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sexta-feira, 24 de julho de 2015

O oceano no fim do caminho - Neil Gaiman

Em busca de um tempo nada perdido

Por conta de resenhas e críticas que havia lido há tempos, comecei a ler o novo livro de Neil Gaiman, O oceano no fim do caminho, esperando algo mais calcado na realidade (não sei onde estava com a cabeça) e autobiográfico. Enfim, um livro que fugisse um pouco dos padrões de literatura fantástica do autor. Enganei-me fantasticamente. Gaiman não só está no seu universo, mas confortável e apaixonadamente entregue ao que ele faz de melhor. 

Recentemente, meu romance com os produtos da mente desse britânico andava um tanto quanto fatigado porque resolvi acompanhar o cara nas redes sociais e descobri que o ser humano Gaiman é muito menos interessante (e consideravelmente mais babaca) do que a sua obra. Além disso, Coisas Frágeis, o último livro que tinha lido dele é, quando muito, curioso e, na maior parte do tempo, apenas mais do mesmo. 

O oceano no fim do caminho, no entanto, reacendeu a fagulha desse amor literário. O livro é inegavelmente um produto da marca Gaiman, porém um exemplar do que ele consegue produzir de mais refinado. Uma história em que se consegue ouvir sua voz claramente e perceber a paixão que foi colocada naquelas linhas. Além de ser um trabalho de edição fenomenal, pois a trama foi visivelmente burilada até deixar somente o essencial para contar a história e cativar o leitor a maior parte do tempo.

Acompanhamos as peripécias de um garoto de sete anos sendo narradas por um homem de meia idade que, pelo contexto, parece ser um alter-ego de Gaiman relembrando a infância. O suicídio de um personagem dá início à trama principal, aparentemente libertando um mal desconhecido. Desconhecido para o protagonista, mas não para as místicas e poderosas mulheres do clã Hempstock, que já sabem de sua existência desde tempos imemoriais. De forma peculiar, o protagonista acaba servindo mais como uma âncora para o expectador maravilhar-se com essas intrigantes personagens femininas, a quem pertence efetivamente o foco da narrativa.

A linha entre a imaginação e o factual é muito tênue e é ultrapassada o tempo todo. Em um dos momentos mais tensos do livro, você tem certeza de que a ação é "real", mas a motivação pode vir tanto de algo fantasioso, como de algo muito mais bruto e cruel. Como em As aventuras de Pi, talvez a fantasia seja algo muito mais palatável do que a realidade, ou talvez a fantasia seja a realidade se assim lhe parece. Depende também de nós leitores e daquilo em que escolhemos acreditar, sendo que o enredo faz uso constante não só dessa ambiguidade, mas de muita simbologia.

Os símbolos parecem ao mesmo tempo serem óbvios e impossíveis de serem captados: seriam as Hempstock uma alusão a Santíssima Trindade? O oceano é uma imagem para o berço da vida ou simplesmente uma metáfora para o conhecimento e para o amadurecimento? A linguagem ancestral seria a palavra de Deus ou simplesmente uma alegoria para reforçar o poder do mito e das histórias? Em alguns momentos, as referências deixam de ser metáforas para quase simples e cruas comparações, e ainda assim é muito difícil agarrá-las com firmeza e certificar-se de seus significados.

Mantendo um de seus principais tiques narrativos, os personagens de Gaiman estão sempre envolvidos nas situações mais irreais possíveis e ainda assim eles se mantém reais. Você vê que eles não estão sendo levados pela história, mas que realmente a estão vivendo. Mesmo a naturalidade com que o protagonista de Oceano enfrenta determinadas situações fantásticas, parece mais verdadeira do que uma reação "apropriada" permitiria. É muito bem estabelecido que estamos falando não só de uma criança de sete anos, mas de uma com uma imaginação muito fértil, irrigada por leitura ininterrupta e por uma absoluta paixão por mitos e lendas.

