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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A menina da neve

Perdido na Tradução


Na capa do livro uma menção à autora ter sido finalista do prêmio Pulitzer ao lado do preço promocional de quinze reais para uma edição de mais de trezentas páginas e bom acabamento. No painel de chegadas e partidas, um aviso de atraso do voo. Essa combinação fez parar em minhas mãos A menina da neve, livro de estreia da norte-americana Eowyn Ivey. Como passatempo ou leitura despretensiosa, a aquisição não planejada certamente compensou seu baixo custo, mas algo deve ter se perdido na tradução, pois o texto é de uma simplicidade que não justificaria a atenção recebida em seu país de origem.

Um conto russo chamado Snegurochka, ou "a dama da neve", é a base em que a autora constrói seu emocionante relato sobre a vida no Alaska no começo do século XX. Na versão original, assim como em sua variação, um casal mais velho e sem filhos faz um boneco de neve que ganha vida, e assim nasce a menina do título. No livro de Ivey, o casal protagonista é formado por Jack e Mabel, personagens marcados por um evento trágico que vão para o estado mais gelado da federação americana para recomeçar a vida, fugindo de lembranças ruins.

A principal arma narrativa da autora é a tensão entre realidade e fantasia. Após o primeiro encontro com a menina que supostamente surgiu da neve, os protagonistas se revezam no papel de cético ou de crente. A autora trilha tanto a senda da fábula moralizante quanto a do conto de sobrevivência realista, desajeitadamente se acomodando em uma espécie de realismo fantástico anglo-saxônico, ao qual falta o exotismo dos seus congêneres latino-americanos, com seus personagens de emoções afloradas e expostas que parecem navegar mais facilmente pelo absurdo do que os sisudos e pragmáticos norte-americanos. Essa dicotomia, no entanto, funciona na maior parte do tempo, ainda que em alguns trechos, talvez pela falta de melhor adaptação na tradução, os sentimentos e reações das personagens parecem não se adequar às situações.

Ainda que seja baseado em um conto-de-fadas, A menina da neve explora um território distante do felizes-para-sempre, e já nas primeiras páginas uma de suas protagonistas tenta abandonar a trama se afogando em um rio gelado. Ela é impedida pela densa camada de gelo superficial e o frio, o inverno e a neve serão a partir daí um elemento importante e ativo no restante da história, seja literalmente ou em todas as suas versões metafóricas e simbólicas, como o silêncio entre um casal, a temperatura de um corpo agonizante ou a frieza necessária para a sobrevivência.

Ivey também insere discussões sobre perda, maternidade, ligações familiares, as escolhas que fazemos nas nossas vidas e a importância do legado que deixamos através dos nossos filhos. Porém, todas essas divagações são rasas, óbvias e muitas vezes de um didatismo incômodo. A narrativa sai-se muito melhor quando concentra-se em sua camada mais mundana e factual, nas dificuldades de sobrevivência na fronteira setentrional dos EUA, na luta das personagens contra a fome, o frio, os animais selvagens e as noites infinitas de inverno. A autora, natural do Alaska, descreve com excelência a fauna, a geografia e o perfil da população que se dispôs a viver em local tão inóspito e extrai disso o maior valor do seu livro.

A tradução nacional deixa escapar alguns poucos erros de concordância e, de maneira geral, escolhe construções gramaticais que não soam naturais para o português. Esse estranhamento nasce de uma decisão por uma adaptação mais literal e pouco flexível. Parece fruto de um profissional competente de tradução, mas não de um escritor propriamente dito (esse normalmente adiciona sua própria voz ao texto original para, paradoxalmente, garantir mais autenticidade).  A própria autora tenta experimentos linguísticos que já parecem artificiais ainda em inglês. Ela tenta criar imagens e estruturas originais que acabam soando primárias, mais pretensiosas do que artísticas, marcas da inexperiência de uma escritora que ainda está se encontrando. 

Os deslizes técnicos, contudo, não diminuem a força de uma boa, ainda que simples e tradicional, história. Um conto fantástico, triste e belo ao mesmo tempo, que ganha mais relevância pela competência na construção do ambiente, tanto físico quanto temporal, A menina da  neve deve conseguir arrancar lágrimas de boa parte dos leitores (confesso que fui um deles) e agradar em cheio aos fãs de (melo)dramas históricos e sagas familiares. Se é emoção e uma certa dose de nostalgia por tempos não vividos que o leitor procura, esse é um livro que não deve decepcionar. 

