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segunda-feira, 27 de julho de 2015

Wayward Pines

Shyamal... Quem?

Temporadas: 1
Episódios: 10
Situação: Concluída
Emissora: Fox
Showrunner: Chad Hodge (M. Night Shyamalan como produtor-executivo)

Imagine um giroflex com sua intensa luz vermelha girando na escuridão acompanhada de uma insistente sirene zunindo irritantemente e impedindo que você consiga pensar em qualquer outra coisa. Com essa imagem quero deixar dois alertas para você: passe longe de Wayward Pines e, caso vá ignorar o primeiro aviso, saiba que os próximos parágrafos vão estar repletos de spoilers.

Vendida como "Twin Peaks encontra Lost" e ostentando a "grife" M. Night Shyamalan (Sexto Sentido e... Outros filmes ruins), Wayward Pines deveria pagar penitência (Shame! Shame!) por sequer ousar comparar-se a esses marcos da televisão norte-americana. Há muito pouco da atmosfera fantástica e bizarramente familiar do show de David Lynch e menos ainda da estrutura narrativa inovadora ou da construção eficiente de mistérios da série de J.J. Abrams e Damon Lindelof.

Wayward Pines é amaldiçoado por diversos problemas, mas a escalação de Matt Dillon como protagonista, um ator que consegue declamar a frase "Você quase matou meu filho!" com a mesma entonação que ele diria "Adoro sorvete de pistache", talvez seja o mais evidente. Seu discurso é monotônico e carregado de uma empostação ridícula e seu rosto alcança no máximo umas duas ou três variações de expressões, sendo que o ator sempre escolhe a menos adequada para cada momento. Outros programas conseguiram se safar tendo canastrões como protagonistas (Prison Break vem logo à mente), mas só conseguiam faze-lo por conta de um roteiro bem estruturado.

A trama de Wayward Pines nasce de uma premissa interessante e com algum potencial, mas que é mal utilizada, focando nos ângulos incorretos e apressada por uma necessidade inexplicável de construir "viradas" a cada quadro (Shame! Shame! Shyamalan...). A construção dos principais dramas pessoais é rasteira e clichê, as resoluções dos conflitos são desencontradas e anti-climáticas, os acontecimentos mais expressivos não tem consequências à altura, pois o enredo quer partir imediata e rapidamente para a próximo momento "A-há!".

O programa, que visivelmente estrutura-se para ser um mistério, consegue abusar constantemente do pior inimigo do gênero: a exposição. Tudo é explicado da maneira mais literal possível. Não há espaço para ambiguidade e para que os expectadores confabulem acerca de suas próprias teorias. Uma decisão de direção tão errada que, a maior revelação chega na primeira metade de episódios, sem deixar qualquer espaço para dúvidas e simplesmente torna irrelevante tudo o que vem depois dela.

A enfermeira Pam, interpretada pela veterana, Melissa Leo, é a personificação dessa bola de neve expositiva que desce das montanhas geladas de Wayward Pines para atropelar o espectador desavisado. Assim que conhecemos Pam, ela mostra-se um mix de sadismo e reticente loucura que rouba todas as cenas (ainda que, dividindo a tela com Dillon, isso seja o equivalente ao proverbial roubar doce de crianças). A partir da revelação principal, ela vai veloz e inexplicavelmente tornando-se uma personagem amorfa e insossa até que (pobre Melissa) termina espremida dentro de um ridículo colante prateado tentando dar dramaticidade a uma cena que já está longe de qualquer salvação. 

Ao invés de trabalhar as questões existenciais e sociológicas que o seu cenário engendraria, Chad Hodge, o showrunner, prefere focar seus esforços na ação, em dramalhões rasos e mal construído, em proto-romances desnecessários e numa discussão sobre o autoritarismo conduzida sem qualquer sutileza. Nas mãos de bons diretores e roteiristas, a premissa de Wayward Pines poderia render muito mais mistério, tensão e arrebatamento.

Inclusive não é preciso forçar a imaginação para constatar o que a série poderia ter sido, pois os primeiros episódios apresentavam alguns bons indícios da direção correta. Neles, você tinha a participação de ótimos atores e atrizes que realmente captaram o espírito - Terrence Howard (Homem de Ferro, Crash) que fez um xerife maníaco e simpaticamente aterrorizante e Juliette Lewis (Assassinos por Natureza) que fez, bem, mais uma versão de Juliette Lewis, ou seja, alguém de quem você nunca sabe onde acaba a dissimulação e começa a loucura, são ótimos, porém não os únicos exemplos. Nos poucos episódios em que eles aparecem, o enredo foca em construir narrativas possíveis, expandir cenários, criar atmosfera e não muito depois que eles deixam o elenco, a história entra numa espiral auto-destrutiva sem muitas explicações.

