sexta-feira, 22 de maio de 2015

O vendedor de passados

Passado Malpassado

Direção: Lula Buarque de Hollanda
Título Original: O vendedor de passados
Duração: 82 min
Idioma: Português
Lançamento: mai/2015

Não há desperdício nos enxutos 82 minutos de projeção de O vendedor de passados. A abordagem econômica age tanto em detrimento quanto a favor do filme: salva o expectador de diálogos redundantes e cenas que não avançam o enredo, mas também não permite que a trama aproveite satisfatoriamente sua ótima premissa.

É gratificante que não haja qualquer troca de frases entre os personagens que não estejam lá para gerar conflito ou para fornecer uma nova informação efetivamente necessária para a trama. Ainda que algumas falas, mesmo saindo da boca de excelentes atores, às vezes pareçam desprovidas de naturalidade e fluidez, o conteúdo das discussões, na sua maioria, mantém nossa atenção na tela.

Contudo, por melhor que sejam, os diálogos servem para compor um enredo que não alcança seu potencial. A história que nos é servida é protagonizada por Vicente (Lázaro Ramos), um carioca que vive de montar álbuns, filmes e outros materiais que ajudem a reescrever o passado de seus clientes com eventos que nunca aconteceram, mas que eles desejam, por motivos diversos, que tivessem acontecido. A (primeira de muitas) virada da história vem quando uma misteriosa cliente, interpretada por Alinne Moraes, contrata Vicente para criar um passado sem qualquer referência e com uma única condição: que nele ela tivesse cometido um crime.

A partir desse encontro, o roteiro vai nos servindo pequenas porções de informações, sempre em pratos com ótima apresentação, mas de sabor inconstante. Longe de se ater a um gênero e tema, a refeição passeia pela comédia, pelo romance e pelo thriller, sempre temperada com o mistério e a estranheza típicos da ficção científica. Quando chega a conta, que vem cedo demais e sem ser solicitada, somos cobrados por algo muito diferente do que achávamos que estávamos saboreando. 

Discussões sobre identidade, solidão, ética, verdade acabam sendo tocadas de modo rasteiro e servem apenas para distrair-nos da verdadeira intenção do filme. Um artifício que normalmente seria louvável se o conjunto final não fosse tão insosso. "Porque um carioca de 30 anos, bonito, vai se apaixonar e querer se envolver com alguma pessoa?". Essa é uma das perguntas que o diretor Lula Buarque de Hollanda se propôs a responder com seu filme (palavras dele mesmo retiradas de uma entrevista). Considerando todas as possibilidades que a premissa permitia, parece-me uma escolha equivocada (subjetivo, tenho consciência disso).

O ponto é que se assumíssemos que a intenção do filme fosse desconstruir um gênero e subverter as expectativas, como acontece, por exemplo, no esperto Gone Home, ele até poderia ter sido um exercício interessante. Não pareceu-me, no entanto, ser esse o caso em O Vendedor de Passados. Ao invés da impressão final ter sido "Uau, fui enganado direitinho", ela foi "Jura, era sobre isso então?". 

De qualquer maneira, o longa adapta com competência o romance do angolano José Eduardo Agualusa para a realidade brasileira ao buscar em ex-gordos, transexuais e mulheres de passado duvidoso os clientes para o serviço ímpar oferecido por Vicente (no original, os principais clientes são emergentes com dinheiro e sem um passado "digno" à altura). Também acerta ao usar a ditadura argentina e não a brasileira como pano de fundo para o passado de um dos personagens, além de apresentar personagens pitorescos e interessantes como a colecionadora de álbuns de fotografias antigos.

Lázaro Ramos já levou um prêmio de melhor ator no Cine PE por esse filme. Ele dá vida a um Vicente contido, desconfiado, distante e visivelmente incomodado com o mundo. Um ótimo trabalho de interpretação, mas longe de ser o seu melhor. Alinne Moraes, por sua vez, consegue criar perfeitamente a incógnita que sua personagem pede para ser. Ela é propositalmente uma casca, seus olhos parecem desprovidos de emoção. Emoção essa que só aflora premeditada, racional e conscientemente. Não é ela a protagonista, mas é a personagem que acrescenta aquele quê de picância que todo prato precisa.