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O oceano no fim do caminho - Neil Gaiman

Em busca de um tempo nada perdido

Por conta de resenhas e críticas que havia lido há tempos, comecei a ler o novo livro de Neil Gaiman, O oceano no fim do caminho, esperando algo mais calcado na realidade (não sei onde estava com a cabeça) e autobiográfico. Enfim, um livro que fugisse um pouco dos padrões de literatura fantástica do autor. Enganei-me fantasticamente. Gaiman não só está no seu universo, mas confortável e apaixonadamente entregue ao que ele faz de melhor. 

Recentemente, meu romance com os produtos da mente desse britânico andava um tanto quanto fatigado porque resolvi acompanhar o cara nas redes sociais e descobri que o ser humano Gaiman é muito menos interessante (e consideravelmente mais babaca) do que a sua obra. Além disso, Coisas Frágeis, o último livro que tinha lido dele é, quando muito, curioso e, na maior parte do tempo, apenas mais do mesmo. 

O oceano no fim do caminho, no entanto, reacendeu a fagulha desse amor literário. O livro é inegavelmente um produto da marca Gaiman, porém um exemplar do que ele consegue produzir de mais refinado. Uma história em que se consegue ouvir sua voz claramente e perceber a paixão que foi colocada naquelas linhas. Além de ser um trabalho de edição fenomenal, pois a trama foi visivelmente burilada até deixar somente o essencial para contar a história e cativar o leitor a maior parte do tempo.

Acompanhamos as peripécias de um garoto de sete anos sendo narradas por um homem de meia idade que, pelo contexto, parece ser um alter-ego de Gaiman relembrando a infância. O suicídio de um personagem dá início à trama principal, aparentemente libertando um mal desconhecido. Desconhecido para o protagonista, mas não para as místicas e poderosas mulheres do clã Hempstock, que já sabem de sua existência desde tempos imemoriais. De forma peculiar, o protagonista acaba servindo mais como uma âncora para o expectador maravilhar-se com essas intrigantes personagens femininas, a quem pertence efetivamente o foco da narrativa.

A linha entre a imaginação e o factual é muito tênue e é ultrapassada o tempo todo. Em um dos momentos mais tensos do livro, você tem certeza de que a ação é "real", mas a motivação pode vir tanto de algo fantasioso, como de algo muito mais bruto e cruel. Como em As aventuras de Pi, talvez a fantasia seja algo muito mais palatável do que a realidade, ou talvez a fantasia seja a realidade se assim lhe parece. Depende também de nós leitores e daquilo em que escolhemos acreditar, sendo que o enredo faz uso constante não só dessa ambiguidade, mas de muita simbologia.

Os símbolos parecem ao mesmo tempo serem óbvios e impossíveis de serem captados: seriam as Hempstock uma alusão a Santíssima Trindade? O oceano é uma imagem para o berço da vida ou simplesmente uma metáfora para o conhecimento e para o amadurecimento? A linguagem ancestral seria a palavra de Deus ou simplesmente uma alegoria para reforçar o poder do mito e das histórias? Em alguns momentos, as referências deixam de ser metáforas para quase simples e cruas comparações, e ainda assim é muito difícil agarrá-las com firmeza e certificar-se de seus significados.

Mantendo um de seus principais tiques narrativos, os personagens de Gaiman estão sempre envolvidos nas situações mais irreais possíveis e ainda assim eles se mantém reais. Você vê que eles não estão sendo levados pela história, mas que realmente a estão vivendo. Mesmo a naturalidade com que o protagonista de Oceano enfrenta determinadas situações fantásticas, parece mais verdadeira do que uma reação "apropriada" permitiria. É muito bem estabelecido que estamos falando não só de uma criança de sete anos, mas de uma com uma imaginação muito fértil, irrigada por leitura ininterrupta e por uma absoluta paixão por mitos e lendas.