Como M. Night Shyamalan ainda consegue financiamento para os seus projetos depois de anos de fracassos é o mistério mais intrigante que você vai encontrar em Wayward Pines. Diferente de todos os outros que são explicados em detalhes não solicitados, esse ainda vai ficar em aberto. Suspeito que não seja a última vez que ouvimos o nome que ninguém sabe pronunciar, mas espero que nenhum executivo da Fox aprove uma segunda temporada para essa série (Shyamalan já deu entrevistas falando que têm "boas ideias" para uma continuação). Eu já cumpri mais do que meu dever ao me arrastar até o final dessa primeira empreitada e não contem comigo para fazer o mesmo num possível retorno dessa bagunça. Vai ter quem goste, com certeza, mas como dizem por aí, opinião é como... bicicleta e cada um tem a sua.

terça-feira, 24 de março de 2015

Garota Exemplar (Livro)

A faceta mais aterrorizante do casamento

Considero quase impossível fazer uma análise desse livro sem revelar detalhes da trama. Por esse motivo, segue no primeiro parágrafo, o arremate que estaria reservado ao último: um ótimo livro de suspense que vai fundo em analisar os perigos que rondam um casamento e a difícil dinâmica entre um homem e uma mulher. É diversão garantida com um bom tanto de reflexão e recomendo sem maiores ressalvas.

Vamos agora à análise que pode conter spoilers.

Só para começar: ainda que a tradução do título para o português seja bastante própria para o livro, ela altera consideravelmente a relação do leitor com o mesmo. No original, em inglês, Gone Girl, você pode entender "Garota que se foi" em seu sentido mais literal e que é totalmente apropriado para uma história cujo tema principal é o desaparecimento de uma mulher, mas você pode também aceitar o seu sentido metafórico como a garota já não está mais lá ou já se tornou outra pessoa. Nos dois casos estaríamos falando de uma garota genérica, como se representasse toda e qualquer mulher.

Garota Exemplar, o título em português, remete a uma temática muito específica, de uma garota que não comete erros, que faz tudo o que se espera dela. Algo extremamente em linha com um dos pontos mais relevantes do livro, mas que não representa o que me parece ser a intenção original da autora. Cito esse assunto apenas como uma ponderação, porque admito que seria difícil uma tradução que capturasse a essência do título original.

Garota Exemplar é um exemplo do que os americanos sabem fazer de melhor: replicar modelos de sucesso. Parece um livro escrito com uma fórmula ou roteiro com regras e métricas sobre o que inserir ou revelar em cada momento. Ele apresenta os personagens e inicia a ação rapidamente e vai distribuindo pequenos ganchos a cada, no máximo, 15 ou 20 páginas, fazendo com que o interesse se perpetue (estilo Dan Brown). Só que mesmo que a técnica seja perfeita, seria muito difícil alcançar o sucesso sem um tema que falasse diretamente à alma do leitor: no caso de Garota Exemplar, a incomunicabilidade entre o homem e a mulher e a difícil missão a que eles se propõe de manter um casamento. 

Boas histórias de terror e suspense são aquelas que intensificam o lado perverso de algo que culturalmente consideramos positivo. Quando você transforma a gestação e o nascimento de uma criança em algo perverso, por exemplo, você atinge mais profundamente sua audiência. Em Garota Exemplar, o protagonista monstruoso é a relação de Amy e Nick e principalmente o seu casamento. Pequenas frustrações ou dificuldades de comunicação que permeiam o casamento de qualquer pessoa são amplificadas até atingirem níveis surreais. Contudo, como são calcadas na realidade, sempre fica a sensação de que "poderia acontecer comigo".

Amy e Nick, os polos dessa relação tão doentia quanto usual, são personagens construídas para parecerem reais, mas ao mesmo tempo funcionarem como arquétipos do masculino e do feminino, tanto das características boas, quanto das menos desejáveis. Amy é é uma sociopata, mas é tão fácil me identificar com ela que chego até a ter medo. Nick também é um sociopata, mas como homem não é difícil empatizar com suas angústias e seu desespero. As duas personagens são incríveis, mas Amazing Amy é de longe a que merece um lugar na minha memória eternamente. Se não por mais nada, pelo seu monólogo no início do segundo ato do livro e suas reflexões sobre a "garota legal (cool)".