O oceano no fim do caminho é um livro curto e rápido de ler, mas que remexe no nosso baú da infância e nos faz lembrar que a criança que fomos vai estar sempre dentro de nós e que aquilo que nos dava força há anos, estará sempre lá para nos mover mesmo em nossos momentos mais difíceis e desafiadores.  O livro não puxa você para o mundo dele, mas sim te empurra para dentro de si mesmo. Mais próximo do final, a vontade de chorar era quase irrepreensível e tenho consciência de as lágrimas vieram não pelos eventos que se desenrolavam no mundo de O oceano, mas pelas memórias e experiências que elas evocavam em mim mesmo.

Contudo, nem tudo funciona no livro e uma análise fria e técnica o colocaria na categoria "ótimo", para alguns leitores apenas "bom", e não "excelente/obra-prima" como escolhi classifica-lo. Ele, no entanto, conseguiu, especificamente comigo, transcender a relação de entretenimento puro e simples, para algo muito mais íntimo e seria uma injustiça avaliá-lo apenas pelos critérios técnicos. Aqueles leitores que se permitem enxergar o mundo não só com os olhos, mas também com a imaginação, provavelmente concordarão comigo.  

E você pode até esperar o filme (que segundo o IMDB já está em desenvolvimento e provavelmente será uma coleção de cenas oníricas fantásticas), mas para alimentar a criança que se escondeu dentro de você, bata a poeira que assentou-se sobre sua fantasia e deixe ela correr livre por alguma horas com as Hempstock. Você em algum momento vai se lembrar que já mergulhou no oceano no fim do caminho e que ele continua lá esperando sempre que dele precisar.

quarta-feira, 3 de junho de 2015

Braid


Arte e filosofia em sua melhor forma

Desenvolvedor: Hothead Games e Number None 
Plataforma: PS3, Xbox, PC
Gênero: quebra-cabeças, plataforma, conceitual
Itens de série: roteiro fabuloso e enigmático, mecanismo inovador, design encantador, vício extremo 
Defeitos de fábrica: curta duração, frustrações potenciais

Como não gostar dos jogos independentes?

O baixo orçamento obriga os criadores a explorar territórios menos convencionais para garantir um lugar ao sol no meio de uma indústria bilionária. E dessa necessidade surge inovação de verdade que permite aos jogadores experimentar algo diferente das tradicionais franquias que reciclam fórmulas ad eternum

Para os advogados de que “vídeo games emburrecem” o independente Braid é um tapa na cara. Mesmo para jogadores experientes e calejados, Braid fornece desafios inesperados ao exigir não só agilidade e precisão nos controles mas também um raciocínio incomum - raciocínio esse que parece ativar áreas inexploradas do seu cérebro que quebra-cabeças usuais não conseguem acessar.

O criador Jonathan Blow desenvolveu um mecanismo de “avanço” e “retrocesso” de imagens similar ao da Ubisoft no inovador Prince of Persia: Sands of Time e o evoluiu de forma a permitir que apenas parte dos elementos da tela sejam afetados ou que as movimentações no tempo estivessem ligados à movimentação do personagem na tela. Dessa maneira ele acabou criando um universo de possibilidades que Braid assimila de forma especialmente criativa. 

Para avançar em um determinado nível, é necessário seguir até um determinado momento no tempo em que você conseguiu abrir uma porta e então retroceder para um momento da jogada em que você estivesse em um local que te permita acessar aquela porta. Essa é uma das mecânicas mais simples que o jogo oferece - nível Easiest.

Entender os efeitos que você causa no ambiente e encontrar soluções para quebra-cabeças aparentemente impossíveis são de um prazer inebriante e a curva de aprendizado do jogo, muito bem desenhada, permite que os desafios já suplantados sejam base para resolução dos novos, mas ao mesmo tempo impede que soluções já consagradas sejam reutilizadas sem a adição de algum novo elemento.