O oceano no fim do caminho é um livro curto e rápido de ler, mas que remexe no nosso baú da infância e nos faz lembrar que a criança que fomos vai estar sempre dentro de nós e que aquilo que nos dava força há anos, estará sempre lá para nos mover mesmo em nossos momentos mais difíceis e desafiadores.  O livro não puxa você para o mundo dele, mas sim te empurra para dentro de si mesmo. Mais próximo do final, a vontade de chorar era quase irrepreensível e tenho consciência de as lágrimas vieram não pelos eventos que se desenrolavam no mundo de O oceano, mas pelas memórias e experiências que elas evocavam em mim mesmo.

Contudo, nem tudo funciona no livro e uma análise fria e técnica o colocaria na categoria "ótimo", para alguns leitores apenas "bom", e não "excelente/obra-prima" como escolhi classifica-lo. Ele, no entanto, conseguiu, especificamente comigo, transcender a relação de entretenimento puro e simples, para algo muito mais íntimo e seria uma injustiça avaliá-lo apenas pelos critérios técnicos. Aqueles leitores que se permitem enxergar o mundo não só com os olhos, mas também com a imaginação, provavelmente concordarão comigo.  

E você pode até esperar o filme (que segundo o IMDB já está em desenvolvimento e provavelmente será uma coleção de cenas oníricas fantásticas), mas para alimentar a criança que se escondeu dentro de você, bata a poeira que assentou-se sobre sua fantasia e deixe ela correr livre por alguma horas com as Hempstock. Você em algum momento vai se lembrar que já mergulhou no oceano no fim do caminho e que ele continua lá esperando sempre que dele precisar.

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

As aventuras de Pi - O livro

O espírito humano e a arte de contar uma estória

A "regra das vinte páginas", aquela que diz que é possível saber se vale a pena continuar lendo um livro ou não dependendo do efeito das primeiras vinte páginas sobre o leitor, não se aplica para As aventuras de Pi. Como muitas das melhores obras da literatura, essa só demonstra toda sua genialidade quando a última página do livro é virada.

Podem ser apenas os próximos minutos ou podem ser os próximos dias, mas pelo menos por algum período mínimo o leitor vai ficar pensando na estória literal que acabou de ser contada, depois pensará nas camadas metafóricas do texto, depois nos símbolos espalhadas ao longo das mais de 200 páginas, depois passará por uma reflexão interna sobre seus próprios valores, depois... Enfim, é impossível embarcar nessa jornada (um clichê muito adequado para esse caso) e sair dela incólume.

Simplesmente ao olhar a capa do livro você sabe o que vem pela frente: estamos falando da improvável estória de sobrevivência de um garoto à deriva em um pequeno bote com um tigre de bengala. Contudo ao ir desvendando cada uma das camadas do livro, você percebe que aceitar essa definição é o mesmo que dizer que o Novo Testamento é apenas a biografia de Jesus Cristo.

As Aventuras de Pi é um livro magistralmente escrito, cada parágrafo, frase ou palavra é sabiamente escolhido e como todas as boas estórias contadas em primeira pessoa, o narrador influencia o enredo, criando um filtro de emoções, pensamentos e ideologias que modifica e muito a interpretação da mesma. 

Informações técnicas dos campos da zoologia e botânica são cuidadosamente entrelaçadas aos acontecimentos e um mosaico perfeito é construído aos poucos onde cada peça se encaixa para fazer com que o todo faça sentido. Todos os fundamentos apresentados casualmente na primeira parte do livro servem para garantir a factibilidade dos eventos na segunda parte e as duas primeiras garantem à terceira parte, formada na maior parte por diálogos, uma profundidade emocionante.

A narrativa de Pi não é linear, principalmente a da segunda e maior parte que versa sobre os dias de Pi à deriva, o narrador vai e volta contando estórias do começo e do fim da viagem, um capítulo inteiro perpassando desde o primeiro dia até o último, um outro que fala de um evento específico. Uma estrutura narrativa que tenta replicar as recordações de um naufrago. 

Apesar de sabermos desde o começo de que o protagonista vai ficar vivo até o final já que ele está narrando a estória, todos os momentos tensos do livro conseguem manter o nível de angústia esperado, já que não sabemos "como" o protagonista chegou ao final ou o que aconteceu com os outros personagens. 

Escrever muito mais sobre o assunto é estragar a experiência, uma que pode acabar com sorrisos, em expressões de espanto ou mesmo em lágrimas. Essa amplitude de emoções é mérito da habilidade narrativa de Pi e do autor Yann Martel, mas também do próprio leitor que traz a própria bagagem de valores e  percepções e interpreta a estória a sua própria e peculiar maneira.

