segunda-feira, 22 de junho de 2015

Black Mirror

Mal do século


Temporadas: 2

Episódios: 7

Eu era, e sou, fã de Além da Imaginação (Twilight Zone). Talvez fosse muito novo para me lembrar claramente dos episódios da versão mais recente que foi reproduzida na Globo nos anos oitenta, mas pude assistir alguns episódios da série original recentemente e mesmo mais de meio século depois eles continuam fantásticos (Nick of Time e Five characters in search of an exit são ótimos). Também sou fã de uma subcategoria cinematográfica chamada Mindbender, também conhecido pela alcunha menos elegante de Mindfucker, que enquadra filmes de diferentes gêneros, mas que distorcem de alguma maneira a realidade e confundem o expectador (Donnie Darko, Primer, Amnésia e Adaptação são alguns exemplos).

Esse parágrafo introdutório é apenas para dizer que, se você também se identifica com esses quebra-cabeças audiovisuais, existe uma grande chance de que Black Mirror vá ser um programa excelente para você. Nas palavras de seu criador Charlie Brooker (do bizarro e ácido Dead Set), "se a tecnologia é uma droga, Black Mirror é um tratado sobre seus efeitos colaterais". Black Mirror é uma espécie de herdeiro de Além da Imaginação com a mesma estrutura de episódios auto-contidos, porém abordando especificamente os efeitos de nossa obsessão com tecnologia. As tramas partem de situações reconhecíveis e relacionáveis para fazer questionamentos morais e éticos com os quais já convivemos e, mais ainda, com aqueles que ainda não percebemos e sobre os quais talvez devêssemos estar nos questionando.

A evolução da inteligência artificial e suas implicações, a vigilância constante e autorizada a que nos submetemos, o obscurecimento entre o que é humano e o que é máquina, a gamificação da vida, os limites da arte, a ditadura política das redes sociais e da mídia como um todo, a ubiquidade de telas e informações, o revanchismo, escravidão e tortura que estamos ansiosos em apoiar... São muitos os temas nos quais Black Mirror quer tocar com sua visão particularmente cínica, sombria e, por vezes, niilista. 

Cada uma das duas temporadas conta com uma história mais intimista, uma sátira política e um futuro distópico. Uma temporada espelha a outra: a sátira abre a primeira temporada e fecha a segunda e a intimista fecha a primeira e abre a segunda, sendo que essas últimas são justamente as duas melhores histórias do conjunto. Ainda que o todo seja fantástico, os episódios "distópicos" acabam sendo um pouco mais fracos. Porém, mesmo com tramas mais pueris, os dois conseguem manter a atenção ao ir revelando seu estranho universo pouco a pouco e nos mantendo curiosos. Há ainda um brilhante episódio especial de Natal que foi ao ar em 2014 protagonizado por Jon Hamm (o Don Draper de Mad Men). Com uma duração um pouco maior (cerca 80 a 90 min), o episódio é estruturado de forma a alinhavar três histórias diferentes, mas interligadas, e acaba valendo por mais uma micro-temporada.

Apesar do quão inventivas e aparentemente absurdas sejam as premissas dos episódios, paira o sentimento aterrorizante do quão plausíveis esses cenários acabam se mostrando. Talvez não agora, talvez não em dez anos, mas a grande maioria hipóteses poderia efetivamente concretizar-se, se não de forma idêntica, ao menos muito similar. Black Mirror entretém e ao mesmo tempo causa desconforto e chama à ação, principalmente no sentido de buscarmos mais conexão sem intermediários. Para Charlie Brooker estamos cada vez mais focados nas "sombras na caverna" e suas histórias estão aí para tentar nos forçar a olhar um pouco mais para o mundo como ele realmente é e principalmente como ele é para fora de nós mesmos. Parece-me uma mensagem que vale a pena ser ouvida, mas independente disso, Black Mirror é um programa satisfatório mesmo que seja só para se divertir.

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