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sexta-feira, 11 de dezembro de 2015

A menina da neve

Perdido na Tradução


Na capa do livro uma menção à autora ter sido finalista do prêmio Pulitzer ao lado do preço promocional de quinze reais para uma edição de mais de trezentas páginas e bom acabamento. No painel de chegadas e partidas, um aviso de atraso do voo. Essa combinação fez parar em minhas mãos A menina da neve, livro de estreia da norte-americana Eowyn Ivey. Como passatempo ou leitura despretensiosa, a aquisição não planejada certamente compensou seu baixo custo, mas algo deve ter se perdido na tradução, pois o texto é de uma simplicidade que não justificaria a atenção recebida em seu país de origem.

Um conto russo chamado Snegurochka, ou "a dama da neve", é a base em que a autora constrói seu emocionante relato sobre a vida no Alaska no começo do século XX. Na versão original, assim como em sua variação, um casal mais velho e sem filhos faz um boneco de neve que ganha vida, e assim nasce a menina do título. No livro de Ivey, o casal protagonista é formado por Jack e Mabel, personagens marcados por um evento trágico que vão para o estado mais gelado da federação americana para recomeçar a vida, fugindo de lembranças ruins.

A principal arma narrativa da autora é a tensão entre realidade e fantasia. Após o primeiro encontro com a menina que supostamente surgiu da neve, os protagonistas se revezam no papel de cético ou de crente. A autora trilha tanto a senda da fábula moralizante quanto a do conto de sobrevivência realista, desajeitadamente se acomodando em uma espécie de realismo fantástico anglo-saxônico, ao qual falta o exotismo dos seus congêneres latino-americanos, com seus personagens de emoções afloradas e expostas que parecem navegar mais facilmente pelo absurdo do que os sisudos e pragmáticos norte-americanos. Essa dicotomia, no entanto, funciona na maior parte do tempo, ainda que em alguns trechos, talvez pela falta de melhor adaptação na tradução, os sentimentos e reações das personagens parecem não se adequar às situações.

Ainda que seja baseado em um conto-de-fadas, A menina da neve explora um território distante do felizes-para-sempre, e já nas primeiras páginas uma de suas protagonistas tenta abandonar a trama se afogando em um rio gelado. Ela é impedida pela densa camada de gelo superficial e o frio, o inverno e a neve serão a partir daí um elemento importante e ativo no restante da história, seja literalmente ou em todas as suas versões metafóricas e simbólicas, como o silêncio entre um casal, a temperatura de um corpo agonizante ou a frieza necessária para a sobrevivência.

Ivey também insere discussões sobre perda, maternidade, ligações familiares, as escolhas que fazemos nas nossas vidas e a importância do legado que deixamos através dos nossos filhos. Porém, todas essas divagações são rasas, óbvias e muitas vezes de um didatismo incômodo. A narrativa sai-se muito melhor quando concentra-se em sua camada mais mundana e factual, nas dificuldades de sobrevivência na fronteira setentrional dos EUA, na luta das personagens contra a fome, o frio, os animais selvagens e as noites infinitas de inverno. A autora, natural do Alaska, descreve com excelência a fauna, a geografia e o perfil da população que se dispôs a viver em local tão inóspito e extrai disso o maior valor do seu livro.

A tradução nacional deixa escapar alguns poucos erros de concordância e, de maneira geral, escolhe construções gramaticais que não soam naturais para o português. Esse estranhamento nasce de uma decisão por uma adaptação mais literal e pouco flexível. Parece fruto de um profissional competente de tradução, mas não de um escritor propriamente dito (esse normalmente adiciona sua própria voz ao texto original para, paradoxalmente, garantir mais autenticidade).  A própria autora tenta experimentos linguísticos que já parecem artificiais ainda em inglês. Ela tenta criar imagens e estruturas originais que acabam soando primárias, mais pretensiosas do que artísticas, marcas da inexperiência de uma escritora que ainda está se encontrando. 

Os deslizes técnicos, contudo, não diminuem a força de uma boa, ainda que simples e tradicional, história. Um conto fantástico, triste e belo ao mesmo tempo, que ganha mais relevância pela competência na construção do ambiente, tanto físico quanto temporal, A menina da  neve deve conseguir arrancar lágrimas de boa parte dos leitores (confesso que fui um deles) e agradar em cheio aos fãs de (melo)dramas históricos e sagas familiares. Se é emoção e uma certa dose de nostalgia por tempos não vividos que o leitor procura, esse é um livro que não deve decepcionar. 

segunda-feira, 27 de julho de 2015

Wayward Pines

Shyamal... Quem?

Temporadas: 1
Episódios: 10
Situação: Concluída
Emissora: Fox
Showrunner: Chad Hodge (M. Night Shyamalan como produtor-executivo)

Imagine um giroflex com sua intensa luz vermelha girando na escuridão acompanhada de uma insistente sirene zunindo irritantemente e impedindo que você consiga pensar em qualquer outra coisa. Com essa imagem quero deixar dois alertas para você: passe longe de Wayward Pines e, caso vá ignorar o primeiro aviso, saiba que os próximos parágrafos vão estar repletos de spoilers.

Vendida como "Twin Peaks encontra Lost" e ostentando a "grife" M. Night Shyamalan (Sexto Sentido e... Outros filmes ruins), Wayward Pines deveria pagar penitência (Shame! Shame!) por sequer ousar comparar-se a esses marcos da televisão norte-americana. Há muito pouco da atmosfera fantástica e bizarramente familiar do show de David Lynch e menos ainda da estrutura narrativa inovadora ou da construção eficiente de mistérios da série de J.J. Abrams e Damon Lindelof.

Wayward Pines é amaldiçoado por diversos problemas, mas a escalação de Matt Dillon como protagonista, um ator que consegue declamar a frase "Você quase matou meu filho!" com a mesma entonação que ele diria "Adoro sorvete de pistache", talvez seja o mais evidente. Seu discurso é monotônico e carregado de uma empostação ridícula e seu rosto alcança no máximo umas duas ou três variações de expressões, sendo que o ator sempre escolhe a menos adequada para cada momento. Outros programas conseguiram se safar tendo canastrões como protagonistas (Prison Break vem logo à mente), mas só conseguiam faze-lo por conta de um roteiro bem estruturado.

A trama de Wayward Pines nasce de uma premissa interessante e com algum potencial, mas que é mal utilizada, focando nos ângulos incorretos e apressada por uma necessidade inexplicável de construir "viradas" a cada quadro (Shame! Shame! Shyamalan...). A construção dos principais dramas pessoais é rasteira e clichê, as resoluções dos conflitos são desencontradas e anti-climáticas, os acontecimentos mais expressivos não tem consequências à altura, pois o enredo quer partir imediata e rapidamente para a próximo momento "A-há!".

O programa, que visivelmente estrutura-se para ser um mistério, consegue abusar constantemente do pior inimigo do gênero: a exposição. Tudo é explicado da maneira mais literal possível. Não há espaço para ambiguidade e para que os expectadores confabulem acerca de suas próprias teorias. Uma decisão de direção tão errada que, a maior revelação chega na primeira metade de episódios, sem deixar qualquer espaço para dúvidas e simplesmente torna irrelevante tudo o que vem depois dela.

