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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A menina da neve

Perdido na Tradução


Na capa do livro uma menção à autora ter sido finalista do prêmio Pulitzer ao lado do preço promocional de quinze reais para uma edição de mais de trezentas páginas e bom acabamento. No painel de chegadas e partidas, um aviso de atraso do voo. Essa combinação fez parar em minhas mãos A menina da neve, livro de estreia da norte-americana Eowyn Ivey. Como passatempo ou leitura despretensiosa, a aquisição não planejada certamente compensou seu baixo custo, mas algo deve ter se perdido na tradução, pois o texto é de uma simplicidade que não justificaria a atenção recebida em seu país de origem.

Um conto russo chamado Snegurochka, ou "a dama da neve", é a base em que a autora constrói seu emocionante relato sobre a vida no Alaska no começo do século XX. Na versão original, assim como em sua variação, um casal mais velho e sem filhos faz um boneco de neve que ganha vida, e assim nasce a menina do título. No livro de Ivey, o casal protagonista é formado por Jack e Mabel, personagens marcados por um evento trágico que vão para o estado mais gelado da federação americana para recomeçar a vida, fugindo de lembranças ruins.

A principal arma narrativa da autora é a tensão entre realidade e fantasia. Após o primeiro encontro com a menina que supostamente surgiu da neve, os protagonistas se revezam no papel de cético ou de crente. A autora trilha tanto a senda da fábula moralizante quanto a do conto de sobrevivência realista, desajeitadamente se acomodando em uma espécie de realismo fantástico anglo-saxônico, ao qual falta o exotismo dos seus congêneres latino-americanos, com seus personagens de emoções afloradas e expostas que parecem navegar mais facilmente pelo absurdo do que os sisudos e pragmáticos norte-americanos. Essa dicotomia, no entanto, funciona na maior parte do tempo, ainda que em alguns trechos, talvez pela falta de melhor adaptação na tradução, os sentimentos e reações das personagens parecem não se adequar às situações.

Ainda que seja baseado em um conto-de-fadas, A menina da neve explora um território distante do felizes-para-sempre, e já nas primeiras páginas uma de suas protagonistas tenta abandonar a trama se afogando em um rio gelado. Ela é impedida pela densa camada de gelo superficial e o frio, o inverno e a neve serão a partir daí um elemento importante e ativo no restante da história, seja literalmente ou em todas as suas versões metafóricas e simbólicas, como o silêncio entre um casal, a temperatura de um corpo agonizante ou a frieza necessária para a sobrevivência.

Ivey também insere discussões sobre perda, maternidade, ligações familiares, as escolhas que fazemos nas nossas vidas e a importância do legado que deixamos através dos nossos filhos. Porém, todas essas divagações são rasas, óbvias e muitas vezes de um didatismo incômodo. A narrativa sai-se muito melhor quando concentra-se em sua camada mais mundana e factual, nas dificuldades de sobrevivência na fronteira setentrional dos EUA, na luta das personagens contra a fome, o frio, os animais selvagens e as noites infinitas de inverno. A autora, natural do Alaska, descreve com excelência a fauna, a geografia e o perfil da população que se dispôs a viver em local tão inóspito e extrai disso o maior valor do seu livro.

A tradução nacional deixa escapar alguns poucos erros de concordância e, de maneira geral, escolhe construções gramaticais que não soam naturais para o português. Esse estranhamento nasce de uma decisão por uma adaptação mais literal e pouco flexível. Parece fruto de um profissional competente de tradução, mas não de um escritor propriamente dito (esse normalmente adiciona sua própria voz ao texto original para, paradoxalmente, garantir mais autenticidade).  A própria autora tenta experimentos linguísticos que já parecem artificiais ainda em inglês. Ela tenta criar imagens e estruturas originais que acabam soando primárias, mais pretensiosas do que artísticas, marcas da inexperiência de uma escritora que ainda está se encontrando. 

Os deslizes técnicos, contudo, não diminuem a força de uma boa, ainda que simples e tradicional, história. Um conto fantástico, triste e belo ao mesmo tempo, que ganha mais relevância pela competência na construção do ambiente, tanto físico quanto temporal, A menina da  neve deve conseguir arrancar lágrimas de boa parte dos leitores (confesso que fui um deles) e agradar em cheio aos fãs de (melo)dramas históricos e sagas familiares. Se é emoção e uma certa dose de nostalgia por tempos não vividos que o leitor procura, esse é um livro que não deve decepcionar. 

quarta-feira, 17 de junho de 2015

Thirty Flights of Loving

Metacriminosos


Desenvolvedor: Blendo Games
Plataforma: Windows, OS X
Gênero: Adventure
Itens de série: narrativa não-linear e totalmente visual
Defeitos de fábrica: jogabilidade nula, custo x benefício negativo, enredo desinteressante.

Às vezes parece que há uma conspiração da crítica em direção a um determinado ponto de vista que é absolutamente intrigante. Thirty Flights of Loving é um exemplo dramático desses casos. Com uma pontuação no Metacritic de 88 da crítica especializada contra 49 dos usuários, é difícil não se posicionar contra os "especialistas" depois de "jogar" os 15 minutos de duração desse "jogo".

TFoL não poderia ser nem ao  menos considerado um jogo pois não há regras ou objetivos claros e não há muita agência do jogador a não ser movimentar o protagonista de um lado para o outro. Como narrativa interativa também não emociona muito, pois é uma história sobre três amigos criminosos, que termina como várias outras que você já acompanhou em outras mídias.