Acho que uma das passagens do livro que define perfeitamente o meu sentimento em relação a ele seria:

"My greatest wish — other than salvation — was to have a book. A long book with a never-ending story. One I could read again and again, with new eyes and a fresh understanding each time. Alas, there was no scripture in the lifeboat."

Yann Martel constrói um livro denso como uma escritura ou um livro sagrado (já que esse é um tema onipresente), para o qual você pode voltar metaforica e literalmente muitas e muitas vezes, aproveitar um novo ângulo e talvez entender mais sobre si mesmo. As "aventuras" de Pi são um veículo para algo muito maior do que a sua estória: uma discussão sobre crença, sobre fé, sobre religiões e principalmente sobre o poder das estórias em nossas vidas. 

Observações adicionais:

- Life of Pi ganhou o Booker Prize, o "Oscar" da literatura de língua inglesa, em 2002. Mais do que merecido.

- A polêmica sobre o plágio ao material do Moacir Scliar ("Mas e os Felinos") é válida, mas não altera em nada a qualidade do livro de Martel. Foi inspirado sim, sem a menor sombra de dúvida, mas com propósitos e resultados completamente diferentes.

- Vou agora mesmo assistir ao filme de Ang Lee e ver como essa obra-prima se comporta ao ser contada com imagens e comprimida em apenas duas horas. O desafio é realmente grande porque o livro não parece prestar-se a uma adaptação. Voltamos com mais uma crítica sobre As aventuras de Pi amanhã!

segunda-feira, 30 de julho de 2007

A revolta de Atlas


Bastiões da moral e da virtude

A revolta de Atlas é um romance de mistério, mas ao mesmo tempo é um manifesto filosófico e é também um clássico da realidade distópica, no melhor estilo 1984. É classificado como ficção por seu enredo, mas poderia perfeitamente constar da categoria não-ficção por seus diálogos e discursos e sua defesa ferrenha de uma ideologia.

Na filosofia objetivista de Rand que permeia todas as páginas do livro percebe-se a influência de conceitos como o Übermensh de Nietzsche, a "mão do mercado" de Smith, a lógica de Aristóteles e muitos outros que de uma maneira ou de outra estão ligados ao individualismo e ao liberalismo defendidos pela autora. É uma argumentação contundente a favor do sistema capitalista e um painel sobre os horrores de um mundo em que a individualidade é sufocada pelas necessidades e desejos de uma massa etérea chamada de coletividade. 

Ao contrário do que normalmente se espera de bons personagens literários como ambiguidade e profundidade psicológica, os heróis de A revolta de Atlas são seres acima da humanidade, maiores que a vida, representantes de conceitos e idéias muito mais importantes do que eles mesmos. Longe de serem minimamente reais, não há como identificar-nos com eles, pois não são simples humanos, mas sim arquétipos, seres idealizados a serem admirados e espelhados pelas suas inabaláveis e coerentes ética e moral.

No sentido oposto, os vilões do livro são abjetos, odiáveis e aterradores e ainda que Rand dê uma chance de redenção a eles, transformando-os em meros elementos condutores para a ação de um mal maior e absoluto, ela não perdoa a fraqueza moral e falta de virtudes desses personagens. Ela, como seus protagonistas, é irredutivel e não concede compaixão aqueles que não fazem por dela merecer. Melhor ainda, ela considera compaixão justamente uma das raízes do fortalecimento do mal absoluto.

Dagny Taggart, diretora de operações da ferrovia Taggart Transcontinental, e Hank Rearden, CEO da siderúrgica Rearden Steel, são dois dos melhores personagens que já tive o prazer de acompanhar. Segui sua estória, temendo por seu destino e torcendo para que a cada novo desafio que seus inimigos lhes impusessem eles saíssem deles mais fortes e ainda mais inabaláveis. Por outro lado, odiar James Taggart ou o Dr. Floyd Ferris é fácil, catártico e libertador. 

Os mistérios que Rand vai criando ao longo do caminho desde a primeira página - "Quem é John Galt?", o crescente nível de ameaça, a trilha para o apocalipse de uma nação e talvez do mundo, garante que você continue a virar páginas e mais páginas e não querer largar mais o livro. Infelizmente, estamos falando de uma estória que, em letras pequenas, ocupa mais de mil páginas. E nem tudo são aplausos para elas.