A enfermeira Pam, interpretada pela veterana, Melissa Leo, é a personificação dessa bola de neve expositiva que desce das montanhas geladas de Wayward Pines para atropelar o espectador desavisado. Assim que conhecemos Pam, ela mostra-se um mix de sadismo e reticente loucura que rouba todas as cenas (ainda que, dividindo a tela com Dillon, isso seja o equivalente ao proverbial roubar doce de crianças). A partir da revelação principal, ela vai veloz e inexplicavelmente tornando-se uma personagem amorfa e insossa até que (pobre Melissa) termina espremida dentro de um ridículo colante prateado tentando dar dramaticidade a uma cena que já está longe de qualquer salvação. 

Ao invés de trabalhar as questões existenciais e sociológicas que o seu cenário engendraria, Chad Hodge, o showrunner, prefere focar seus esforços na ação, em dramalhões rasos e mal construído, em proto-romances desnecessários e numa discussão sobre o autoritarismo conduzida sem qualquer sutileza. Nas mãos de bons diretores e roteiristas, a premissa de Wayward Pines poderia render muito mais mistério, tensão e arrebatamento.

Inclusive não é preciso forçar a imaginação para constatar o que a série poderia ter sido, pois os primeiros episódios apresentavam alguns bons indícios da direção correta. Neles, você tinha a participação de ótimos atores e atrizes que realmente captaram o espírito - Terrence Howard (Homem de Ferro, Crash) que fez um xerife maníaco e simpaticamente aterrorizante e Juliette Lewis (Assassinos por Natureza) que fez, bem, mais uma versão de Juliette Lewis, ou seja, alguém de quem você nunca sabe onde acaba a dissimulação e começa a loucura, são ótimos, porém não os únicos exemplos. Nos poucos episódios em que eles aparecem, o enredo foca em construir narrativas possíveis, expandir cenários, criar atmosfera e não muito depois que eles deixam o elenco, a história entra numa espiral auto-destrutiva sem muitas explicações.

Como M. Night Shyamalan ainda consegue financiamento para os seus projetos depois de anos de fracassos é o mistério mais intrigante que você vai encontrar em Wayward Pines. Diferente de todos os outros que são explicados em detalhes não solicitados, esse ainda vai ficar em aberto. Suspeito que não seja a última vez que ouvimos o nome que ninguém sabe pronunciar, mas espero que nenhum executivo da Fox aprove uma segunda temporada para essa série (Shyamalan já deu entrevistas falando que têm "boas ideias" para uma continuação). Eu já cumpri mais do que meu dever ao me arrastar até o final dessa primeira empreitada e não contem comigo para fazer o mesmo num possível retorno dessa bagunça. Vai ter quem goste, com certeza, mas como dizem por aí, opinião é como... bicicleta e cada um tem a sua.

sexta-feira, 24 de julho de 2015

O oceano no fim do caminho - Neil Gaiman

Em busca de um tempo nada perdido

Por conta de resenhas e críticas que havia lido há tempos, comecei a ler o novo livro de Neil Gaiman, O oceano no fim do caminho, esperando algo mais calcado na realidade (não sei onde estava com a cabeça) e autobiográfico. Enfim, um livro que fugisse um pouco dos padrões de literatura fantástica do autor. Enganei-me fantasticamente. Gaiman não só está no seu universo, mas confortável e apaixonadamente entregue ao que ele faz de melhor. 

Recentemente, meu romance com os produtos da mente desse britânico andava um tanto quanto fatigado porque resolvi acompanhar o cara nas redes sociais e descobri que o ser humano Gaiman é muito menos interessante (e consideravelmente mais babaca) do que a sua obra. Além disso, Coisas Frágeis, o último livro que tinha lido dele é, quando muito, curioso e, na maior parte do tempo, apenas mais do mesmo. 

O oceano no fim do caminho, no entanto, reacendeu a fagulha desse amor literário. O livro é inegavelmente um produto da marca Gaiman, porém um exemplar do que ele consegue produzir de mais refinado. Uma história em que se consegue ouvir sua voz claramente e perceber a paixão que foi colocada naquelas linhas. Além de ser um trabalho de edição fenomenal, pois a trama foi visivelmente burilada até deixar somente o essencial para contar a história e cativar o leitor a maior parte do tempo.

Acompanhamos as peripécias de um garoto de sete anos sendo narradas por um homem de meia idade que, pelo contexto, parece ser um alter-ego de Gaiman relembrando a infância. O suicídio de um personagem dá início à trama principal, aparentemente libertando um mal desconhecido. Desconhecido para o protagonista, mas não para as místicas e poderosas mulheres do clã Hempstock, que já sabem de sua existência desde tempos imemoriais. De forma peculiar, o protagonista acaba servindo mais como uma âncora para o expectador maravilhar-se com essas intrigantes personagens femininas, a quem pertence efetivamente o foco da narrativa.

A linha entre a imaginação e o factual é muito tênue e é ultrapassada o tempo todo. Em um dos momentos mais tensos do livro, você tem certeza de que a ação é "real", mas a motivação pode vir tanto de algo fantasioso, como de algo muito mais bruto e cruel. Como em As aventuras de Pi, talvez a fantasia seja algo muito mais palatável do que a realidade, ou talvez a fantasia seja a realidade se assim lhe parece. Depende também de nós leitores e daquilo em que escolhemos acreditar, sendo que o enredo faz uso constante não só dessa ambiguidade, mas de muita simbologia.

Os símbolos parecem ao mesmo tempo serem óbvios e impossíveis de serem captados: seriam as Hempstock uma alusão a Santíssima Trindade? O oceano é uma imagem para o berço da vida ou simplesmente uma metáfora para o conhecimento e para o amadurecimento? A linguagem ancestral seria a palavra de Deus ou simplesmente uma alegoria para reforçar o poder do mito e das histórias? Em alguns momentos, as referências deixam de ser metáforas para quase simples e cruas comparações, e ainda assim é muito difícil agarrá-las com firmeza e certificar-se de seus significados.

Mantendo um de seus principais tiques narrativos, os personagens de Gaiman estão sempre envolvidos nas situações mais irreais possíveis e ainda assim eles se mantém reais. Você vê que eles não estão sendo levados pela história, mas que realmente a estão vivendo. Mesmo a naturalidade com que o protagonista de Oceano enfrenta determinadas situações fantásticas, parece mais verdadeira do que uma reação "apropriada" permitiria. É muito bem estabelecido que estamos falando não só de uma criança de sete anos, mas de uma com uma imaginação muito fértil, irrigada por leitura ininterrupta e por uma absoluta paixão por mitos e lendas.

O oceano no fim do caminho é um livro curto e rápido de ler, mas que remexe no nosso baú da infância e nos faz lembrar que a criança que fomos vai estar sempre dentro de nós e que aquilo que nos dava força há anos, estará sempre lá para nos mover mesmo em nossos momentos mais difíceis e desafiadores.  O livro não puxa você para o mundo dele, mas sim te empurra para dentro de si mesmo. Mais próximo do final, a vontade de chorar era quase irrepreensível e tenho consciência de as lágrimas vieram não pelos eventos que se desenrolavam no mundo de O oceano, mas pelas memórias e experiências que elas evocavam em mim mesmo.

