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segunda-feira, 22 de junho de 2015

Black Mirror

Mal do século


Temporadas: 2

Episódios: 7

Eu era, e sou, fã de Além da Imaginação (Twilight Zone). Talvez fosse muito novo para me lembrar claramente dos episódios da versão mais recente que foi reproduzida na Globo nos anos oitenta, mas pude assistir alguns episódios da série original recentemente e mesmo mais de meio século depois eles continuam fantásticos (Nick of Time e Five characters in search of an exit são ótimos). Também sou fã de uma subcategoria cinematográfica chamada Mindbender, também conhecido pela alcunha menos elegante de Mindfucker, que enquadra filmes de diferentes gêneros, mas que distorcem de alguma maneira a realidade e confundem o expectador (Donnie Darko, Primer, Amnésia e Adaptação são alguns exemplos).

Esse parágrafo introdutório é apenas para dizer que, se você também se identifica com esses quebra-cabeças audiovisuais, existe uma grande chance de que Black Mirror vá ser um programa excelente para você. Nas palavras de seu criador Charlie Brooker (do bizarro e ácido Dead Set), "se a tecnologia é uma droga, Black Mirror é um tratado sobre seus efeitos colaterais". Black Mirror é uma espécie de herdeiro de Além da Imaginação com a mesma estrutura de episódios auto-contidos, porém abordando especificamente os efeitos de nossa obsessão com tecnologia. As tramas partem de situações reconhecíveis e relacionáveis para fazer questionamentos morais e éticos com os quais já convivemos e, mais ainda, com aqueles que ainda não percebemos e sobre os quais talvez devêssemos estar nos questionando.

A evolução da inteligência artificial e suas implicações, a vigilância constante e autorizada a que nos submetemos, o obscurecimento entre o que é humano e o que é máquina, a gamificação da vida, os limites da arte, a ditadura política das redes sociais e da mídia como um todo, a ubiquidade de telas e informações, o revanchismo, escravidão e tortura que estamos ansiosos em apoiar... São muitos os temas nos quais Black Mirror quer tocar com sua visão particularmente cínica, sombria e, por vezes, niilista. 

Cada uma das duas temporadas conta com uma história mais intimista, uma sátira política e um futuro distópico. Uma temporada espelha a outra: a sátira abre a primeira temporada e fecha a segunda e a intimista fecha a primeira e abre a segunda, sendo que essas últimas são justamente as duas melhores histórias do conjunto. Ainda que o todo seja fantástico, os episódios "distópicos" acabam sendo um pouco mais fracos. Porém, mesmo com tramas mais pueris, os dois conseguem manter a atenção ao ir revelando seu estranho universo pouco a pouco e nos mantendo curiosos. Há ainda um brilhante episódio especial de Natal que foi ao ar em 2014 protagonizado por Jon Hamm (o Don Draper de Mad Men). Com uma duração um pouco maior (cerca 80 a 90 min), o episódio é estruturado de forma a alinhavar três histórias diferentes, mas interligadas, e acaba valendo por mais uma micro-temporada.

Apesar do quão inventivas e aparentemente absurdas sejam as premissas dos episódios, paira o sentimento aterrorizante do quão plausíveis esses cenários acabam se mostrando. Talvez não agora, talvez não em dez anos, mas a grande maioria hipóteses poderia efetivamente concretizar-se, se não de forma idêntica, ao menos muito similar. Black Mirror entretém e ao mesmo tempo causa desconforto e chama à ação, principalmente no sentido de buscarmos mais conexão sem intermediários. Para Charlie Brooker estamos cada vez mais focados nas "sombras na caverna" e suas histórias estão aí para tentar nos forçar a olhar um pouco mais para o mundo como ele realmente é e principalmente como ele é para fora de nós mesmos. Parece-me uma mensagem que vale a pena ser ouvida, mas independente disso, Black Mirror é um programa satisfatório mesmo que seja só para se divertir.

sábado, 20 de junho de 2015

O Abrigo

Lenta tempestade de símbolos e metáforas


Direção: Jeff Nichols
Título Original: Take Shelter
Duração: 120 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2011

O Abrigo precisa ser analisado por duas óticas diferentes, a de documentação do desenvolvimento de uma enfermidade mental e de como ela afeta o indivíduo e seus relacionamentos e a outra é como mero entretenimento dramático. O filme obtém muito sucesso na primeira vertente e um pouco menos na segunda.

O protagonista Curtis (Michael Shannon de O Homem de Aço, Possuídos, Boardwalk Empire) é um pacato operário e pai de família em uma cidadezinha no interior de Ohio. Ele começa a ter pesadelos com uma tempestade que se aproxima e com ataques violentos de entes queridos a ele. Pouco a pouco tais visões que Curtis acredita serem premonitórias passam a assolá-lo também quando desperto. A dificuldade em reconhecer onde termina a realidade de todos e começa a sua particular cresce junto com a angústia e o desespero, não só dele, mas de seus amigos, familiares e também de nós expectadores. 

Apoiado nas interpretações magistrais não só de Shannon, um ator que mereceria muito mais reconhecimento e exposição do que recebe, mas também da sempre competente Jessica Chastain (A hora mais escura, Histórias CruzadasA árvore da vida), O Abrigo é daqueles filmes em que não se fala muito, contemplação supera a ação em quase que toda a totalidade, e os conflitos acontecem em pequenos gestos e trocas de olhares. O ritmo arrastadíssimo é quebrado em algumas cenas fantásticas como a de um jantar beneficente comunitário em que Shannon tem a oportunidade de dar um daqueles inesquecíveis shows de interpretação.