O livro é extremamente repetitivo: a cada pequena evolução da estória, Rand pára e destila sempre os mesmos argumentos por vários parágrafos, reescrevendo a mesma coisa de centenas de maneiras diferentes. Além de interromper o fluxo da narrativa com uma frequência irritante, o discurso passa a ter um aspecto "lavagem cerebral" que é justamente a ferramenta comumente utilizada pelos que se opõe a ela - vide novamente o clássico 1984.

Um livro fantástico que só não alcança a perfeição porque faltou um editor de pulso firme que podasse a verborragia da Sra. Rand.

Vernon God Little

Exageros texanos

Vernon é um adolescente texano vivendo em uma cidade pequena conhecida apenas como a "capital do molho barbecue do meio-oeste do Texas" até que um dia seu melhor amigo dizima metade dos colegas de classe e estoura o próprio crânio. Sem um assassino para crucificar, Vernon, mesmo com evidências pifias, torna-se o bode expiatório da chacina.

A metralhadora satírica de D.B.C Pierre atira para todos os lados, mas é realmente o espetáculo midiático que transforma até mesmo as mais vis tragédias em entretenimento o principal alvo. Um festival de personagens bizarros desfila ao longo da estória e depois de um tempo você já sabe que, por mais ameno que possam parecer, eles vão acabar reduzido a algum vício norte-americano que o autor gostaria de execrar.

Escrito em um idioma regionalizado (o "texano"), em muitos momentos é quase impossível entender exatamente o que o autor está querendo dizer - li a maor parte no original e alguns capítulos na versão em português. Infelizmente, apesar da ótima tradução, muita coisa se perde por causa da quantidade absurda de gírias e expressões locais que dificilmente conseguem soar parecidas no nosso idioma.

Vernon God Little ganhou espaço na estante por ter vencido o Man Booker Prize, o principal prêmio literário dos países de língua inglesa (não incluindo o maior deles - os Estados Unidos) e porque algumas críticas comparavam o protagonista com Holden Caulfield de O apanhador no campo de centeio, um dos livros que mais gostei de ler. 

Infelizmente, Vernon está tão próximo de Holden, quanto Bruna Surfistinha de Capitu e ainda que a revolta juvenil seja muito próxima, Vernon não tem a profundidade do personagem de Salinger. Além disso, o ritmo do livro é descompassado e se em alguns momentos a leitura flui, em outras ela fica presa em reminiscëncias desnecessárias ou em eventos que não são nem interessantes em si mesmo, nem contribuem para o avanço do roteiro como um todo.

Vernon God Little até tem alguns lampejos de brilhantismo, pequenos excertos de fina ironia e diálogos inteligentemente imbecis. Contudo, em grande parte é só uma sequëncia de personagens caricatos e eventos absurdos ou incoerentes. Não me arrependo de ter ido até o final, principalmente porque depois de um tempo, você acaba se apegando a Vernon e querendo saber qual será seu destino, mas também não é o tipo de livro que eu não poderia passar sem ter lido.

Feriado de mim mesmo

Originalidade oculta

Santiago Nazarian escreveu um divertido livro entitulado Mastigando Humanos sobre as elocubrações de um crocodilo vivendo nos esgotos de São Paulo. Faz muito tempo que li e não me lembro praticamente de nada do livro, apenas de que gostei bastante dele. Na mesma época, comprei um livro anterior do autor chamado Feriado de mim mesmo e só agora fui lê-lo. 

Não sei se,nesse tempo, fui eu que a cada nova estória fui imprimindo menos valor a cada uma que somava-se a pilha de estórias anteriores ou se realmente o autor ainda não tinha amadurecido nesse livro e a originalidade mostrada em Mastigando não estavam ainda presentes em Feriado.

Uma das maneiras de se prender a atenção de alguém é criar uma "lacuna de conhecimento" que ative seu instinto natural de curiosidade e a estória de Feriado de mim mesmo faz isso por premissa: existe algo acontecendo que você não sabe o que é.  Uma estória sobre paranóia em que um sujeito solitário vivendo em um apartamento claustrofóbico começa a acreditar que alguém está invadindo sua casa e alterando sua rotina. 