Contudo, nem tudo funciona no livro e uma análise fria e técnica o colocaria na categoria "ótimo", para alguns leitores apenas "bom", e não "excelente/obra-prima" como escolhi classifica-lo. Ele, no entanto, conseguiu, especificamente comigo, transcender a relação de entretenimento puro e simples, para algo muito mais íntimo e seria uma injustiça avaliá-lo apenas pelos critérios técnicos. Aqueles leitores que se permitem enxergar o mundo não só com os olhos, mas também com a imaginação, provavelmente concordarão comigo.  

E você pode até esperar o filme (que segundo o IMDB já está em desenvolvimento e provavelmente será uma coleção de cenas oníricas fantásticas), mas para alimentar a criança que se escondeu dentro de você, bata a poeira que assentou-se sobre sua fantasia e deixe ela correr livre por alguma horas com as Hempstock. Você em algum momento vai se lembrar que já mergulhou no oceano no fim do caminho e que ele continua lá esperando sempre que dele precisar.

quinta-feira, 23 de julho de 2015

Limbo

Tétrico, lúgubre e sublime

Desenvolvedor: Playdead
Plataforma: PC, Mac, Linux, PS3, PS4, PS Vita, Xbox One e 360, Android e iOS
Itens de série: Atmosfera. Atmosfera. Atmosfera.
Defeitos de fábrica: Andamento desigual, início muito mais forte que o final

Essa é uma daquelas críticas em que por mais que se esforce, talvez não haja muito de novo a trazer pra discussão. Limbo faz parte de um grupo de jogos que caracteriza o início da era de ouro para os desenvolvedores independentes, junto com Braid, Fez, Super Meat Boy, Journey etc. Jogos que tiraram a indústria das páginas especializadas e apresentaram ao público geral algo que não fosse Mario, Street Fighter, GTA, Call of Duty e congêneres. Muito já se falou e se analisou sobre ele, mas sinto-me na obrigação de tentar acrescentar algo e garantir que ele tenha um merecido espaço no acervo do Crítica em Série.

Em Limbo, você controla um garotinho preso em um mundo preto e branco em que a morte está à espreita a cada tela. Não há muitas informações sobre o porque de você estar nesse lugar (além do sugestivo título do jogo), tampouco qual seria seu objetivo. Apesar dessa confusão inicial, o ambiente, o som, o layout e a arte se unem para criar uma sensação de urgência: ficar parado não é certamente a solução. Você não está em um lugar agradável e sair dele já é objetivo suficiente para qualquer pessoa. 

Nesse mundo de silhuetas, sua imaginação é a ferramenta para entender o que há por trás delas, e cada pessoa traz seus próprios medos para mesa, tornando Limbo uma experiência aterrorizantemente única para cada um. Quem é esse garoto? O que são essas criaturas? Porque há corpos de outras crianças ao longo do caminho? Quem são esses outros fedelhos que parecem ter saído direto das páginas de O Senhor das Moscas?

A história aqui, como preferencialmente deveria acontecer nessa mídia, é contada através da atmosfera e da própria mecânica do jogo: as maneiras como você morre, as atitudes de outros humanos em relação a você, a forma ameaçadora como o ambiente te persegue, tudo subjetivamente abre espaço para que uma narrativa se forme em sua mente. Os quebra-cabeças não estão lá simplesmente para ser resolvidos, boa parte deles também acrescentam à sensação de como esse mundo foi pensado para fazer com que você e outros sofressem e alimenta ainda mais de detalhes seu universo.

Como em alguns dos meus jogos preferidos, os da série Souls (Demon's e Dark), há pouquíssima música, o que paradoxalmente cria uma abundância atmosférica. O silêncio amplifica os sons do ambiente, muitos deles necessários para a resolução de quebra-cabeças. Um clique pode ser a deixa para que você se esquive de uma armadilha. Sons de animais se aproximando indicam que talvez seja a hora de procurar um lugar seguro para se esconder.

Não há texto, não há diálogo, não há tutorial, não há nem ao menos qualquer tipo de interface com o usuário (HUD), apenas o visual tétrico da floresta, das cavernas e de outros ambientes que você irá encontrar. Um jogo para iniciados que entendam minimamente a mecânica de um adventure. O repertório de possibilidades inclui as tradicionais alavancas, empurrar objetos para usa-los como plataforma para alcançar lugares mais altos, balançar em cordas e cipós, esse tipo de coisa. Há apenas dois botões disponíveis: Pulo e Ação, sendo que esse segundo age de diferentes maneiras dependendo do contexto.

A melhor forma de aprender as soluções para os quebra-cabeças é morrer. Ainda que seja horrível ver a sombra de um garotinho ser decapitada, alvejada, empalada ou esmagada, a penalidade por deixa-lo sofrer é mínima. O jogo reinicia segundos antes do momento da morte para que você tente uma nova tática. A maioria dos desafios exige apenas um pouco de atenção ao cenário e rapidamente são elucidados. São poucas as circunstâncias em que exige-se mais da coordenação olhos-mãos do que da dedução e do raciocínio. O importante é entender a mecânica das armadilhas e dos mecanismos e não tanto acertar exatamente o momento em que um botão deve ser apertado.

Acredito que o terço final do jogo seja um pouco menos interessante do que o restante. Os quebra-cabeças começam a exigir mais precisão que inteligência e o ambiente é menos ameaçador do que no início. Limbo pode inclusive ser bastante frustrante nesses momentos finais, nos quais a solução para determinados problemas é cristalinamente óbvia, mas sua execução depende de uma sequência de acertos numa cadeia de ações que precisam ser executadas com perfeição. É um jogo relativamente curto de duas a três horas que só se estende quando um dos momentos descritos anteriormente faz com que você fique mais tempo do que gostaria neles.

Apesar de algumas poucas escolhas equivocadas de design, Limbo é daquelas experiências que ficam marcada na sua memória. Ele consegue facilmente distinguir-se de outros jogos que você já tenha jogado, especialmente pelo estilo artístico e pelo som (ou pela falta dele). Enquanto os milhões de Call of Dutys e suas cópias são esquecidos assim que você desliga o console ou o computador, Limbo permanece como um parasita em sua mente, um lembrete do pesadelo de uma outra pessoa.

Limbo custa R$20,99 na Playstation Store e R$16,50 no Steam (quase sempre está em promoção). Mais informações técnicas sobre o jogo na sua página na Wikipedia ou na página oficial no site da PlayDead

terça-feira, 21 de julho de 2015

Corrente do Mal

Perseguidos pela inevitabilidade


Direção: David Robert Mitchell
Título Original: It Follows
Duração: 100 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2015


As expectativas eram altas para Corrente do Mal: recomendações positivas de amigos sabidos, aquele hype suspeito da crítica, material promocional intrigante e tudo o mais. E expectativas são a ruína de qualquer cinéfilo: elas raramente contribuem para o aperfeiçoamento da experiência. Por causa delas, ao final da sessão, frustrei-me. Não porque não fosse um bom filme, mas porque estava longe de ser a obra-prima que vendiam. No entanto, ao longo do dia seguinte e enquanto escrevia essa resenha, algo me seguia, cada vez mais próximo, mais ameaçador,  e com os mais diferentes aspectos. Percebi que, enfim, me tornara mais um elo naquela corrente...