Jeff Nichols, em seu primeiro longa como diretor, consegue manter enevoada até o último segundo de projeção a linha entre o que é real e é o que alucinação, permitindo que o expectador sinta o drama vivenciado pelo personagem. Nichols também escreve o roteiro e abusa de simbolismo e metáforas visualmente lindas e imageticamente profundas. A tempestade que se aproxima casa com as gradativas mudanças psico-fisiológicas do personagem e a deterioração de seus relacionamentos, relâmpagos rasgam o céu como impulsos elétricos passeiam desgovernados pelas sinapses de Curtis, pássaros voam em formação estranha como desbalanceamentos químicos, a chuva de óleo simboliza o corpo como máquina deteriorada, os ataques de entes queridos, a paranoia que leva esquizofrênicos ao isolamento e por aí segue.

O filme (in)felizmente conclui com uma "chuva de rãs" à la Magnolia, um evento que não se explica perfeitamente e parece ferir a lógica interna do filme, mas que também abre precedentes para discussões filosóficas sobre seu significado. Uma cena que chega não muito depois de um clímax minimalista de altíssimo nível que se passa no abrigo que dá título ao filme. Mais um momento para ver bons atores trabalhando e um roteirista fechando com maestria uma história bem amarrada. 

Um filme competentíssimo em todos os sentidos que como obra de arte mereceria a classificação máxima ou próximo disso, porém um filme lento, arrastado, silencioso, contido e todos os outros adjetivos que costumam ser eufemismos para o que qualquer expectador comum de cinema simplesmente chamaria de "chato". Recomendado para aqueles momentos em que você está com o sono em dia, paciência de sobra e vontade de se sentir um pouco mais inteligente.

sexta-feira, 4 de novembro de 2011

A pele que habito

A crítica que escrevo 


Direção: Pedro Almodóvar
Título original: La piel que habito
Duração: 120 min
Idioma: Espanhol
Lançamento: Nov/2011

Todos os filmes de Almodóvar parecem iguais, todos parecem ter sido feitos há pelo menos uns vinte anos, todos envolvem bizarrices sexuais e todos são interessantes mesmo sendo exatamente variações do mesmo tema milimetricamente calculadas para não parecerem variações (mas parecem). A pele que habito está longe de fugir desse padrão, mas ao menos dá uma segurada na mão no tradicional exagero cromático do diretor e dá uma folga para Penelope Cruz (apesar de contar com os veteranos Antonio Banderas e Marisa Paredes, também prata da casa).

Como sempre, dei uma olhada no que andou falando a "concorrência" e a maioria dos críticos entram na onda dos simbolismos, do existencialismo-filosófico, das releituras clássicas, do retorno às raízes e outras avaliações mais acadêmicas. Incrivelmente o filme consegue ser elástico o suficiente para dar espaço para toda essa gama de interpretações, mas ao mesmo tempo fica a impressão de que justamente por isso nunca alcança a plenitude que justifique perfeitamente nenhuma delas.

Como não segue o padrão econômico e eficiente do norte-americano de fazer cinema (o qual o brasileiro segue quase á risca), a narrativa do filme parece muitas vezes "quebrada", com personagens aparecendo e desaparecendo do nada, motivações obscuras ou incoerentes e alguns exageros que precisam ser tomados como "licença poética" para que você possa efetivamente apreciar o filme sem se sentir ofendido: informações importantes que em filmes mais tradicionais seriam consideradas reviravoltas são, ao final, irrelevantes para o roteiro - como bem pontuou Roger Ebert, é apenas Almodóvar engrossando o caldo.

A maior parte do filme vai te manter no estado "onde diabos esse cara quer chegar" e conforme ele vai revelando suas cartas, vamos tentando entender que "tipo" de filme estamos vendo afinal de contas (para os que não leram críticas demasiadamente esclarecedoras na internet obviamente). Infelizmente o destino parece à primeira vista não tão interessante quanto a jornada, a não ser que nós façamos uma leitura de que aquela desorientação e o vazio que o fechamento anti-climático nos deixou devesse espelhar os sentimentos da protagonista. Essa interpretação eu deixo para os meus colegas mais acadêmicos, pois na crítica que escrevo, A pele que habito é apenas um filme intrigante que se perdeu rumo à linha de chegada.

P.S. - A nota dada pode parecer um pouco acima do que o texto faz parecer que o filme mereça. Almodóvar, mesmo quando não está em sua melhor forma (Tudo sobre minha mãe, Volver, Fale com ela etc.), mais do que vale o ingresso. Vide Abraços Partidos.

sexta-feira, 26 de agosto de 2011

Planeta dos Macacos: A origem

Ave Ceasar 


Direção: Rupert Wyatt 
Título original: Rise of the Planet of the Apes 
Duração: 105 min 
Idioma: Inglês 
Lançamento: Ago/2011 

A maior inovação para a cerimônia do Oscar de 2012 deve ser a nomeação de um chimpanzé para a categoria de melhor ator. Ceasar, o protagonista de Planeta dos Macacos: A Origem é um dos melhores personagens do ano e a prova cabal de que a tecnologia digital já atingiu estágio tal que permite transformar qualquer ideia em imagens - talvez por isso, finalmente as estórias que só faziam sucesso nos quadrinhos estão conseguindo o mesmo na sétima arte. 

A evolução de Ceasar é emocionante e vale certamente o ingresso do cinema, ainda que os 105 minutos de projeção do filme sejam muito menos do que a estória e o personagem mereçam. O tempo se esvai despercebido entre as acrobacias e o gênio estratégico-militar do "general". 

Ceasar foi criado de maneira tão realista que causa aquela estranheza natural ao vermos algo que foge dos nossos parâmetros esperados. No caso, o quanto de humanidade esperamos ver em um chimpanzé. Andy Serkis, o Gollum de O senhor dos Anéis e o King Kong do homônimo filme, confere tanta vida e emoção ao macaco que fica muito evidente que o resto dos atores, incluindo o simpático James Franco e a bela Freida Pinto, estão interpretando e seus personagens ficam parecendo mais caricaturas do que seres humanos. 