O grande desafio aqui não é atiçar, mas sim manter a curiosidade aguçada, dado que seu leitor provavelmente já sabe os possíveis resultados desse tipo de roteiro. A trama básica subjacente pode ser: violência (alguém realmente está perseguindo a pessoa), sobrenatural (espíritos ou outras entidades são responsáveis pelos eventos), psicológica (a outra pessoa na verdade é a própria pessoa) ou fantasiosa (a outra pessoa é ela mesma, mas deslocada no tempo). Se você estiver apontando para qualquer uma dessas possibilidades em algum momento ou insinuando quaisquer uma das outras, você está jogando em terreno conhecido e sua solução não terá um retorno recompensador para o leitor, o qual sabe disso e começa a desconfiar já nas primeiras páginas.

O grande problema é que, mesmo que sua solução seja diferente dessas quatro apresentadas, não apontar para essa possível nova em nenhum momento faz com que o leitor se desinteresse mesmo assim. E essa é a falha fatal de Feriado, que somada a um protagonista cuja companhia não é das mais agradáveis, torna o livro arrastado e repetitivo mesmo que no conjunto havia um quê de originalidade na obra.

A volta do parafuso


Ininteligivelmente amedrontador

Acho que li esse livro pela primeira vez quando era mais novo, mas com certeza foi uma versão mais curta e com um vocabulário bem mais simples. Tinha uma vaga memória do clima sombrio e da atmosfera aterradora da estória, mas não me lembrava nem um pouco de quão complicada era sua leitura. Assim como o impenetrável Edgar Alan Poe, Henry James é extremamente prolixo com construções de frases complexas e vocabulário enredado , uma marca bem característica da literatura da época vitoriana.

Ainda que quando com uma só palavra, James poderia ter dito o mesmo que ele diz com quinze, a rebuscada redação ajuda a transportar o leitor para uma época remota e só dessa maneira você consegue minimamente contextualizar algumas passagens que em um cenário contemporâneio parecem leves demais ou simplesmente sem sentido. Durante linhas e linhas James descreve o quão horrível é a situação da governanta e das crianças protagonistas, mas não há nada que indique que algo realmente mais aterrador tenha acontecido que não o possível relacionamento entre a antiga governanta e um criado o qual, por sua vez, não parece merecer a alcunha "fascínora", quando sua ação mais infame parece ser a de "dar-se ares de aristocrata".

Um dos aspectos mais interessantes é a narração em primeira pessoa da governanta que nos coloca mais próximo dos acontecimentos e limita nossa compreensão dos fatos para além do que a personagem vê ou pensa sobre eles. Essa ambiguidade narrativa torna o desenrolar dos eventos (ou a mais completa falta deles) em algo muito mais interessante do que deveria ser.  Apenas nas entrelinhas é que percebe-se a presença de uma segunda estória, provavelmente a que contém os "fatos reais", onde descontados os pré-conceitos e as emoções da governanta, ações e falas dos outros personagens carregam-se de significados muito diferentes.

Ainda que praticamente ininteligível por causa de sua estrutura formal e rebuscada, A volta do parafuso consegue criar a ambientação necessária para  o horror surgir, além de ser ambíguo o suficiente para deixar o leitor com dúvidas sobre o quanto desse terror tem fundamentos.

Recomendado, mas com ressalvas.

Coisas frágeis - Neil Gaiman

O problema de Gaiman


Coisas frágeis / Fragile things é um compêndio de várias histórias de Neil Gaiman escritas ao longo de anos, para diferentes fins e em diversos contextos. No Brasil, essa seleção foi lançada em dois volumes e, como li o original, não sei exatamente quais dos contos, poemas ou pequenas novelas ficaram em cada um deles, então, de certa forma, estou avaliando ambos aqui.

É impressionante notar o quanto a grande maioria das histórias, para não dizer todas, tem a marca "Gaiman" transbordando do início ao fim. Como geralmente acontece, esse tipo de comentário costuma ser o principal atrativo e a maior detração para qualquer tipo de obra cultural. Para os leitores mais antigos, isso pode ser tanto um alento - encontrar exatamente aquilo que se está esperando, quanto uma frustração - encontrar apenas um caça-níquel composto do que parecem ter sido rascunhos de outras obras ou uma reciclagem de material já utilizado. 