Falando em segundo ato, vale mencionar que a estrutura narrativa e o formato da história são outros atrativos do livro. Alterna entre a narração em primeira pessoa por parte de Nick, conforme os eventos se desenrolam após o desaparecimento, e a exposição do diário de Amy que desvenda a vida anterior do casal na forma de flashbacks. Amy em seu diário desenvolve o relacionamento dos dois desde o momento em que se conheceram e sua visão é contraposta às lembranças e reminiscências de Nick nos dias atuais, formando um painel de expectativas e desilusões antagônicas e tristemente familiares.

Infelizmente, para leitores e expectadores de mistérios e thrillers, uma das revelações principais acaba não causando o espanto que deveria, mas os pequenos ganchos de cada um dos curtos capítulos mantêm um ritmo fluido e o interesse não diminui (terminei o livro em praticamente uma sentada). É necessário também que se suspenda a descrença em algumas passagens que forçam a mão, mas no ponto em que elas acontecem você já está tão interessado no destino de Nick e de Amy que vai deixar passar muita coisa.

Como normalmente acontece, muita gente vai deixar de ler esse livro e conhecer a história apenas pelo ótimo filme do diretor David Fincher. Infelizmente o papel tem muito mais a oferecer do que o que é mostrado nas mais de duas horas de tela. Amy e Nick são muito complexos e há muito mais a se absorver deles do que simplesmente ouvir e ver a sua história.

sábado, 7 de agosto de 2010

Persons Unknown S01E09 - "Static"

Hecatombe Nuclear


Seria possível alegar que esse episódio não foi  pior que o sexto simplesmente porque nele a história avançou consideravelmente. Contudo, os roteiristas (se podem ser chamados dessa maneira) conseguiram a proeza de deixar todas as cenas sem exceção entre ruins e catastróficas.

A pior de todas foi certamente aquela em Renbe e Damatto ficam "perdidos na selva" depois de serem perseguidos pelos "Azules" (como o padre os chamou em uma sequência que de tão ruim eu estou até agora na certeza de que vamos descobrir que era tudo armação). Nessa cena,  cada uma das falas ou está totalmente fora de contexto ou é de uma forçada de barra extrema. 

Ela foi a cena "romântica" mais tosca e a declaração de amor mais fora de contexto ou sem propósito que já tive o desprazer de assistir. Não dá para acreditar que a intenção era realmente que acreditássemos em emoção genuína ali. Eu consigo pensar em umas mil maneiras diferentes de simplesmente "enrolar" sem precisar fazer o telespectador passar por isso.

Por sua vez, Joe não-me-toque-amnésico-superperigoso Tucker conseguiu ganhar o troféu de personagem mais constrangedor. O conceito é errado do começo ao fim e não há nada que façam que salve o personagem daqui para frente depois dessa descida ao inferno. Flashes de violência ativados pelo toque? Faca levantada e depois suspensa no ar em um momento "me segura se não vou fazer uma besteira"? Luta interna para tentar suplantar a lavagem cerebral por "amor"  (a série teria pelo menos ganho um voto de confiança se ele simplesmente tivesse jogado ela do prédio)? Faça-me o favor!

Com relação à divulgação paulatina de informações sobre o "Programa", a mudança de perfil foi tão brusca que tive a sensação por um momento que esse era o começo de uma outra temporada. Repentinamente, cenas dos escritórios do "Programa" e participantes dele começam a ser mostradas como se elas estivessem lá desde o primeiro episódio. Como assim? 

E falando em cenas constrangedoras, existe algo mais primário e bobo do que aquela do "chá frio"? A diretora parece vilã de filme dos Trapalhões. Será que na escola de roteiros não ensinaram que um personagem não fica mais ameaçador só porque todos os outros personagens ficam dizendo que ele é ameaçador? 

E o eterno lenga-lenga do "vamos linchar Joe" que nunca dá em nada? E Moira que era todo preocupada em analisar e entender as pessoas e buscar uma solução pacífica querendo "dar um fim" ou "tirar fora da equação" o Joe "Bourne" Tucker? É tanta coisa ruim que fica difícil parar de escrever sobre elas.