Infelizmente o tom moralista, os exageros, os dilemas preto-no-branco e a epidemia do "atingindo todos os públicos" que já conhecemos típicas do cinema norte-americano estão lá e limitam consideravelmente o potencial do filme:

- Personagens caricatos como o ganancioso diretor de empresa, o funcionário público corrupto, o cientista idealista e outros marcam presença; 
- Não há espaço para dúvidas, o roteiro escolhe um lado na briga natureza vs seres humanos e não permite que qualquer tom de cinza confunda o expectador;
- Assim como o recente Capitão América, é um filme asséptico em que a violência é velada e o sangue fica de fora (mesmo com gorilas gigantescos e rancorosos soltos pela cidade);

Contudo, ainda que seja praticamente um desenho da Disney dos anos 80 no formato, Planeta conta também com um diretor que soube contar a estória da melhor forma possível, uma resolução interessante e, não cansa lembrar, um surpreendente protagonista.

No mais, só para constar e informar, vale dizer que A origem explica como o mundo se transformou no planeta dominado por símios em que Charlton Heston caiu em 1968 e Mark Wahlberg em 2001, seja ele uma realidade alternativa ou o nosso próprio planeta em um futuro não muito distante.

Enfim, aparte os personagens humanos unidimensionais e o tom moralista ou moralizante do filme, Planeta dos Macacos: A origem é diversão garantida no cinema e altamente recomendado para qualquer tipo de expectador. 

Longa vida a Ceasar!

sexta-feira, 12 de agosto de 2011

Super 8


Sessão Nostalgia

Direção: J.J. Abrams
Título original: Super 8
Duração: 112 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

Não era preciso esperar a estréia de Super 8 para se provar que com pouco se faz um bom filme, mas J.J. Abrams conseguiu montar um dos melhores exemplos para esse argumento. Existem alguns critérios básicos que atendidos garantem no mínimo algumas boas horas de saudável escapismo - personagens cativantes com os quais você possa se identificar, um roteiro sólido e uma direção competente - e Super 8 atende a todos eles.

Super 8 tem uma premissa bastante simples e sem qualquer originalidade: envolve crianças, alienígenas e militares. Não há qualquer intenção de parecer mais do que é: uma "homenagem" a clássicos oitentistas como E.T., Goonies e Conta Comigo. Junte-se a esses elementos familiares a qualquer jovem adulto contemporâneo as características básicas de direção e produção de Abrams presente em Lost, Star Trek e Cloverfield - e você tem os grandes sucessos da sua infância repaginados, mas com o mesmo encanto de antigamente.

Elle Fanning e Joel Courtney chamam a atenção em um elenco composto quase que inteiramente por rostos desconhecidos e fazem você se importar com o resultado dos conflitos e dilemas do filme, por mais simplistas e ingênuos que eles sejam. Difícil fugir da básica classificação "fofo" para descrever o casal, então fica essa mesmo. O resto das crianças/adolescentes ajuda a complementar a sensação nostálgica e a saudade de uma época menos complexa e ainda assim extremamente profunda, de sentimentos básicos, mas verdadeiros.

E a narrativa de Super 8 também é extremamente agradável. Nada surpreende pela originalidade, mas a estória avança num ritmo adequado, os elementos de mistério são entregues aos poucos, os personagens tem seus momentos de palco na hora correta e pouca coisa parece ser supérflua no filme. Até mesmo no momento máximo de pieguice e sentimentalismo com uma metáfora de "amadurecimento" nada sutil, Super 8 consegue atingir seus objetivos sem "ofender" a platéia.

Ainda que seja diversão garantida no cinema, a "homenagem" a outros filmes deixa Super 8 com um aspecto exageradamente "requentado" muito grande. Impossível não ficar com o incômodo sentimento de "já vi isso antes" durante praticamente todo o filme. Para o benefício de Abrams, o "isso antes" é material que deixou memórias muito boas para um universo grande de expectadores que não vão se importar tanto assim com o "plágio". E provavelmente há um universo ainda maior de crianças e adolescentes contemporâneos que vão poder ter o seu próprio E.T..

Definitivamente, Super 8 é o melhor filme para crianças de trinta e poucos anos dessa temporada e certamente vale o ingresso e as horas investidas no cinema, mesmo (ou principalmente porque) que "você já tenha visto antes".

sexta-feira, 5 de agosto de 2011

Quero matar meu chefe


Quero matar meu chefe imaginário

Direção: Seth Gordon
Título Original: Horrible Bosses
Duração: 98 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

Há muito o que se dizer de uma comédia quando mesmo em um cinema relativamente cheio, você ouve pouquíssimas risadas. A probabilidade é alta de que uma em pelo menos trinta pessoas assistindo a uma comédia ria de qualquer coisa sem sentido que apareça na tela. Por algum motivo, a probabilidade falhou em Quero matar meu chefe e nem o prazer de rir por inércia das risadas dos outros eu consegui ter.

O filme segue uma tendência mal-sucedida pós-Se beber, não case de juntar homens se envolvendo em situações absurdas relacionadas com sexo, drogas e violência. Parto de viagem é um desses filhotes bastardos e rejeitados dos caras com amnésia alcóolica de Las Vegas. Só que mesmo com seus problemas, ele ao menos contava com Robert Downey Jr. e Zach Galifianakis no elenco. Em Quero matar seu chefe você tem, quando muito, a histeria de Charlie Day (It's always sunny in Philadelphia).

Parece-me que Hollywood não entendeu muito bem o porque do sucesso de Se beber, não case. Você tinha personagens (excluindo o de Galifianakis) que pareciam-se com qualquer homem normal que misturando álcool e drogas com uma pré-disposição para "comemoração" poderiam efetivamente ter se envolvido em algumas situações absurdas. Ou seja, é pouco provável, mas poderia ter acontecido e isso é que faz a graça do filme.