Uma das razões para a frustração inicial é que tudo relacionado a Corrente do Mal apontava para uma história de terror, gênero ao qual ele inegavelmente pertence, mas não o que o mais caracteriza. Corrente do Mal é antes um filme de formação que um slasher adolescente. E o mesmo vale para outro hypado com tantas similaridades que sujeita Corrente a inevitáveis comparações: o sueco Deixe ela entrar. Ambos iluminam a crise existencial daquele período insano entre a inocência da infância e as responsabilidades da vida adulta; ambos rastejam por pretensiosas, lentas e entediantes cenas, e ambos são geniais. Chatos... mas geniais...

Corrente do Mal conta de uma garota que transa com um aleatório e passa a ser perseguida pela "entidade". Para que se livre do assédio sobrenatural, ela precisa transar a "entidade" para frente. Uma espécie de "comigo-não-tá" erótico. Simples assim. Estúpido assim. Insuspeitadamente inteligente  assim. É preciso deixar os símbolos e alegorias aos poucos sedimentarem em interpretações. E algumas delas podem até dar sentido ao festival de ambiguidades do diretor David Robert Mitchell

Mitchell é um quase-estreante esforçado que já assimilou truques de cineastas muito mais experientes que ele. Aprendeu, por exemplo, que uma câmera teimosamente parada tensiona e inquieta; ou que os elementos em segundo plano podem contar mais da história do que a ação no primeiro; que cada ruído, objeto, ângulo de câmera precisa adicionar ao contexto e subtexto do filme.

Subtexto esse que deixa eventualmente de ser sub para ser apenas texto de tão reforçado que é em todos os instantes: crianças brincam de pega-pega, os adolescentes jogam burro e o casal na fila do cinema brinca de "quem você seria" em alusões a mecânica da corrente; a água abunda em piscinas, em lagos ou na chuva remetendo ao desejo sexual; as decadentes e onipresentes casas e fábricas abandonadas de Detroit denunciam a natureza da "entidade"; a ausência de adultos na tela remete ao distanciamento e isolamento dos adolescentes que acompanham o amadurecimento sexual. 

Essas analogias e símbolos alimentam variadas interpretações para Corrente do Mal. Pode-se argumentar que o filme seria uma alegoria para a maturidade e o abandono de noções infantis de imortalidade. A entidade representaria a lenta aproximação da morte. Certamente não sem propósito, ela manifesta-se como pessoas mais velhas, decadentes, nuas, vulneráveis ou simplesmente já falecidas. Lembretes insistentes da nossa inescapável senescência. O sexo ao mesmo tempo traria essa percepção da brevidade e seria o meio para afastá-la.  

Em outra perspectiva, a entidade representaria a perda das certezas da infância e a necessidade de buscar constantemente por respostas para perguntas que você mal sabe quais são. O sexo alivia a angústia temporariamente (e afasta a entidade), mas é só questão de tempo até voltarem a assombrar. A corrente poderia ser também o remorso do pós-transa, a culpa católica pelo sexo pré-casamento e um punhado de outros significados.

O filme, enfim, dá um caráter ancestral aos questionamentos sexuais típicos da adolescência. Da "corrente", não se sabe como começou ou a razão de sua existência, e podemos assumir que é tão antiga quanto a humanidade e todos em algum momento nos tornamos parte dela. A aflição e o desespero das personagens reverbera em emoções e sentimentos facilmente reconhecíveis pela maioria das pessoas. 

Esse efeito de familiaridade e universalidade é amplificado com competência na concepção visual da direção de arte. Máquinas de escrever, carros antiquados e jaquetas jeans dividem a tela com celulares avançados numa esquizofrenia anacrônica que tornam impossível definir exatamente em que década o filme se passa e conferem a ele atemporalidade. As locações nos subúrbios estéreis,  vazios e amorfos de Detroit com ruas de horizontes a perder de vista também deixam mais densa a atmosfera de imprecisão e indistinção. 

O filme, contudo, não é isento de problemas e tem até uma cota considerável deles. Entre esses, por exemplo, cenas irrelevantes com adolescentes apáticos engajados em diálogos despropositadamente truncados e banais que não avançam o enredo. Ou uma personagem cuja única função é citar Dostoiévski (cita-lo uma vez já é indicativo perigoso de pretensão e várias vezes é um atestado de desespero para ser visto como "arte") e tais citações só servem para pontuar analogias que você poderia ter inferido pelo contexto. Por fim, a exígua trilha sonora é composta de ruídos irritantes arrancados de um teclado oitentista e por mais que remeta à tal "atemporalidade", simplesmente não funciona. 

Não espere sustos e não espere horror, ainda que haja bons momentos do gênero. Corrente do Mal é muito mais arte e introspecção, ainda que, por vezes, pretensiosa e óbvia. Uma pérola sem polimento ou polida demais a depender do ponto de vista, mas ainda assim uma pérola em um gênero que não produz muitas. A intenção de Corrente do Mal não é te assustar, e sim te perseguir até que você passe-o à frente. Está com você agora.

terça-feira, 14 de julho de 2015

Coerência

A coerência e a subjetividade 

Direção: James Ward Byrkit
Título Original: Coherence
Duração: 89 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2014

Há pouquíssimo tempo comentei sobre os filmes estilo Mindfucker ao escrever sobre a série Black Mirror, o que resultou numa indicação amiga de um ótimo exemplar do gênero. E ontem, enfim, fui intrigado e entretido pelo recente e pouco conhecido Coerência (Coherence no original - sem título em português, tradução livre e absolutamente literal de minha parte).

Vou me abster de falar sobre quaisquer detalhes do roteiro para não diminuir em nada o prazer de quem vier a assistir o filme. Em relação a outros quesitos técnicos, basta dizer que são bastante adequados: atuações sem destaque, mas efetivas; trilha sonora por vezes equivocada, mas inofensiva; edição truncada em um ponto ou outro, mas em linha com a proposta; cinematografia escura e opção pela câmera tremida para esconder limitações, mas que, mais uma vez, não impedem em nada a apreciação da história.

Coerência é essencialmente diálogo e enredo, ambos absolutamente "coerentes" e bem trabalhados. O filme cai no didatismo em pouquíssimas instâncias, ainda que em algumas delas de maneira artificiosa e afetada, mas não chega nem perto de ser reiteradamente ofensivo como, por exemplo, Triângulo do Medo. Expõe seus mecanismos básicos sem muita sutileza, mas deixa que a trama guie o filme e não que seus artifícios ou princípios o façam.

Como quanto menos se falar desse filme tanto melhor e como há ainda muitas linhas a preencher nesse espaço, dar-me-ei a liberdade de divagar sobre o processo da crítica em si. Há filmes aos quais assisto que entram na fila para ser resenhados e lá ficam por um período não determinado. Alguns estão na espera há pelo menos uns cinco anos e provavelmente nunca chegarão ao blog. Outros, como esse, não esquentam o banco sequer um dia.