Tudo ficou tão ruim na segunda metade de Persons Unknown que fico o tempo todo torcendo para pelo menos no final descobrir que tudo era uma encenação ou fazia parte de uma realidade alternativa ou qualquer outro esquema que normalmente tornaria a série um desastre, mas que nessa poderia justificara falta de coerência dos personagens, suas mudanças bruscas de personalidades, suas atitudes despropositadas, os diálogos primários e o roteiro esburacado.

Mais quatro episódios ainda até o final... Dai-me paciência!

E como é sempre importante ter opiniões diferentes, segue aqui uma  diametralmente oposta à minha. 
Mas uma outra descendo o pau também aqui.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Origem

Nolan é o cara!

Direção: Christopher Nolan
Título Original: Inception
Duração: 148 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/10


Ele começou em 2000 com a original narrativa invertida de Amnésia. Seguiu com a tensão noir na plena luz do infinito dia de verão do Alasca com Insônia. Na sequência, ele mostrou como montar uma origem impecável para um super-herói em Batman Begins. Com Christian Bale de novo elenco, adicionou Hugh Jackman e Scarlett Johansson e Presto!, um filmaço sobre obsessões com O Grande Truque. Ainda não satisfeito, foi lá e montou o filme "definitivo" do Batman com o Coringa mais aterrorizante já imaginado em The Dark Knight. Agora, Christopher Nolan atinge seu ápice (temporário) com A Origem.

Recomendação baseada única e exclusivamente na minha opinião: A Origem é essencial - vá para o cinema na primeira oportunidade!

Resumo rápido e objetivo do enredo para quem não dá a mínima para a minha opinião e só quer saber o básico sobre o filme para decidir se vai ao cinema: profissional especializado em roubar segredos da mente das pessoas invadindo seus sonhos precisa juntar uma equipe para o seu trabalho final e também o mais complexo e elaborado de todos - implantar uma idéia na cabeça de um jovem milionário.

Resumo rápido e subjetivo para quem acha que a objetividade anterior não ajuda em nada no processo decisório: A Origem = O Plano Perfeito + Waking Life + Matrix - uma história de "roubo de banco" com os usuais planos mega-elaborados dependentes de perfeita sincronia, habilidades especiais e muita dissimulação, só que ao invés de bancos, mentes e ao invés de dinheiro, idéias, tudo isso no esquema Matrix de "o que é real e o que é ilusão?" com efeitos especiais de ponta.

Assim como o último filme que critiquei com Leonardo Di Caprio no elenco (Ilha do Medo), fica difícil falar sobre o roteiro de A Origem de uma maneira que não estrague a experiência. Vale dizer apenas que você pode ir sossegado para o cinema porque, no mínimo, A Origem é um ótimo filme de ação com um roteiro inteligente. Contudo você pode aproveitar também as outras inúmeras "camadas" ou "níveis" de experiência que ele oferece. Deixe seu subconsciente buscar livremente os elementos estranhos, perca-se entre as aparentes incoerências e permita-se enganar pelas ilusões de A Origem.

Ao assistir o filme, tenha em mente que Nolan ficou aparando arestas e revisando o roteiro durante mais de dez anos. Nada escapou a esse refinamento e cada diálogo, cada detalhe da cena foi escolhido e incluído com algum objetivo (ou vários). Lembre-se também do currículo dele e que você está assistindo um filme que trata de quebra-cabeças, labirintos, ilusões. Inevitavelmente, um bom diretor vai incluir uma camada metalinguística nesse texto e te colocar na mesma situação dos personagens: perplexo e desorientado, sem saber o que é real ou não.

A trama é muito envolvente e não perde o ritmo em nenhum ou no máximo em pouquíssimos momentos (geralmente quando repete mais de uma vez a mesma "regra de funcionamento") e o elenco é mais do que sólido. Desde aqueles novatos no universo do diretor como Di Caprio, Joseph Gordon-Levitt (500 dias com ela), Ellen Page (Juno) e Marion Cotillard (Piaf), passando pelos que estão repetindo a dose como Cillian Murphy e Ken Watanabe (Batman Begins) e fechando com a aparição relâmpago, mas sempre relevante do arroz-de-festa Michael Caine (já no seu quarto trabalho com Nolan).