O que afunda Quero matar meu chefe é justamente a impossibilidade de você imaginar que "poderia ter acontecido" e não estamos nem falando aqui de alguém tentar matar ou não o chefe (isso realmente poderia ter acontecido), mas de algo muito mais básico: os chefes e o relacionamento deles com os empregados é que não são críveis. Considerando que boa parte da população possui um chefe e uma grande parcela tem um outro problema com ele, seria muito fácil que o público se identificasse com o que vê na tela, mas o diretor Seth Gordon garantiu que isso não acontecesse ao construir chefes  mais inverossímeis do que o sequestro do tigre do Mike Tyson.

O psicopata de Kevin Spacey não é um psicopata daqueles que você encontra diariamente em qualquer escritório normal, ele está muitos graus acima no nível de loucura e simplesmente  já estaria internado ou preso muito antes de ter chegado a presidente ou diretor de uma companhia. O idiota drogado de Colin Farrell seus comentários absurdos e politicamente incorretos é puro constrangimento e inverossimilhança.

Porém a pior de todas as motivações para assassinato vêm da relação de Dale e sua chefe, Jennifer Aniston. Jura? Jura mesmo que alguém por um minuto sequer acreditaria que Dale preferiria assassinar a única pessoa que daria emprego a ele porque ela está o forçando a trair a noiva? Mencionei anteriormente que essa pessoa é uma ninfomaníaca Jennifer Aniston? O absurdo e a falta de lógica não é engraçada, é simplesmente absurda... Só que infelizmente é dessa premissa inicial que depende as motivações do personagem para tudo o que acontece no filme.

Quero matar meu chefe parte de um conceito que já foi utilizado por outros filmes anteriormente (exemplos: Pacto sinistro e Jogue a mamãe do trem) e até com boas intenções admite isso. Além disso, conta com uma boa química entre os atores que conseguem manter dinamismo nos diálogos e mesmo quando você já "conhece a piada", como na cena com a cocaína, ela é bem conduzida e no mínimo fica divertida.

Para arrancar risadas, no entanto, é necessário uma mínima lógica interna para que quando subvertida, o humor apareça. Sem lógica alguma, Quero matar meu chefe acaba sendo uma sequëncia de cenas isoladas moderadamente divertidas, mas que não constroem um contexto coeso que permita que elas sejam realmente engraçadas.

Certamente não ofende, mas é para ver na TV se não houver nada melhor para se fazer.

Melancholia

Justine ou Claire?


Direção: Lars Von Trier
Título original: Melancholia
Duração: 136 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/2011

É um alívio que o incômodo que Lars Von Trier queira causar em Melancholia já não seja mais do mesmo tipo gráfico do de Anticristo. Também não é como a revolta e a angústia imediata de dar nó na garganta como em Dançando no escuro ou Dogville. Melancholia é um filme que te pega na saída, quando você menos percebe, depois que você já praticamente se esqueceu dele.

À primeira vista, é um filme lento, com muitos personagens unidimensionais e caricatos (na realidade, à segunda e terceira vista, continuo achando isso, mas isso não é o mais importante), porém as duas personagens principais, as irmãs interpretadas magistralmente por Kirsten Dunst e Charlotte Gainsbourg têm, individualmente e em sua relação, profundidade suficiente para carregar o resto do elenco de personagens (que talvez sejam pálidos justamente para reforçar as cores das duas) e dar ao filme uma dimensão que nos faz perdoar o quão maçante e monótono ele é.

Justine (Dunst) é a irmã depressiva, niilista, que despreza as convenções, que faz o que quer e não consegue se encaixar no modelo que é esperado dela por pais, por amigos, pelo noivo e por todas as outras pessoas a quem ela aparentemente despreza por ignorarem, em termos literais, um meteoro que vem em sua direção e a proximidade da extinção da humanidade e, em termos simbólicos, a inevitabiliade da morte e a ausência de significado para a vida. Durante toda a primeira parte do filme, acompanhamos a náusea (a la Sartre) de Justine aumentar progressivamente conforme ela se distancia cada vez mais do mundo. Claire (Gainsbourg) permanece o tempo todo, prática, forte e decidida catando os pedaços de todas as relações quebradas pela irmã. 

Quando Justine é vencida pela depressão, Claire toma a frente e começa a segunda parte da história que mostra a lenta queda do pragmatismo e da conformidade frente ao fim. Charlotte Gainsbourg torna-se maior que o próprio filme conforme sua personagem vai sendo tomada pelo desespero e refugiando-se cada vez mais nas pequenas coisas, nos pequenos afazeres e em solucionar problemas com o intuito de manter sua sanidade enquanto tudo desmorona-se à sua volta. Dessa vez é Justine quem aparece pouco e torna-se o porto seguro para a irmã com a serenidade daqueles que se vêem justiçados.

Melancholia é chato na maior parte do tempo e faz algumas escolhas questionáveis, mas a justaposição entre as duas partes do filme é bem arquitetada e ambas incluem muitas cenas de fotografia e direção de arte acachapantes. O importante, no entanto, é que Von Trier alcança novamente seu objetivo de provocar, de incomodar e de não permitir que você fique indiferente ao filme.

É pouco provável que um meteoro vá nos atingir e acabar com todos os nossos sonhos, nossas rotinas, nossos pequenos e intensos momentos de felicidade... Mas, de acordo com Justine (e Von Trier) todos estamos caminhando em direção ao fim de qualquer maneria e todo o resto é irrelevante. Justine ou Claire? A resposta do diretor parece clara, mas como para todas as questões do tipo, é mais provável que não esteja nem em uma nem em outra, e sim na relação entre elas.

sexta-feira, 29 de julho de 2011

Capitão América: o primeiro Vingador


Sem grandes expectativas

Direção: Joe Johnston
Título original: Captain America - The first Avenger
Duração: 124 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2011

Creio já ter um tempo que não me deparava com um subtítulo que dissesse tanto sobre o filme a que se refere como o de Capitão América: O primeiro Vingador. A palavra de ordem aqui é "Vingador" e ela deixa claro que estamos falando de um filme que é mais um "aperitivo" de duas horas para acalmar os mais ansiosos até que chegue o filme-evento Os Vingadores no verão (setentrional) de 2012 do que uma obra com valor próprio.

