terça-feira, 11 de novembro de 2014

Precisamos falar sobre o Kevin

Tema Dificíl, Inúmeras Interpretações

Direção: Lynne Ramsay
Título Original: We need to talk about Kelvin
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2012

Há algum tempo não tenho tanta dificuldade para escrever sobre um filme. Precisamos falar sobre Kevin é um espécime bastante peculiar. Explico-me. Assim que os créditos subiram, meu sentimento era de que o filme tinha passeado por diversos pontos e não chegado a lugar algum. O filme termina em um ponto que parece incoerente com tudo que o precedeu e ao mesmo tempo há elementos que o tornam possível. Não me pareceu um filme bom. Contudo, quanto mais penso nele, mais vejo que há conteúdo de sobra e há diversas discussões interessantes esperando para serem iniciadas escondidas entre cores, expressões faciais, pedaços de história.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que fotografia e direção de arte são tocadores de bumbo dessa película. E isso é, novamente de maneira interessante, sua maior força e sua principal fraqueza. A força vem da carga simbólica que é pensada para cada cena. O filme abre com a personagem principal, Eva Khatchadourian, sendo carregada por uma multidão no que parece ser a Tomatina, a festa espanhola do tomate. Lembra uma orgia banhada a sangue. Eva está em êxtase. Eva é uma escritora-viajante, conhece o mundo e vive a vida do ultraurbano feliz e descolado, mas o banho de "sangue" prenuncia o que será a sua realidade. 

São mostrados quatro períodos distintos da vida de Eva que parecem todos ser um único. Os tempos se mesclam para tentar criar uma relação de causa-efeito ou, no mínimo, uma correlação. Cenas são encadeadas com elementos em comum para que o telespectador crie as conexões que não foram mostradas. Tudo é simbólico. Respostas não são dadas, mas induzidas. Eva toma pílulas e bebe, Eva está em choque, Eva está extasiada. Em quase todos os momentos Eva parece estar em um estado que permite interpretarmos que tudo que vemos é visto com os olhos de Eva, tudo se confunde, presente e passado são a mesma coisa. As atitudes das pessoas parece estranha: o filho é excessivamente maligno, o marido estupidamente iludido, a filha absurdamente meiga. Vemos a realidade ou vemos o mundo com as lentes de Eva? 

Tudo isso eleva o filme a patamares superiores, criando camadas de interpretação para cada uma das cenas. No entanto, a estrutura é uma fraqueza ao descreditar a, por assim dizer, camada principal, ou seja, a história "real". Descredita a ponto de, no final, você simplesmente não comprar o desfecho e o filme cair na clássica avaliação "não fez sentido" reservada a exemplares ruins. Mesmo entendendo a dinâmica entre os personagens, é difícil aceitar a conclusão. É uma daquelas situações em que a atitude da personagem parece servir ao roteiro e não ser coerente com ela mesma. Contudo, são pouquíssimas as pessoas na audiência que poderiam efetivamente alegar entender a persoangem, já que pouquíssimas estiveram nessa situação extrema.

Não havia lido ainda o livro no qual o filme se baseou, mas o final foi tão desconcertante, que comecei a ler as primeiras páginas minutos depois do Netflix começar a sugerir filmes similares para continuar assistindo. A estrutura narrativa é completamente diferente e torna o "Precisamos falar sobre Kevin" do título ao mesmo tempo muito mais literal e ainda mais irônico: o livro é escrito na forma de cartas de Eva para o marido Franklin cerca de um ano e pouco depois do fatídico crime de Kevin. Já no início dá para ver que vários pontos que ficam completamente subentendidos no filme, são tratados, ainda que de forma sutil e indireta, com muito mais densidade e aprofundamento. 

Lynne Ramsay, a diretora, quer mostrar em imagens o que no livro é discutido com palavras, muitas palavras. A já centenária expressão "uma imagem vale mais que mil palavras" parece ser o modus operandi de Ramsay. As cores dão o tom e você precisa decifrar expressões faciais, entender o contexto, ligar o ângulo da câmera com o sentimento da personagem e decifrar muitos outros símbolos para poder absorver o que ela está querendo passar. Se no livro você terá várias oportunidades para aprofundar-se na alma de Eva através de suas divagações, auto-enganos e ilusões, no filme você terá que inferir as mesmas coisas a partir de olhares, esgares, trejeitos e expressões corporais. Não há narração, nenhum Morgan Freeman explicando didaticamente o que está acontecendo. 