Quanto mais penso e discuto sbore cada uma das cenas, mais idéias vêm à cabeça... Não é a praia de todo mundo, mas certamente vai deixar alguns cinéfilos bem contentes. Gostaria muito de explorar mais o filme nesse espaço, mas é impossível sem spoilers. Guardo para os próximos chopps (ou simplesmente para o espaço de comentários abaixo).

Agora, o jeito é esperar para ver a terceira investida do diretor com o homem-morcego com estréia no longínquo verão (nosso inverno) de 2012 e assistir novamente A Origem assim que der.


PS. - Para balancear com uma avaliação menos positiva, clique aqui.

sábado, 17 de julho de 2010

Persons Unknown S01E06 - "The Truth"


What the f#@$?! 

Sabe-se lá o que aconteceu da semana passada para essa com os roteiristas de Persons Unknown. Quando eu imaginava que a série estava pegando a estrada certa, vem uma derradapada desastrosa como esse. A equipe tirou férias e os estagiários tomaram conta? 


Ok. Na cidade até que as coisas seguem bem e a sequência com Joe funciona. Mas é a única coisa que funciona em todo o episódio. As outras personagens agem aleatoriamente, naquele nível tosco em que o próprio roteirista reconhece e verbaliza o ridículo do seu texto por meio das próprias personagens. Quando uma delas não está destruindo coisas no salão em uma das cenas mais sem sentido até o momento, as outras estão falando de reagentes químicos, venenos e antídotos como se estivessem discutindo sobre o cardápio para o jantar. 


Toda a sequência com Renbe e Damatto é ridiculamente mal executada. Tomadas de ação toscas e desnecessárias, personagens aparecendo do nada, diálogos forçados, atuações beirando o patético. O que foi aquela cena com os mafiosos fugidos do outdoor da Dolce & Gabanna? Tem como ser mais tosco? 


E o final? Uma lata de anticongelante gigantesca que parecia ter saído direto de uma fábrica ACME. Poderia ser mais sutil? 


Constrangedor...

PS. - Para não dizer que não sou justo, há seres na net que não pensam como eu e você pode ler algumas resenhas mais favoráveis aqui e aqui.

segunda-feira, 5 de julho de 2010

Persons Unknown S01E05 - "Incoming"



Só faltam as "pessoas"


Alerta: o texto abaixo pode conter revelações não desejadas desse episódio que ainda não foi ao ar no Brasil

Persons Unknown acertou finalmente o passo e a história começou a ganhar cadência. Com a inesperada morte de uma das personagens e a introdução de outra, a história ficou mais dinâmica e finalmente colocou as personagens na posição de cadáver em potencial. Até então, tudo parecia uma experiência inofensiva. Cheguei a pensar até que tivesse um caráter "educacional" e que qualquer ameaça real seria neutralizada. Afinal, apesar dos perigos pelos quais eles passavam, nenhum realmente colocou-os numa situação em que efetivamente pudessem morrer - as que o fizeram, poderiam ser revertidas no último instante. Teria sido melhor se tivessem colocado essa carta na mesa logo no primeiro episódio, mas nunca é tarde. 

Contudo, falta agora à série conseguir fazer com que nos importemos com o destino dessas pessoas. Em termos técnicos, não há nenhuma falha fatal no roteiro - o ritmo está acelerado, a história fora da cidade falsa está avançando, viradas no roteiro estão aparecendo e eles não estão enrolando muito em cima delas - só que enquanto você não quiser saber mais sobre essas pessoas ou simplesmente passar mais tempo com elas, não importa o que aconteça em volta. 

Falta pouco para saírem do regular para o bom, mas ainda tem um bom número de episódios pela frente para isso. 

E aí? O que estão achando?

segunda-feira, 28 de junho de 2010

Persons Unknown S01E04 - "Exit One"

Dividir sem conquistar

Mais uma semana, mais um episódio de "Persons Unknown" para me deixar divagando sobre o que poderia ter sido... Dessa vez, ao invés de seguir um eixo principal, a história divide-se em três subtramas paralelas e apenas uma delas é satisfatória.

Na primeira delas, Joe e Janet aprofundam sua relação durante uma oportunidade de escapar da cidade. Se você desconsiderar que as reações dela parecem às vezes um pouco histéricas demais, essa é justamente a trama que funciona. Contudo, é preciso ter fé que os elementos "exóticos" como o taxista árabe, o caminhão negro misterioso à la "Encurralados" e mesmo o enxame de abelhas tenham todos um propósito e não sejam o propósito em si mesmos. Sigo acreditando!