Há algumas boas ideias espalhadas em termos de construção de narrativa como eliminar completamente a HUD (a interface com o jogador) e os diálogos e ainda assim conseguir contar a sua história. Além disso, as passagens de cenas rápidas e cortadas surpreendem e dão agilidade à narração. No entanto, muito se elogiou sobre o estilo da arte e fora as cabeças quadradas das personagens, não percebi nada de realmente revolucionário ou minimamente diferenciado.

Creio ter demorado mais para escrever os parágrafos acima do que para jogar Thirty Flights of Loving  e, apesar de não ser meu principal problema com o título, ele custa na Steam impressionantes R$10,49 (comprei em alguma das milhares de promoções que eles fazem por 75% do preço, mas ainda assim é um absurdo). TFoL deveria, no máximo, estar no portfólio do estúdio como exemplo de suas habilidades narrativas. Cobrar por essa "experiência" parece-me quase tão desonesto e criminoso quanto os golpes que o trio protagonista de TFoL cometem.

terça-feira, 24 de março de 2015

Garota Exemplar (Livro)

A faceta mais aterrorizante do casamento

Considero quase impossível fazer uma análise desse livro sem revelar detalhes da trama. Por esse motivo, segue no primeiro parágrafo, o arremate que estaria reservado ao último: um ótimo livro de suspense que vai fundo em analisar os perigos que rondam um casamento e a difícil dinâmica entre um homem e uma mulher. É diversão garantida com um bom tanto de reflexão e recomendo sem maiores ressalvas.

Vamos agora à análise que pode conter spoilers.

Só para começar: ainda que a tradução do título para o português seja bastante própria para o livro, ela altera consideravelmente a relação do leitor com o mesmo. No original, em inglês, Gone Girl, você pode entender "Garota que se foi" em seu sentido mais literal e que é totalmente apropriado para uma história cujo tema principal é o desaparecimento de uma mulher, mas você pode também aceitar o seu sentido metafórico como a garota já não está mais lá ou já se tornou outra pessoa. Nos dois casos estaríamos falando de uma garota genérica, como se representasse toda e qualquer mulher.

Garota Exemplar, o título em português, remete a uma temática muito específica, de uma garota que não comete erros, que faz tudo o que se espera dela. Algo extremamente em linha com um dos pontos mais relevantes do livro, mas que não representa o que me parece ser a intenção original da autora. Cito esse assunto apenas como uma ponderação, porque admito que seria difícil uma tradução que capturasse a essência do título original.

Garota Exemplar é um exemplo do que os americanos sabem fazer de melhor: replicar modelos de sucesso. Parece um livro escrito com uma fórmula ou roteiro com regras e métricas sobre o que inserir ou revelar em cada momento. Ele apresenta os personagens e inicia a ação rapidamente e vai distribuindo pequenos ganchos a cada, no máximo, 15 ou 20 páginas, fazendo com que o interesse se perpetue (estilo Dan Brown). Só que mesmo que a técnica seja perfeita, seria muito difícil alcançar o sucesso sem um tema que falasse diretamente à alma do leitor: no caso de Garota Exemplar, a incomunicabilidade entre o homem e a mulher e a difícil missão a que eles se propõe de manter um casamento. 

Boas histórias de terror e suspense são aquelas que intensificam o lado perverso de algo que culturalmente consideramos positivo. Quando você transforma a gestação e o nascimento de uma criança em algo perverso, por exemplo, você atinge mais profundamente sua audiência. Em Garota Exemplar, o protagonista monstruoso é a relação de Amy e Nick e principalmente o seu casamento. Pequenas frustrações ou dificuldades de comunicação que permeiam o casamento de qualquer pessoa são amplificadas até atingirem níveis surreais. Contudo, como são calcadas na realidade, sempre fica a sensação de que "poderia acontecer comigo".

Amy e Nick, os polos dessa relação tão doentia quanto usual, são personagens construídas para parecerem reais, mas ao mesmo tempo funcionarem como arquétipos do masculino e do feminino, tanto das características boas, quanto das menos desejáveis. Amy é é uma sociopata, mas é tão fácil me identificar com ela que chego até a ter medo. Nick também é um sociopata, mas como homem não é difícil empatizar com suas angústias e seu desespero. As duas personagens são incríveis, mas Amazing Amy é de longe a que merece um lugar na minha memória eternamente. Se não por mais nada, pelo seu monólogo no início do segundo ato do livro e suas reflexões sobre a "garota legal (cool)".

Falando em segundo ato, vale mencionar que a estrutura narrativa e o formato da história são outros atrativos do livro. Alterna entre a narração em primeira pessoa por parte de Nick, conforme os eventos se desenrolam após o desaparecimento, e a exposição do diário de Amy que desvenda a vida anterior do casal na forma de flashbacks. Amy em seu diário desenvolve o relacionamento dos dois desde o momento em que se conheceram e sua visão é contraposta às lembranças e reminiscências de Nick nos dias atuais, formando um painel de expectativas e desilusões antagônicas e tristemente familiares.

