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quinta-feira, 23 de julho de 2015

Limbo

Tétrico, lúgubre e sublime

Desenvolvedor: Playdead
Plataforma: PC, Mac, Linux, PS3, PS4, PS Vita, Xbox One e 360, Android e iOS
Itens de série: Atmosfera. Atmosfera. Atmosfera.
Defeitos de fábrica: Andamento desigual, início muito mais forte que o final

Essa é uma daquelas críticas em que por mais que se esforce, talvez não haja muito de novo a trazer pra discussão. Limbo faz parte de um grupo de jogos que caracteriza o início da era de ouro para os desenvolvedores independentes, junto com Braid, Fez, Super Meat Boy, Journey etc. Jogos que tiraram a indústria das páginas especializadas e apresentaram ao público geral algo que não fosse Mario, Street Fighter, GTA, Call of Duty e congêneres. Muito já se falou e se analisou sobre ele, mas sinto-me na obrigação de tentar acrescentar algo e garantir que ele tenha um merecido espaço no acervo do Crítica em Série.

Em Limbo, você controla um garotinho preso em um mundo preto e branco em que a morte está à espreita a cada tela. Não há muitas informações sobre o porque de você estar nesse lugar (além do sugestivo título do jogo), tampouco qual seria seu objetivo. Apesar dessa confusão inicial, o ambiente, o som, o layout e a arte se unem para criar uma sensação de urgência: ficar parado não é certamente a solução. Você não está em um lugar agradável e sair dele já é objetivo suficiente para qualquer pessoa. 

Nesse mundo de silhuetas, sua imaginação é a ferramenta para entender o que há por trás delas, e cada pessoa traz seus próprios medos para mesa, tornando Limbo uma experiência aterrorizantemente única para cada um. Quem é esse garoto? O que são essas criaturas? Porque há corpos de outras crianças ao longo do caminho? Quem são esses outros fedelhos que parecem ter saído direto das páginas de O Senhor das Moscas?

A história aqui, como preferencialmente deveria acontecer nessa mídia, é contada através da atmosfera e da própria mecânica do jogo: as maneiras como você morre, as atitudes de outros humanos em relação a você, a forma ameaçadora como o ambiente te persegue, tudo subjetivamente abre espaço para que uma narrativa se forme em sua mente. Os quebra-cabeças não estão lá simplesmente para ser resolvidos, boa parte deles também acrescentam à sensação de como esse mundo foi pensado para fazer com que você e outros sofressem e alimenta ainda mais de detalhes seu universo.

Como em alguns dos meus jogos preferidos, os da série Souls (Demon's e Dark), há pouquíssima música, o que paradoxalmente cria uma abundância atmosférica. O silêncio amplifica os sons do ambiente, muitos deles necessários para a resolução de quebra-cabeças. Um clique pode ser a deixa para que você se esquive de uma armadilha. Sons de animais se aproximando indicam que talvez seja a hora de procurar um lugar seguro para se esconder.

Não há texto, não há diálogo, não há tutorial, não há nem ao menos qualquer tipo de interface com o usuário (HUD), apenas o visual tétrico da floresta, das cavernas e de outros ambientes que você irá encontrar. Um jogo para iniciados que entendam minimamente a mecânica de um adventure. O repertório de possibilidades inclui as tradicionais alavancas, empurrar objetos para usa-los como plataforma para alcançar lugares mais altos, balançar em cordas e cipós, esse tipo de coisa. Há apenas dois botões disponíveis: Pulo e Ação, sendo que esse segundo age de diferentes maneiras dependendo do contexto.

A melhor forma de aprender as soluções para os quebra-cabeças é morrer. Ainda que seja horrível ver a sombra de um garotinho ser decapitada, alvejada, empalada ou esmagada, a penalidade por deixa-lo sofrer é mínima. O jogo reinicia segundos antes do momento da morte para que você tente uma nova tática. A maioria dos desafios exige apenas um pouco de atenção ao cenário e rapidamente são elucidados. São poucas as circunstâncias em que exige-se mais da coordenação olhos-mãos do que da dedução e do raciocínio. O importante é entender a mecânica das armadilhas e dos mecanismos e não tanto acertar exatamente o momento em que um botão deve ser apertado.

Acredito que o terço final do jogo seja um pouco menos interessante do que o restante. Os quebra-cabeças começam a exigir mais precisão que inteligência e o ambiente é menos ameaçador do que no início. Limbo pode inclusive ser bastante frustrante nesses momentos finais, nos quais a solução para determinados problemas é cristalinamente óbvia, mas sua execução depende de uma sequência de acertos numa cadeia de ações que precisam ser executadas com perfeição. É um jogo relativamente curto de duas a três horas que só se estende quando um dos momentos descritos anteriormente faz com que você fique mais tempo do que gostaria neles.

Apesar de algumas poucas escolhas equivocadas de design, Limbo é daquelas experiências que ficam marcada na sua memória. Ele consegue facilmente distinguir-se de outros jogos que você já tenha jogado, especialmente pelo estilo artístico e pelo som (ou pela falta dele). Enquanto os milhões de Call of Dutys e suas cópias são esquecidos assim que você desliga o console ou o computador, Limbo permanece como um parasita em sua mente, um lembrete do pesadelo de uma outra pessoa.

Limbo custa R$20,99 na Playstation Store e R$16,50 no Steam (quase sempre está em promoção). Mais informações técnicas sobre o jogo na sua página na Wikipedia ou na página oficial no site da PlayDead

terça-feira, 21 de julho de 2015

Corrente do Mal

Perseguidos pela inevitabilidade


Direção: David Robert Mitchell
Título Original: It Follows
Duração: 100 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2015


As expectativas eram altas para Corrente do Mal: recomendações positivas de amigos sabidos, aquele hype suspeito da crítica, material promocional intrigante e tudo o mais. E expectativas são a ruína de qualquer cinéfilo: elas raramente contribuem para o aperfeiçoamento da experiência. Por causa delas, ao final da sessão, frustrei-me. Não porque não fosse um bom filme, mas porque estava longe de ser a obra-prima que vendiam. No entanto, ao longo do dia seguinte e enquanto escrevia essa resenha, algo me seguia, cada vez mais próximo, mais ameaçador,  e com os mais diferentes aspectos. Percebi que, enfim, me tornara mais um elo naquela corrente...

Uma das razões para a frustração inicial é que tudo relacionado a Corrente do Mal apontava para uma história de terror, gênero ao qual ele inegavelmente pertence, mas não o que o mais caracteriza. Corrente do Mal é antes um filme de formação que um slasher adolescente. E o mesmo vale para outro hypado com tantas similaridades que sujeita Corrente a inevitáveis comparações: o sueco Deixe ela entrar. Ambos iluminam a crise existencial daquele período insano entre a inocência da infância e as responsabilidades da vida adulta; ambos rastejam por pretensiosas, lentas e entediantes cenas, e ambos são geniais. Chatos... mas geniais...