Uma história bastante representativa dos cacoetes de Gaiman e dos argumentos do parágrafo anterior é certamente A vez de outubro / October in the chair. Nela são evidentes três dos principais artifícios que você vai encontrar na maioria dos livros e contos do autor:

1) Personificação de conceitos: aqui os meses do ano são personagens que se reúnem para contar histórias relacionadas a si mesmos. Em Sandman temos os Perpétuos (Sonho, desejo, morte etc.), em Deuses Americanos / American Gods temos novos e antigos deuses e por aí vai. Ess é um recurso do tipo "em que time que está ganhando não se mexe" de Gaiman. Pegue um elemento literário ou da cultura já bem estabelecido e utilize em um narrativa moderna ou com um olhar completamente diferente do contexto original. Ele não é o único autor a lançar mão desse recurso (J.K.Rowling fez bilhões dessa maneira), mas certamente é um que abusa dele.

2) Crianças convivendo com o extraordinário ordinariamente: Coraline, os garotinhos fantasmas em Sandman, Ninguém/Nobody Owens em The Graveyard Book e outros personagens do tipo aparecem constantemente em seus trabalhos. A inocência de crianças vivendo situações que seriam aterradoras para os adultos é um contraste sempre interessante, mas cansativo quando usado à exaustão.

3) Coitus interruptus: a história abre, elementos extraordinários vão sendo adicionados, algumas pistas são jogadas e, por fim, a ela é interrompida antes que uma conclusão satisfatória seja alcançada. Em Coisas frágeis / Fragile things, esse cacoete alcança níveis irritantes, e na grande maioria das histórias, é impossível distingui-lo de simples "preguiça" ou de inaptidão - Pó amargo / Bitter grounds, Como falar com garotas em festas / How to talk to girls at parties e muitas outras sofrem desse problema.

Não me entendam mal, continuo preferindo Gaiman a muitos outros autores mais "sérios", mas a "genialidade" que via nele na adolescência desapareceu completamente em um nível que já não sei dizer se um dia esteve mesmo lá. O autor fez sucesso com um estilo e manteve-o para o resto da vida sem arriscar. 

O próprio Gaiman em várias histórias anteriores e em algumas nesse livro levanta o poder das histórias e como elas parecem sempre ter estado lá, apenas mudando de aspecto e se adaptando a novos tempos e situações como se houvesse somente um número limitado de histórias "em estado bruto". 

Sobre a seleção em si de histórias de Coisas Frágeis, destaco algumas das melhores: 

Um estudo em esmeralda/ A study in Emerald que mistura Sherlock Holmes e o universo de H.P. Lovecraft em um conto muito bem escrito que respeita os estilos de ambos os autores homenageados e ao mesmo tempo cria algo único a partir dessa fusão. 

O problema de Susan / The problem of Susan é uma releitura do final de As Crônicas de Nárnia, um livro que abandonei já nas primeiras páginas e cujo final (aqui explicitado) só deu argumentos a favor dessa decisão. Mesmo sem ter lido, fico feliz com a "versão de Susan" proposta por Gaiman que deve ter deixado felizes todas as pessoas sensatas que devem ter achado um absurdo a escolha de C.S. Lewis para o destino de sua personagem.

Para quem leu Deuses Americanos/American Gods, O monarca de Glen/The monarch of Glen é uma estória deliciosa (mas, como sempre, derivativa) protagonizada por Shadow, o personagem principal do livro, e que se passa dois anos após os eventos finais. Ela conta ainda com a participação de Mr. Alice e Mr. Smith que são os protagonistas de outro ótimo conto do livro Lembranças e tesouros / Keepsakes and treasuries. 

Neil Gaiman é sinônimo de texto enxuto, rápido, sem grandes arroubos narrativos, derivado de ideias e personagens clássicos com uma pitada de elementos góticos e sombrios. Coisas frágeis / Fragile things é um ótimo ponto de partida para a obra desse autor porque contém todos os artifícios que o caracterizam e pelo mesmo motivo é mais do mesmo para os veteranos... mas mais do mesmo de algo bom geralmente não é demais.

Outras resenhas de livros do Crítica em Série:

As aventuras de Pi
A volta do parafuso