Infelizmente, para leitores e expectadores de mistérios e thrillers, uma das revelações principais acaba não causando o espanto que deveria, mas os pequenos ganchos de cada um dos curtos capítulos mantêm um ritmo fluido e o interesse não diminui (terminei o livro em praticamente uma sentada). É necessário também que se suspenda a descrença em algumas passagens que forçam a mão, mas no ponto em que elas acontecem você já está tão interessado no destino de Nick e de Amy que vai deixar passar muita coisa.

Como normalmente acontece, muita gente vai deixar de ler esse livro e conhecer a história apenas pelo ótimo filme do diretor David Fincher. Infelizmente o papel tem muito mais a oferecer do que o que é mostrado nas mais de duas horas de tela. Amy e Nick são muito complexos e há muito mais a se absorver deles do que simplesmente ouvir e ver a sua história.

terça-feira, 11 de novembro de 2014

Precisamos falar sobre o Kevin

Tema Dificíl, Inúmeras Interpretações

Direção: Lynne Ramsay
Título Original: We need to talk about Kelvin
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2012

Há algum tempo não tenho tanta dificuldade para escrever sobre um filme. Precisamos falar sobre Kevin é um espécime bastante peculiar. Explico-me. Assim que os créditos subiram, meu sentimento era de que o filme tinha passeado por diversos pontos e não chegado a lugar algum. O filme termina em um ponto que parece incoerente com tudo que o precedeu e ao mesmo tempo há elementos que o tornam possível. Não me pareceu um filme bom. Contudo, quanto mais penso nele, mais vejo que há conteúdo de sobra e há diversas discussões interessantes esperando para serem iniciadas escondidas entre cores, expressões faciais, pedaços de história.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que fotografia e direção de arte são tocadores de bumbo dessa película. E isso é, novamente de maneira interessante, sua maior força e sua principal fraqueza. A força vem da carga simbólica que é pensada para cada cena. O filme abre com a personagem principal, Eva Khatchadourian, sendo carregada por uma multidão no que parece ser a Tomatina, a festa espanhola do tomate. Lembra uma orgia banhada a sangue. Eva está em êxtase. Eva é uma escritora-viajante, conhece o mundo e vive a vida do ultraurbano feliz e descolado, mas o banho de "sangue" prenuncia o que será a sua realidade. 

São mostrados quatro períodos distintos da vida de Eva que parecem todos ser um único. Os tempos se mesclam para tentar criar uma relação de causa-efeito ou, no mínimo, uma correlação. Cenas são encadeadas com elementos em comum para que o telespectador crie as conexões que não foram mostradas. Tudo é simbólico. Respostas não são dadas, mas induzidas. Eva toma pílulas e bebe, Eva está em choque, Eva está extasiada. Em quase todos os momentos Eva parece estar em um estado que permite interpretarmos que tudo que vemos é visto com os olhos de Eva, tudo se confunde, presente e passado são a mesma coisa. As atitudes das pessoas parece estranha: o filho é excessivamente maligno, o marido estupidamente iludido, a filha absurdamente meiga. Vemos a realidade ou vemos o mundo com as lentes de Eva? 

Tudo isso eleva o filme a patamares superiores, criando camadas de interpretação para cada uma das cenas. No entanto, a estrutura é uma fraqueza ao descreditar a, por assim dizer, camada principal, ou seja, a história "real". Descredita a ponto de, no final, você simplesmente não comprar o desfecho e o filme cair na clássica avaliação "não fez sentido" reservada a exemplares ruins. Mesmo entendendo a dinâmica entre os personagens, é difícil aceitar a conclusão. É uma daquelas situações em que a atitude da personagem parece servir ao roteiro e não ser coerente com ela mesma. Contudo, são pouquíssimas as pessoas na audiência que poderiam efetivamente alegar entender a persoangem, já que pouquíssimas estiveram nessa situação extrema.

Não havia lido ainda o livro no qual o filme se baseou, mas o final foi tão desconcertante, que comecei a ler as primeiras páginas minutos depois do Netflix começar a sugerir filmes similares para continuar assistindo. A estrutura narrativa é completamente diferente e torna o "Precisamos falar sobre Kevin" do título ao mesmo tempo muito mais literal e ainda mais irônico: o livro é escrito na forma de cartas de Eva para o marido Franklin cerca de um ano e pouco depois do fatídico crime de Kevin. Já no início dá para ver que vários pontos que ficam completamente subentendidos no filme, são tratados, ainda que de forma sutil e indireta, com muito mais densidade e aprofundamento. 

Lynne Ramsay, a diretora, quer mostrar em imagens o que no livro é discutido com palavras, muitas palavras. A já centenária expressão "uma imagem vale mais que mil palavras" parece ser o modus operandi de Ramsay. As cores dão o tom e você precisa decifrar expressões faciais, entender o contexto, ligar o ângulo da câmera com o sentimento da personagem e decifrar muitos outros símbolos para poder absorver o que ela está querendo passar. Se no livro você terá várias oportunidades para aprofundar-se na alma de Eva através de suas divagações, auto-enganos e ilusões, no filme você terá que inferir as mesmas coisas a partir de olhares, esgares, trejeitos e expressões corporais. Não há narração, nenhum Morgan Freeman explicando didaticamente o que está acontecendo. 