Corrente do Mal conta de uma garota que transa com um aleatório e passa a ser perseguida pela "entidade". Para que se livre do assédio sobrenatural, ela precisa transar a "entidade" para frente. Uma espécie de "comigo-não-tá" erótico. Simples assim. Estúpido assim. Insuspeitadamente inteligente  assim. É preciso deixar os símbolos e alegorias aos poucos sedimentarem em interpretações. E algumas delas podem até dar sentido ao festival de ambiguidades do diretor David Robert Mitchell

Mitchell é um quase-estreante esforçado que já assimilou truques de cineastas muito mais experientes que ele. Aprendeu, por exemplo, que uma câmera teimosamente parada tensiona e inquieta; ou que os elementos em segundo plano podem contar mais da história do que a ação no primeiro; que cada ruído, objeto, ângulo de câmera precisa adicionar ao contexto e subtexto do filme.

Subtexto esse que deixa eventualmente de ser sub para ser apenas texto de tão reforçado que é em todos os instantes: crianças brincam de pega-pega, os adolescentes jogam burro e o casal na fila do cinema brinca de "quem você seria" em alusões a mecânica da corrente; a água abunda em piscinas, em lagos ou na chuva remetendo ao desejo sexual; as decadentes e onipresentes casas e fábricas abandonadas de Detroit denunciam a natureza da "entidade"; a ausência de adultos na tela remete ao distanciamento e isolamento dos adolescentes que acompanham o amadurecimento sexual. 

Essas analogias e símbolos alimentam variadas interpretações para Corrente do Mal. Pode-se argumentar que o filme seria uma alegoria para a maturidade e o abandono de noções infantis de imortalidade. A entidade representaria a lenta aproximação da morte. Certamente não sem propósito, ela manifesta-se como pessoas mais velhas, decadentes, nuas, vulneráveis ou simplesmente já falecidas. Lembretes insistentes da nossa inescapável senescência. O sexo ao mesmo tempo traria essa percepção da brevidade e seria o meio para afastá-la.  

Em outra perspectiva, a entidade representaria a perda das certezas da infância e a necessidade de buscar constantemente por respostas para perguntas que você mal sabe quais são. O sexo alivia a angústia temporariamente (e afasta a entidade), mas é só questão de tempo até voltarem a assombrar. A corrente poderia ser também o remorso do pós-transa, a culpa católica pelo sexo pré-casamento e um punhado de outros significados.

O filme, enfim, dá um caráter ancestral aos questionamentos sexuais típicos da adolescência. Da "corrente", não se sabe como começou ou a razão de sua existência, e podemos assumir que é tão antiga quanto a humanidade e todos em algum momento nos tornamos parte dela. A aflição e o desespero das personagens reverbera em emoções e sentimentos facilmente reconhecíveis pela maioria das pessoas. 

Esse efeito de familiaridade e universalidade é amplificado com competência na concepção visual da direção de arte. Máquinas de escrever, carros antiquados e jaquetas jeans dividem a tela com celulares avançados numa esquizofrenia anacrônica que tornam impossível definir exatamente em que década o filme se passa e conferem a ele atemporalidade. As locações nos subúrbios estéreis,  vazios e amorfos de Detroit com ruas de horizontes a perder de vista também deixam mais densa a atmosfera de imprecisão e indistinção. 

O filme, contudo, não é isento de problemas e tem até uma cota considerável deles. Entre esses, por exemplo, cenas irrelevantes com adolescentes apáticos engajados em diálogos despropositadamente truncados e banais que não avançam o enredo. Ou uma personagem cuja única função é citar Dostoiévski (cita-lo uma vez já é indicativo perigoso de pretensão e várias vezes é um atestado de desespero para ser visto como "arte") e tais citações só servem para pontuar analogias que você poderia ter inferido pelo contexto. Por fim, a exígua trilha sonora é composta de ruídos irritantes arrancados de um teclado oitentista e por mais que remeta à tal "atemporalidade", simplesmente não funciona. 

Não espere sustos e não espere horror, ainda que haja bons momentos do gênero. Corrente do Mal é muito mais arte e introspecção, ainda que, por vezes, pretensiosa e óbvia. Uma pérola sem polimento ou polida demais a depender do ponto de vista, mas ainda assim uma pérola em um gênero que não produz muitas. A intenção de Corrente do Mal não é te assustar, e sim te perseguir até que você passe-o à frente. Está com você agora.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Coerência

A coerência e a subjetividade 

Direção: James Ward Byrkit
Título Original: Coherence
Duração: 89 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2014

Há pouquíssimo tempo comentei sobre os filmes estilo Mindfucker ao escrever sobre a série Black Mirror, o que resultou numa indicação amiga de um ótimo exemplar do gênero. E ontem, enfim, fui intrigado e entretido pelo recente e pouco conhecido Coerência (Coherence no original - sem título em português, tradução livre e absolutamente literal de minha parte).

Vou me abster de falar sobre quaisquer detalhes do roteiro para não diminuir em nada o prazer de quem vier a assistir o filme. Em relação a outros quesitos técnicos, basta dizer que são bastante adequados: atuações sem destaque, mas efetivas; trilha sonora por vezes equivocada, mas inofensiva; edição truncada em um ponto ou outro, mas em linha com a proposta; cinematografia escura e opção pela câmera tremida para esconder limitações, mas que, mais uma vez, não impedem em nada a apreciação da história.

Coerência é essencialmente diálogo e enredo, ambos absolutamente "coerentes" e bem trabalhados. O filme cai no didatismo em pouquíssimas instâncias, ainda que em algumas delas de maneira artificiosa e afetada, mas não chega nem perto de ser reiteradamente ofensivo como, por exemplo, Triângulo do Medo. Expõe seus mecanismos básicos sem muita sutileza, mas deixa que a trama guie o filme e não que seus artifícios ou princípios o façam.

Como quanto menos se falar desse filme tanto melhor e como há ainda muitas linhas a preencher nesse espaço, dar-me-ei a liberdade de divagar sobre o processo da crítica em si. Há filmes aos quais assisto que entram na fila para ser resenhados e lá ficam por um período não determinado. Alguns estão na espera há pelo menos uns cinco anos e provavelmente nunca chegarão ao blog. Outros, como esse, não esquentam o banco sequer um dia.

Alguns filmes exigem bastante pesquisa, leitura de várias outras resenhas e estudo do assunto sobre os quais eles tratam, sendo que o texto final acaba ficando longe de ser uma opinião pessoal, ainda que reflita perfeitamente a minha avaliação do filme. Outros, como esse, sequer chegam a ser analisados e as críticas sobre eles não passam de uma recomendação positiva ou negativa. Ou são devidamente avaliados exatamente pelo que acredito que sejam, independente do entendimento de outras pessoas.

A verdade é que alguns filmes simplesmente não geram uma reação emocional tão forte quanto outros, não importa o quão excelente sejam (os ordinários e sofríveis, no entanto, nunca passam incólumes). Por mais que durante a análise ou a crítica a subjetividade seja suprimida, ela sub-repticiamente marca presença ao ser a força motriz da seleção não só de sobre o que escrever, mas muitas vezes do que você vai ou não assistir, ler ou jogar.
  