Considerando isso, é essencial ter como protagonista uma atriz do porte de Tilda Swinton. Ela já tinha feito uma espetacular mãe em um filme de 2001 chamado Até o fim que poucas pessoas viram. Naquele, a mãe faz de tudo para garantir que o filho não seja acusado de assassinato, uma mãe clássica, entregue, muito diferente de Eva. A Eva de Swinton é uma mulher alquebrada, disforme, pálida e destroçada pela culpa. Em uma narrativa clássica, você se identificaria com a "vítima", mas Ramsay e principalmente Swinton não permitem que isso aconteça de forma fácil. Eva não é uma personagem simpática e de fácil identificação, porque Eva, a primeira mãe, a mulher primordial, rejeita e ao mesmo tempo sucumbe a seu papel "natural" e torna-se um alvo fácil para o julgamento não só das outras personagens da história, mas também da audiência.

Ezra Miller, assim como os pequenos Jasper Newell e Rock Duer constroem um Kevin estranho, difícil, diabólico e manipulador, porém, apesar de tais interpretações serem dignas de elogios, o resultado delas cria uma personagem que é um dos principais motivos para a difícil aceitação do desfecho da história. Sobra muito pouco ou quase nenhum espaço para qualquer análise de Kevin que não seja a do sociopata que vai gradualmente aumentando seu nível de maldade. Com um pouco mais de ambiguidade e zonas cinzentas, o filme teria também gradualmente saído no nível muito bom para excelente.

Há algumas tintas feministas de tonalidade forte no vermelho-sangue que rege o filme. Eva, dona de si, viajante, culta, independente passa a ser marionete das personagens masculinas e será apedrejada por não ter aceitado plenamente seu inevitável papel biológico e "natural". Eva submete-se inicialmente ao marido e posteriormente a Kevin, vítima de uma culpa que parece extrínseca a ela. Como conciliar a Eva pré-Kevin com a Eva pós-Kevin? Do pouco que li do livro, a discussão é mais complexa e envolve toda a cultura norte-americana ou mesmo ocidental, o vazio existencialista de nossa geração, passa por consumo e imagem e não necessariamente debruça-se sobre a opressão masculina. Porém, essa é uma interpretação válida como várias outras e daí nasce a força do filme (e mais ainda do livro).

Uma outra linha de interpretação possível é a possibilidade da fatalidade ter sido evitada se o contexto cultural fosse diferente. Precisamos falar sobre Kevin coloca o dedo em uma ferida exposta porque levanta a possibilidade de que talvez a tragédia não houvesse ocorrido se a sociedade não cobrisse de uma aura mítica a maternidade e não ditasse o que é moralmente correto relacionado a relação de uma mãe com um filho. Se Eva encontrasse em Franklin ou em qualquer outra pessoa empatia para seus sentimentos em relação a Kevin, é possível que a vida de ambos, mãe e filho, tivesse se desdobrada de outra maneira.

Apesar de se chamar "Precisamos falar sobre Kevin", o que menos os pais fazem durante o filme é falar sobre o filho. Essa incomunicabilidade, que também ocorre entre Eva e Kevin ou Kevin e Franklin (o pai), é talvez uma das principais chaves para a compreensão dos eventos. A ironia do título é ainda maior porque a mãe é não só escritora, mas uma escritora sobre viagens, que fala sobre outras culturas, tenta entender pessoas muito diferentes dela. Ela consegue entender rituais sagrados de uma tribo de  Bangladesh, mas não o próprio filho.

As discussões podem passar também pela alegoria pois, para somar insulto à injúria, Kevin é geneticamente muito similar à sua mãe. Ezra Miller, que interpreta Kevin adolescente, veste-se de maneira andrógina e tem um rosto muito parecido com o da "estranha" e pálida Tilda Swinton. Essa semelhança permite-nos ver Kevin como um alter-ego de Eva, ou como se ela tivesse expurgado de si um mal inexplicável sobre o qual ela permanecerá sempre responsável por acreditar ser versão monocromática de si mesma. Diferentemente dos horrores de um Alien ou de O bebê de Rosemary em que a mãe carrega o mal em seu ventre, Eva não deu a luz a um mal extrínseco a ela, mas apenas libertou o seu próprio lado sombrio. Como sua homônima bíblica, Eva deu a luz a Caim, mas também a Abel (Celia, a filha, é absurdamente boa) e tornou-se uma casca vazia, cuja moral e ética dependem dos seres a quem ela deu a vida e já não pode controlar.