Em Hulk e Homem de Ferro, as referências à reunião dos heróis no futuro, que ainda não era certa na época, apareciam praticamente apenas em uma cena curta pós-créditos, enquanto a história daquele personagem em si desenvolvia-se isoladamente. Homem de Ferro 2 aumentou a dose e colocou Nick Fury e a Viúva Negra para participarem do cenário principal, mas ainda assim, eles não eram "a" estória per se. Em Capitão América, o mote de Os Vingadores abre e fecha o filme, enquanto o roteiro principal serve apenas de pano de fundo para uma sequência de referências.

Nos Supremos de Millar e Hytch, a primeira edição foca quase que exclusivamente no Capitão América na segunda guerra mundial e serve de introdução para o restante do enredo, mas parte do charme desse "prólogo" são as batalhas exageradas e o superlativismo dos diálgos que prenunciam o clima seguinte da série. A hiperviolência dos quadrinhos dá lugar à quase inexistência de violência e mesmo da "morte" - em Capitão América ela é limpa, eficaz e praticamente desprovida dos horrores que poderia se esperar do período histórico que está sendo retratado.

Longe de ser um fervoroso fã de violência gratuita, mas armas que desintegram instantaneamente os inimigos tornam as batalhas desprovidas de realismo ou simplesmente sem emoção. Porém, a pior consequência dessa escolha, é a incapacidade do filme de criar o nível de ameaça que o Caveira Vermelha deveria representar, pois quando ele não está "evaporando" pessoas, está, em um ato de maldade máxima, deixando lacaios para trás, mas não sem antes garantir que ele tivesse um meio de tranporte para fugir - nada realmente malévolo. O Caveira Vermelha é o Coringa do Capitão América, um nazista cruel e psicótico que deveria ser o símbolo do malmas até o Agente Smith de seu intérprete Hugo Weaving é mais ameaçador - e isso não é nem de longe culpa do ator.

Além disso, os diálogos são bastante simplórios, previsíveis e desprovidos de inspiração. As poucas tiradas que ganharam um pouco mais de atenção foram aquelas que Tommy Lee Jones ganhou: irônicas, rasteiros e com um ótimo timing. Talvez a simplicidade das falas espelhe o clima "inocente" do filme, mas isso não é desculpa para requentar frases clássicas ou imitar cenas de outros filmes supostamente como "homenagem" (qualquer expectador com um pouco mais de vivência consegue diferenciar plágio e falta de imaginação de tributo ou homenagem). 

Por outro lado, com quase toda a história desenrolando-se nos anos 40, Capitão América ganha créditos por criar um clima nostálgico no melhor estilo do mais recente X-men. É interessante ver o maquinário futurístico funcionando à base de relés e mostradores analógicos toscos, além do estilo "velha guarda" e bom moço do próprio Steve Rogers. Ainda que a falta de adrenalina nas batalhas não seja compensada pelo charme das outras cenas, pelo menos garante a ambientação correta.

Outro ponto positivo, ou um negativo que foi evitado, é o fato de o filme ser sobre um super-herói que usa a bandeira dos Estados Unidos como uniforme e ainda assim passar longe das pataquadas patrióticas típicas do cinema estadounidense. Talvez justamente por ser tão obviamente "americano" é que a equipe teve um cuidado maior de não criar um clima ufanista ou excessivamente nacionalista, construindo um filme focando em Steve Rogers e não no Capitão e tornando nobres e heróicos os sentimentos da "identidade civil", sem necessariamente deixá-los ser confundidos com os valores de um país. Pode ser que justamente por isso, a primeira metade do filme que foca na transformação gradual de Rogers no super-herói flua muito melhor que a segunda, mais carregada em ação.

E por fim: Chris Evans, quem diria... resolveu finalmente se esforçar e interpretar efetivamente um personagem, ao invés de só mostrar o físico e fazer caras e bocas ridículas, vide Celular, Todo mundo em pânico ou mesmo Quarteto Fantástico. Seu Steve Rogers não é nada menos do que eu poderia esperar do personagem e sua interpretação é honesta, consistente e sólida. Uma inesperada e agradável surpresa.

Não tenho certeza se vale o ingresso do cinema, mas alugar o DVD (ou Blu-Ray para ser mais moderno) algum tempo antes da estréia dos Vingadores não seria uma má idéia. Capitão América vale como introdução para o próximo filme, mas a ausência de uma ameaça real e um roteiro mais sólido para alinhavar as referências à sequência, tornam-no uma experiência até agradável, mas desprovida de sentido como obra isolada.

sexta-feira, 15 de julho de 2011

Harry Potter e as Relíquias da Morte


Conclusão à altura

Direção: David Yates
Título original: Harry Potter and the Deathly Hallows - Part I and II
Duração: 130 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jul/2011

Fechando a que talvez seja a mais longa série de filmes da história (considerando aquelas que efetivamente formam um conjunto único e possuem uma conclusão e não são simplesmente parte de uma franquia), Harry Potter e as relíquias da morte não decepciona. Como assisti as duas partes com uma diferença de uma ou duas semanas, deixo aqui meus comentários para as duas de uma só vez.

A primeira, lançada em 2010, segue muito mais devagar e espelha o cansaço que a primeira metade do livro também causa no leitor: pouca ação, planos mais longos, situações paralelas que parecem não acrescentar nada ou adiantar a estória principal. Apesar de parecer uma característica ruim, esse "prólogo" é essencial para a construção do clima necessário para garantir a dramaticidade do segundo ato. Essa primeira parte dá a medida da desolação e do desepero dos personagens que vai aumentando ao ver seus esforços gerarem cada vez menos resultados, o mundo continuar a ruir a seu redor, os sacríficios acumularem-se e a esperança ir sufocando aos poucos.