Coerência é um bom exemplo da subjetividade em ação. É daqueles filmes que, longe de serem obras-primas, conseguem fazer aflorar a curiosidade e o interesse. Exigiu minha atenção e conseguiu mante-la, e impediu até certo ponto que eu ficasse me perguntando o tempo todo se estava gostando ou não do que estava vendo, se os diálogos estavam sendo bem aproveitados, se as atuações estavam prejudicando a credibilidade da história etc. Mal entrou na fila de espera para ser assistido e rapidamente está sendo resenhado (recomendado talvez seja a melhor palavra).

Terminada a sessão aqui em casa, o filme continuou marcando presença, primeiramente na forma de uma discussão sobre seus pontos mais obscuros, validação dos entendimentos diferentes de cada um dos expectadores e uma avaliação crítica conjunta sobre o desfecho. Posteriormente, a mecânica central inspirou outros debates não relacionados diretamente ao enredo. Um bate-papo conceitual que deu origem a outras teorias e possíveis histórias. No meu caso particular, é difícil não gostar de um filme que enseje essas reações e acredito que para uma grande parte dos meus amigos também o seja, então que fique a dica!

PS: Não consegui me lembrar de quem foi que me indicou o filme. Então deixo aqui meu agradecimento genérico a todos meus tradicionais companheiros cinéfilos até que haja alguma reivindicação de autoria da sugestão. :-)

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Black Mirror

Mal do século


Temporadas: 2

Episódios: 7

Eu era, e sou, fã de Além da Imaginação (Twilight Zone). Talvez fosse muito novo para me lembrar claramente dos episódios da versão mais recente que foi reproduzida na Globo nos anos oitenta, mas pude assistir alguns episódios da série original recentemente e mesmo mais de meio século depois eles continuam fantásticos (Nick of Time e Five characters in search of an exit são ótimos). Também sou fã de uma subcategoria cinematográfica chamada Mindbender, também conhecido pela alcunha menos elegante de Mindfucker, que enquadra filmes de diferentes gêneros, mas que distorcem de alguma maneira a realidade e confundem o expectador (Donnie Darko, Primer, Amnésia e Adaptação são alguns exemplos).

Esse parágrafo introdutório é apenas para dizer que, se você também se identifica com esses quebra-cabeças audiovisuais, existe uma grande chance de que Black Mirror vá ser um programa excelente para você. Nas palavras de seu criador Charlie Brooker (do bizarro e ácido Dead Set), "se a tecnologia é uma droga, Black Mirror é um tratado sobre seus efeitos colaterais". Black Mirror é uma espécie de herdeiro de Além da Imaginação com a mesma estrutura de episódios auto-contidos, porém abordando especificamente os efeitos de nossa obsessão com tecnologia. As tramas partem de situações reconhecíveis e relacionáveis para fazer questionamentos morais e éticos com os quais já convivemos e, mais ainda, com aqueles que ainda não percebemos e sobre os quais talvez devêssemos estar nos questionando.

A evolução da inteligência artificial e suas implicações, a vigilância constante e autorizada a que nos submetemos, o obscurecimento entre o que é humano e o que é máquina, a gamificação da vida, os limites da arte, a ditadura política das redes sociais e da mídia como um todo, a ubiquidade de telas e informações, o revanchismo, escravidão e tortura que estamos ansiosos em apoiar... São muitos os temas nos quais Black Mirror quer tocar com sua visão particularmente cínica, sombria e, por vezes, niilista. 

Cada uma das duas temporadas conta com uma história mais intimista, uma sátira política e um futuro distópico. Uma temporada espelha a outra: a sátira abre a primeira temporada e fecha a segunda e a intimista fecha a primeira e abre a segunda, sendo que essas últimas são justamente as duas melhores histórias do conjunto. Ainda que o todo seja fantástico, os episódios "distópicos" acabam sendo um pouco mais fracos. Porém, mesmo com tramas mais pueris, os dois conseguem manter a atenção ao ir revelando seu estranho universo pouco a pouco e nos mantendo curiosos. Há ainda um brilhante episódio especial de Natal que foi ao ar em 2014 protagonizado por Jon Hamm (o Don Draper de Mad Men). Com uma duração um pouco maior (cerca 80 a 90 min), o episódio é estruturado de forma a alinhavar três histórias diferentes, mas interligadas, e acaba valendo por mais uma micro-temporada.

Apesar do quão inventivas e aparentemente absurdas sejam as premissas dos episódios, paira o sentimento aterrorizante do quão plausíveis esses cenários acabam se mostrando. Talvez não agora, talvez não em dez anos, mas a grande maioria hipóteses poderia efetivamente concretizar-se, se não de forma idêntica, ao menos muito similar. Black Mirror entretém e ao mesmo tempo causa desconforto e chama à ação, principalmente no sentido de buscarmos mais conexão sem intermediários. Para Charlie Brooker estamos cada vez mais focados nas "sombras na caverna" e suas histórias estão aí para tentar nos forçar a olhar um pouco mais para o mundo como ele realmente é e principalmente como ele é para fora de nós mesmos. Parece-me uma mensagem que vale a pena ser ouvida, mas independente disso, Black Mirror é um programa satisfatório mesmo que seja só para se divertir.

quinta-feira, 18 de junho de 2015

O Babadook

Precisamos falar sobre o Babadook

Direção: Jennifer Kent
Título Original: The Babadook
Duração: 93 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Nov/2014

Diferente do Drama, um gênero que depende principalmente da sua identificação com o personagem e de seus conflitos internos para que consiga alcançar seu efeito, o Terror, assim como a Comédia são gêneros ingratos que dependem do inesperado e da novidade para serem efetivos. Você pode até se assustar com o gato que pula de fora da tela de repente ou com a sombra que aparece no espelho, mas serão apenas sustos, e o terror não se instalará através de artifícios tão manjados.

Para que o filme alcance seu objetivo, é preciso instaurar o horror em si, algo que não pode ser criado a partir da soma de sustos, mas com a construção de uma situação, muito próxima do que acontece no drama, em que a empatia natural do ser humano nos coloque na posição da vítima. Todo esse preâmbulo é apenas para defender o porque de eu ter gostado tanto de O Babadook, produção australiana de terror que apesar de também ser uma soma de sustos, consegue criar algo maior do que o entretenimento do fim de semana.

A trama do filme é protagonizada por uma jovem mãe viúva que sofre para criar um filho problemático após a morte inesperada do marido e atravessa seus dias em um estado de entorpecimento e desapego. O terror se instala quando o garoto vai se tornando cada vez mais intratável após se impressionar com a leitura de um livro infantil que fala sobre o "Babadook":

"If it's in a word. Or it's in a look.
You can't get rid of... the Babadook".

"Seja em uma palavra. Ou em um olhar.
Você não consegue do Babadook se livrar".

Desvirtuar elementos do cotidiano, por mais inocentes que pareçam, com um olhar sinistro, distorcido e pervertido não só não é novidade, como forma a base para praticamente todos os bons filmes de terror já feitos. O que torna O Babadook tão interessante é fazer isso para contar um drama tenso e trágico disfarçado de filme de gênero.