Alguns filmes exigem bastante pesquisa, leitura de várias outras resenhas e estudo do assunto sobre os quais eles tratam, sendo que o texto final acaba ficando longe de ser uma opinião pessoal, ainda que reflita perfeitamente a minha avaliação do filme. Outros, como esse, sequer chegam a ser analisados e as críticas sobre eles não passam de uma recomendação positiva ou negativa. Ou são devidamente avaliados exatamente pelo que acredito que sejam, independente do entendimento de outras pessoas.

A verdade é que alguns filmes simplesmente não geram uma reação emocional tão forte quanto outros, não importa o quão excelente sejam (os ordinários e sofríveis, no entanto, nunca passam incólumes). Por mais que durante a análise ou a crítica a subjetividade seja suprimida, ela sub-repticiamente marca presença ao ser a força motriz da seleção não só de sobre o que escrever, mas muitas vezes do que você vai ou não assistir, ler ou jogar.
  
Coerência é um bom exemplo da subjetividade em ação. É daqueles filmes que, longe de serem obras-primas, conseguem fazer aflorar a curiosidade e o interesse. Exigiu minha atenção e conseguiu mante-la, e impediu até certo ponto que eu ficasse me perguntando o tempo todo se estava gostando ou não do que estava vendo, se os diálogos estavam sendo bem aproveitados, se as atuações estavam prejudicando a credibilidade da história etc. Mal entrou na fila de espera para ser assistido e rapidamente está sendo resenhado (recomendado talvez seja a melhor palavra).

Terminada a sessão aqui em casa, o filme continuou marcando presença, primeiramente na forma de uma discussão sobre seus pontos mais obscuros, validação dos entendimentos diferentes de cada um dos expectadores e uma avaliação crítica conjunta sobre o desfecho. Posteriormente, a mecânica central inspirou outros debates não relacionados diretamente ao enredo. Um bate-papo conceitual que deu origem a outras teorias e possíveis histórias. No meu caso particular, é difícil não gostar de um filme que enseje essas reações e acredito que para uma grande parte dos meus amigos também o seja, então que fique a dica!

PS: Não consegui me lembrar de quem foi que me indicou o filme. Então deixo aqui meu agradecimento genérico a todos meus tradicionais companheiros cinéfilos até que haja alguma reivindicação de autoria da sugestão. :-)

quarta-feira, 24 de junho de 2015

Don't Starve

Viciante Frustração

Desenvolvedor: Klei Entertainment
Plataforma: PS4, PS Vita, Wii U, Windows, OS, Linux
Gênero: Roguelike, Sobrevivência, Tower Defense
Itens de série: atmosfera e clima, sistema de criação de itens, tensão e desafio. 
Defeitos de fábrica: falta de progresso entre partidas, confuso para iniciantes

Você acorda em um lugar inóspito, nada além das roupas do corpo e uma mente brilhante para te proteger. A noite se aproxima e você deixa de lado a confusão e começa a coletar tudo o que pode ser útil para sua sobrevivência. Com gravetos e pedregulhos você fabrica um machado primitivo, derruba uma árvore mirrada e já tem a lenha para a fogueira que vai mante-lo aquecido e afugentar ameaças na escuridão que já começa a se insinuar. Você encontra o que parecem ser tocas de algum animal no chão e reza para que as armadilhas improvisadas permitam que você tenha algo mais substancial que frutas silvestres e cogumelos para comer no dia seguinte. 

Chega a noite e por mais que atice a fogueira, as trevas o cercam cheias de sons assustadores. Você pensa ter visto algo se aproximando. Olhos aterrorizantemente volumosos parecem fulgurar momentaneamente no breu. O desespero e o medo comprometem sua sanidade. Você junta o que está a mão e fabrica um arremedo de lança para se defender do que quer que esteja na escuridão. E finalmente vem o amanhecer... e depois dele muitos outros. Os dias passam e seu único objetivo é que mais deles passem. E você constrói uma tenda, você improvisa uma panela, você aprende como secar e salgar carnes, você explora mais e mais território.

E então chega o inverno... Encurtam-se os dias, a solidão aumenta, seu olhar cada vez mais distante e desesperançoso, a escuridão quase perene esmorece sua sanidade com maior velocidade. Os malditos lobos continuam a aterrorizar aleatoriamente os seus dias e noites. O vento gelado impede que você se afaste de seu acampamento, as plantas já não crescem mais, algumas de suas presas mais comuns hibernam e o alimento escasseia. Ao menos você tem sua magnífica barba para lhe proteger do frio. Sobreviver fica cada vez mais difícil, e você continua tentando impedir que aquele seja seu primeiro e último inverno. Mas ele é. E ele vai ser novamente. E de novo. E mais uma vez...

Don't Starve (Não Morra de Fome) é um jogo frustrantemente viciante. E tenha em mente que sou fã inabalável de jogos como Dark Souls e Bloodborne e adoro um roguelike do tipo Spelunky ou Rogue Legacy, então nível de dificuldade, repetição dos mesmos desafios, mortes permanentes e tudo mais que os caracteriza nem de longe me perturba. Ainda assim, o jogo de sobrevivência à la Minecraft da Klei Entertainment (Mark of the Ninja, Invisible Inc.), que alia tudo que há de mais potencialmente excitante daqueles citados anteriormente, conseguiu me deixar genuinamente possesso, pensando em destruir em um acesso de raiva o meu computador.

E Don't Starve tem quase tudo a seu favor: 
- Fascinante estilo artístico que casado com música e sons apropriados criam uma atmosfera desoladora, mas que ainda deixa espaço para leveza e para um certo humor negro como animações do Tim Burton (inclusive existe até um ótimo trailer (fake) do filme que seria dirigido por ele); 
- Sistema de criação de itens balanceado e complexo o suficiente para que você sinta que sempre há algo novo para testar; 
- Sistema de criação de mundos aleatórios para cada partida, mas que sempre mantém um mínimo de similaridade com as versões anteriores o suficiente para que ele pareça familiar; 
- Modo história/aventura desafiador e com um enredo simples, mas sinistramente intrigante;
- A capacidade de fazer você esquecer do tempo porque todo minuto parece essencial à sobrevivência do seu personagem do jogo. 

Contudo... Don't Starve tem uma única coisa que funciona contra ele, mas é uma única coisa que infelizmente faz com que você muito rápido perca o interesse nele: a falta de um senso de progressão. Você pode passar horas e mais horas em uma partida, construir um acampamento robusto, estar totalmente abastecido de comida, ter plantações crescendo, animais disponíveis para o abate e... uma matilha de lobos raivosos ataca-lo e o jogo acabar. Quando isso acontece, só lhe resta sentar e chorar, porque você vai ter que começar tudo de novo, passar pelas primeiras horas "extrativistas", construir tudo do zero e não levará nada da rodada antiga além da sua experiência pessoal. Frustração nível infinito!

O jogo se beneficiaria enormemente de um sistema de progressão. Uma segunda jogada traria algum benefício da primeira, nem que fosse uma parte dos itens que o "sobrevivente" anterior tivesse deixado. Poderia ser uma opção do jogador utilizá-la ou não: como o jogador pode escolher mais de um personagem com diferentes habilidades, porque não permitir que o novo personagem "encontre" um acampamento abandonado, ainda que depredado, para continuar a jogada. A penalidade por deixar o personagem anterior morrer seria não poder mais utilizá-lo naquele mesmo arquivo de salvamento. 