No fim, fica a sensação de que o próprio filme deveria contratar Vicente para construir um passado mais relevante para si mesmo. O Vendedor poderia render um thriller muito mais intenso e que infelizmente termina tendo tocado apenas parte do extenso universo que o tema poderia render. Ainda assim, é mais uma vez agradável ver que nosso cinema está investindo em algo que não sejam comédias e filmes regionais com as mesmas histórias de sempre. Que venham mais obras como essa e cada vez melhores.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mad Max - Estrada da Fúria

Luz, câmera, AÇÃO!

Direção: George Miller
Título Original: Mad Max: Fury Road
Idioma: Inglês
Duração: 120 min
Lançamento: Mai/2015

Quer conhecer a definição máxima do que seria um filme de ação contemporâneo? Então pare de ler essa resenha e corra pro cinema para assistir a Mad Max: Estrada da Fúria antes que saia de cartaz. Do início da projeção a seus minutos finais, o quarto filme da série protagonizada pelo insano e solitário Max Rockatansky vai suspender temporariamente não só sua descrença mas seu direito a respirar. Mal as luzes do cinema se apagam, os motores começam a roncar, guitarras a guinchar e Max a grunhir.  E quando você menos estiver esperando, a trama já vai ter chegado a sua resolução, os créditos terão subido, suas energias vão ter se esgotado com tanta tensão e você sairá atordoado, mas com a estranha satisfação de quem concluiu uma missão ou sobreviveu a uma provação (um daqueles filmes do tipo ame-ou-odeie).

Sem tempo para as piadinhas infames ou as dezenas de cenas de "propaganda" dos filmes da Marvel, sem tempo para as tramas rocambolescas de Bournes e Missões Imposíveis, sem tempo para ficar fazendo poses em câmera lenta e lambendo o próprio rabo dos zero-zero-Bonds, Mad Max é uma injeção de adrenalina misturada com muita testosterona e, agradavelmente, doses cavalares de estrogênio (Furiosa!). Uma mistura intoxicante que proporciona um barato de duas horas e deixa uma leve zonzeira reverberando por algum tempo depois da saída do cinema.

Mas se o filme é pura ação, deve ser estéril como o deserto onde é filmado, não? Em absoluto! Basta acompanhar o mimimi sobre a "conspiração castradora feminista" por trás do filme (não coloco o link do artigo que gerou a centelha para não alimentar o fogo dessa discussão). Ainda que a louvável crítica à opressão machista faça parte do enredo, em foco estão realmente a redenção e a esperança e todos os protagonistas e personagens secundárias sublinham esses dois temas. Porém, é na construção da ação que o roteiro efetivamente mostra seu brilhantismo. Em cada beat, cada virada, as apostas são altíssimas. Se os personagens encaram um problema, e não há escassez deles, estão sempre em jogo a liberdade e a sobrevivência de cada um. Pessoas com os quais você se importa e o perigo de perdê-los a cada minuto de projeção: o que mais um filme precisa para manter sua atenção?

Diminuir o ritmo para desenvolver melhor as personagens? Nem pensar. As personagens reagem a cada um dos problemas que aparecem de cinco em cinco segundos e pelas respostas e atitudes você entende perfeitamente quem eles são, o que precisam, o que sentem e o que buscam. Praticamente um filme mudo, de pouquíssimos diálogos, Mad Max tem mais desenvolvimento de personagens do que muitos outros que gastam horas levando os seus para uma cabana na floresta e colocando-os em terapias de grupo com a intenção de debaterem aquilo que não se conseguiu mostrar diretamente na ação.

O Mad Max de Tom Hardy é magnético, vigoroso e intenso. Um sobrevivente assolado pela insanidade e assombrado por traumas,  ele passa a maior parte do filme grunhindo e emitindo monossílabos, mas faz isso com tanto charme, naturalidade e uma estranhamente adequada afabilidade que se torna impossível não simpatizar com ele. Esse Max é uma daquelas figuras que ultrapassa sua função como personagem para se tornar uma força motriz e acaba sendo não o protagonista, mas o elemento que une e move as tramas daqueles que representam verdadeiramente a alma da história: a Imperatriz Furiosa e o mal-direcionado, mas bem-intencionado Nux. 