O filme está claramente dividido em três partes, sendo que na primeira, o foco é desenvolver a nada fácil relação entre a mãe Amelia, vivida por Essie Davie e seu filho Samuel, interpretado perturbadoramente bem pelo jovem e estreante Noah Wiseman. Amelia visivelmente não superou a trágica morte do marido e passeia pelos dias sem emoção. Antes uma pessoa solar, uma escritora de sucesso, hoje ela trabalha em um asilo, e por mais que cumpra seu papel de mãe, há sempre uma incômoda sensação de que ela rejeita o filho em algum nível ou outro.

Há muito de Precisamos falar sobre Kevin na primeira metade do filme, e como naquele, há momentos de muita angústia para o espectador ao se colocar no papel de Amelia e imaginar o quão difícil seria estar na mesma situação. É quase compreensível a rejeição ao filho e mais ainda a dor de ter consciência dessa rejeição, mesmo amando a criança. Amelia é vítima de Samuel, mas Samuel também é vítima de Amelia, um amor baseado na destruição mútua não-intencional. 

Porém, é na segunda parte, quando o garoto fica obcecado com a possível presença do Babadook em sua vida, que muitos dos momentos mais desesperadores acontecem. E é aqui que temos homenagens a clássicos como O Exorcista, A Profecia e O iluminado, entre outros. Versões elegantes de cenas famosas desses filmes compõe algumas dezenas de minutos enervantes e recompensadores e o próprio Babadook parece ser uma mistura de Nosferatu com Dr. Caligari. É difícil errar ao referenciar materiais tão bons.

Uma pena que a terceira parte do filme siga por um caminho mais próximo das produções de terror mais recentes, colocando seus protagonistas para enfrentar o monstro diretamente, como em Sobrenatural. Ao fazer isso (e também em algumas outras instâncias), o enredo peca ao colocar elementos que traem o que supostamente seria seu propósito ou sua estrutura, faz com que não pareça ser tão amarrado e diminui a potência e a ambiguidade da revelação final.

Jennifer Kent, uma atriz veterana mas diretora estreante, mostra conhecer bem o gênero e consegue tecnicamente dar um sopro de originalidade na sua coletânea de truques clássicos com uma montagem rápida, cenas que não seguem a tradicional lentidão silenciosa do suspense/terror e uma camada narrativa extra que, ainda que não muito sutil, funciona perfeitamente em conjunto com a história do Babadook. Mesmo que alguns cortes pareçam inadequados e amadores, pode-se facilmente justifica-los como uma opção consciente para esconder problemas orçamentários limitadores, pois o filme foi rodado com o baixíssimo orçamento de US$2,5 milhões somados a US$30 mil conseguidos em uma campanha do Kickstarter (obviamente antes que o financiamento de maior porte acontecesse).

No balanço geral, para os fãs do gênero, O Babadook é quase um item indispensável atualmente. Menos por ser uma maravilha cinematográfica, e mais por entender o que faz um suspense ou terror funcionar e com pouquíssimo orçamento montar um filme que fica muito acima da média do seu nicho. Fico na esperança de que essa seja apenas a primeira incursão no gênero de Kent e que tenhamos sustos ainda mais refinados sendo produzidos por ela futuramente.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Whiplash - Em busca da perfeição

Um Jazz de uma (ótima) nota só

Direção: Damien Chazelle
Título Original: Whiplash
Duração: 107 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2015


Whiplash ganhou os prêmios de melhor som, melhor edição e melhor ator coadjuvante esse ano na cerimônia do Oscar. A resenha poderia parar nessa frase, pois ela praticamente delineia exatamente o que esperar do filme: uma edição visceral e pungente, adornada pelas batidas frenéticas e o extasiante efeito do jazz, garante a plataforma perfeita para que um excelente ator encontre o seu momento de glória. E isso é tudo por hoje, pessoal.

Não exatamente.

Seria simplista demais reduzir Whiplash a esses três fatores e desconsiderar outros bons aspectos do filme, porém seu calcanhar de Aquiles é justamente na categoria que mais interessa a mim e ao Crítica em Série: a história, o roteiro, a narrativa. Contudo, antes de falarmos dela, sigamos com os pontos positivos.

Nunca a expressão "sangue, suor e lágrimas" foi tão literalmente trabalhada quanto nesse filme. A edição alterna entre enquadramentos fechados desses fluidos em todas as suas variações possíveis. Tudo é atmosfera e contexto. Cada detalhe precisa intensificar o tema central, a obsessão e toda a transpiração e sacrífico associados. Afinal, o embate de um baterista e seu mentor "em busca da perfeição", como deixa claro o subtítulo do filme no Brasil, não é exatamente o material mais óbvio para um thriller. Para transformar essa premissa em algo emocionante, vai ser necessária muita técnica.

E técnica é o que não falta a um ator veterano como J.K. Simmons, que em Whiplash parece ter alcançado sua apoteose. Simmons definitivamente é um daqueles atores que se destacam em qualquer produção mesmo em papéis menores (vide Oz ou a trilogia original do Homem-Aranha), porém é, ao mesmo tempo, um ator de um único papel (vide Robert Downey Jr.). Fletcher, o regente a quem o ator dá vida, parece ter sido criado especialmente para ele. Fletcher é pura voz e entonação e é só checar a página de Simmons no IMDB para ver que boa parte do seu histórico é composta de trabalhos como dublador em desenhos animados e até jogos (ele é um dos melhores elementos do mais que excelente Portal 2, por exemplo).

Simmons é virtuosidade pura em cena, praticamente impecável, mas não teria tido tanto sucesso se não encontrasse em Miles Teller um oponente à altura. O jovem ator, e também músico diga-se de passagem, consegue misturar em medidas corretas arrogância e prepotência com confusão e insegurança, o que permite a seu Andrew ser simultaneamente vítima e contumaz adversário.

O diretor e também roteirista Damien Chazelle, que ainda não conta com praticamente nada no currículo, conseguiu se afastar absurdamente do festival de bobagens que foi seu roteiro em Toque de Mestre e calcar sua história em elementos dramaticamente mais coerentes. Contudo, a narrativa de Whiplash é um jazz de uma nota só, uma sequência de cenas tematicamente monotônicas, que repetem à exaustão uma única batida.

Andrew e Fletcher são personagens unidimensionais, arquétipos que representam uma ideia e não seres humanos completos. E ainda que isso sirva perfeitamente ao propósito do filme e que a única dimensão que eles possuam seja de uma potência brilhante, eu particularmente gostaria de tê-los visto tocarem mais de uma melodia. Quem é Andrew ou quem é Fletcher além da força motriz que os impulsiona? 

As poucas cenas que tentam ampliar o espectro psicológico dos dois protagonistas, como o romance de Andrew ou a desolação com a morte de um estudante de Fletcher, provam-se apenas subterfúgios para reforçar ainda mais a mensagem principal. Alguém uma vez disse que Dave Matthews não era um vocalista, mas que sua voz era só mais um instrumento da banda. Andrew e Fletcher não são personagens, são apenas engrenagens de um roteiro milimetricamente ajustado.

