cada vez mais nas pequenas coisas, nos pequenos afazeres e em solucionar problemas com o intuito de manter sua sanidade enquanto tudo desmorona-se à sua volta. Dessa vez é Justine quem aparece pouco e torna-se o porto seguro para a irmã com a serenidade daqueles que se vêem justiçados.

Melancholia é chato na maior parte do tempo e faz algumas escolhas questionáveis, mas a justaposição entre as duas partes do filme é bem arquitetada e ambas incluem muitas cenas de fotografia e direção de arte acachapantes. O importante, no entanto, é que Von Trier alcança novamente seu objetivo de provocar, de incomodar e de não permitir que você fique indiferente ao filme.

É pouco provável que um meteoro vá nos atingir e acabar com todos os nossos sonhos, nossas rotinas, nossos pequenos e intensos momentos de felicidade... Mas, de acordo com Justine (e Von Trier) todos estamos caminhando em direção ao fim de qualquer maneria e todo o resto é irrelevante. Justine ou Claire? A resposta do diretor parece clara, mas como para todas as questões do tipo, é mais provável que não esteja nem em uma nem em outra, e sim na relação entre elas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Capitão América: o primeiro Vingador


Sem grandes expectativas

Direção: Joe Johnston
Título original: Captain America - The first Avenger
Duração: 124 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2011

Creio já ter um tempo que não me deparava com um subtítulo que dissesse tanto sobre o filme a que se refere como o de Capitão América: O primeiro Vingador. A palavra de ordem aqui é "Vingador" e ela deixa claro que estamos falando de um filme que é mais um "aperitivo" de duas horas para acalmar os mais ansiosos até que chegue o filme-evento Os Vingadores no verão (setentrional) de 2012 do que uma obra com valor próprio.

Em Hulk e Homem de Ferro, as referências à reunião dos heróis no futuro, que ainda não era certa na época, apareciam praticamente apenas em uma cena curta pós-créditos, enquanto a história daquele personagem em si desenvolvia-se isoladamente. Homem de Ferro 2 aumentou a dose e colocou Nick Fury e a Viúva Negra para participarem do cenário principal, mas ainda assim, eles não eram "a" estória per se. Em Capitão América, o mote de Os Vingadores abre e fecha o filme, enquanto o roteiro principal serve apenas de pano de fundo para uma sequência de referências.

Nos Supremos de Millar e Hytch, a primeira edição foca quase que exclusivamente no Capitão América na segunda guerra mundial e serve de introdução para o restante do enredo, mas parte do charme desse "prólogo" são as batalhas exageradas e o superlativismo dos diálgos que prenunciam o clima seguinte da série. A hiperviolência dos quadrinhos dá lugar à quase inexistência de violência e mesmo da "morte" - em Capitão América ela é limpa, eficaz e praticamente desprovida dos horrores que poderia se esperar do período histórico que está sendo retratado.

Longe de ser um fervoroso fã de violência gratuita, mas armas que desintegram instantaneamente os inimigos tornam as batalhas desprovidas de realismo ou simplesmente sem emoção. Porém, a pior consequência dessa escolha, é a incapacidade do filme de criar o nível de ameaça que o Caveira Vermelha deveria representar, pois quando ele não está "evaporando" pessoas, está, em um ato de maldade máxima, deixando lacaios para trás, mas não sem antes garantir que ele tivesse um meio de tranporte para fugir - nada realmente malévolo. O Caveira Vermelha é o Coringa do Capitão América, um nazista cruel e psicótico que deveria ser o símbolo do malmas até o Agente Smith de seu intérprete Hugo Weaving é mais ameaçador - e isso não é nem de longe culpa do ator.

Além disso, os diálogos são bastante simplórios, previsíveis e desprovidos de inspiração. As poucas tiradas que ganharam um pouco mais de atenção foram aquelas que Tommy Lee Jones ganhou: irônicas, rasteiros e com um ótimo timing. Talvez a simplicidade das falas espelhe o clima "inocente" do filme, mas isso não é desculpa para requentar frases clássicas ou imitar cenas de outros filmes supostamente como "homenagem" (qualquer expectador com um pouco mais de vivência consegue diferenciar plágio e falta de imaginação de tributo ou homenagem). 

Por outro lado, com quase toda a história desenrolando-se nos anos 40, Capitão América ganha créditos por criar um clima nostálgico no melhor estilo do mais recente X-men. É interessante ver o maquinário futurístico funcionando à base de relés e mostradores analógicos toscos, além do estilo "velha guarda" e bom moço do próprio Steve Rogers. Ainda que a falta de adrenalina nas batalhas não seja compensada pelo charme das outras cenas, pelo menos garante a ambientação correta.

Outro ponto positivo, ou um negativo que foi evitado, é o fato de o filme ser sobre um super-herói que usa a bandeira dos Estados Unidos como uniforme e ainda assim passar longe das pataquadas patrióticas típicas do cinema estadounidense. Talvez justamente por ser tão obviamente "americano" é que a equipe teve um cuidado maior de não criar um clima ufanista ou excessivamente nacionalista, construindo um filme focando em Steve Rogers e não no Capitão e tornando nobres e heróicos os sentimentos da "identidade civil", sem necessariamente deixá-los ser confundidos com os valores de um país. Pode ser que justamente por isso, a primeira metade do filme que foca na transformação gradual de Rogers no super-herói flua muito melhor que a segunda, mais carregada em ação.

E por fim: Chris Evans, quem diria... resolveu finalmente se esforçar e interpretar efetivamente um personagem, ao invés de só mostrar o físico e fazer caras e bocas ridículas, vide Celular, Todo mundo em pânico ou mesmo Quarteto Fantástico. Seu Steve Rogers não é nada menos do que eu poderia esperar do personagem e sua interpretação é honesta, consistente e sólida. Uma inesperada e agradável surpresa.