O roteiro é um espetáculo à parte, etéreo e nebuloso, abrindo espaço para algumas interpretações alegóricas de um drama real ou outras mais diretas de uma fantasia. O desenho de fases com telas de fundo cobertas por pinturas impressionistas e elementos de jogo levemente retrô e datado, longe de ser um detrimento, são sim um complemento à trágica história do protagonista.

A curta duração inesperadamente também joga a favor de Braid pois impede que a mecânica do jogo fique repetitiva e sem inspiração e também garante que você não vá passar dias sem cuidar dos seus deveres mundanos definhando na frente da TV, frustrado com sua incapacidade de entender como tempo e espaço podem convergir e permitir seu avanço.

Braid ganhou diversos prêmios e do Xbox alcançou todas as outras plataformas, atingindo um público maior e ganhando o merecido reconhecimento. Custa cerca de R$30 na PSN e garante pelo menos umas cinco a seis horas de muito entretenimento.

Com um Metascore de 93 no Metacritic, o que garante o rótulo de "Universal  Acclaim" pelo site, Braid é uma experiência obrigatória que não só vai preencher sua necessidade de ser desafiado como jogador, mas também, como toda boa obra de arte, expandir suas percepções do mundo e da vida.

sexta-feira, 15 de maio de 2015

Mad Max - Estrada da Fúria

Luz, câmera, AÇÃO!

Direção: George Miller
Título Original: Mad Max: Fury Road
Idioma: Inglês
Duração: 120 min
Lançamento: Mai/2015

Quer conhecer a definição máxima do que seria um filme de ação contemporâneo? Então pare de ler essa resenha e corra pro cinema para assistir a Mad Max: Estrada da Fúria antes que saia de cartaz. Do início da projeção a seus minutos finais, o quarto filme da série protagonizada pelo insano e solitário Max Rockatansky vai suspender temporariamente não só sua descrença mas seu direito a respirar. Mal as luzes do cinema se apagam, os motores começam a roncar, guitarras a guinchar e Max a grunhir.  E quando você menos estiver esperando, a trama já vai ter chegado a sua resolução, os créditos terão subido, suas energias vão ter se esgotado com tanta tensão e você sairá atordoado, mas com a estranha satisfação de quem concluiu uma missão ou sobreviveu a uma provação (um daqueles filmes do tipo ame-ou-odeie).

Sem tempo para as piadinhas infames ou as dezenas de cenas de "propaganda" dos filmes da Marvel, sem tempo para as tramas rocambolescas de Bournes e Missões Imposíveis, sem tempo para ficar fazendo poses em câmera lenta e lambendo o próprio rabo dos zero-zero-Bonds, Mad Max é uma injeção de adrenalina misturada com muita testosterona e, agradavelmente, doses cavalares de estrogênio (Furiosa!). Uma mistura intoxicante que proporciona um barato de duas horas e deixa uma leve zonzeira reverberando por algum tempo depois da saída do cinema.

Mas se o filme é pura ação, deve ser estéril como o deserto onde é filmado, não? Em absoluto! Basta acompanhar o mimimi sobre a "conspiração castradora feminista" por trás do filme (não coloco o link do artigo que gerou a centelha para não alimentar o fogo dessa discussão). Ainda que a louvável crítica à opressão machista faça parte do enredo, em foco estão realmente a redenção e a esperança e todos os protagonistas e personagens secundárias sublinham esses dois temas. Porém, é na construção da ação que o roteiro efetivamente mostra seu brilhantismo. Em cada beat, cada virada, as apostas são altíssimas. Se os personagens encaram um problema, e não há escassez deles, estão sempre em jogo a liberdade e a sobrevivência de cada um. Pessoas com os quais você se importa e o perigo de perdê-los a cada minuto de projeção: o que mais um filme precisa para manter sua atenção?