Precisamos falar sobre Kevin é um ótimo filme que ultrapassa a barreira das suas quase duas horas de duração, abrindo margem para questionamentos posteriores. Acredito que ele fique ainda mais interessante se acompanhado à leitura do livro e estou eu mesmo entregando-me a essa tarefa atualmente (resenha do livro em breve). Vale a pena ver em um dia em que a pedida for por algo mais contemplativo e instigante e não pelo mero entretenimento. Aos amigos que já o viram: precisamos falar sobre esse filme.

Outras críticas de bons dramas no Crítica em Série:
Dúvida
Melancolia

domingo, 22 de junho de 2014

Orphan Black

Clonicamente Viável

Temporadas: 2
Episódios: 20

Ontem assisti ao último episódio da segunda temporada de Orphan Black, uma série canadense que vai ao ar pela BBC. Confesso que foi com um pouco de tédio e desinteresse que passei por um bom tanto dos episódios anteriores, quase sempre em dúvida se o tempo dispendido com essa ficção científica realmente era válido. Todos os episódios traziam um ou outro elemento que se destacava e pedia para que eu checasse pelo menos mais uma sessão antes de tomar a decisão. E nessa balada, já chegamos ao final de duas temporadas.

Não me entendam mal, Orphan Black é um bom programa, realmente bom, só que escorrega em pontos importantes e passeia muito frequentemente pelo tosco. Sabe aquelas situações quando você percebe qual a intenção dos roteiristas, vê claramente que não está sendo atingida e bate uma certa vergonha alheia? Orphan Black tem muitas dessas. Porém, também há muitas outras vezes em que mesmo eles usando subterfúgios manjados, fazem de tal maneira que é impossível não sorrir e pensar "Mandou bem demais!".

Orphan Black dá início a sua saga com Sarah, um tipo não muito honesto que aparentemente vive de pequenos golpes. Em um dia qualquer, ela presencia o suicídio de uma mulher praticamente idêntica a ela no metrô de Toronto. Sarah, malandra como só, resolve assumir a identidade da falecida com o intuito detirar alguma vantagem da situação (além da natural curiosidade de saber mais sobre sua recém-descoberta "irmã gêmea"). Isso obviamente não acaba bem e ela se vê envolvida em uma trama conspiratória daquelas que qualquer pessoa com juízo gostaria de passar longe.

Segue um spoiler à frente, mas que na verdade, é tão spoiler quanto falar que Os Sopranos é uma série sobre a máfia: Orphan Black é sobre clonagem, ou se preferir, é sobre uma atriz usando diversos tipos de perucas diferentes, falando em diferentes sotaques, criando personagens as mais diversas possível com extrema competência e virtuosidade (e mesmo assim acaba esnobada pelo Emmy por dois anos seguintes). 

Tatiana Maslany, que interpreta a(s) protagonista(s), faz horas extras para levar a equipe nas costas. As melhores personagens sem dúvida são as diferentes versões dela mesma. E não só porque é sempre um prazer vê-la se esforçar para dar maneirismos, sotaques, expressões diferentes para cada um deles, mas sim porque elas são as personagens que possuem algum tipo de personalidade bem definida e funções proeminentes na história.

Há outras boas surpresas em termos de caracterizações, mas algumas delas só se desenvolvem depois de um tempo. Até é um prazer ver os roteiristas tentando tornar alguns dos personagens mais interessantes ao longo dos episódios, mas infelizmente a maioria das tentativas não é bem sucedida. Um dos personagens mais importantes da primeira temporada passa a segunda sem ter o que fazer e faz participações que chegam a ser constrangedoras de tão forçadas. Outro, no entanto, cresce a cada nova revelação e é interpretado por um dos poucos atores da série que conseguem evocar mais do que dois sentimentos.