Considerando isso, é essencial ter como protagonista uma atriz do porte de Tilda Swinton. Ela já tinha feito uma espetacular mãe em um filme de 2001 chamado Até o fim que poucas pessoas viram. Naquele, a mãe faz de tudo para garantir que o filho não seja acusado de assassinato, uma mãe clássica, entregue, muito diferente de Eva. A Eva de Swinton é uma mulher alquebrada, disforme, pálida e destroçada pela culpa. Em uma narrativa clássica, você se identificaria com a "vítima", mas Ramsay e principalmente Swinton não permitem que isso aconteça de forma fácil. Eva não é uma personagem simpática e de fácil identificação, porque Eva, a primeira mãe, a mulher primordial, rejeita e ao mesmo tempo sucumbe a seu papel "natural" e torna-se um alvo fácil para o julgamento não só das outras personagens da história, mas também da audiência.

Ezra Miller, assim como os pequenos Jasper Newell e Rock Duer constroem um Kevin estranho, difícil, diabólico e manipulador, porém, apesar de tais interpretações serem dignas de elogios, o resultado delas cria uma personagem que é um dos principais motivos para a difícil aceitação do desfecho da história. Sobra muito pouco ou quase nenhum espaço para qualquer análise de Kevin que não seja a do sociopata que vai gradualmente aumentando seu nível de maldade. Com um pouco mais de ambiguidade e zonas cinzentas, o filme teria também gradualmente saído no nível muito bom para excelente.

Há algumas tintas feministas de tonalidade forte no vermelho-sangue que rege o filme. Eva, dona de si, viajante, culta, independente passa a ser marionete das personagens masculinas e será apedrejada por não ter aceitado plenamente seu inevitável papel biológico e "natural". Eva submete-se inicialmente ao marido e posteriormente a Kevin, vítima de uma culpa que parece extrínseca a ela. Como conciliar a Eva pré-Kevin com a Eva pós-Kevin? Do pouco que li do livro, a discussão é mais complexa e envolve toda a cultura norte-americana ou mesmo ocidental, o vazio existencialista de nossa geração, passa por consumo e imagem e não necessariamente debruça-se sobre a opressão masculina. Porém, essa é uma interpretação válida como várias outras e daí nasce a força do filme (e mais ainda do livro).

Uma outra linha de interpretação possível é a possibilidade da fatalidade ter sido evitada se o contexto cultural fosse diferente. Precisamos falar sobre Kevin coloca o dedo em uma ferida exposta porque levanta a possibilidade de que talvez a tragédia não houvesse ocorrido se a sociedade não cobrisse de uma aura mítica a maternidade e não ditasse o que é moralmente correto relacionado a relação de uma mãe com um filho. Se Eva encontrasse em Franklin ou em qualquer outra pessoa empatia para seus sentimentos em relação a Kevin, é possível que a vida de ambos, mãe e filho, tivesse se desdobrada de outra maneira.

Apesar de se chamar "Precisamos falar sobre Kevin", o que menos os pais fazem durante o filme é falar sobre o filho. Essa incomunicabilidade, que também ocorre entre Eva e Kevin ou Kevin e Franklin (o pai), é talvez uma das principais chaves para a compreensão dos eventos. A ironia do título é ainda maior porque a mãe é não só escritora, mas uma escritora sobre viagens, que fala sobre outras culturas, tenta entender pessoas muito diferentes dela. Ela consegue entender rituais sagrados de uma tribo de  Bangladesh, mas não o próprio filho.

As discussões podem passar também pela alegoria pois, para somar insulto à injúria, Kevin é geneticamente muito similar à sua mãe. Ezra Miller, que interpreta Kevin adolescente, veste-se de maneira andrógina e tem um rosto muito parecido com o da "estranha" e pálida Tilda Swinton. Essa semelhança permite-nos ver Kevin como um alter-ego de Eva, ou como se ela tivesse expurgado de si um mal inexplicável sobre o qual ela permanecerá sempre responsável por acreditar ser versão monocromática de si mesma. Diferentemente dos horrores de um Alien ou de O bebê de Rosemary em que a mãe carrega o mal em seu ventre, Eva não deu a luz a um mal extrínseco a ela, mas apenas libertou o seu próprio lado sombrio. Como sua homônima bíblica, Eva deu a luz a Caim, mas também a Abel (Celia, a filha, é absurdamente boa) e tornou-se uma casca vazia, cuja moral e ética dependem dos seres a quem ela deu a vida e já não pode controlar.

Precisamos falar sobre Kevin é um ótimo filme que ultrapassa a barreira das suas quase duas horas de duração, abrindo margem para questionamentos posteriores. Acredito que ele fique ainda mais interessante se acompanhado à leitura do livro e estou eu mesmo entregando-me a essa tarefa atualmente (resenha do livro em breve). Vale a pena ver em um dia em que a pedida for por algo mais contemplativo e instigante e não pelo mero entretenimento. Aos amigos que já o viram: precisamos falar sobre esse filme.

Outras críticas de bons dramas no Crítica em Série:
Dúvida
Melancolia

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

As aventuras de Pi - O filme

Limitações cinematográficas

Direção: Ang Lee
Título original: Life of Pi
Duração: 127 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Dez/2012

Seria praticamente impossível avaliar o filme apenas pelo que ele é depois de ter acabado de ler e resenhado o livro ainda ontem, então não vou nem tentar. E para tornar uma longa conversa curta, o resumo da jornada é que a experiência cinematográfica é certamente válida, mas, como de costume, a literária é insuperavelmente melhor.