Não tenho certeza se vale o ingresso do cinema, mas alugar o DVD (ou Blu-Ray para ser mais moderno) algum tempo antes da estréia dos Vingadores não seria uma má idéia. Capitão América vale como introdução para o próximo filme, mas a ausência de uma ameaça real e um roteiro mais sólido para alinhavar as referências à sequência, tornam-no uma experiência até agradável, mas desprovida de sentido como obra isolada.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte


Conclusão à altura

Direção: David Yates
Título original: Harry Potter and the Deathly Hallows - Part I and II
Duração: 130 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2011

Fechando a que talvez seja a mais longa série de filmes da história (considerando aquelas que efetivamente formam um conjunto único e possuem uma conclusão e não são simplesmente parte de uma franquia), Harry Potter e as relíquias da morte não decepciona. Como assisti as duas partes com uma diferença de uma ou duas semanas, deixo aqui meus comentários para as duas de uma só vez.

A primeira, lançada em 2010, segue muito mais devagar e espelha o cansaço que a primeira metade do livro também causa no leitor: pouca ação, planos mais longos, situações paralelas que parecem não acrescentar nada ou adiantar a estória principal. Apesar de parecer uma característica ruim, esse "prólogo" é essencial para a construção do clima necessário para garantir a dramaticidade do segundo ato. Essa primeira parte dá a medida da desolação e do desepero dos personagens que vai aumentando ao ver seus esforços gerarem cada vez menos resultados, o mundo continuar a ruir a seu redor, os sacríficios acumularem-se e a esperança ir sufocando aos poucos.

A segunda parte, livre da necessidade de criar a ambientação correta, pode concentrar-se na ação e em dar a seus principais personagens um momento para brilhar. Hogwarts, como em nenhum outro filme, torna-se um cenário fantástico e amedrontador que envolve completamente o expectador em suas sombras e os embates ganham contornos épicos, ainda que isso signifique o tradicional uso de alívios cômicos de tempos em tempos que quebram desnecessariamente a tensão.

Infelizmente, fantasmas, duendes e varinhas mágicas criam um efeito estroboscópico fantasioso que ainda assim não consegue disfarçar a sensação de um Deus Ex Machina constante, culpa da estrutura do próprio livro e não do filme em si. Tudo parece se resolver muito fácil, porque em um mundo em que basta proferir duas palavras para parar uma queda, não há porque você temer por personagens que caem em um abismo. O diretor consegue criar mecanismos e tentar dar um pouco mais dramaticidade para uma morte instantânea causada pela pronúncia de duas palavras. Ele acerta na maior parte do tempo, mas em outras o resultado fica muito aquém - como, por exemplo, na aparição final de Bellatrix.

E depois de quase dez anos, Daniel Radcliffe finalmente consegue tornar-se Harry Potter não só por "direito", mas também "de fato". Sua atuação afinal atinge a maturidade e ele consegue transparecer o cansaço e a angústia crescente de um personagem obstinado que acumula perdas para cumprir um destino que ele nem ao menos escolheu - qualquer semelhança com os principais mitos da humanidade é meramente coincidência. Aplausos então para o ator que agora vai ter que chamar muita atenção para conseguir se livrar do fantasma de Potter (não que ele precise depois dos milhões que o bruxo já rendeu).

Seus fiéis companheiros de tela, Emma Watson e Rupert Grint já haviam achado o tom de seus personagens em filmes anteriores (ela praticamente desde o primeiro), mas também conseguem espaço para brilharem várias vezes nesse final. Mesmo outros personagens e atores menos proeminentes ganham seus momentos em um dos filmes ou nos dois, especialmente Matthew Lewis (Neville Longbottom) e Maggie Smith (Minerva McGonagall).

Mas ainda assim, mesmo com menos tempo de tela, facilmente o que há de melhor no elenco é Alan Rickman que merecia um Oscar pela sua atuação contida e meticulosa e seu discurso tenso e poderoso no salão comunal de Hogwarts. Para completar seu personagem é o protagonista da melhor sequência do filme em que a emoção dispara em cenas muito bem construídas, um flashback efetivamente "mágico" e uma reviravolta que, ainda que um tanto óbvia, consegue credibilidade justamente por causa da dedicação de Rickman à construção de Snape.

É bem verdade que nada, ou ao menos pouca coisa, é original em Harry Potter, mas nunca uma salada de referências (ou plágios) foi tão bem harmonizada ou gerou um universo tão coeso com partes se encaixando tão bem no todo. Cada livro ou filme tem estórias fechadas e independentes e ao mesmo tempo são individualmente essenciais para a construção e para a carga dramática desse épico desfecho.

Então, longe de ser perfeito, Harry Potter e as relíquias da morte é um ótimo filme que só não tem sucesso onde o seu material de origem já não tinha tido antes e é de longe o melhor de todos os oito (ou sete se considerarmos os dois últimos como uma só obra) da série. Melhor para quem acompanhou todos eles, mas recomendável mesmo para quem simplesmente quer só escapar para uma outra realidade e se deixar perder em uma boa estória por algumas horas.

P.S. - Era óbvio que não havia qualquer possibilidade do final ser diferente do livro, mas juro que fiquei com uma pontinha de esperança de que com a descoberta da natureza da "última relíquia" caminhássemos para um outro desfecho, um que transformaria uma sensacional série literária (ou multimídia) em um irretocável patrimônio da humanidade. A escolha de desfecho menos corajosa e mais apropriada comercial e editorialmente nos deixou com as banais três ou quatro páginas do livro ou os deslocados minutos finais do filme. Merecia uma conclusão mais em linha com o fenômeno que foi, mas nem por isso deixou de ter um mais do que digno adeus.