Independente disso, Don't Starve, mesmo com seu visual cartunesco, consegue ser apavorante e tenso, e possui mecânicas que garantem o engajamento constante, o que faz dele um jogo obsessivamente divertido. Contudo, a insatisfação e o desencanto ao final de uma partida e o tédio dos primeiros momentos de reconstrução em uma nova rodada são tão impactantes que vão fazer com que o jogador menos compulsivo desista de continuar relativamente rápido (e nem sou dos "menos compulsivos"). Ainda que com essa genuína e nada irrelevante ressalva, vale a pena esperar uma promoção da Steam para comprar o jogo e entreter-se em pelo menos algumas partidas com ele.

segunda-feira, 22 de junho de 2015

Black Mirror

Mal do século


Temporadas: 2

Episódios: 7

Eu era, e sou, fã de Além da Imaginação (Twilight Zone). Talvez fosse muito novo para me lembrar claramente dos episódios da versão mais recente que foi reproduzida na Globo nos anos oitenta, mas pude assistir alguns episódios da série original recentemente e mesmo mais de meio século depois eles continuam fantásticos (Nick of Time e Five characters in search of an exit são ótimos). Também sou fã de uma subcategoria cinematográfica chamada Mindbender, também conhecido pela alcunha menos elegante de Mindfucker, que enquadra filmes de diferentes gêneros, mas que distorcem de alguma maneira a realidade e confundem o expectador (Donnie Darko, Primer, Amnésia e Adaptação são alguns exemplos).

Esse parágrafo introdutório é apenas para dizer que, se você também se identifica com esses quebra-cabeças audiovisuais, existe uma grande chance de que Black Mirror vá ser um programa excelente para você. Nas palavras de seu criador Charlie Brooker (do bizarro e ácido Dead Set), "se a tecnologia é uma droga, Black Mirror é um tratado sobre seus efeitos colaterais". Black Mirror é uma espécie de herdeiro de Além da Imaginação com a mesma estrutura de episódios auto-contidos, porém abordando especificamente os efeitos de nossa obsessão com tecnologia. As tramas partem de situações reconhecíveis e relacionáveis para fazer questionamentos morais e éticos com os quais já convivemos e, mais ainda, com aqueles que ainda não percebemos e sobre os quais talvez devêssemos estar nos questionando.

A evolução da inteligência artificial e suas implicações, a vigilância constante e autorizada a que nos submetemos, o obscurecimento entre o que é humano e o que é máquina, a gamificação da vida, os limites da arte, a ditadura política das redes sociais e da mídia como um todo, a ubiquidade de telas e informações, o revanchismo, escravidão e tortura que estamos ansiosos em apoiar... São muitos os temas nos quais Black Mirror quer tocar com sua visão particularmente cínica, sombria e, por vezes, niilista. 

Cada uma das duas temporadas conta com uma história mais intimista, uma sátira política e um futuro distópico. Uma temporada espelha a outra: a sátira abre a primeira temporada e fecha a segunda e a intimista fecha a primeira e abre a segunda, sendo que essas últimas são justamente as duas melhores histórias do conjunto. Ainda que o todo seja fantástico, os episódios "distópicos" acabam sendo um pouco mais fracos. Porém, mesmo com tramas mais pueris, os dois conseguem manter a atenção ao ir revelando seu estranho universo pouco a pouco e nos mantendo curiosos. Há ainda um brilhante episódio especial de Natal que foi ao ar em 2014 protagonizado por Jon Hamm (o Don Draper de Mad Men). Com uma duração um pouco maior (cerca 80 a 90 min), o episódio é estruturado de forma a alinhavar três histórias diferentes, mas interligadas, e acaba valendo por mais uma micro-temporada.

Apesar do quão inventivas e aparentemente absurdas sejam as premissas dos episódios, paira o sentimento aterrorizante do quão plausíveis esses cenários acabam se mostrando. Talvez não agora, talvez não em dez anos, mas a grande maioria hipóteses poderia efetivamente concretizar-se, se não de forma idêntica, ao menos muito similar. Black Mirror entretém e ao mesmo tempo causa desconforto e chama à ação, principalmente no sentido de buscarmos mais conexão sem intermediários. Para Charlie Brooker estamos cada vez mais focados nas "sombras na caverna" e suas histórias estão aí para tentar nos forçar a olhar um pouco mais para o mundo como ele realmente é e principalmente como ele é para fora de nós mesmos. Parece-me uma mensagem que vale a pena ser ouvida, mas independente disso, Black Mirror é um programa satisfatório mesmo que seja só para se divertir.

sexta-feira, 22 de maio de 2015

O vendedor de passados

Passado Malpassado

Direção: Lula Buarque de Hollanda
Título Original: O vendedor de passados
Duração: 82 min
Idioma: Português
Lançamento: mai/2015

Não há desperdício nos enxutos 82 minutos de projeção de O vendedor de passados. A abordagem econômica age tanto em detrimento quanto a favor do filme: salva o expectador de diálogos redundantes e cenas que não avançam o enredo, mas também não permite que a trama aproveite satisfatoriamente sua ótima premissa.

É gratificante que não haja qualquer troca de frases entre os personagens que não estejam lá para gerar conflito ou para fornecer uma nova informação efetivamente necessária para a trama. Ainda que algumas falas, mesmo saindo da boca de excelentes atores, às vezes pareçam desprovidas de naturalidade e fluidez, o conteúdo das discussões, na sua maioria, mantém nossa atenção na tela.

Contudo, por melhor que sejam, os diálogos servem para compor um enredo que não alcança seu potencial. A história que nos é servida é protagonizada por Vicente (Lázaro Ramos), um carioca que vive de montar álbuns, filmes e outros materiais que ajudem a reescrever o passado de seus clientes com eventos que nunca aconteceram, mas que eles desejam, por motivos diversos, que tivessem acontecido. A (primeira de muitas) virada da história vem quando uma misteriosa cliente, interpretada por Alinne Moraes, contrata Vicente para criar um passado sem qualquer referência e com uma única condição: que nele ela tivesse cometido um crime.

A partir desse encontro, o roteiro vai nos servindo pequenas porções de informações, sempre em pratos com ótima apresentação, mas de sabor inconstante. Longe de se ater a um gênero e tema, a refeição passeia pela comédia, pelo romance e pelo thriller, sempre temperada com o mistério e a estranheza típicos da ficção científica. Quando chega a conta, que vem cedo demais e sem ser solicitada, somos cobrados por algo muito diferente do que achávamos que estávamos saboreando. 

Discussões sobre identidade, solidão, ética, verdade acabam sendo tocadas de modo rasteiro e servem apenas para distrair-nos da verdadeira intenção do filme. Um artifício que normalmente seria louvável se o conjunto final não fosse tão insosso. "Porque um carioca de 30 anos, bonito, vai se apaixonar e querer se envolver com alguma pessoa?". Essa é uma das perguntas que o diretor Lula Buarque de Hollanda se propôs a responder com seu filme (palavras dele mesmo retiradas de uma entrevista). Considerando todas as possibilidades que a premissa permitia, parece-me uma escolha equivocada (subjetivo, tenho consciência disso).