Charlize Theron, como Furiosa, sequestra todas as cenas e não importa o quão suja, arrebentada e aleijada ela esteja, continua soberbamente exuberante e bela. Não consigo imaginar alguém que seja tão Imperatriz e tão Furiosa ao mesmo tempo, pelo menos não enquanto a imagem de Theron estiver tão fresca na minha mente. Furiosa é humana, extremamente humana. Brutal e gentil simultaneamente, seu olhar transmite uma dor ancestral, um peso sendo carregado por anos e anos ininterruptos, mas ainda assim ela age movida pela esperança e por uma chance de redenção. Se houver um futuro para essa franquia, espero sinceramente que Furiosa esteja nele.

Demorei para reconhecer pelo visual, mas os trejeitos de atuação de Nicholas Hoult (Skins, X-men: Primeira Classe, Um grande garoto) são tão característicos que mesmo debaixo das toneladas de maquiagem necessárias para dar vida a Nux, você consegue enxergar o ator. Nux, ainda que coadjuvante, é quem encarna o arco tradicional do herói no filme. Inicialmente um entre muitos dos War Boys do vilão Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne)vítima da própria fragilidade e ignorância e transformado em algoz pelos desígnios do tirano, ele cresce para ocupar o papel clássico do fantoche disposto a cortar suas cordas, em nome do amor ou em nome de um propósito que seja seu e não de outros. Hoult amadurece a cada filme que faz, arrisca-se em diferentes gêneros, e sua carreira ganha corpo e evidência. Ele é um dos poucos atores mirins que entregou-se efetivamente ao ofício e sempre é um prazer vê-lo atuando.

Personagens redondos, enredo simples e efetivo, ação ininterrupta... Mas e os efeitos? As explosões? As perseguições? George Miller é um diretor veterano e John Seale, o cinematografista, coleciona também algumas décadas de carreira, sendo que ambos já levaram um Oscar pra casa. Enfim, são profissionais que sabem o que estão fazendo e isso é percebido facilmente na tela. Os efeitos digitais são utilizados não como prato principal e sim para amplificar o que foi construído "analogicamente" com dezenas de carros e dublês à disposição. E por isso, diferente da maioria dos blockbusters atuais, é fácil identificar o que está acontecendo na cena, mesmo nos momentos mais intensos. Muita atenção a detalhes e imaginação de sobra permitem povoar o pesadelo surrealista de Mad Max com as mais bizarras e grotescas criaturas e emoldurá-lo com uma paisagem árida e incrivelmente bela. Cores saturadas, cenas noturnas acachapantes, uma tempestade de areia para entrar pra história: o espetáculo visual está garantido e por si só já valeria o ingresso.

Enquanto escrevia essa crítica, fiquei tentando procurar pelos mais banais problemas que fizessem com que Mad Max não merecesse a nota máxima. Poderia dizer que a ação do clímax acaba sendo um pouco menos espetaculosa do que o que veio antes dela, mas sinceramente isso foi praticamente um alívio. Poderia dizer que a maior parte dos nomes e dos poucos diálogos são ridículos (Rictus Erectus? People Eater? Bullet Farmer?), mas isso é parte do charme da série. Poderia dizer que o plot em si é praticamente inexistente e absolutamente previsível, mas ele funciona perfeitamente para emoldurar o que realmente interessa que é a ação. Enfim, deixo aqui a única crítica negativa que encontrei para tentar balancear um possível miopia da minha parte e oficializo que, para mim, o sarrafo subiu a nível estratosféricos para os filmes de ação com Mad Max: Estrada da Fúria, e boa sorte para quem for tentar se igualar a essa façanha daqui para frente.

P.S.: Claro que não poderia deixar de ser mencionado: o carro com os tambores e o guitarrista... Soooooooo awesome! 

domingo, 12 de abril de 2015

Demolidor

Os tentáculos se expandem 


Temporadas: 1
Episódios: 13

Demolidor é uma franquia da Marvel considerada por muitos anos como de segundo ou até de terceiro escalão. Ganhou notoriedade e juntou-se aos figurões da editora quando Frank "O Cavaleiro das Trevas" Miller abordou o personagem com uma pegada mais sombria e realista. O escritor introduziu personagens importantes como Elektra, Stick e o Tentáculo e posicionou o Rei do Crime como o grande arqui-inimigo do herói. Miller é também responsável pela "origem definitiva" do Demolidor com a mini-série O Homem sem Medo e por uma das melhores histórias dos quadrinhos de super-heróis em geral: A Queda de Murdock. A saga mostra a vida de Matt Murdock sendo meticulosamente destruída pelo Rei do Crime quando o vilão descobre a identidade secreta do herói (pouco provável que não seja o tema de alguma temporada da série).