Minha primeira impressão, ao terminar o filme, foi de ter visto um Cisne Negro sem a profundidade de caracterização e sem os truques narrativos. Uma párabola sobre a obsessão contada em uma única camada. Foram necessárias algumas conversas com amigos e a leitura de um tanto de outras resenhas para começar a avaliar o filme com lentes diferentes. Alguns expectadores vão enxergar perfeição cinematográfica em um roteiro que não foge do seu objetivo nem por um segundo, enquanto que outros, como eu, vão sentir o vazio de uma produção focada em personagens que terminam sua jornada no mesmo ponto em que a iniciaram. O que importa é que independente de que lado você esteja, dificilmente estará indiferente.

terça-feira, 24 de março de 2015

Garota Exemplar (Livro)

A faceta mais aterrorizante do casamento

Considero quase impossível fazer uma análise desse livro sem revelar detalhes da trama. Por esse motivo, segue no primeiro parágrafo, o arremate que estaria reservado ao último: um ótimo livro de suspense que vai fundo em analisar os perigos que rondam um casamento e a difícil dinâmica entre um homem e uma mulher. É diversão garantida com um bom tanto de reflexão e recomendo sem maiores ressalvas.

Vamos agora à análise que pode conter spoilers.

Só para começar: ainda que a tradução do título para o português seja bastante própria para o livro, ela altera consideravelmente a relação do leitor com o mesmo. No original, em inglês, Gone Girl, você pode entender "Garota que se foi" em seu sentido mais literal e que é totalmente apropriado para uma história cujo tema principal é o desaparecimento de uma mulher, mas você pode também aceitar o seu sentido metafórico como a garota já não está mais lá ou já se tornou outra pessoa. Nos dois casos estaríamos falando de uma garota genérica, como se representasse toda e qualquer mulher.

Garota Exemplar, o título em português, remete a uma temática muito específica, de uma garota que não comete erros, que faz tudo o que se espera dela. Algo extremamente em linha com um dos pontos mais relevantes do livro, mas que não representa o que me parece ser a intenção original da autora. Cito esse assunto apenas como uma ponderação, porque admito que seria difícil uma tradução que capturasse a essência do título original.

Garota Exemplar é um exemplo do que os americanos sabem fazer de melhor: replicar modelos de sucesso. Parece um livro escrito com uma fórmula ou roteiro com regras e métricas sobre o que inserir ou revelar em cada momento. Ele apresenta os personagens e inicia a ação rapidamente e vai distribuindo pequenos ganchos a cada, no máximo, 15 ou 20 páginas, fazendo com que o interesse se perpetue (estilo Dan Brown). Só que mesmo que a técnica seja perfeita, seria muito difícil alcançar o sucesso sem um tema que falasse diretamente à alma do leitor: no caso de Garota Exemplar, a incomunicabilidade entre o homem e a mulher e a difícil missão a que eles se propõe de manter um casamento. 

Boas histórias de terror e suspense são aquelas que intensificam o lado perverso de algo que culturalmente consideramos positivo. Quando você transforma a gestação e o nascimento de uma criança em algo perverso, por exemplo, você atinge mais profundamente sua audiência. Em Garota Exemplar, o protagonista monstruoso é a relação de Amy e Nick e principalmente o seu casamento. Pequenas frustrações ou dificuldades de comunicação que permeiam o casamento de qualquer pessoa são amplificadas até atingirem níveis surreais. Contudo, como são calcadas na realidade, sempre fica a sensação de que "poderia acontecer comigo".

Amy e Nick, os polos dessa relação tão doentia quanto usual, são personagens construídas para parecerem reais, mas ao mesmo tempo funcionarem como arquétipos do masculino e do feminino, tanto das características boas, quanto das menos desejáveis. Amy é é uma sociopata, mas é tão fácil me identificar com ela que chego até a ter medo. Nick também é um sociopata, mas como homem não é difícil empatizar com suas angústias e seu desespero. As duas personagens são incríveis, mas Amazing Amy é de longe a que merece um lugar na minha memória eternamente. Se não por mais nada, pelo seu monólogo no início do segundo ato do livro e suas reflexões sobre a "garota legal (cool)".

Falando em segundo ato, vale mencionar que a estrutura narrativa e o formato da história são outros atrativos do livro. Alterna entre a narração em primeira pessoa por parte de Nick, conforme os eventos se desenrolam após o desaparecimento, e a exposição do diário de Amy que desvenda a vida anterior do casal na forma de flashbacksAmy em seu diário desenvolve o relacionamento dos dois desde o momento em que se conheceram e sua visão é contraposta às lembranças e reminiscências de Nick nos dias atuais, formando um painel de expectativas e desilusões antagônicas e tristemente familiares.

Infelizmente, para leitores e expectadores de mistérios e thrillers, uma das revelações principais acaba não causando o espanto que deveria, mas os pequenos ganchos de cada um dos curtos capítulos mantêm um ritmo fluido e o interesse não diminui (terminei o livro em praticamente uma sentada). É necessário também que se suspenda a descrença em algumas passagens que forçam a mão, mas no ponto em que elas acontecem você já está tão interessado no destino de Nick e de Amy que vai deixar passar muita coisa.

Como normalmente acontece, muita gente vai deixar de ler esse livro e conhecer a história apenas pelo ótimo filme do diretor David Fincher. Infelizmente o papel tem muito mais a oferecer do que o que é mostrado nas mais de duas horas de tela. Amy e Nick são muito complexos e há muito mais a se absorver deles do que simplesmente ouvir e ver a sua história.

quinta-feira, 19 de março de 2015

Birdman ou (A Inesperada Virtude da Ignorância)

Tecnicamente irrepreensível, mas...

Direção: Alejandro Gonzáles Iñárritu
Título Original: Birdman or (The unexpected virtue of ignorance)
Duração: 119 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2015

Birdman ou (A inesperada virtude da ignorância) ganhou o último e mais importante prêmio da cerimônia do Oscar, o de melhor filme. Levou também os prêmios de melhor diretor, fotografia e roteiro original. Foi justo? Como acontece com quase todas as perguntas para as quais damos pelo menos uma certa importância na vida, a resposta é simplesmente "depende". Depende muito do que você espera de um vencedor do Oscar, depende dos seus valores, depende da sua conexão emocional com o filme, dentre outros parâmetros.

Pessoalmente, se tivesse que escolher o melhor filme desse ano, teria dado a estatueta para O Grande Hotel Budapeste. Acredito que um Wes Anderson merece ganhar pelo menos uma vez e vai ser difícil você conseguir ser mais Wes Anderson do que em O Grande Hotel Budapeste. Assisti a apenas mais três dos filmes que concorreram, mas por trailers e cenas que já rodaram na internet e na própria cerimônia do Oscar, entendo que Birdman tenha levado o prêmio porque ousou tecnicamente, acertou no roteiro e foi muito feliz na escolha de seu elenco. 

A ousadia de Birdman evidencia-se principalmente no formato que é puro experimentalismo e descarada vontade de mostrar que "sim, é possível" fazer um filme inteiro como um grande plano-sequência. O prêmio de fotografia (ou atualmente cinematografia) era uma barbada, já que boa parte da diversão do filme é tentar entender onde foram feitos as quebras entre as cenas ou como certas tomadas que atravessam grades, paredes etc, foram realizadas.