O ponto é que se assumíssemos que a intenção do filme fosse desconstruir um gênero e subverter as expectativas, como acontece, por exemplo, no esperto Gone Home, ele até poderia ter sido um exercício interessante. Não pareceu-me, no entanto, ser esse o caso em O Vendedor de Passados. Ao invés da impressão final ter sido "Uau, fui enganado direitinho", ela foi "Jura, era sobre isso então?". 

De qualquer maneira, o longa adapta com competência o romance do angolano José Eduardo Agualusa para a realidade brasileira ao buscar em ex-gordos, transexuais e mulheres de passado duvidoso os clientes para o serviço ímpar oferecido por Vicente (no original, os principais clientes são emergentes com dinheiro e sem um passado "digno" à altura). Também acerta ao usar a ditadura argentina e não a brasileira como pano de fundo para o passado de um dos personagens, além de apresentar personagens pitorescos e interessantes como a colecionadora de álbuns de fotografias antigos.

Lázaro Ramos já levou um prêmio de melhor ator no Cine PE por esse filme. Ele dá vida a um Vicente contido, desconfiado, distante e visivelmente incomodado com o mundo. Um ótimo trabalho de interpretação, mas longe de ser o seu melhor. Alinne Moraes, por sua vez, consegue criar perfeitamente a incógnita que sua personagem pede para ser. Ela é propositalmente uma casca, seus olhos parecem desprovidos de emoção. Emoção essa que só aflora premeditada, racional e conscientemente. Não é ela a protagonista, mas é a personagem que acrescenta aquele quê de picância que todo prato precisa.

No fim, fica a sensação de que o próprio filme deveria contratar Vicente para construir um passado mais relevante para si mesmo. O Vendedor poderia render um thriller muito mais intenso e que infelizmente termina tendo tocado apenas parte do extenso universo que o tema poderia render. Ainda assim, é mais uma vez agradável ver que nosso cinema está investindo em algo que não sejam comédias e filmes regionais com as mesmas histórias de sempre. Que venham mais obras como essa e cada vez melhores.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mad Max - Estrada da Fúria

Luz, câmera, AÇÃO!

Direção: George Miller
Título Original: Mad Max: Fury Road
Idioma: Inglês
Duração: 120 min
Lançamento: Mai/2015

Quer conhecer a definição máxima do que seria um filme de ação contemporâneo? Então pare de ler essa resenha e corra pro cinema para assistir a Mad Max: Estrada da Fúria antes que saia de cartaz. Do início da projeção a seus minutos finais, o quarto filme da série protagonizada pelo insano e solitário Max Rockatansky vai suspender temporariamente não só sua descrença mas seu direito a respirar. Mal as luzes do cinema se apagam, os motores começam a roncar, guitarras a guinchar e Max a grunhir.  E quando você menos estiver esperando, a trama já vai ter chegado a sua resolução, os créditos terão subido, suas energias vão ter se esgotado com tanta tensão e você sairá atordoado, mas com a estranha satisfação de quem concluiu uma missão ou sobreviveu a uma provação (um daqueles filmes do tipo ame-ou-odeie).

Sem tempo para as piadinhas infames ou as dezenas de cenas de "propaganda" dos filmes da Marvel, sem tempo para as tramas rocambolescas de Bournes e Missões Imposíveis, sem tempo para ficar fazendo poses em câmera lenta e lambendo o próprio rabo dos zero-zero-Bonds, Mad Max é uma injeção de adrenalina misturada com muita testosterona e, agradavelmente, doses cavalares de estrogênio (Furiosa!). Uma mistura intoxicante que proporciona um barato de duas horas e deixa uma leve zonzeira reverberando por algum tempo depois da saída do cinema.

Mas se o filme é pura ação, deve ser estéril como o deserto onde é filmado, não? Em absoluto! Basta acompanhar o mimimi sobre a "conspiração castradora feminista" por trás do filme (não coloco o link do artigo que gerou a centelha para não alimentar o fogo dessa discussão). Ainda que a louvável crítica à opressão machista faça parte do enredo, em foco estão realmente a redenção e a esperança e todos os protagonistas e personagens secundárias sublinham esses dois temas. Porém, é na construção da ação que o roteiro efetivamente mostra seu brilhantismo. Em cada beat, cada virada, as apostas são altíssimas. Se os personagens encaram um problema, e não há escassez deles, estão sempre em jogo a liberdade e a sobrevivência de cada um. Pessoas com os quais você se importa e o perigo de perdê-los a cada minuto de projeção: o que mais um filme precisa para manter sua atenção?

Diminuir o ritmo para desenvolver melhor as personagens? Nem pensar. As personagens reagem a cada um dos problemas que aparecem de cinco em cinco segundos e pelas respostas e atitudes você entende perfeitamente quem eles são, o que precisam, o que sentem e o que buscam. Praticamente um filme mudo, de pouquíssimos diálogos, Mad Max tem mais desenvolvimento de personagens do que muitos outros que gastam horas levando os seus para uma cabana na floresta e colocando-os em terapias de grupo com a intenção de debaterem aquilo que não se conseguiu mostrar diretamente na ação.

O Mad Max de Tom Hardy é magnético, vigoroso e intenso. Um sobrevivente assolado pela insanidade e assombrado por traumas,  ele passa a maior parte do filme grunhindo e emitindo monossílabos, mas faz isso com tanto charme, naturalidade e uma estranhamente adequada afabilidade que se torna impossível não simpatizar com ele. Esse Max é uma daquelas figuras que ultrapassa sua função como personagem para se tornar uma força motriz e acaba sendo não o protagonista, mas o elemento que une e move as tramas daqueles que representam verdadeiramente a alma da história: a Imperatriz Furiosa e o mal-direcionado, mas bem-intencionado Nux. 

Charlize Theron, como Furiosa, sequestra todas as cenas e não importa o quão suja, arrebentada e aleijada ela esteja, continua soberbamente exuberante e bela. Não consigo imaginar alguém que seja tão Imperatriz e tão Furiosa ao mesmo tempo, pelo menos não enquanto a imagem de Theron estiver tão fresca na minha mente. Furiosa é humana, extremamente humana. Brutal e gentil simultaneamente, seu olhar transmite uma dor ancestral, um peso sendo carregado por anos e anos ininterruptos, mas ainda assim ela age movida pela esperança e por uma chance de redenção. Se houver um futuro para essa franquia, espero sinceramente que Furiosa esteja nele.

Demorei para reconhecer pelo visual, mas os trejeitos de atuação de Nicholas Hoult (Skins, X-men: Primeira Classe, Um grande garoto) são tão característicos que mesmo debaixo das toneladas de maquiagem necessárias para dar vida a Nux, você consegue enxergar o ator. Nux, ainda que coadjuvante, é quem encarna o arco tradicional do herói no filme. Inicialmente um entre muitos dos War Boys do vilão Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne)vítima da própria fragilidade e ignorância e transformado em algoz pelos desígnios do tirano, ele cresce para ocupar o papel clássico do fantoche disposto a cortar suas cordas, em nome do amor ou em nome de um propósito que seja seu e não de outros. Hoult amadurece a cada filme que faz, arrisca-se em diferentes gêneros, e sua carreira ganha corpo e evidência. Ele é um dos poucos atores mirins que entregou-se efetivamente ao ofício e sempre é um prazer vê-lo atuando.