E vamos às razões (ou melhor ainda às crenças):

Parte da genialidade do livro é permitir que o leitor vá visualizando uma estória em sua mente, seja ela mais crua e gráfica, seja ela mais fantasiosa e onírica, seja ela pautada no épico ou simplesmente na descrição enfadonha e rotineira do dia-a-dia no mar. Não importa qual seja a estória que você está lendo, o dado relevante é que é uma estória que VOCÊ e só você está lendo. Você traz para a mesa seus próprios valores e crenças, assim como Pi o faz, já que a narração é em primeira pessoa.

No filme, muito já está decidido por você e a direção segue um caminho bem definido pautado pelo fabuloso, pintando com cores fortes, muita luz e muita grandiosidade os eventos que se seguem. O mar é um elemento mágico, o tigre é de uma vivacidade fantástica, ambos de uma beleza ímpar e selvagem. A presença divina manifesta-se do começo ao fim, desde as ensolaradas e bucólicas cenas dos créditos até os momentos finais.

Com tudo isso, o filme deixa muito pouco espaço para reinterpretações e releituras. Onde o livro permite uma multitude de significados e o envolvimento completo do leitor com a estória, o filme parece querer dar uma resposta "certa" e garantir um fechamento apropriado. Você só pode escolher uma das opções se aceitar ao mesmo tempo que ela não é a real e que você só a escolhe porque tudo indica que ela é a "melhor estória".

É fé baseada em escolha, não fé baseada em entrega ou em crença cega. É a fé que nasce do querer acreditar e não simplesmente do acreditar. Algo que vai contra a própria definição desse sentimento.

Algumas passagens mais fantásticas do filme são, no livro, muito mais calcadas na realidade, apoiada em tecnicismos de zoologia, botânica e navegação. No livro, a máxima com que o filme é vendido em seus pôsteres não é tão óbvia: não é necessário "acreditar no inacreditável", basta acreditar no improvável, o que é bem diferente.

Particularmente frustrante para mim, que acabara de ler o livro, foi a escolha do diretor, ainda que corajosa, de deixar que um personagem narrasse a estória em determinado momento crítico ao invés de mostrá-la, de utilizar imagens para torna-la mais real. Uma escolha deliberada que só reforça meu ponto anterior: a intenção parece ser entregar de bandeja um fechamento e só permitir ao público uma ilusão de escolha, fazendo com que muitos sintam que o final ficou "em aberto". 

Por esses e alguns outros equívocos As aventuras de Pi (o filme) nunca alcança a profundidade filosófica e o preciosismo estrutural de sua matriz literária. Está longe, porém, de ser um filme ruim. Tecnicamente fantástico, com cenários deslumbrantes e uma direção mais do que segura de Ang Lee, o filme mais do que vale a conferida, se não por todos esses bons atributos citados, ao menos pela "atuação" emocionante e verossímil de Richard Parker, o tigre que acompanha Pi em sua jornada. Um tigre para você "olhar nos olhos e enxergar a si mesmo".

sábado, 13 de outubro de 2012

A Entidade

Múltiplos Desperdícios


Direção: Scott Derrickson
Título Original: Sinister
Duração: 110 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Out/2012

A Entidade tinha a seu favor um luxo com que poucos filmes de terror podem contar: bons atores com boas performances. Ethan Hawke (Trilogia "Antes do amanhecer, do pôr-do-sol e da meia-noite", Gattaca, Grandes Esperanças etc.) ocupa a tela a maior parte do tempo e consegue elevar os momentos de tensão e garantir que a construção do seu escritor obstinado e egomaníaco seja bem convincente. O elenco de suporte ajuda bastante, com destaque para Juliet Rylance que faz a esposa de Hawke, cuja personagem poderia ter tido mais participação na construção da trama, mas que ao menos confere um contraponto de sanidade em que o expectador pode se ancorar com mais facilidade.

O filme é dirigido por Scott Derrickson, que eu particularmente não conhecia, mas pesquisando vi que também é o responsável por O exorcismo de Emily Rose (que já me foi sugerido por um bom punhado de amigos, mas que ainda não achei a oportunidade ideal para ver ainda). Contudo, se Derrickson fez um bom trabalho nesse outro filme, em A Entidade ele consegue cometer todos os principais erros dos filmes de terror contemporâneos: mostrar muito mais do que deve, abusar de cenas escuras mesmo quando elas não fazem sentido e submeter a coerência da história às sequências de ação.

A lógica é ignorada constantemente (ainda que haja uma tentativa fraca de justificativa pela personalidade ou situação das personagens) para garantir que o roteiro siga da maneira planejada. Após encontrar filmes caseiros no sótão da casa para qual mudou-se com a família e ver que em um deles foi filmado um crime, ao invés de assistir a todos os outros, Ellison (Ethan Hawke) vai vendo um por dia, aparentemente com o único intuito de que a ação e o terror seja fracionado ao longo do filme. Além disso, ele prefere andar pela casa no escuro apenas com pontos de luz (câmera, isqueiro etc.) ao invés de acender as luzes (fora em uma das noites em que efetivamente parece ter acabado a energia na casa - mas só dentro dela porque é possível ver as luzes da varanda funcionando!). A lista de incongruências é vasta e se as cenas não fossem executadas com competência técnica tanto por parte dos atores quanto do diretor, poderia facilmente estar em uma paródia do tipo Todo mundo em pânico.