A segunda parte, livre da necessidade de criar a ambientação correta, pode concentrar-se na ação e em dar a seus principais personagens um momento para brilhar. Hogwarts, como em nenhum outro filme, torna-se um cenário fantástico e amedrontador que envolve completamente o expectador em suas sombras e os embates ganham contornos épicos, ainda que isso signifique o tradicional uso de alívios cômicos de tempos em tempos que quebram desnecessariamente a tensão.

Infelizmente, fantasmas, duendes e varinhas mágicas criam um efeito estroboscópico fantasioso que ainda assim não consegue disfarçar a sensação de um Deus Ex Machina constante, culpa da estrutura do próprio livro e não do filme em si. Tudo parece se resolver muito fácil, porque em um mundo em que basta proferir duas palavras para parar uma queda, não há porque você temer por personagens que caem em um abismo. O diretor consegue criar mecanismos e tentar dar um pouco mais dramaticidade para uma morte instantânea causada pela pronúncia de duas palavras. Ele acerta na maior parte do tempo, mas em outras o resultado fica muito aquém - como, por exemplo, na aparição final de Bellatrix.

E depois de quase dez anos, Daniel Radcliffe finalmente consegue tornar-se Harry Potter não só por "direito", mas também "de fato". Sua atuação afinal atinge a maturidade e ele consegue transparecer o cansaço e a angústia crescente de um personagem obstinado que acumula perdas para cumprir um destino que ele nem ao menos escolheu - qualquer semelhança com os principais mitos da humanidade é meramente coincidência. Aplausos então para o ator que agora vai ter que chamar muita atenção para conseguir se livrar do fantasma de Potter (não que ele precise depois dos milhões que o bruxo já rendeu).

Seus fiéis companheiros de tela, Emma Watson e Rupert Grint já haviam achado o tom de seus personagens em filmes anteriores (ela praticamente desde o primeiro), mas também conseguem espaço para brilharem várias vezes nesse final. Mesmo outros personagens e atores menos proeminentes ganham seus momentos em um dos filmes ou nos dois, especialmente Matthew Lewis (Neville Longbottom) e Maggie Smith (Minerva McGonagall).

Mas ainda assim, mesmo com menos tempo de tela, facilmente o que há de melhor no elenco é Alan Rickman que merecia um Oscar pela sua atuação contida e meticulosa e seu discurso tenso e poderoso no salão comunal de Hogwarts. Para completar seu personagem é o protagonista da melhor sequência do filme em que a emoção dispara em cenas muito bem construídas, um flashback efetivamente "mágico" e uma reviravolta que, ainda que um tanto óbvia, consegue credibilidade justamente por causa da dedicação de Rickman à construção de Snape.

É bem verdade que nada, ou ao menos pouca coisa, é original em Harry Potter, mas nunca uma salada de referências (ou plágios) foi tão bem harmonizada ou gerou um universo tão coeso com partes se encaixando tão bem no todo. Cada livro ou filme tem estórias fechadas e independentes e ao mesmo tempo são individualmente essenciais para a construção e para a carga dramática desse épico desfecho.

Então, longe de ser perfeito, Harry Potter e as relíquias da morte é um ótimo filme que só não tem sucesso onde o seu material de origem já não tinha tido antes e é de longe o melhor de todos os oito (ou sete se considerarmos os dois últimos como uma só obra) da série. Melhor para quem acompanhou todos eles, mas recomendável mesmo para quem simplesmente quer só escapar para uma outra realidade e se deixar perder em uma boa estória por algumas horas.

P.S. - Era óbvio que não havia qualquer possibilidade do final ser diferente do livro, mas juro que fiquei com uma pontinha de esperança de que com a descoberta da natureza da "última relíquia" caminhássemos para um outro desfecho, um que transformaria uma sensacional série literária (ou multimídia) em um irretocável patrimônio da humanidade. A escolha de desfecho menos corajosa e mais apropriada comercial e editorialmente nos deixou com as banais três ou quatro páginas do livro ou os deslocados minutos finais do filme. Merecia uma conclusão mais em linha com o fenômeno que foi, mas nem por isso deixou de ter um mais do que digno adeus.

sexta-feira, 24 de junho de 2011

A casa


Trapaça desleal

Direção: Gustavo Hernández
Título Original: La casa muda
Duração: 86 min
Idioma: Espanhol
Lançamento: Jun/2011

Baixo orçamento, apenas um cenário, pouquíssimos atores para contar em tempo real uma história baseada em fatos reais - essa é a proposta do filme uruguaio La casa muda que estreou há pouco tempo no Brasil. Em um aparente único longo plano (sem cortes ou edição) de quase uma hora e meia o filme acompanha a experiência de um pai e uma filha que são contratados para fazer a reforma de uma casa.

Como exercício cinematográfico, o filme até tem alguns pontos positivos como o uso criativo da luminosidade, mostrando apenas o que a protagonista consegue alcançar com a sua lanterna e criando uma ambientação correta, ou os enquadramentos bem escolhidos como, por exemplo, quando a câmera se afasta e limita a visão com uma porta impedindo que o expectador veja o que está acontecendo atrás das paredes laterais.

Porém, além dos equivocados efeitos sonoros que antecipam por poucos segundos e matam o efeito dos "sustos" ou elementos surpresas do roteiro, o filme trapaceia vergonhosamente na sua proposta de colocar o expectador como testemunha ocular dos eventos através dos efeitos de câmera e do plano único e dribla as regras acordadas inicialmente para poder fazer uma reviravolta desnecessária nos momentos finais.

A jornada tem até seus momentos, mas a trapaça no final é tão descarada e ilógica que é impossível não desprezar o filme depois de revelada.

domingo, 19 de junho de 2011

Game of Thrones

A promessa de uma obra-prima


E mais uma bola dentro da HBO!

Fãs de O Senhor dos Anéis, Game of Thrones é um programa imperdível para vocês.

Restante do mundo, Game of Thrones é um programa imperdível para vocês também.