Acertadamente, são o clima e os conceitos criados por Miller e refinados posteriomente por grandes escritores como Kevin Smith (Guardian Devil), Brian Michael Bendis (Underboss, Decalogue, Out) e Ed Brubaker (The Devil Inside and Out) que fazem de Demolidor, a série da Netflix, um dos melhores produtos da Marvel Studios até o momento. O conflito entre o advogado e o justiceiro, a corrupção e a decadência da Cozinha do Inferno, a potência das filosofias orientais contra a angústia católica do herói, são temas que saem do papel para fielmente serem traduzidos para a tela.

A mais agradável surpresa e um dos aspectos mais positivos da série foi a decisão dos roteiristas de não utilizar a preguiçosa solução de "caso da semana" que seria óbvia considerando a profissão de Murdock. Mesmo ótimas séries como Hannibal  e Justified não conseguiram fugir, ao menos no ínicio, desse modelo. A revolução causada pelo Netflix com a entrega de todos os episódios de uma única vez obriga um distanciamento do tradicional modelo procedural e nós só temos a ganhar com isso. Até mesmo a TV aberta já foi forçada a começar a se adaptar e séries como How to get away with murder já trabalham com menos episódios e um híbrido entre o procedural e o serializado.

Em seus treze episódios, Demolidor conta uma única história do começo ao fim e o enredo avança em cada um deles, ainda que todos tenham cenas expositivas e redundantes. Há um arco fechado tanto para seu protagonista quanto para os principais personagens secundários e tecnicamente, em termos de narrativa, é difícil apontar problemas. A trama em si envolve o desmantelamento de uma complexa operação criminosa (drogas, corrupção, especulação imobiliária etc.) no bairro Cozinha do Inferno e é bastante tradicional, previsível, quase entediante. Felizmente, ela serve apenas como pano de fundo para que outros elementos mais interessantes sejam desenvolvidos.

O principal desses elementos é certamente a construção dos personagens. Charlie Cox (Stardust, Boardwalk Empire) encarna Matthew Murdock com o desespero de quem reconhece o ponto de virada de uma carreira. Ele injeta charme e carisma no advogado cego, mas também uma camada de melancolia subjacente. Mesmo quando seu personagem sorri, fica sempre a sensação de que há algo mais sombrio e atormentado por trás das palavras. O ator consegue ser o centro de todas as cenas em que aparece, com exceção das em que contracena com Vincent D'Onofrio.

Os primeiros episódios abordam principalmente os dilemas de Matt, mas cada personagem secundário ganha protagonismo por um ou dois episódios. Esse esquema é brilhantemente trabalhado para que o arco dos personagens secundários se interconecte com o enredo principal em momentos diferentes, garantindo que a trama principal não pare para dar espaço a desenvolvimento de personagens. Revezam-se nessa posição Karen Page (o interesse romântico), Foggy Nelson (o melhor amigo), Stick (o mestre) a enfermeira Claire (o sidekick) e obviamente o vilão da temporada, Wilson Fisk.

Wilson Fisk, o Rei do Crime (denominação que não é utilizada na série em nenhum momento), é o antagonista ideal para Matt Murdock e o personagem beneficia-se da atuação comprometida de Vincent D'Onofrio (Law and Order). Tanto Murdock quanto Fisk acreditam estar lutando pelo mais nobre dos objetivos e enxergam em seu nêmesis o principal obstáculo para atingi-los. Ambos agem de maneira moralmente questionável e o expectador pode ficar com a impressão que a única coisa que os separa é onde eles traçam a linha do que é aceitável ou não. Fisk termina sendo quase tão protagonista quanto o próprio Murdock e é construído com a mesma complexidade e densidade psicológica de seu opositor. Suas cenas com Vanessa, interpretada pela ótima atriz israelense Ayelet Zurer, são algumas das melhores do show.