Um dos "segredos" (e as aspas são realmente necessárias nesse caso) é telegrafado constantemente, o que torna o didatismo da explicação no final não só desnecessário, mas ofensivo. Se havia algum expectador que realmente não tinha cogitado a hipótese e estava esperando por algo mais substancial, pode ser que o sistema educacional tenha falhado com essa pessoa em algum momento (ou ela já nem estava mais prestando atenção no filme). 

Todavia, A Entidade não é totalmente desprovido de méritos. Filmes de terror realmente bons são artigos raros e a película de Derrickson acerta em várias cenas isoladas, além de manter o clima sombrio e a tensão constantes. Acerta também na contraposição entre a leveza dos filmes caseiros e o horror dos crimes perpetrados. É um daqueles filmes que te deixam um pouco triste pelo que podia ser: ele tem uma história que com um pouco mais de maturação e menos didatismo poderia ter sido transformada em um filme extraordinário. 

Se as crianças fossem mostradas como sombras ou ficassem fora do ângulo da câmera, se a entidade só aparecesse desfocada nas filmagens, se restasse a dúvida quanto à natureza sobrenatural dos crimes, se o filme não se valesse tão ilogicamente das cenas escuras, se..., se... Uma pena. 

Enfim, se você está querendo ver um filme sobre um escritor obcecado isolando a própria família em uma ambiente tomado por forças malignas?  Melhor repetir uma sessão de O Iluminado.

Outras críticas de filmes de terror no Crítica em Série:
A Cabana na Floresta
A Casa

sexta-feira, 21 de setembro de 2012

Ted

Um urso, uma piada



Direção: Seth MacFarlane
Título original: Ted

Duração: 106 min

Idioma: Inglês

Lançamento: Set/2012

O garoto Johnny faz um desejo na noite de Natal para que seu urso de pelúcia vire seu amigo de verdade. Seu desejo é atendido. Nada diferente de uma sessão da tarde qualquer. Porém os dois protagonistas da estória crescem e o diretor-roteirista-dublador Seth MacFarlane explora  as possibilidades bizarras da situação em esquetes alinhavadas por um fiapo de roteiro arrogantemente preguiçoso.

É bem verdade que Ted tem alguns momentos no mínimo interessantes (estamos falando afinal de um produto do criador de Family guy e American dad!), mas no cômputo geral ele é uma longa e única piada de pouco mais de 100 minutos de duração. 

Inicia cena. Ted fala palavrão, Ted usa alguma droga, Ted pega um gancho para sacanear alguma celebridade, Ted faz piada com referência pop qualquer,  Ted ofende alguma minoria e Ted faz qualquer outra coisa que seria bizarro ver um urso de pelúcia fazendo. Fim da cena. Inicia nova cena. Ted fala palavrão, Ted usa alguma droga... Repita por 110 minutos.

Claro que isso seria simplificar demais a estrutura do filme, mas não está muito longe da realidade. Talvez o maior problema não esteja em Ted em si, mas no fato dos outros protagonistas da estória serem totalmente marginalizados: os personagens de Mark Wahlberg e de Mila Kunis não ganham praticamente nenhum traço característico que permita que eles sejam também veículos para piadas. Praticamente todos os momentos engraçados e todas as falas mais elaboradas ficam nas mãos peludas de Ted.

Manter o roteiro em um caminho seguro e tradicional também não ajuda o filme. Com a premissa que tinha, Ted poderia ir até os limites do absurdo. Se beber não case e Um parto de viagem vão muito mais longe com muito menos. O que há de estória para conectar as esquetes isoladas segue uma estrutura básica de amadurecimento forçado pelo amor (romance tradicional sem qualquer "releitura") e ainda aposta em alguns vilões estilo Esqueceram de mim para garantir algumas cenas genéricas de perseguição (também sem qualquer twist na fórmula). 

Para os fãs de Family Guy, uma ou outra referência que aparece rapidamente pode não fazer rir, mas no mínimo deixa um sorriso orgulhoso pela reverência. Desde às referências diretas e semi-metalinguisticas (a comparação da voz de Ted e de Peter Griffin) até às mais indiretas (a participação especial de Ryan Reynolds).

Enfim, com certeza algumas boas risadas isoladas estão garantidas, mas o ranço narcisístico que MacFarlane imprime no filme, extremamente confiante de que tem a fórmula do sucesso cômico nas mãos e de que com gags e incoerências faz-se não somente uma animação de 20 minutos, mas também um filme, torna o que poderia ser a comédia do ano em um produto totalmente desnecessário e que rapidamente será esquecido.

sexta-feira, 31 de agosto de 2012

Procura-se um amigo para o fim do mundo

Hipsters infelizes e solitários


Direção: Lorene Scafaria
Título original: Seeking a friend for the end of the world
Duração: 101 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2012

Não pretendo entrar na questão de porque ultimamente há tantos filmes, séries e livros sobre o fim do mundo (ou sobre o que acontece depois dele). Não me interessa se a causa é uma profecia maia, recessão econômica, o pós-existencialismo moderno na condição substrata do ser ou qualquer baboseira do tipo. O que interessa é que meteoros, epidemias, zumbis e até mesmo deuses sedentos por sangue (pescou a referência?) estão soltos por aí para acabar com a humanidade.

