terça-feira, 21 de julho de 2015

Corrente do Mal

Perseguidos pela inevitabilidade


Direção: David Robert Mitchell
Título Original: It Follows
Duração: 100 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2015

As expectativas eram altas para Corrente do Mal. Boas recomendações de amigos sabidos, hype um tanto suspeito da crítica, material promocional intrigante e tudo o mais. Expectativas são sempre o mal de qualquer cinéfilo: elas dificilmente trabalham a favor de um filme. Confesso que ao final da sessão, por causa delas, fiquei um pouco frustrado. Não porque não tivesse sido um bom filme, mas porque estava longe de ser a obra-prima que acreditava terem me vendido. Durante o dia seguinte e enquanto escrevia essa resenha, o filme foi me seguindo, aproximando-se cada vez mais e em cada instância com uma aparência diferente. Exatamente como a entidade que aterroriza a protagonista Jay. Agora sim, percebi, fui contaminado e faço parte da corrente. 

Talvez o maior problema seja que boa parte das análises vendem Corrente do Mal como uma história de terror, gênero ao qual ele inegavelmente pertence, mas que sem dúvida não o é o único e nem o que mais o caracteriza. Corrente do Mal é muito mais um filme de formação, do que um horror adolescente como sua sinopse ou a idade de seus atores tendem ardilosamente a aparentar. O mesmo poderia ser falado de um outro sucesso de crítica com características similares e que sujeita Corrente a inevitáveis comparações: o sueco Deixe ela entrar. Ambos tratam muito mais da crise existencial que acontece naquele período insano entre a inocência da infância e as responsabilidades da vida adulta, ambos são artisticamente pretensiosos e frequentemente chatos e ambos são genialmente interessantes.

Corrente do Mal acompanha a história de uma garota perseguida por uma entidade após ter feito sexo com um quase desconhecido e para que o assédio sobrenatural termine, ela precisa passar a "maldição" à frente, fazendo sexo com outra pessoa. Simples assim. Aparentemente estúpido assim. Admiravelmente simbólico assim. Como comentei anteriormente, é preciso deixar as interpretações e analogias irem sedimentando-se em sua mentes aos poucos. Interpretações essas que parecem não se esgotar, tal a habilidade em manter a ambiguidade das cenas do diretor David Robert Mitchell

Mitchell, um quase-estreante, visivelmente estudou bastante e sabe utilizar-se dos segredos de cineastas mais experientes que ele. Sabe, por exemplo, que uma câmera teimosamente parada causa muito mais tensão do que uma colagem videoclíptica de imagens das quais mal se pode distinguir qualquer coisa. Quando sua câmera se move rapidamente, geralmente é para mostrar uma sucessão de casas iguais e que vão aos poucos se transformando em versões menos perfeitas delas mesmas, mas ganhando contornos mais individuais, remetendo perfeitamente ao subtexto do filme.

Subtexto esse que quase deixar de ser sub para ser apenas texto de tão reforçado que é em todos os instantes: crianças brincam de pega-pega, os adolescentes jogam burro (ou porco em alguns lugares), o casal na fila do cinema brinca de "quem você seria" em alusões óbvias a mecânica do filme; a água está por todos os lados seja em piscinas, seja no lago, seja na chuva numa menos óbvia expressão de desejo sexual e também de vida e criação. 

Entre as inúmeras interpretações para as intenções de Corrente do Mal, pode-se argumentar em função do sexo como porta de entrada para a vida adulta, visto como a chegada da maturidade e da noção de brevidade. A entidade seria o caminhar lento da morte que se aproxima e para despistá-la ou afastá-la é necessário fazer sexo e, por extensão, procriar: alcançar uma ilusória imortalidade e ludibriar temporariamente a inevitabilidade do ocaso.

Certamente não sem propósito, a perseguidora de Jay transfigura-se em pessoas mais velhas, decadentes, nuas, vulneráveis ou simplesmente pessoas já falecidas. Lembretes constantes de sua inescapável senescência. Ao fazer sexo, você cumpre com o papel que a natureza projetou e sua ruína passa a ser apenas uma questão de tempo. Ele(a) te seguirá para o resto da vida e não há como fugir dele(a).