Personagens redondos, enredo simples e efetivo, ação ininterrupta... Mas e os efeitos? As explosões? As perseguições? George Miller é um diretor veterano e John Seale, o cinematografista, coleciona também algumas décadas de carreira, sendo que ambos já levaram um Oscar pra casa. Enfim, são profissionais que sabem o que estão fazendo e isso é percebido facilmente na tela. Os efeitos digitais são utilizados não como prato principal e sim para amplificar o que foi construído "analogicamente" com dezenas de carros e dublês à disposição. E por isso, diferente da maioria dos blockbusters atuais, é fácil identificar o que está acontecendo na cena, mesmo nos momentos mais intensos. Muita atenção a detalhes e imaginação de sobra permitem povoar o pesadelo surrealista de Mad Max com as mais bizarras e grotescas criaturas e emoldurá-lo com uma paisagem árida e incrivelmente bela. Cores saturadas, cenas noturnas acachapantes, uma tempestade de areia para entrar pra história: o espetáculo visual está garantido e por si só já valeria o ingresso.

Enquanto escrevia essa crítica, fiquei tentando procurar pelos mais banais problemas que fizessem com que Mad Max não merecesse a nota máxima. Poderia dizer que a ação do clímax acaba sendo um pouco menos espetaculosa do que o que veio antes dela, mas sinceramente isso foi praticamente um alívio. Poderia dizer que a maior parte dos nomes e dos poucos diálogos são ridículos (Rictus Erectus? People Eater? Bullet Farmer?), mas isso é parte do charme da série. Poderia dizer que o plot em si é praticamente inexistente e absolutamente previsível, mas ele funciona perfeitamente para emoldurar o que realmente interessa que é a ação. Enfim, deixo aqui a única crítica negativa que encontrei para tentar balancear um possível miopia da minha parte e oficializo que, para mim, o sarrafo subiu a nível estratosféricos para os filmes de ação com Mad Max: Estrada da Fúria, e boa sorte para quem for tentar se igualar a essa façanha daqui para frente.

P.S.: Claro que não poderia deixar de ser mencionado: o carro com os tambores e o guitarrista... Soooooooo awesome! 

quarta-feira, 25 de março de 2015

Whiplash - Em busca da perfeição

Um Jazz de uma (ótima) nota só

Direção: Damien Chazelle
Título Original: Whiplash
Duração: 107 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2015


Whiplash ganhou os prêmios de melhor som, melhor edição e melhor ator coadjuvante esse ano na cerimônia do Oscar. A resenha poderia parar nessa frase, pois ela praticamente delineia exatamente o que esperar do filme: uma edição visceral e pungente, adornada pelas batidas frenéticas e o extasiante efeito do jazz, garante a plataforma perfeita para que um excelente ator encontre o seu momento de glória. E isso é tudo por hoje, pessoal.

Não exatamente.

Seria simplista demais reduzir Whiplash a esses três fatores e desconsiderar outros bons aspectos do filme, porém seu calcanhar de Aquiles é justamente na categoria que mais interessa a mim e ao Crítica em Série: a história, o roteiro, a narrativa. Contudo, antes de falarmos dela, sigamos com os pontos positivos.

Nunca a expressão "sangue, suor e lágrimas" foi tão literalmente trabalhada quanto nesse filme. A edição alterna entre enquadramentos fechados desses fluidos em todas as suas variações possíveis. Tudo é atmosfera e contexto. Cada detalhe precisa intensificar o tema central, a obsessão e toda a transpiração e sacrífico associados. Afinal, o embate de um baterista e seu mentor "em busca da perfeição", como deixa claro o subtítulo do filme no Brasil, não é exatamente o material mais óbvio para um thriller. Para transformar essa premissa em algo emocionante, vai ser necessária muita técnica.

E técnica é o que não falta a um ator veterano como J.K. Simmons, que em Whiplash parece ter alcançado sua apoteose. Simmons definitivamente é um daqueles atores que se destacam em qualquer produção mesmo em papéis menores (vide Oz ou a trilogia original do Homem-Aranha), porém é, ao mesmo tempo, um ator de um único papel (vide Robert Downey Jr.). Fletcher, o regente a quem o ator dá vida, parece ter sido criado especialmente para ele. Fletcher é pura voz e entonação e é só checar a página de Simmons no IMDB para ver que boa parte do seu histórico é composta de trabalhos como dublador em desenhos animados e até jogos (ele é um dos melhores elementos do mais que excelente Portal 2, por exemplo).

Simmons é virtuosidade pura em cena, praticamente impecável, mas não teria tido tanto sucesso se não encontrasse em Miles Teller um oponente à altura. O jovem ator, e também músico diga-se de passagem, consegue misturar em medidas corretas arrogância e prepotência com confusão e insegurança, o que permite a seu Andrew ser simultaneamente vítima e contumaz adversário.

O diretor e também roteirista Damien Chazelle, que ainda não conta com praticamente nada no currículo, conseguiu se afastar absurdamente do festival de bobagens que foi seu roteiro em Toque de Mestre e calcar sua história em elementos dramaticamente mais coerentes. Contudo, a narrativa de Whiplash é um jazz de uma nota só, uma sequência de cenas tematicamente monotônicas, que repetem à exaustão uma única batida.

Andrew e Fletcher são personagens unidimensionais, arquétipos que representam uma ideia e não seres humanos completos. E ainda que isso sirva perfeitamente ao propósito do filme e que a única dimensão que eles possuam seja de uma potência brilhante, eu particularmente gostaria de tê-los visto tocarem mais de uma melodia. Quem é Andrew ou quem é Fletcher além da força motriz que os impulsiona? 

As poucas cenas que tentam ampliar o espectro psicológico dos dois protagonistas, como o romance de Andrew ou a desolação com a morte de um estudante de Fletcher, provam-se apenas subterfúgios para reforçar ainda mais a mensagem principal. Alguém uma vez disse que Dave Matthews não era um vocalista, mas que sua voz era só mais um instrumento da banda. Andrew e Fletcher não são personagens, são apenas engrenagens de um roteiro milimetricamente ajustado.

Minha primeira impressão, ao terminar o filme, foi de ter visto um Cisne Negro sem a profundidade de caracterização e sem os truques narrativos. Uma párabola sobre a obsessão contada em uma única camada. Foram necessárias algumas conversas com amigos e a leitura de um tanto de outras resenhas para começar a avaliar o filme com lentes diferentes. Alguns expectadores vão enxergar perfeição cinematográfica em um roteiro que não foge do seu objetivo nem por um segundo, enquanto que outros, como eu, vão sentir o vazio de uma produção focada em personagens que terminam sua jornada no mesmo ponto em que a iniciaram. O que importa é que independente de que lado você esteja, dificilmente estará indiferente.