A grande maioria dessas obras foca no evento ou mecanismo em si, nas consequências dele, no que é necessário fazer para continuar sobrevivendo ou como aproveitar melhor os últimos momentos. Poucos se preocupam com as pessoas em si e em desenvolver seus personagens. Esse segundo grupo concentra o que há de melhor no gênero (vide The Walking Dead), mas só quando as pessoas que aparecem nele minimamente se parecem com pessoas que você conheça e é aí que começa o problema do filme dessa crítica.

Procura-se um amigo para o fim do mundo é um sub-sub-gênero raríssimo, uma comédia romântica em um filme sobre o fim do mundo com estrutura de road movie, mescla romance e fofurices em geral com alguns momentos comédia e outros de depressão profunda. A intenção já de partida e na própria estrutura e natureza do filme é não seguir pelo caminho óbvio e nesse sentido o filme ganha alguns tapinhas nas costas. Essa é a armadilha: tudo que ele quer é esse tapinha nas costas e a sua aprovação.

Keira Knightley interpreta o "tipo" de mocinha dos sonhos da hora, que se veste como se tivesse pegado algo de dentro do cesto de roupas sujas, é meio amalucada e meio neurótica, mas ultra-fofa (você já viu Natalie Portman, Kirsten Dunst, Zooey Deschanel e muitos outras atrizes icônicas desse tipo de papel, inclusive a própria Keira) e Steve Carell interpreta mais uma vez um personagem depressivo (para mostrar que nem só de comédia vive um comediante), mas sem a profundidade do Frank de Pequena Miss Sunshine.

Consigo acreditar que algumas pessoas teriam e tenham reações ilógicas à proximidade do fim de suas vidas, mas o filme só nos apresenta esse tipo de pessoa. Quando estamos falando dos personagens que aparecem ao longo do caminho, tudo bem, porque eles estão ali por um momento e vão ser mesmo por definição unidimensionais. No entanto, quando a âncora do filme, ou seja, seus protagonistas também seguem essa linha, fica difícil levar a sério qualquer parte dele (e o filme visivelmente se leva a sério).

Procura-se um amigo para o fim do mundo é o típico produto da tribo hipster: quer desesperadamente que você acredite que ele é cool simplesmente porque é indiferente, é minimalista, é nostálgico, é intimista e nada contra a corrente. Está tão preocupado com sua opinião sobre o que ele quer ser do que em ser alguma coisa efetivamente. Há alguns anos eu talvez tivesse achado esse filme sensacional, mas hoje ele não é um filme diferente, só quer que você acredite que ele seja.


P.S. - Talvez eu tenha sido muito influenciado nessa crítica por ter descoberto o blog Unhappy Hipsters que ambiguamente materializa e perpetua uma tendência que não é de agora (restrito à arquitetura), mas que está se tornando incômoda. Há poucos dias, talvez o filme tivesse levado um três ou até mesmo, em um momento de bem com a vida, um quatro, mas agora que a escotilha foi aberta, não há mais como ser fechada.

quinta-feira, 7 de junho de 2012

Madagascar 3 - Os procurados

LSD Infantil


Direção: Eric Darnell, Tom McGrath, Conrad Vernon
Título Original: Madagascar 3 -  Europe's most wanted
Duração: 93 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jun/2012

Madagascar 3 está para a Dreamworks como Toy Story está para a Pixar - são as franquias mais consistentes de cada um dos estúdios. Ok, Toy Story é a única franquia da Pixar (considerando um padrão mínimo de qualidade - Carros não conta) e a Dreamworks tem uma outra de altíssimo nível, Shrek, mas que não pode ser considerada exatamente "consistente". E Madagascar é consistentemente insana.

Madagascar é simplesmente o mais "adulto" em que uma animação mainstream e voltada para crianças pode ser. Desde que o leão Alex viajou com um dardo tranquilizante e a zebra Marty lamentou não ter uma "balinha" ao chegar em uma rave de lêmures, a série é o mais  próximo que uma criança (normal) vai chegar de uma viagem com drogas e Madagascar 3 - Os procurados é, por consequência, o mais próximo que ela vai chegar de uma overdose. 

Em Madagascar 3, a ação segue um ritmo insano do primeiro minuto ao último, chegando ao absurdo de em pouco mais de uma hora e meia, apresentar uns cinco ou dez minutos de cenas mais "calmas". A bizarra vilã garante cenas insuspeitadamente engraçadíssimas (e muitas delas pouco politicamente corretas). Um romance inter-espécie é o auge da da falta de noção e da criatividade bizarra dos roteiristas (um grupo que inclui o ótimo diretor Noah Baumbach de A lula e a baleia e o fantástico Sr. Fox). E viagens psicodélicas atingem o seu ápice no terço final do filme com o que pode ser efetivamente classificado como o maior espetáculo da Terra.

O filme só não atinge a perfeição porque fora a vilã, os novos personagens que aparecem não são nada memoráveis e um deles é particularmente irritante (Stefano, dublado por Martin Short). Além disso, nos pouquíssimo momentos menos intensos, em que alguma mensagem ou lição deve ser passada ou um vazio romance desenvolvido, o filme não consegue fazer isso de forma regular, é simplesmente desajeitado e tolo.