Em uma análise menos dramática, a entidade representa apenas a perda das certezas da infância e a necessidade de buscar constantemente por respostas para perguntas que você mal sabe quais são. O sexo alivia a angústia temporariamente, mas assim como a entidade, é só questão de tempo até essa mesma angústia voltar a assombra-lo. Dentro da mesma árvore de possibilidades, um outro ângulo seria o de que ela representaria o remorso pós-sexo ou mesmo a culpa católica associada ao sexo pré-casamento e um punhado de outros significados que parecem não se exaurir.

O caráter simbólico para o amadurecimento, fica ainda mais patente quando você nota a ausência total de adultos no filme. Seria de se esperar que em uma situação tão crítica e potencialmente fatal quanto essa, os adolescentes recorreriam a seus pais. Contudo, como acontece nas descobertas sexuais de todo mundo e dos problemas e prazeres relacionados a elas, dificilmente os progenitores são convidados a participar. A cena inicial (fantástica), por exemplo, mostra uma garota em pânico e confusa que não consegue contar aos seus pais o que está acontecendo com a mesma certeza de incompreensão que esperaria da sua decisão de ir para o banco de trás do carro com o quarterback da escola.

O filme, enfim, dá um caráter ancestral aos questionamentos sexuais típicos da adolescência. Não se sabe onde começou ou a razão de sua existência, e podemos assumir que essa "corrente" teve início com a humanidade em si e que todos fazemos parte dela de uma maneira ou de outra, trazendo o filme para a esfera pessoal. É o típico caso do "poderia ser com você" que torna o filme particularmente poderoso. 

Esse caráter de universalidade é amplificado com competência pela direção de arte, responsável por uma ambientação meticulosamente trabalhada com o intuito de tornar o filme atemporal. Máquinas de escrever, carros antiquados e jaquetas jeans dividem a tela com celulares avançados numa esquizofrenia anacrônica que tornam impossível definir exatamente em que década o filme se passa. As locações nos subúrbios estéreis e vazios de Detroit de ruas com horizonte a perder de vista também aguçam esse sentimento de imprecisão e indistinção. 

O filme, contudo, não é isento de problemas e tem até uma cota considerável deles. Entre esses, por exemplo, o desperdício de tempo de tela em cenas inócuas com diálogos despropositadamente truncados entre adolescentes apáticos discutindo amenidades que não avançam o enredo. Além disso, uma personagem praticamente só existe para citar Dostoiévski (cita-lo uma vez já é indicativo perigoso de pretensão e várias vezes é um atestado de desespero para ser visto como "arte") e tais citações só servem para pontuar analogias que você poderia ter inferido apenas pelo roteiro. Por fim, a exígua trilha sonora é composta de ruídos irritantes arrancados de um teclado oitentista e por mais que remeta à "atemporalidade" mencionada anteriormente, simplesmente não funciona. 

Não espere sustos e não espere horror, ainda que haja várias ótimas cenas buscando esse propósito. Corrente do Mal é muito mais arte e introspecção, ainda em que um nível um tanto pretensioso e óbvio. Uma pérola sem polimento ou polida demais a depender do ponto de vista, mas ainda assim uma pérola em um gênero que nem sempre atinge esse nível de qualidade. A intenção de Corrente do Mal não é te assustar, e sim te contaminar e insidiosamente te perseguir até que você consiga passa-lo à frente. Eu fiz minha parte e, se você chegou até aqui, espero que você faça a sua e não quebre a corrente.

4 comentários:

Eric Cruz disse...

Eu li seu comentário em outra crítica, então entrei no link que deixou. Acabei de ver a fita. Achei incrível o leque de metaforizações que você aponta em seu texto. Parabéns!

Kaio Feliphe disse...

Gostei do seu comentário sobre como o filme te persegue depois de assisti-lo. Foi realmente assim que me senti. É uma obra de vários níveis, desde a construção atmosférica que gera medo no espectador até esse estudo mais psicológico sobre o sexo na adolescência que você ilustrou na sua crítica. É realmente um filme diferente.

Abraços.

Zoey disse...
Este comentário foi removido pelo autor.
Zoey disse...

Gostei muito da sua análise e concordo com o primeiro ponto de vista: é uma pérola sem polimento. Gostei da maneira que o diretor conduziu o filme que pela temática (fazer sexo para "transmitir" a maldição) poderia se tornar um "soft porn" em outras mãos. A ideia e o clima do filme, se não originais me pareceu bem diferente do que estamos acostumados a ver por aí.Minha maior crítica é em relação ao desfecho,pois o tempo todo ficamos agoniados com o tal "it follows" e um final mais elaborado seria o grande clímax.