Outro personagem importante é Karen Page, interpretada por Deborah Ann Woll (True Blood), que passa a trabalhar como secretária na firma de advogados já no começo da história. Ao contrário da personagem dos quadrinhos que inspirou sua criação, a Karen de Woll não é apenas um objeto de cena. Longe de ser somente a ponta de um triângulo amoroso ou potencial vítima do enredo, Karen protagoniza um arco completo que segue paralelamente à história de Matthew durante toda a temporada. Ainda que a investigação conduzida por ela torne-se redundante rapidamente já que a trama principal chega no mesmo resultado muito antes, é um movimento correto da Marvel no que refere-se ao tratamento de suas personagens femininas.

Os aspectos mais técnicos também são dignos de nota. A fotografia adequa-se perfeitamente ao clima, abusando de tons amarelo-acinzentados que dão uma vibe noir pra história - uma das principais graphic novels do herói é justamente Demolidor: Amarelo, que usa do mesmo expediente. As cenas de ação, com ótimas coreografias para as lutas e perseguições no estilo parkour, ficam no limite do realismo: o Demolidor não possui super-força e nem gadgets e tem que se virar apenas com agilidade e técnica. E também não há mortes assépticas como as dos "raios vaporizadores" de Capitão América, violência é o que não falta no programa.

Contudo, apesar de todos os aspectos positivos, Demolidor ainda sofre da previsibilidade e do exagero de cenas expositórias típicas dos produtos Marvel Studios. Sempre divertido, sempre competente, mas ao mesmo tempo burocrático e limitado pelos problemas do gênero. Por mais interessante que algumas cenas sejam, a suspensão da descrença tem que ser muito alta para que elas funcionem. A conexão entre as subtramas é tão coreografada quanto as cenas de luta. A fórmula é tão óbvia quanto a de um desenho da Disney. Mesmo algumas das surpresas deixadas para o final da temporada só têm algum impacto porque fogem da realidade dos quadrinhos e em segunda análise são menos relevantes do que parecem.

E, por mais fiel que seja ao material original, as piadinhas, as frases de efeito que são mais do que características da "Casa de Ideias", soam cansativas e um pouco ridículas em alguns momentos. Foggy Nelson, por exemplo, é um personagem que não fez uma boa passagem do papel para a tela. Já que a intenção era mudar o tom, dar mais seriedade, porque não fazer a mudança completa? Porque não deixar de lado a muleta e construir Foggy como uma pessoa de verdade e não só um alívio? E se não bastassem as tiradas tentativamente cômicas, ainda temos que suportar rasas lições de vidas que todos os personagens parecem ter para passar para quem quiser (ou não) escutar.

Com Demolidor, a Marvel estende seus tentáculos gananciosos em mais um gênero e aumenta a sua base de fãs. Não é preciso gostar de super-heróis para gostar da série, apenas de histórias policiais e ação. Se você é um fã de Dexter ou mesmo de programas mais densos como Hannibal ou The Wire, Demolidor pode até não agradar, mas não deve ofender. E o show ainda faz parte de um universo em expansão, com mais três séries saindo nesse e no próximo ano com personagens similares (Jessica Jones, Punho de Ferro e Luke Cage), culminando com a junção de todos na mini-série Os Defensores. Longe de ser, no entanto, a obra-prima que a mente coletiva da internet tem tentado construir, Demolidor é um agradável entretenimento feito com competência e que talvez mereça a sua atenção.

quarta-feira, 25 de março de 2015

Whiplash - Em busca da perfeição

Um Jazz de uma (ótima) nota só

Direção: Damien Chazelle
Título Original: Whiplash
Duração: 107 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jan/2015


Whiplash ganhou os prêmios de melhor som, melhor edição e melhor ator coadjuvante esse ano na cerimônia do Oscar. A resenha poderia parar nessa frase, pois ela praticamente delineia exatamente o que esperar do filme: uma edição visceral e pungente, adornada pelas batidas frenéticas e o extasiante efeito do jazz, garante a plataforma perfeita para que um excelente ator encontre o seu momento de glória. E isso é tudo por hoje, pessoal.

Não exatamente.

Seria simplista demais reduzir Whiplash a esses três fatores e desconsiderar outros bons aspectos do filme, porém seu calcanhar de Aquiles é justamente na categoria que mais interessa a mim e ao Crítica em Série: a história, o roteiro, a narrativa. Contudo, antes de falarmos dela, sigamos com os pontos positivos.