O novo seriado da HBO agrupa quase dez horas de entretenimento que entregam exatamente o que seu título parece propor: intrigas palacianas, traições, vinganças e uma dezena de personagens sem escrúpulos (ou com mais escrúpulos do que deveriam) fazendo de tudo para sentar no cobiçado trono de ferro. 

Os primeiros capítulos da série, ainda que muito mais lentos que os finais, deixam qualquer um completamente perdido com um batalhão de personagens. O problema não são apenas os que aparecem na tela, mas também todos aqueles que são citados rotineiramente na maioria dos diálogos. Cada personagem refere-se a antepassados de seu clã ou a personagens que ainda não estão aparecendo na trama e criam um mundo complexo cheio de interligações e histórias ainda não contadas (ou que nunca serão).

Só mais para o final da temporada, consegui me localizar entre os diversos clãs e seus totens e entender suas vantagens competitivas no jogo pelo trono - dinheiro, poder militar, hereditariedade ou simplesmente "honra". Nesse ponto da narrativa, você já está totalmente envolvido na estória e o destino de cada uma daquelas "pessoas" torna-se crucial e o roteiro não decepciona, usando seus pré-conceitos para te surpreender ao mesmo tempo em que você percebe a "virada" era, na verdade, o resultado mais óbvio de uma sequência longa de eventos.

Um fantástico roteiro realmente já é meio caminho andado, mas a escolha do elenco e das locações também fazem toda a diferença. Há excelentes atores, mas o que mais rouba cenas é Peter Dinklage, o anão protagonista do independente O Agente da Estação. Com uma atuação digna de Emmy, mesmo que não leve o prêmio para casa, tem que ser ao menos indicado. A presença de tela de seu personagem aumenta consideravelmente ao longo dos episódios e parece até que tenha crescido de acordo com sua popularidade - ainda que eu não tenha como confirmar se todos os episódios já haviam sido gravados quando o piloto foi ao ar.
Ele, no entanto, está longe de ser exceção em um elenco transbordando de bons atores e, ainda mais, de boas atrizes. Particularmente, meu "arco de estória" favorito é certamente o que mostra a evolução da ótima Emilia Clarke e sua Daenerys Targarien, a melhor de todas as fortes e envolventes personagens femininas. As mulheres deixam, na maior parte do tempo, a violência a cargo dos homens, mas são elas, que com suas intrigas e ambições que realmente dão o tom da série - exceção às tradicionais mulheres-objeto das séries da HBO que já são um elemento esperado (assim como o uso de drogas).

Ainda que a série seja fantástica, Game of Thrones tem seus poucos pontos baixos: os episódios três a cinco mal avançam a história e o cenário que menos empolga é também um dos mais importantes: The Wall, a grande muralha que separa os sete reinos das terras geladas e aparentemente repleta de seres místicos ao norte. A história de Jon Snow segue extremamente devagar e quase sempre arrasta o ritmo dos episódios, ainda que, mais para o final, percebe-se que é dali que muitas estórias vão sair.

O show segue sua primeira temporada praticamente inteira com muitos poucos elementos de fantasia em si, apenas referenciando-os como parte de uma realidade que já ficou perdida na história desse mundo. Se não cair no erro de True Blood que começou a focar mais em seus elementos fantasiosos relegando as verdadeiras estórias, as dos personagens, a um papel coadjuvante, Game of Thrones tem tudo para ser uma das melhores séries já produzidas na televisão. 

Descobriremos daqui a alguns meses quando o inverno, e a segunda temporada, chegar...

Bônus: a fanstástica animação da abertura



sexta-feira, 10 de junho de 2011

Kung Fu Panda 2

Competência Incompleta



Direção: Jennifer Yu Nelson
Título Original: Kung Fu Panda 2
Duração: 90 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jun/11

Mais uma vez, a Dreamworks mostra ser incomparável em apuro técnico, tendo Kung Fu Panda 2 como uma amostra emblemática dessas habilidades artísticas e tecnológicas que são a vantagem competitiva da empresa no mercado de animação. Infelizmente, o filme também demonstra bem os principais defeitos dos produtos: roteiros afundados por idéias batidas e personagens rasamente caracterizados.

Apesar de conversar com seus próprios clichês e tirar deles alguns ótimos diálogos como aqueles entre o Panda e seu mestre no começo da estória ou quase todos aqueles que envolvem o Pavão, vilão do filme. Contudo, os clichês que não são explorados satiricamente (uma marca da empresa desde o ótimo debut de Shrek) deixam o filme um tanto previsível e até enfadonho, sendo o mais frágil de todos eles a própria espinha dorsal do roteiro: protagonista adotado quer descobrir quem é buscando suas origens. Você já sabe onde isso vai dar - vingança envolvendo o vilão e a descoberta da identidade na família adotiva.

O fraco roteiro, no entanto, não consegue abalar um ótimo filme que conta com ação ininterrupta, lutas ágeis com coreografias inovadoras e e fantásticas paisagens - e eu não me cansaria de estressar o quão "fantásticas" elas são. A exploração cômica da natureza animal e instintiva de seus personagens, como a sábia cabra que fica todo o tempo tentando comer o manto do pavão (hilário), a menção ao acasalamento dos louva-deus também são um agradável elemento do filme. Mais alguns pontos positivos: a beleza da animação-retrô das cenas de flashback ou devaneios e a qualidade da versão 3D, que não abusa no uso de elementos para "fora da tela" e imprime profundidade aos fantásticos cenários bolados pela equipe de fotografia.

A Dreamworks provavelmente conta com os melhores animadores e técnicos do mundo, mas já passou da hora de investir um pouco mais nos roteiristas e roubar o trono da Pixar - que fora a derrapada com Carros, está sempre na pole position no quesito emoção.

sexta-feira, 3 de junho de 2011

X-men: Primeira Classe

Renascendo no Passado

Direção: Matthew Vaughn
Título Original: X-men - First Class
Duração: 132 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jun/11

Mesmo depois de ler inúmeras críticas positivas, algumas delas demasiadamente entusiasmadas, fui ao cinema com baixas expectativas para X-men: Primeira Classe. Creio que a aventura solo de Wolverine e a curta e bizarra conclusão da trilogia original (X-men: O confronto final de Brett Ratner) foram os principais culpados dessa leve apatia. X-men: Primeira Classe, no entanto, reavivou meu interesse pelos heróis mutantes no cinema. 