Talvez seja um pouco de exagero adjetivar o roteiro como inovador, mas fato é que ele ao menos não é tradicional e fala de temas que tocam a sensibilidade dos tais "membros da Academia", aquelas figuras míticas que são citadas a todo minuto na cerimônia do Oscar, mas que ninguém parece saber exatamente quem são. Birdman narra os dias que antecedem a estreia na Broadway de um ator mundialmente conhecido por ser um pioneiro da onda de filmes de super-heróis que tomou conta de Hollywood nas duas últimas décadas. 

Riggan Thomson, interpretado por Michael Keaton, quer provar para o mundo e para si mesmo que é mais que um corpo em uma roupa de látex fingindo voar pela cidade. Para isso ele escreve, produz e protagoniza uma peça baseada em um antigo material de Raymond Carver. Somando ao estudo de personagem que já surgiria dessa premissa estão elementos fantásticos e metafóricos associados à psique de Riggan: ele acredita que tem (ou realmente tem) poderes super-humanos como seu antigo alter-ego, o super-herói Birdman (alter-ego esse que está constantemente discutindo com Riggan).

Se alguém associou a escolha de Michael Keaton ou Birdman com a série de filmes do Batman, tome aqui uma sardinha. Não só ele, mas também alguns de seus companheiros de elenco são profissionais conceituados que também já colocaram seu talento em prol da quadrinização do cinema. Emma Stone e Edward Norton, no entanto, levaram suas indicações aos prêmios de melhor ator e atriz coadjuvante sem muito esforço, tendo acertado em cheio uma ou duas cenas (Norton mais que Stone), mas Keaton permanece a maior parte do tempo em tela e muitas vezes está irreconhecível. Não levou o Oscar, mas arrebatou vários outros prêmios nas semanas que antecederam a cerimônia. 

A performance de Keaton não é pro meu gosto pessoal, pois ele parece uma versão melhorada (e muito) da escola cocainômana de atuação Fábio Assunção, sempre se movendo, sempre de olhos arregalados e tensos, mesmo quando a cena pede uma postura mais relaxada (que são poucas no caso de Birdman). Porém é impossível não admitir que foi um trabalho de atuação digno de aplausos e que nos deixa, no mínimo, uma cena antológica em que ele anda de cuecas pela Times Square, enquanto é assediado por fãs.

A superposição do fantasioso com o real, a loucura metafraseando a realidade, os paralelos das carreiras dos atores envolvidos no filme com o que os personagens estão vivendo: todas essas camadas tornam a experiência de Birdman muito mais interessante do que a de seus concorrentes. Além da experiência estética, das boas atuações, soma-se esse roteiro que brinca em seus diálogos e situações com símbolos e metáforas de uma maneira orgânica e inteligente.

E se a cinematografia, o roteiro e as atuações beiram o impecável, por outro lado, há aspectos que podem criar uma sensação de desconexão ou afastamento do expectador com o filme. Birdman é, por exemplo, bastante exaustivo e cansativo. Todos os personagens são intensos, todas as emoções estão constantemente a extravasar pela tela. Não há alívio, não há mudança de tempo, são duas horas em uma batida forte e mesmo quando o ritmo dá uma trégua (nas cenas de Riggan com sua ex-esposa, por exemplo), há um mal-estar ou uma tensão oculta no ar.

Além disso, fora do meio artístico e principalmente do cinema/teatro, é difícil se conectar com o dilema vivido pelo protagonista (ainda que seja relativamente fácil de compreende-lo). É como se eu conseguisse perfeitamente entender o que o filme está querendo entregar, mas não valorizar a mensagem. Essa falta de empatia não me permite apreciar o filme tanto quanto o meu lado racional acredita que deveria.  

No discurso no Oscar, o diretor Alejandro Iñarritu mencionou, para meu espanto, ter ficado feliz de finalmente fazer uma comédia. Uma declaração que só faz sentido se acreditarmos que seja uma tremenda ironia ou se buscarmos um nível muito mais conceitual do que seria uma comédia. Ainda que haja momentos, e muitos, tragicômicos, a tragédia é quem dá o tom e faz-se muito mais imponente nessa tour-de-force teatral. Contudo, quando fica dificíl encaixar uma obra de arte em uma caixinha específica já é um bom sinal de que algo de interessante está acontecendo ali.

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terça-feira, 11 de novembro de 2014

Precisamos falar sobre o Kevin

Tema Dificíl, Inúmeras Interpretações

Direção: Lynne Ramsay
Título Original: We need to talk about Kelvin
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2012

Há algum tempo não tenho tanta dificuldade para escrever sobre um filme. Precisamos falar sobre Kevin é um espécime bastante peculiar. Explico-me. Assim que os créditos subiram, meu sentimento era de que o filme tinha passeado por diversos pontos e não chegado a lugar algum. O filme termina em um ponto que parece incoerente com tudo que o precedeu e ao mesmo tempo há elementos que o tornam possível. Não me pareceu um filme bom. Contudo, quanto mais penso nele, mais vejo que há conteúdo de sobra e há diversas discussões interessantes esperando para serem iniciadas escondidas entre cores, expressões faciais, pedaços de história.

Em primeiro lugar, é necessário dizer que fotografia e direção de arte são tocadores de bumbo dessa película. E isso é, novamente de maneira interessante, sua maior força e sua principal fraqueza. A força vem da carga simbólica que é pensada para cada cena. O filme abre com a personagem principal, Eva Khatchadourian, sendo carregada por uma multidão no que parece ser a Tomatina, a festa espanhola do tomate. Lembra uma orgia banhada a sangue. Eva está em êxtase. Eva é uma escritora-viajante, conhece o mundo e vive a vida do ultraurbano feliz e descolado, mas o banho de "sangue" prenuncia o que será a sua realidade. 

São mostrados quatro períodos distintos da vida de Eva que parecem todos ser um único. Os tempos se mesclam para tentar criar uma relação de causa-efeito ou, no mínimo, uma correlação. Cenas são encadeadas com elementos em comum para que o telespectador crie as conexões que não foram mostradas. Tudo é simbólico. Respostas não são dadas, mas induzidas. Eva toma pílulas e bebe, Eva está em choque, Eva está extasiada. Em quase todos os momentos Eva parece estar em um estado que permite interpretarmos que tudo que vemos é visto com os olhos de Eva, tudo se confunde, presente e passado são a mesma coisa. As atitudes das pessoas parece estranha: o filho é excessivamente maligno, o marido estupidamente iludido, a filha absurdamente meiga. Vemos a realidade ou vemos o mundo com as lentes de Eva? 

Tudo isso eleva o filme a patamares superiores, criando camadas de interpretação para cada uma das cenas. No entanto, a estrutura é uma fraqueza ao descreditar a, por assim dizer, camada principal, ou seja, a história "real". Descredita a ponto de, no final, você simplesmente não comprar o desfecho e o filme cair na clássica avaliação "não fez sentido" reservada a exemplares ruins. Mesmo entendendo a dinâmica entre os personagens, é difícil aceitar a conclusão. É uma daquelas situações em que a atitude da personagem parece servir ao roteiro e não ser coerente com ela mesma. Contudo, são pouquíssimas as pessoas na audiência que poderiam efetivamente alegar entender a persoangem, já que pouquíssimas estiveram nessa situação extrema.