Ao final, considerando a ubiquidade da franquia que ganhou até mesmo uma série de TV, é impressionante que Madagascar 3 ainda possa divertir tanto e, ouso dizer, conseguir ser melhor que qualquer uma das versões anteriores. Alugue, baixe, compre, aperte o cinto de segurança e prepare-se para mais de uma hora de ação ininterrupta e, muitas, muitas risadas.

Outras animações da Dreamworks no Crítica em Série:
Megamente
Como treinar seu dragão

sexta-feira, 4 de maio de 2012

Anjos da lei

Expectativas, o outro lado da moeda

Direção: Phil Lord e Chris Miller
Título original: 21 Jump Street
Duração: 109 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Mai/2012

Lembro-me vagamente do seriado Anjos da Lei que passava na Globo no final dos anos 80 e começo dos 90 e basicamente a única coisa que me recordo é que tinha o Johnny Depp antes de ser Johnny Depp. Apesar de não ter noção dos detalhes, de episódios específicos ou mesmo dos personagens, apenas com poucas reminiscências já foi possível entender e me divertir com as melhores referências da "nova" versão, agora no cinema.

O contexto é o mesmo do seriado - policiais com aspecto jovem o suficiente para se passar por adolescentes combatem delinquentes juvenis nas high schools. Mesma premissa, resultados completamente diversos. Longe do dramalhão aborrescente com figurino bizarro (ou somente brega... eram os anos 80), o Anjos da Lei do século 21 foca em uma dupla de improváveis camaradas policiais e no quão idiota o próprio conceito do programa pode ser em uma segunda análise, homenageando o original da melhor maneira possível: sem tentar imitá-lo.

A principal sacada é mostrar uma inversão de papéis para os protagonistas em um período de menos de dez anos. Se em 2005, Jenko, interpretado por Channing Tatum, o típico jogador de futebol americano grande e acéfalo vive o seu auge, em 2012, é a vez de Schmidt, papel de Jonah Hill, entrar para turma dos populares com seu jeito nerd-sensível defensor das minorias.

Tatum, o Magic Mike, dessa vez não tem muitas oportunidades para mostrar as "qualidades artísticas" que fazem com que ele participe de um filme  atrás do outro (geralmente ruim, geralmente comédia romântica): está sempre vestido em todas as cenas. Livre desse pré-conceito ele tem a oportunidade para arrancar inesperadas risadas da platéia e mostrar uma boa veia cômica que quase consegue compensar sua usual canastrice. Por sua vez, Jonah Hill, que já havia provado seu valor, tanto cômico, quanto dramático, em alguns bons filmes como Superbad, Django Livre e Cyrus e até levou uma indicação ao Oscar como coadjuvante de Brad Pitt em Moneyball, consegue mais uma vez garantir seu espaço com um timing afinado e boa parte das melhores tiradas do filme.

Nenhuma comédia consegue ser totalmente imune a piadas sem-graça que morrem na praia nada deserta onde vão parar as boas intenções, e Anjos da Lei não é exceção - algumas das piadas nesse filme certamente entram pro hall de honra da vergonha alheia. No geral, no entanto, a química entre a dupla protagonista funciona muito bem e o filme, que não se leva a sério por um segundo sequer e ainda reserva umas surpresas sensacionais escondidas na manga, acaba sendo bem mais divertido do que eu poderia por um segundo sequer imaginar. As maldosas expectativas como sempre, dessa vez funcionaram em benefício da obra.

sexta-feira, 13 de abril de 2012

O segredo da cabana

Apenas por diversão, e se...

Direção: Drew Goddard
Título original: The cabin in the woods
Duração: 95 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Abr/2012

Cinco jovens vão passar o feriado em uma cabana isolada à beira de um lago no meio de uma floresta...Você já conhece a história e você já conhece o lugar, mas ainda assim, por algum motivo insano, se zapeando sem propósito pela TV tarde da noite você perceber que esse é o cenário armado, é nesse canal que você vai parar.

Contudo se a cabana do parágrafo acima for a cabana de O segredo da cabana, você provavelmente não terá suas expectativas correspondidas, mas provavelmente vai se deparar com algo ainda mais divertido e inteligente e talvez você tenha a resposta para o porque você parou no canal para começo de conversa.

Eu poderia discorrer por pelo menos uns vinte parágrafos a mais sobre o filme, citando o que deu (muito) certo e o que deu (infelizmente) errado, enumerando as referências a diretores, contando os clichês etc., mas a cada frase que escrevo, mais perto de estragar a experiência para meus caros leitores do Crítica em Série eu fico. Sou obrigado a deixar todas essas discussões transcendentais para uma mesa de bar (ou para a seção de comentários).

Porém, como essa crítica é absurdamente vaga, vale pelo menos dizer que esse é o típico filme "ame ou odeie", mas se o nome Joss Whedon remete a mais do que "o diretor de Os Vingadores", baixas são as chances de que você, muito provavelmente um(a) nerd como eu, vá estar no lado do "odeio". 

E, por fim, porque Roger Ebert é o crítico dos críticos (mas não leia a crítica dele antes de ver o filme, ela entrega mais do que deveria), é dele a palavra final:
"With most genre films, we ask, "Does it work?" In other words, does this horror film scare us? The cabin in the woods does have some genuine scares, but they´re not really the point. This is like a final exam for fanboys"
P.S. - E você sabe que um filme é feito por e para nerds, quando ele tem referências suficientes para gerar uma wiki própria (contenha-se e abra o link apenas se já tiver assistido ao filme).