De maneira geral, as personagens femininas (quase todas intepretads por Maslany) têm bastante profundidade, enquanto as masculinas, são rasas e ainda prejudicadas por interpretações que beiram o ridículo. Talvez seja proposital, já que a série parece ter um subtexto de objetificação da mulher, da invasão da privacidade e muitas vezes do corpo e do DNA feminino. Os homens da série parecem estar lá apenas para ser o interesse romântico da(s) protagonista(s) ou ser a representação unidimensional de um aspecto masculino não desejável (invasivo, distante, ameaçador etc.). 

Orphan Black não consegue evitar os clichês mais básicos do gênero sci-fi como corporações maligna, conspirações, cultos etc. O grande esquema ou o contexto maior às vezes parece não trazer nada de novo para mesa, mas consegue surpreender de vez em quando. Contudo, são nos elementos humanos que o programa se sobressai. Muitas vezes as cenas aparentemente banais da mãe suburbana Alison são muito mais interessantes do que as investigações, perseguições e similares vividas pela "protagonista" Sarah.

As duas temporadas que já foram ao ar são carregadas de tensão e ação. A primeira trabalha com antagonistas individuais e a segunda toma proporções maiores e começa a envolver grupos e abstrações. A série sabe trabalhar muito bem no primeiro caso, mais contida, mas começa a se perder quando o enredo exige o tratamento de conceitos maiores. O último episódio da segunda temporada abriu espaço para Orphan explorar um território ainda mais amplo, o que, se não vier acompanhado de um orçamento maior, pode fazer com que a série se desgaste contando histórias que ela não tem capacidade de contar com qualidade.

Orphan Black volta para sua terceira temporada já agora em abril, com todo um novo universo para explorar. Pode ser que ela consiga sair do mediano e tornar-se uma das melhores séries da TV, ou pode ser que finalmente perca completamente a direção. Orphan é do time de Bates Motel: nunca chega a ser espetacular, mas tem personagens interessantes o suficiente para que você queira continuar acompanhando sua jornada e potencial de se tornar a série que você acredita que ela merece ser.

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O lobo atrás da porta

Cinema de gênero com qualidade e Made in Brazil


Direção: Fernando Coimbra
Título Original: O lobo atrás da porta
Duração: 100 min
Idioma: Português BR
Lançamento: Jun/2014

Tudo começa com o sequestro de uma criança no subúrbio do Rio de Janeiro. Acompanhamos, junto com o delegado interpretado por Juliano Cazarré,  os depoimentos de cada um dos envolvidos. Tentamos reconhecer nos detalhes quem está realmente falando a verdade. Pouco a pouco uma história de desilusões, obsessões, violência e horror vai se configurando a partir de uma premissa aparentemente banal e tristemente comum.

A competência do diretor/roteirista Fernando Coimbra aparece principalmente na maneira sutil como ele consegue colocar para segundo plano o que seria o enredo principal, deixando-nos incertos se estamos vendo um policial, um suspense ou um romance. E sem qualquer artifício barato ou enganação, o clímax é do tipo que todo roteirista gostaria de escrever: imprevisível, mas ao mesmo tempo inevitável. 

Sua inevitabilidade é ainda mais forte se você conhecer de antemão a história real na qual o roteiro se baseia, porém elimina qualquer possibilidade de imprevisibilidade. Acredito que simplesmente formular a frase anterior já seja um spoiler e agradeço a mim mesmo por não ter lido resenhas antes de ver o filme, o que permitiu uma apreciação muito maior do enredo, que é revelado pouco a pouco em uma economia de informações que funciona positivamente para a construção dos personagens e da trama. 

A direção e a fotografia complementam muito bem o roteiro, mantendo desfocados os elementos que estão mais distantes do centro, lembrando-nos que o que estamos vendo são memórias ou simplesmente versões de uma história que está sendo contada por alguém. Enquadramentos estáticos e cenas mais longas e sem cortes permitem que os diálogos e o trabalho dos atores ganhem destaque e tenham muito mais peso (mas também fazem com que o filme pareça ter um ritmo mais lento).

Pode não parecer digno de nota, mas impressionou-me bastante: as cenas de sexo são bem coreografadas e realmente tem uma história pra contar. Longe de serem gratuitas, elas dizem mais dos personagens do que a maior parte dos diálogos. Difícil me recordar de um filme em que uma cena de sexo tenha sido tão bem aproveitada para o desenvolvimento de uma relação ou de uma personagem. Percebe-se que é um roteiro estudado, que foi editado à exaustão para conter apenas aquilo que fosse necessário. Não há uma mensagem clara a ser passada, mas sim o incômodo de quem quer enxergar o mundo em preto e branco e que não consegue aceitar os seus mais de cinquenta tons de cinza. 