Não havia lido ainda o livro no qual o filme se baseou, mas o final foi tão desconcertante, que comecei a ler as primeiras páginas minutos depois do Netflix começar a sugerir filmes similares para continuar assistindo. A estrutura narrativa é completamente diferente e torna o "Precisamos falar sobre Kevin" do título ao mesmo tempo muito mais literal e ainda mais irônico: o livro é escrito na forma de cartas de Eva para o marido Franklin cerca de um ano e pouco depois do fatídico crime de Kevin. Já no início dá para ver que vários pontos que ficam completamente subentendidos no filme, são tratados, ainda que de forma sutil e indireta, com muito mais densidade e aprofundamento. 

Lynne Ramsay, a diretora, quer mostrar em imagens o que no livro é discutido com palavras, muitas palavras. A já centenária expressão "uma imagem vale mais que mil palavras" parece ser o modus operandi de Ramsay. As cores dão o tom e você precisa decifrar expressões faciais, entender o contexto, ligar o ângulo da câmera com o sentimento da personagem e decifrar muitos outros símbolos para poder absorver o que ela está querendo passar. Se no livro você terá várias oportunidades para aprofundar-se na alma de Eva através de suas divagações, auto-enganos e ilusões, no filme você terá que inferir as mesmas coisas a partir de olhares, esgares, trejeitos e expressões corporais. Não há narração, nenhum Morgan Freeman explicando didaticamente o que está acontecendo. 

Considerando isso, é essencial ter como protagonista uma atriz do porte de Tilda Swinton. Ela já tinha feito uma espetacular mãe em um filme de 2001 chamado Até o fim que poucas pessoas viram. Naquele, a mãe faz de tudo para garantir que o filho não seja acusado de assassinato, uma mãe clássica, entregue, muito diferente de Eva. A Eva de Swinton é uma mulher alquebrada, disforme, pálida e destroçada pela culpa. Em uma narrativa clássica, você se identificaria com a "vítima", mas Ramsay e principalmente Swinton não permitem que isso aconteça de forma fácil. Eva não é uma personagem simpática e de fácil identificação, porque Eva, a primeira mãe, a mulher primordial, rejeita e ao mesmo tempo sucumbe a seu papel "natural" e torna-se um alvo fácil para o julgamento não só das outras personagens da história, mas também da audiência.

Ezra Miller, assim como os pequenos Jasper Newell e Rock Duer constroem um Kevin estranho, difícil, diabólico e manipulador, porém, apesar de tais interpretações serem dignas de elogios, o resultado delas cria uma personagem que é um dos principais motivos para a difícil aceitação do desfecho da história. Sobra muito pouco ou quase nenhum espaço para qualquer análise de Kevin que não seja a do sociopata que vai gradualmente aumentando seu nível de maldade. Com um pouco mais de ambiguidade e zonas cinzentas, o filme teria também gradualmente saído no nível muito bom para excelente.

Há algumas tintas feministas de tonalidade forte no vermelho-sangue que rege o filme. Eva, dona de si, viajante, culta, independente passa a ser marionete das personagens masculinas e será apedrejada por não ter aceitado plenamente seu inevitável papel biológico e "natural". Eva submete-se inicialmente ao marido e posteriormente a Kevin, vítima de uma culpa que parece extrínseca a ela. Como conciliar a Eva pré-Kevin com a Eva pós-Kevin? Do pouco que li do livro, a discussão é mais complexa e envolve toda a cultura norte-americana ou mesmo ocidental, o vazio existencialista de nossa geração, passa por consumo e imagem e não necessariamente debruça-se sobre a opressão masculina. Porém, essa é uma interpretação válida como várias outras e daí nasce a força do filme (e mais ainda do livro).

Uma outra linha de interpretação possível é a possibilidade da fatalidade ter sido evitada se o contexto cultural fosse diferente. Precisamos falar sobre Kevin coloca o dedo em uma ferida exposta porque levanta a possibilidade de que talvez a tragédia não houvesse ocorrido se a sociedade não cobrisse de uma aura mítica a maternidade e não ditasse o que é moralmente correto relacionado a relação de uma mãe com um filho. Se Eva encontrasse em Franklin ou em qualquer outra pessoa empatia para seus sentimentos em relação a Kevin, é possível que a vida de ambos, mãe e filho, tivesse se desdobrada de outra maneira.

Apesar de se chamar "Precisamos falar sobre Kevin", o que menos os pais fazem durante o filme é falar sobre o filho. Essa incomunicabilidade, que também ocorre entre Eva e Kevin ou Kevin e Franklin (o pai), é talvez uma das principais chaves para a compreensão dos eventos. A ironia do título é ainda maior porque a mãe é não só escritora, mas uma escritora sobre viagens, que fala sobre outras culturas, tenta entender pessoas muito diferentes dela. Ela consegue entender rituais sagrados de uma tribo de  Bangladesh, mas não o próprio filho.

As discussões podem passar também pela alegoria pois, para somar insulto à injúria, Kevin é geneticamente muito similar à sua mãe. Ezra Miller, que interpreta Kevin adolescente, veste-se de maneira andrógina e tem um rosto muito parecido com o da "estranha" e pálida Tilda Swinton. Essa semelhança permite-nos ver Kevin como um alter-ego de Eva, ou como se ela tivesse expurgado de si um mal inexplicável sobre o qual ela permanecerá sempre responsável por acreditar ser versão monocromática de si mesma. Diferentemente dos horrores de um Alien ou de O bebê de Rosemary em que a mãe carrega o mal em seu ventre, Eva não deu a luz a um mal extrínseco a ela, mas apenas libertou o seu próprio lado sombrio. Como sua homônima bíblica, Eva deu a luz a Caim, mas também a Abel (Celia, a filha, é absurdamente boa) e tornou-se uma casca vazia, cuja moral e ética dependem dos seres a quem ela deu a vida e já não pode controlar.

Precisamos falar sobre Kevin é um ótimo filme que ultrapassa a barreira das suas quase duas horas de duração, abrindo margem para questionamentos posteriores. Acredito que ele fique ainda mais interessante se acompanhado à leitura do livro e estou eu mesmo entregando-me a essa tarefa atualmente (resenha do livro em breve). Vale a pena ver em um dia em que a pedida for por algo mais contemplativo e instigante e não pelo mero entretenimento. Aos amigos que já o viram: precisamos falar sobre esse filme.

Outras críticas de bons dramas no Crítica em Série:
Dúvida
Melancolia

sexta-feira, 6 de junho de 2014

O lobo atrás da porta

Cinema de gênero com qualidade e Made in Brazil


Direção: Fernando Coimbra
Título Original: O lobo atrás da porta
Duração: 100 min
Idioma: Português BR
Lançamento: Jun/2014

Tudo começa com o sequestro de uma criança no subúrbio do Rio de Janeiro. Acompanhamos, junto com o delegado interpretado por Juliano Cazarré,  os depoimentos de cada um dos envolvidos. Tentamos reconhecer nos detalhes quem está realmente falando a verdade. Pouco a pouco uma história de desilusões, obsessões, violência e horror vai se configurando a partir de uma premissa aparentemente banal e tristemente comum.