Nunca a expressão "sangue, suor e lágrimas" foi tão literalmente trabalhada quanto nesse filme. A edição alterna entre enquadramentos fechados desses fluidos em todas as suas variações possíveis. Tudo é atmosfera e contexto. Cada detalhe precisa intensificar o tema central, a obsessão e toda a transpiração e sacrífico associados. Afinal, o embate de um baterista e seu mentor "em busca da perfeição", como deixa claro o subtítulo do filme no Brasil, não é exatamente o material mais óbvio para um thriller. Para transformar essa premissa em algo emocionante, vai ser necessária muita técnica.

E técnica é o que não falta a um ator veterano como J.K. Simmons, que em Whiplash parece ter alcançado sua apoteose. Simmons definitivamente é um daqueles atores que se destacam em qualquer produção mesmo em papéis menores (vide Oz ou a trilogia original do Homem-Aranha), porém é, ao mesmo tempo, um ator de um único papel (vide Robert Downey Jr.). Fletcher, o regente a quem o ator dá vida, parece ter sido criado especialmente para ele. Fletcher é pura voz e entonação e é só checar a página de Simmons no IMDB para ver que boa parte do seu histórico é composta de trabalhos como dublador em desenhos animados e até jogos (ele é um dos melhores elementos do mais que excelente Portal 2, por exemplo).

Simmons é virtuosidade pura em cena, praticamente impecável, mas não teria tido tanto sucesso se não encontrasse em Miles Teller um oponente à altura. O jovem ator, e também músico diga-se de passagem, consegue misturar em medidas corretas arrogância e prepotência com confusão e insegurança, o que permite a seu Andrew ser simultaneamente vítima e contumaz adversário.

O diretor e também roteirista Damien Chazelle, que ainda não conta com praticamente nada no currículo, conseguiu se afastar absurdamente do festival de bobagens que foi seu roteiro em Toque de Mestre e calcar sua história em elementos dramaticamente mais coerentes. Contudo, a narrativa de Whiplash é um jazz de uma nota só, uma sequência de cenas tematicamente monotônicas, que repetem à exaustão uma única batida.

Andrew e Fletcher são personagens unidimensionais, arquétipos que representam uma ideia e não seres humanos completos. E ainda que isso sirva perfeitamente ao propósito do filme e que a única dimensão que eles possuam seja de uma potência brilhante, eu particularmente gostaria de tê-los visto tocarem mais de uma melodia. Quem é Andrew ou quem é Fletcher além da força motriz que os impulsiona? 

As poucas cenas que tentam ampliar o espectro psicológico dos dois protagonistas, como o romance de Andrew ou a desolação com a morte de um estudante de Fletcher, provam-se apenas subterfúgios para reforçar ainda mais a mensagem principal. Alguém uma vez disse que Dave Matthews não era um vocalista, mas que sua voz era só mais um instrumento da banda. Andrew e Fletcher não são personagens, são apenas engrenagens de um roteiro milimetricamente ajustado.

Minha primeira impressão, ao terminar o filme, foi de ter visto um Cisne Negro sem a profundidade de caracterização e sem os truques narrativos. Uma párabola sobre a obsessão contada em uma única camada. Foram necessárias algumas conversas com amigos e a leitura de um tanto de outras resenhas para começar a avaliar o filme com lentes diferentes. Alguns expectadores vão enxergar perfeição cinematográfica em um roteiro que não foge do seu objetivo nem por um segundo, enquanto que outros, como eu, vão sentir o vazio de uma produção focada em personagens que terminam sua jornada no mesmo ponto em que a iniciaram. O que importa é que independente de que lado você esteja, dificilmente estará indiferente.

terça-feira, 24 de março de 2015

Garota Exemplar (Livro)

A faceta mais aterrorizante do casamento

Considero quase impossível fazer uma análise desse livro sem revelar detalhes da trama. Por esse motivo, segue no primeiro parágrafo, o arremate que estaria reservado ao último: um ótimo livro de suspense que vai fundo em analisar os perigos que rondam um casamento e a difícil dinâmica entre um homem e uma mulher. É diversão garantida com um bom tanto de reflexão e recomendo sem maiores ressalvas.

Vamos agora à análise que pode conter spoilers.