E para coroar um trabalho tecnicamente bem realizado, o estreante (em longas) diretor/roteirista ainda conseguiu três atores para protagonizar a história que se entregam completamente a seu trabalho. Leandra Leal, Milhem Cortaz e Fabiula Nascimento estão todos soberbos, mas Leandra merece uma menção especial pela quantidade de camadas que ela adiciona a sua personagem. Frágil e perigosa ao mesmo tempo, vítima e algoz mescladas de forma inseparável: mesmo sem conhecermos o seu passado ou sua vida fora da história sendo contada, você consegue perceber que há um mundo interior vasto, ainda que doentio, naquela mulher.

O filme, no entanto, só não alcança a nota máxima, porque acho que o humor, que geralmente brota na figura do delegado, parece um pouco deslocado do restante do clima estabelecido para história (além de não ter achado o trabalho de Cazarré no mesmo nível dos outros atores). Esse fator diminui um pouco a minha admiração pelo filme, mas certamente é uma avaliação bem particular e subjetiva e acredito que não seja um problema para maioria dos expectadores.

Independente disso, e sem partir para o ufanismo, é ótimo ver filmes brasileiros que não sejam comédias escrachadas, biografias ou exposições regionalistas. Porque não temos mais filmes de suspense, de terror, de ficção científica ou de fantasia? Orçamento pode até ser uma desculpa para os dois últimos (pode, mas não deveria), mas no caso dos dois primeiros, pode-ser fazer suspense e terror com praticamente nada. O lobo atrás da porta está aí para mostrar que "sim, nós podemos". Parabéns a Fernando Coimbra e todos os envolvidos. Espero poder ver mais do trabalho de vocês.

sexta-feira, 4 de janeiro de 2013

Detona Ralph

Parece novidade, mas não é


Direção: Rich Moore

Título original: Wreck-it Ralph

Duração: 108 min

Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2013


Detona Ralph é uma animação segura que segue um (bom) manual e não se arrisca em praticamente nenhum aspecto. Ela é produzida por John Lasseter, ex-Pixar, e é um produto com a marca Disney. Essas duas informações são o fundamento de tudo o que há de bom e de ruim no filme e base para a maioria dos comentários abaixo.

De maneira geral, o fato de Lasseter ser o produtor faz com que o filme pareça ser requentado, mesmo tratando-se de um universo ainda não utilizado em outras animações "mainstream". O roteiro segue em boa parte a estrutura de Toy Story, Monstros S.A. e outras animações da Pixar. Ralph é visivelmente uma versão "humana" de Sulley de Monstros, assim como Vanellope é uma Boo com mais idade. A reunião do "Vilões Anônimos" remete à terapia grupal dos brinquedos descartados de Toy Story e é muito difícil não comparar o vilão com o de Os Incríveis. Enfim, parece que é novo, mas foi só pintado e reformado.

O fato de ser Disney, por sua vez, faz com que o roteiro não fuja muito do tradicional, as lições de moral sejam dialogadas ao invés de simplesmente mostradas e no geral o filme seja muito mais formulaico do que poderia ser. Ao invés de focar na estória de Ralph e aproveitar para passar por diversos tipos de ambientes clássicos dos mais diferentes tipos de jogos, mais da metade do filme se passa no game "Sugar Rush", um jogo de corrida tipo Mario Kart com Princesas e outras personagens "fofinhos" que atendem melhor ao público que a Disney quer atingir (ou pelo menos é o que os executivos da empresa parecem acreditar).

Não ajuda muito também a menininha-em-perigo do filme ser propositadamente azucrinante e ainda ser dublada pela voz über-irritante de Sarah Silverman. Na prática o drama principal do filme é o dessa personagem e não o de Ralpha e ao mesmo tempo é muito difícil você se relacionar com ela e efetivamente se importar com o seu destino. Na primeira vez em que o "tilt" aconteceu e a personagem desapareceu por um segundo, torci sinceramente para que aquele fosse o fim daquela parte da estória e o roteiro seguisse para outra direção.