A segunda, dedicada a desenvolver Toti Fairchild sofre de execução precoce. Se houvesse mais tempo para criarmos empatia pela personagem, se a sua tentativa de sedução do conciérge fosse menos óbvia e mais gradual, se ela não tivesse regurgitado toda a sua história de abuso de uma só vez naquele coreto e isso fosse sugerido aos poucos, talvez a personagem tivesse funcionado bem e qualquer virada que ocorresse com ela no futuro teria bastante impacto. Contudo, aparentemente, eles queriam tirá-la logo da série e perderam mais uma boa oportunidade.

Na trama de Charlie e Bill, o problema é outro: irrelevância. Mesmo que Charlie efetivamente tivesse sufocado Bill ou que ao menos algo parecido venha a acontecer em episódios futuros, o impacto é muito pequeno, porque são dois personagens que não geram qualquer interesse e que até o momento não parecem servir para qualquer coisa na trama maior. Nesse caso, ao contrário do de Tori, quanto antes tirá-los da história ou transformá-los em personagens relevantes, tanto melhor.

Os três minutos finais seguraram o episódio na classificação média. A virada repentina e inesperada, o local, a iluminação e a música de fundo remeteram muito à bons momentos "escotilha" de Lost. Porém não dá para sustentar uma série só nos ganchos surpreendentes. O episódio anterior pelo menos construiu uma trama interessante para os trinta e poucos minutos anteriores, espero que eles voltem pelo menos a esse patamar no próximo.

Ps. - Não havia comentado ainda: a abertura da série em tons cinzas e música sinistra é definitivamente muito boa.

sexta-feira, 8 de janeiro de 2010

Sherlock Holmes

Porcos e dois canos fumegantes, meu caro Watson!

Direção: Guy Ritchie
Título Original: Sherlock Holmes
Duração: 128 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Janeiro/2010

Robert Downey Jr. novamente interpreta a si mesmo e constrói um Sherlock Holmes muito próximo do Tony Stark de Homem de Ferro - divertido, inteligente e bom de briga. Os outros atores também cumprem bem seu papel, em especial Jude Law, mas mesmo ele não deixa de ser, na maior parte do tempo, escada para Downey.

A trama é bem costurada, como seria de se esperar de uma história de Holmes, mas a conclusão é um pouco insatisfatória. A impressão é de que em um filme de duas horas, todas as soluções da trama estão concentradas em apenas uma ou duas das cenas.

Porém o que importa realmente aqui é ser ultra-mega-hyper-cool! E dá-lhe diálogos rápidos e espertos, jogos de câmera, sequências videoclípticas, ênfases em câmera-lenta e outros truques que já vimos Guy Ritchie usando bem em ótimos filmes como Snatch, Efeito Dominó ou Jogos, Trapaças e Dois Canos Fumegantes.

Vale o comentário também que a Londres de Ritchie com a Tower Bridge ainda em construção é, mais uma vez, muito cool!

Enfim, não é o Sherlock Holmes que você provavelmente tem na cabeça, mas passado o momento de estranheza, dá para se divertir um bom tanto com essa nova versão.

sexta-feira, 22 de agosto de 2008

Senhores do Crime

Cru e Intenso


Direção: David Cronenberg
Título original: Eastern promises
Duração: 100 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2008

Tratando de temas comuns a filmes sobre máfias, nesse caso a Vory v Zakone russa, tais como laços de família, honra, traição e violência e apimentando  essa já enojante sopa com o sórdido tema da escravidão e exploração sexual de adolescentes, Senhores do Crime aumenta a filmografia "suja" de David Cronenberg - diretor de filmes como Marcas da violência, Crash, Spider e A Mosca. Tirando a eventual canastrice de Vincent Cassel, o elenco que conta com Naomi Watts e alguns figurões europeus faz um excelente trabalho, mas é Viggo Mortensen quem mais uma vez, entrega-se com gana impressionante a seu papel, interpretando com maestria um personagem moralmente ambíguo, hermético, insondável e ao mesmo tempo atraente e amedrontador. Pesado, intrigante e escuro, o filme é daqueles que ficam por mais tempo em sua mente do que você gostaria. Resta inevitavelmente um resquício de nojo e asco pela humanidade, mesmo que algumas cenas não soem tão autênticas e tirem um pouco da força da história. E se de alguns filmes algumas cenas ficam para sempre, a intensa e visceral luta na sauna deve ficar tão associada a Senhores do Crime quanto a dança de Uma Thurman e John Travolta a Pulp Fiction com sua fetichista, violenta e crua intensidade.