A competência do diretor/roteirista Fernando Coimbra aparece principalmente na maneira sutil como ele consegue colocar para segundo plano o que seria o enredo principal, deixando-nos incertos se estamos vendo um policial, um suspense ou um romance. E sem qualquer artifício barato ou enganação, o clímax é do tipo que todo roteirista gostaria de escrever: imprevisível, mas ao mesmo tempo inevitável. 

Sua inevitabilidade é ainda mais forte se você conhecer de antemão a história real na qual o roteiro se baseia, porém elimina qualquer possibilidade de imprevisibilidade. Acredito que simplesmente formular a frase anterior já seja um spoiler e agradeço a mim mesmo por não ter lido resenhas antes de ver o filme, o que permitiu uma apreciação muito maior do enredo, que é revelado pouco a pouco em uma economia de informações que funciona positivamente para a construção dos personagens e da trama. 

A direção e a fotografia complementam muito bem o roteiro, mantendo desfocados os elementos que estão mais distantes do centro, lembrando-nos que o que estamos vendo são memórias ou simplesmente versões de uma história que está sendo contada por alguém. Enquadramentos estáticos e cenas mais longas e sem cortes permitem que os diálogos e o trabalho dos atores ganhem destaque e tenham muito mais peso (mas também fazem com que o filme pareça ter um ritmo mais lento).

Pode não parecer digno de nota, mas impressionou-me bastante: as cenas de sexo são bem coreografadas e realmente tem uma história pra contar. Longe de serem gratuitas, elas dizem mais dos personagens do que a maior parte dos diálogos. Difícil me recordar de um filme em que uma cena de sexo tenha sido tão bem aproveitada para o desenvolvimento de uma relação ou de uma personagem. Percebe-se que é um roteiro estudado, que foi editado à exaustão para conter apenas aquilo que fosse necessário. Não há uma mensagem clara a ser passada, mas sim o incômodo de quem quer enxergar o mundo em preto e branco e que não consegue aceitar os seus mais de cinquenta tons de cinza. 

E para coroar um trabalho tecnicamente bem realizado, o estreante (em longas) diretor/roteirista ainda conseguiu três atores para protagonizar a história que se entregam completamente a seu trabalho. Leandra Leal, Milhem Cortaz e Fabiula Nascimento estão todos soberbos, mas Leandra merece uma menção especial pela quantidade de camadas que ela adiciona a sua personagem. Frágil e perigosa ao mesmo tempo, vítima e algoz mescladas de forma inseparável: mesmo sem conhecermos o seu passado ou sua vida fora da história sendo contada, você consegue perceber que há um mundo interior vasto, ainda que doentio, naquela mulher.

O filme, no entanto, só não alcança a nota máxima, porque acho que o humor, que geralmente brota na figura do delegado, parece um pouco deslocado do restante do clima estabelecido para história (além de não ter achado o trabalho de Cazarré no mesmo nível dos outros atores). Esse fator diminui um pouco a minha admiração pelo filme, mas certamente é uma avaliação bem particular e subjetiva e acredito que não seja um problema para maioria dos expectadores.

Independente disso, e sem partir para o ufanismo, é ótimo ver filmes brasileiros que não sejam comédias escrachadas, biografias ou exposições regionalistas. Porque não temos mais filmes de suspense, de terror, de ficção científica ou de fantasia? Orçamento pode até ser uma desculpa para os dois últimos (pode, mas não deveria), mas no caso dos dois primeiros, pode-ser fazer suspense e terror com praticamente nada. O lobo atrás da porta está aí para mostrar que "sim, nós podemos". Parabéns a Fernando Coimbra e todos os envolvidos. Espero poder ver mais do trabalho de vocês.

sexta-feira, 21 de dezembro de 2012

As aventuras de Pi - O filme

Limitações cinematográficas

Direção: Ang Lee
Título original: Life of Pi
Duração: 127 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Dez/2012

Seria praticamente impossível avaliar o filme apenas pelo que ele é depois de ter acabado de ler e resenhado o livro ainda ontem, então não vou nem tentar. E para tornar uma longa conversa curta, o resumo da jornada é que a experiência cinematográfica é certamente válida, mas, como de costume, a literária é insuperavelmente melhor.

E vamos às razões (ou melhor ainda às crenças):

Parte da genialidade do livro é permitir que o leitor vá visualizando uma estória em sua mente, seja ela mais crua e gráfica, seja ela mais fantasiosa e onírica, seja ela pautada no épico ou simplesmente na descrição enfadonha e rotineira do dia-a-dia no mar. Não importa qual seja a estória que você está lendo, o dado relevante é que é uma estória que VOCÊ e só você está lendo. Você traz para a mesa seus próprios valores e crenças, assim como Pi o faz, já que a narração é em primeira pessoa.

No filme, muito já está decidido por você e a direção segue um caminho bem definido pautado pelo fabuloso, pintando com cores fortes, muita luz e muita grandiosidade os eventos que se seguem. O mar é um elemento mágico, o tigre é de uma vivacidade fantástica, ambos de uma beleza ímpar e selvagem. A presença divina manifesta-se do começo ao fim, desde as ensolaradas e bucólicas cenas dos créditos até os momentos finais.

Com tudo isso, o filme deixa muito pouco espaço para reinterpretações e releituras. Onde o livro permite uma multitude de significados e o envolvimento completo do leitor com a estória, o filme parece querer dar uma resposta "certa" e garantir um fechamento apropriado. Você só pode escolher uma das opções se aceitar ao mesmo tempo que ela não é a real e que você só a escolhe porque tudo indica que ela é a "melhor estória".

É fé baseada em escolha, não fé baseada em entrega ou em crença cega. É a fé que nasce do querer acreditar e não simplesmente do acreditar. Algo que vai contra a própria definição desse sentimento.

Algumas passagens mais fantásticas do filme são, no livro, muito mais calcadas na realidade, apoiada em tecnicismos de zoologia, botânica e navegação. No livro, a máxima com que o filme é vendido em seus pôsteres não é tão óbvia: não é necessário "acreditar no inacreditável", basta acreditar no improvável, o que é bem diferente.

Particularmente frustrante para mim, que acabara de ler o livro, foi a escolha do diretor, ainda que corajosa, de deixar que um personagem narrasse a estória em determinado momento crítico ao invés de mostrá-la, de utilizar imagens para torna-la mais real. Uma escolha deliberada que só reforça meu ponto anterior: a intenção parece ser entregar de bandeja um fechamento e só permitir ao público uma ilusão de escolha, fazendo com que muitos sintam que o final ficou "em aberto". 

Por esses e alguns outros equívocos As aventuras de Pi (o filme) nunca alcança a profundidade filosófica e o preciosismo estrutural de sua matriz literária. Está longe, porém, de ser um filme ruim. Tecnicamente fantástico, com cenários deslumbrantes e uma direção mais do que segura de Ang Lee, o filme mais do que vale a conferida, se não por todos esses bons atributos citados, ao menos pela "atuação" emocionante e verossímil de Richard Parker, o tigre que acompanha Pi em sua jornada. Um tigre para você "olhar nos olhos e enxergar a si mesmo".