Dentre os vários trunfos do divertido filme, o maior deles sem sombra de dúvidas, é a escolha do elenco. Michael Fassbender e James McAvoy estão fantásticos, mas Kevin Bacon também, inesperadamente para mim, consegue roubar a maioria das cenas em que aparece. O resto do elenco que inclui Rose Byrne (Moira MacTaggert), Nicholas Hoult (Fera), Jennifer Lawrence (Mística) e Caleb Landry Jones (Banshee) também cumpre muito bem seus papéis, ainda que seus personagens fiquem na berlinda pela maior parte do tempo.


É prazeroso ver que a arrogância e de Xavier está lá desde o começo e ver que dessa vez ela funciona. Aquela aparente necessidade de estar acima de tudo e de todos, sempre condescendentemente achando as respostas corretas, sempre tentando convencer os outros de que ele e mais ninguém sabe o caminho com, obviamente, a melhor das intenções. A vantagem de uma estória no passado é que essas características enfadonhas do personagem (e que tornam os X-men sem Xavier, muito mais interessantes, ainda que seus ideiais estejam sempre embutidos em todas as estórias) são contrabalanceadas por uma atitude juvenil, até meio malandra, uma auto-confiança exagerada e um lado conquistador e mulherengo. Xavier continua sendo o mesmo mala, mas um pouco mais divertido. Obrigado, McAvoy!


Magneto, no entanto, e principalmente por "culpa" de Michael Fassbender, é quem comanda o filme - lembrando que inicialmente teríamos um "Magneto: Origens" no lugar desse filme. O alemão-irlandês é um ator que sabe aproveitar muito bem a oportunidade e deve muito em breve protagonizar muito mais outros filmes de ação no futuro (A licença para matar de Daniel Craig está a perigo). Bonito, carismático e com capacidade dramática acima da média, ele é fácil uma promessa para o futuro - ou uma confirmação no presente, já que ele já tinha chamado atenção em Bastardos Inglórios.


E a química entre Fassbender e McAvoy também ajuda muito, porque o roteiro não chega a realmente a didaticamente criar as situações necessárias para o desenvolvimento da amizade. Pelo roteiro, inclusive, Xavier parece considerar Erik como mais um de seus alunos ou qualquer outra pessoa que não está no mesmo nível que ele e Erik, por sua vez, está tão obcecado com sua missão a ponto de não ter tempo de sequer considerar a existência de Xavier. Mas talvez a intenção fosse essa mesmo e então, de qualquer maneira, funcionou (e muito bem).


As poucas modificações feitas no material original (i.e. os quadrinhos), são bastante satisfatórias: a importância maior que deram a Mística, uma das personagens mais maltratadas do universo mutante - com exceção da fase de revista solo escrita pelo genial Brian K. Vaughn -, foi extremamente bem-vinda. E a nova versão de Sebastian Shaw e do Clube do Inferno como um todo não atrapalha - era necessário um vilão de qualquer jeito, afinal de contas é um filme de super-heróis.


A escolha da primeira classe em si (nos quadrinhos teríamos Ciclope, Fênix, Fera, Anjo e Homem de Gelo), no entanto, foi minimamente inesperada: uma seleção de personagens bastante eclética e, talvez por isso mesmo, um tanto inefetiva. É bem verdade que, infelizmente, da formação original, só Fera poderia aparecer nesse filme, considerando que os outros estariam muito mais velhos na trilogia original se já fossem adolescentes nos anos 60. 


Dentro dessa limitação, Banshee é uma escolha perfeita e, apesar de ele ser uma cópia do Ron Weasley de Harry Potter, tem seu valor cômico e compensa. O restante (Angel, Destrutor e Darwin) são escolhas, no mínimo peculiares, e esses personagens acabam se envolvendo em tramas desnecessárias ou são interpretados por atores que passariam vergonha até na Malhação.


Do lado dos vilões, há limitações orçamentárias (ou talvez limitações criativas mesmo) e acabamos com alguns que não abrem a boca (tipo o Dentes-de-Sabre do primeiro filme), são refugo de efeitos especiais já utilizados (o demônio Azazel com os mesmo poderes de Noturno) ou tiram de personagens interessantes e relevantes para os quadrinhos parte do seu brilho (Emma Frost).


Os efeitos especiais deixam a desejar uma hora ou outra, especialmente nas cenas em que os personagens voam, chegando ao nível de algumas cenas parecerem ter voltado ao nível tecnológico de "A freira voadora", quando a câmera simplesmente dá um close nos cabelos esvoaçantes da personagem para simular vôo. 


X-men: Primeira Classe certamente tem suas falhas e está longe de atingir níveis épicos como aconteceu com Cavaleiro das Trevas, mas como fã incondicional dos mutantes da Marvel, essa sem dúvida, foi a melhor (seguido de perto pelo segundo) versão que já vi deles na tela. Um filme leve, que não se leva tanto a sério, mesmo navegando por águas mais profundas como cicatrizes do holocausto e ações afirmativas e uma trama divertida e nostálgica remetendo à infância e adolescência de nerds da minha geração. Como não gostar dele?


O site Den of the Geek fez um comentário bastante pertinente: apesar de ser apenas cerca de cinco minutos mais curto que o novo Piratas do Caribe, a sensação é a de que X-men parece ter pelo menos a metade da duração. O tempo passa voando e você ainda termina com aquela vontade de conhecer a "segunda classe" ou, quem sabe, a "irmanda de mutantes" de Magneto.


Tomara que não demore...