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A revolta de Atlas


Bastiões da moral e da virtude

A revolta de Atlas é um romance de mistério, mas ao mesmo tempo é um manifesto filosófico e é também um clássico da realidade distópica, no melhor estilo 1984. É classificado como ficção por seu enredo, mas poderia perfeitamente constar da categoria não-ficção por seus diálogos e discursos e sua defesa ferrenha de uma ideologia.

Na filosofia objetivista de Rand que permeia todas as páginas do livro percebe-se a influência de conceitos como o Übermensh de Nietzsche, a "mão do mercado" de Smith, a lógica de Aristóteles e muitos outros que de uma maneira ou de outra estão ligados ao individualismo e ao liberalismo defendidos pela autora. É uma argumentação contundente a favor do sistema capitalista e um painel sobre os horrores de um mundo em que a individualidade é sufocada pelas necessidades e desejos de uma massa etérea chamada de coletividade. 

Ao contrário do que normalmente se espera de bons personagens literários como ambiguidade e profundidade psicológica, os heróis de A revolta de Atlas são seres acima da humanidade, maiores que a vida, representantes de conceitos e idéias muito mais importantes do que eles mesmos. Longe de serem minimamente reais, não há como identificar-nos com eles, pois não são simples humanos, mas sim arquétipos, seres idealizados a serem admirados e espelhados pelas suas inabaláveis e coerentes ética e moral.

No sentido oposto, os vilões do livro são abjetos, odiáveis e aterradores e ainda que Rand dê uma chance de redenção a eles, transformando-os em meros elementos condutores para a ação de um mal maior e absoluto, ela não perdoa a fraqueza moral e falta de virtudes desses personagens. Ela, como seus protagonistas, é irredutivel e não concede compaixão aqueles que não fazem por dela merecer. Melhor ainda, ela considera compaixão justamente uma das raízes do fortalecimento do mal absoluto.

Dagny Taggart, diretora de operações da ferrovia Taggart Transcontinental, e Hank Rearden, CEO da siderúrgica Rearden Steel, são dois dos melhores personagens que já tive o prazer de acompanhar. Segui sua estória, temendo por seu destino e torcendo para que a cada novo desafio que seus inimigos lhes impusessem eles saíssem deles mais fortes e ainda mais inabaláveis. Por outro lado, odiar James Taggart ou o Dr. Floyd Ferris é fácil, catártico e libertador. 

Os mistérios que Rand vai criando ao longo do caminho desde a primeira página - "Quem é John Galt?", o crescente nível de ameaça, a trilha para o apocalipse de uma nação e talvez do mundo, garante que você continue a virar páginas e mais páginas e não querer largar mais o livro. Infelizmente, estamos falando de uma estória que, em letras pequenas, ocupa mais de mil páginas. E nem tudo são aplausos para elas.

O livro é extremamente repetitivo: a cada pequena evolução da estória, Rand pára e destila sempre os mesmos argumentos por vários parágrafos, reescrevendo a mesma coisa de centenas de maneiras diferentes. Além de interromper o fluxo da narrativa com uma frequência irritante, o discurso passa a ter um aspecto "lavagem cerebral" que é justamente a ferramenta comumente utilizada pelos que se opõe a ela - vide novamente o clássico 1984.

Um livro fantástico que só não alcança a perfeição porque faltou um editor de pulso firme que podasse a verborragia da Sra. Rand.

Coisas frágeis - Neil Gaiman

O problema de Gaiman


Coisas frágeis / Fragile things é um compêndio de várias histórias de Neil Gaiman escritas ao longo de anos, para diferentes fins e em diversos contextos. No Brasil, essa seleção foi lançada em dois volumes e, como li o original, não sei exatamente quais dos contos, poemas ou pequenas novelas ficaram em cada um deles, então, de certa forma, estou avaliando ambos aqui.

É impressionante notar o quanto a grande maioria das histórias, para não dizer todas, tem a marca "Gaiman" transbordando do início ao fim. Como geralmente acontece, esse tipo de comentário costuma ser o principal atrativo e a maior detração para qualquer tipo de obra cultural. Para os leitores mais antigos, isso pode ser tanto um alento - encontrar exatamente aquilo que se está esperando, quanto uma frustração - encontrar apenas um caça-níquel composto do que parecem ter sido rascunhos de outras obras ou uma reciclagem de material já utilizado. 