Apesar dessas escolhas que devem agradar as crianças e aborrecer os adultos, a primeira metade do filme ajuda bastante a levantar a avaliação. Há várias referências legais a jogos clássicos como Pac-Man e Street Fighter. O visual retrô do game "Fix-it Felix" onde Ralph vive e seus personagens pixelados com movimentos discretos e não contínuos é muito bacana, assim como o estilo ultra-moderno do ambiente do jogo "Hero's Duty" que Ralph invade.

Certamente se o filme tivesse continuado seguido a busca de Ralph pela medalha de ouro que o faria deixar de ser um vilão, Detona Ralph teria se tornado uma das melhores animações dos últimos anos. Imaginar o que poderia ter sido na mão de outra empresa é muito frustrante, mas ainda que  não cumpra com as expectativas de um jogador de video-game e fã de animações de longa data, ele certamente é um produto de qualidade com a "segurança" da marca Disney. 

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

As aventuras de Pi - O filme

Limitações cinematográficas

Direção: Ang Lee
Título original: Life of Pi
Duração: 127 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Dez/2012

Seria praticamente impossível avaliar o filme apenas pelo que ele é depois de ter acabado de ler e resenhado o livro ainda ontem, então não vou nem tentar. E para tornar uma longa conversa curta, o resumo da jornada é que a experiência cinematográfica é certamente válida, mas, como de costume, a literária é insuperavelmente melhor.

E vamos às razões (ou melhor ainda às crenças):

Parte da genialidade do livro é permitir que o leitor vá visualizando uma estória em sua mente, seja ela mais crua e gráfica, seja ela mais fantasiosa e onírica, seja ela pautada no épico ou simplesmente na descrição enfadonha e rotineira do dia-a-dia no mar. Não importa qual seja a estória que você está lendo, o dado relevante é que é uma estória que VOCÊ e só você está lendo. Você traz para a mesa seus próprios valores e crenças, assim como Pi o faz, já que a narração é em primeira pessoa.

No filme, muito já está decidido por você e a direção segue um caminho bem definido pautado pelo fabuloso, pintando com cores fortes, muita luz e muita grandiosidade os eventos que se seguem. O mar é um elemento mágico, o tigre é de uma vivacidade fantástica, ambos de uma beleza ímpar e selvagem. A presença divina manifesta-se do começo ao fim, desde as ensolaradas e bucólicas cenas dos créditos até os momentos finais.

Com tudo isso, o filme deixa muito pouco espaço para reinterpretações e releituras. Onde o livro permite uma multitude de significados e o envolvimento completo do leitor com a estória, o filme parece querer dar uma resposta "certa" e garantir um fechamento apropriado. Você só pode escolher uma das opções se aceitar ao mesmo tempo que ela não é a real e que você só a escolhe porque tudo indica que ela é a "melhor estória".

É fé baseada em escolha, não fé baseada em entrega ou em crença cega. É a fé que nasce do querer acreditar e não simplesmente do acreditar. Algo que vai contra a própria definição desse sentimento.

Algumas passagens mais fantásticas do filme são, no livro, muito mais calcadas na realidade, apoiada em tecnicismos de zoologia, botânica e navegação. No livro, a máxima com que o filme é vendido em seus pôsteres não é tão óbvia: não é necessário "acreditar no inacreditável", basta acreditar no improvável, o que é bem diferente.

Particularmente frustrante para mim, que acabara de ler o livro, foi a escolha do diretor, ainda que corajosa, de deixar que um personagem narrasse a estória em determinado momento crítico ao invés de mostrá-la, de utilizar imagens para torna-la mais real. Uma escolha deliberada que só reforça meu ponto anterior: a intenção parece ser entregar de bandeja um fechamento e só permitir ao público uma ilusão de escolha, fazendo com que muitos sintam que o final ficou "em aberto". 

Por esses e alguns outros equívocos As aventuras de Pi (o filme) nunca alcança a profundidade filosófica e o preciosismo estrutural de sua matriz literária. Está longe, porém, de ser um filme ruim. Tecnicamente fantástico, com cenários deslumbrantes e uma direção mais do que segura de Ang Lee, o filme mais do que vale a conferida, se não por todos esses bons atributos citados, ao menos pela "atuação" emocionante e verossímil de Richard Parker, o tigre que acompanha Pi em sua jornada. Um tigre para você "olhar nos olhos e enxergar a si mesmo".