Só para começar: ainda que a tradução do título para o português seja bastante própria para o livro, ela altera consideravelmente a relação do leitor com o mesmo. No original, em inglês, Gone Girl, você pode entender "Garota que se foi" em seu sentido mais literal e que é totalmente apropriado para uma história cujo tema principal é o desaparecimento de uma mulher, mas você pode também aceitar o seu sentido metafórico como a garota já não está mais lá ou já se tornou outra pessoa. Nos dois casos estaríamos falando de uma garota genérica, como se representasse toda e qualquer mulher.

Garota Exemplar, o título em português, remete a uma temática muito específica, de uma garota que não comete erros, que faz tudo o que se espera dela. Algo extremamente em linha com um dos pontos mais relevantes do livro, mas que não representa o que me parece ser a intenção original da autora. Cito esse assunto apenas como uma ponderação, porque admito que seria difícil uma tradução que capturasse a essência do título original.

Garota Exemplar é um exemplo do que os americanos sabem fazer de melhor: replicar modelos de sucesso. Parece um livro escrito com uma fórmula ou roteiro com regras e métricas sobre o que inserir ou revelar em cada momento. Ele apresenta os personagens e inicia a ação rapidamente e vai distribuindo pequenos ganchos a cada, no máximo, 15 ou 20 páginas, fazendo com que o interesse se perpetue (estilo Dan Brown). Só que mesmo que a técnica seja perfeita, seria muito difícil alcançar o sucesso sem um tema que falasse diretamente à alma do leitor: no caso de Garota Exemplar, a incomunicabilidade entre o homem e a mulher e a difícil missão a que eles se propõe de manter um casamento. 

Boas histórias de terror e suspense são aquelas que intensificam o lado perverso de algo que culturalmente consideramos positivo. Quando você transforma a gestação e o nascimento de uma criança em algo perverso, por exemplo, você atinge mais profundamente sua audiência. Em Garota Exemplar, o protagonista monstruoso é a relação de Amy e Nick e principalmente o seu casamento. Pequenas frustrações ou dificuldades de comunicação que permeiam o casamento de qualquer pessoa são amplificadas até atingirem níveis surreais. Contudo, como são calcadas na realidade, sempre fica a sensação de que "poderia acontecer comigo".

Amy e Nick, os polos dessa relação tão doentia quanto usual, são personagens construídas para parecerem reais, mas ao mesmo tempo funcionarem como arquétipos do masculino e do feminino, tanto das características boas, quanto das menos desejáveis. Amy é é uma sociopata, mas é tão fácil me identificar com ela que chego até a ter medo. Nick também é um sociopata, mas como homem não é difícil empatizar com suas angústias e seu desespero. As duas personagens são incríveis, mas Amazing Amy é de longe a que merece um lugar na minha memória eternamente. Se não por mais nada, pelo seu monólogo no início do segundo ato do livro e suas reflexões sobre a "garota legal (cool)".

Falando em segundo ato, vale mencionar que a estrutura narrativa e o formato da história são outros atrativos do livro. Alterna entre a narração em primeira pessoa por parte de Nick, conforme os eventos se desenrolam após o desaparecimento, e a exposição do diário de Amy que desvenda a vida anterior do casal na forma de flashbacksAmy em seu diário desenvolve o relacionamento dos dois desde o momento em que se conheceram e sua visão é contraposta às lembranças e reminiscências de Nick nos dias atuais, formando um painel de expectativas e desilusões antagônicas e tristemente familiares.

Infelizmente, para leitores e expectadores de mistérios e thrillers, uma das revelações principais acaba não causando o espanto que deveria, mas os pequenos ganchos de cada um dos curtos capítulos mantêm um ritmo fluido e o interesse não diminui (terminei o livro em praticamente uma sentada). É necessário também que se suspenda a descrença em algumas passagens que forçam a mão, mas no ponto em que elas acontecem você já está tão interessado no destino de Nick e de Amy que vai deixar passar muita coisa.

Como normalmente acontece, muita gente vai deixar de ler esse livro e conhecer a história apenas pelo ótimo filme do diretor David Fincher. Infelizmente o papel tem muito mais a oferecer do que o que é mostrado nas mais de duas horas de tela. Amy e Nick são muito complexos e há muito mais a se absorver deles do que simplesmente ouvir e ver a sua história.