Uma história bastante representativa dos cacoetes de Gaiman e dos argumentos do parágrafo anterior é certamente A vez de outubro / October in the chair. Nela são evidentes três dos principais artifícios que você vai encontrar na maioria dos livros e contos do autor:

1) Personificação de conceitos: aqui os meses do ano são personagens que se reúnem para contar histórias relacionadas a si mesmos. Em Sandman temos os Perpétuos (Sonho, desejo, morte etc.), em Deuses Americanos / American Gods temos novos e antigos deuses e por aí vai. Ess é um recurso do tipo "em que time que está ganhando não se mexe" de Gaiman. Pegue um elemento literário ou da cultura já bem estabelecido e utilize em um narrativa moderna ou com um olhar completamente diferente do contexto original. Ele não é o único autor a lançar mão desse recurso (J.K.Rowling fez bilhões dessa maneira), mas certamente é um que abusa dele.

2) Crianças convivendo com o extraordinário ordinariamente: Coraline, os garotinhos fantasmas em Sandman, Ninguém/Nobody Owens em The Graveyard Book e outros personagens do tipo aparecem constantemente em seus trabalhos. A inocência de crianças vivendo situações que seriam aterradoras para os adultos é um contraste sempre interessante, mas cansativo quando usado à exaustão.

3) Coitus interruptus: a história abre, elementos extraordinários vão sendo adicionados, algumas pistas são jogadas e, por fim, a ela é interrompida antes que uma conclusão satisfatória seja alcançada. Em Coisas frágeis / Fragile things, esse cacoete alcança níveis irritantes, e na grande maioria das histórias, é impossível distingui-lo de simples "preguiça" ou de inaptidão - Pó amargo / Bitter grounds, Como falar com garotas em festas / How to talk to girls at parties e muitas outras sofrem desse problema.

Não me entendam mal, continuo preferindo Gaiman a muitos outros autores mais "sérios", mas a "genialidade" que via nele na adolescência desapareceu completamente em um nível que já não sei dizer se um dia esteve mesmo lá. O autor fez sucesso com um estilo e manteve-o para o resto da vida sem arriscar. 

O próprio Gaiman em várias histórias anteriores e em algumas nesse livro levanta o poder das histórias e como elas parecem sempre ter estado lá, apenas mudando de aspecto e se adaptando a novos tempos e situações como se houvesse somente um número limitado de histórias "em estado bruto". 

Sobre a seleção em si de histórias de Coisas Frágeis, destaco algumas das melhores: 

Um estudo em esmeralda/ A study in Emerald que mistura Sherlock Holmes e o universo de H.P. Lovecraft em um conto muito bem escrito que respeita os estilos de ambos os autores homenageados e ao mesmo tempo cria algo único a partir dessa fusão. 

O problema de Susan / The problem of Susan é uma releitura do final de As Crônicas de Nárnia, um livro que abandonei já nas primeiras páginas e cujo final (aqui explicitado) só deu argumentos a favor dessa decisão. Mesmo sem ter lido, fico feliz com a "versão de Susan" proposta por Gaiman que deve ter deixado felizes todas as pessoas sensatas que devem ter achado um absurdo a escolha de C.S. Lewis para o destino de sua personagem.

Para quem leu Deuses Americanos/American Gods, O monarca de Glen/The monarch of Glen é uma estória deliciosa (mas, como sempre, derivativa) protagonizada por Shadow, o personagem principal do livro, e que se passa dois anos após os eventos finais. Ela conta ainda com a participação de Mr. Alice e Mr. Smith que são os protagonistas de outro ótimo conto do livro Lembranças e tesouros / Keepsakes and treasuries. 

Neil Gaiman é sinônimo de texto enxuto, rápido, sem grandes arroubos narrativos, derivado de ideias e personagens clássicos com uma pitada de elementos góticos e sombrios. Coisas frágeis / Fragile things é um ótimo ponto de partida para a obra desse autor porque contém todos os artifícios que o caracterizam e pelo mesmo motivo é mais do mesmo para os veteranos... mas mais do mesmo de algo bom geralmente não é demais.

Outras resenhas de livros do Crítica em Série:

As aventuras de Pi
A volta do parafuso