Diminuir o ritmo para desenvolver melhor as personagens? Nem pensar. As personagens reagem a cada um dos problemas que aparecem de cinco em cinco segundos e pelas respostas e atitudes você entende perfeitamente quem eles são, o que precisam, o que sentem e o que buscam. Praticamente um filme mudo, de pouquíssimos diálogos, Mad Max tem mais desenvolvimento de personagens do que muitos outros que gastam horas levando os seus para uma cabana na floresta e colocando-os em terapias de grupo com a intenção de debaterem aquilo que não se conseguiu mostrar diretamente na ação.

O Mad Max de Tom Hardy é magnético, vigoroso e intenso. Um sobrevivente assolado pela insanidade e assombrado por traumas,  ele passa a maior parte do filme grunhindo e emitindo monossílabos, mas faz isso com tanto charme, naturalidade e uma estranhamente adequada afabilidade que se torna impossível não simpatizar com ele. Esse Max é uma daquelas figuras que ultrapassa sua função como personagem para se tornar uma força motriz e acaba sendo não o protagonista, mas o elemento que une e move as tramas daqueles que representam verdadeiramente a alma da história: a Imperatriz Furiosa e o mal-direcionado, mas bem-intencionado Nux. 

Charlize Theron, como Furiosa, sequestra todas as cenas e não importa o quão suja, arrebentada e aleijada ela esteja, continua soberbamente exuberante e bela. Não consigo imaginar alguém que seja tão Imperatriz e tão Furiosa ao mesmo tempo, pelo menos não enquanto a imagem de Theron estiver tão fresca na minha mente. Furiosa é humana, extremamente humana. Brutal e gentil simultaneamente, seu olhar transmite uma dor ancestral, um peso sendo carregado por anos e anos ininterruptos, mas ainda assim ela age movida pela esperança e por uma chance de redenção. Se houver um futuro para essa franquia, espero sinceramente que Furiosa esteja nele.

Demorei para reconhecer pelo visual, mas os trejeitos de atuação de Nicholas Hoult (Skins, X-men: Primeira Classe, Um grande garoto) são tão característicos que mesmo debaixo das toneladas de maquiagem necessárias para dar vida a Nux, você consegue enxergar o ator. Nux, ainda que coadjuvante, é quem encarna o arco tradicional do herói no filme. Inicialmente um entre muitos dos War Boys do vilão Immortan Joe (Hugh Keays-Byrne)vítima da própria fragilidade e ignorância e transformado em algoz pelos desígnios do tirano, ele cresce para ocupar o papel clássico do fantoche disposto a cortar suas cordas, em nome do amor ou em nome de um propósito que seja seu e não de outros. Hoult amadurece a cada filme que faz, arrisca-se em diferentes gêneros, e sua carreira ganha corpo e evidência. Ele é um dos poucos atores mirins que entregou-se efetivamente ao ofício e sempre é um prazer vê-lo atuando.

Personagens redondos, enredo simples e efetivo, ação ininterrupta... Mas e os efeitos? As explosões? As perseguições? George Miller é um diretor veterano e John Seale, o cinematografista, coleciona também algumas décadas de carreira, sendo que ambos já levaram um Oscar pra casa. Enfim, são profissionais que sabem o que estão fazendo e isso é percebido facilmente na tela. Os efeitos digitais são utilizados não como prato principal e sim para amplificar o que foi construído "analogicamente" com dezenas de carros e dublês à disposição. E por isso, diferente da maioria dos blockbusters atuais, é fácil identificar o que está acontecendo na cena, mesmo nos momentos mais intensos. Muita atenção a detalhes e imaginação de sobra permitem povoar o pesadelo surrealista de Mad Max com as mais bizarras e grotescas criaturas e emoldurá-lo com uma paisagem árida e incrivelmente bela. Cores saturadas, cenas noturnas acachapantes, uma tempestade de areia para entrar pra história: o espetáculo visual está garantido e por si só já valeria o ingresso.

Enquanto escrevia essa crítica, fiquei tentando procurar pelos mais banais problemas que fizessem com que Mad Max não merecesse a nota máxima. Poderia dizer que a ação do clímax acaba sendo um pouco menos espetaculosa do que o que veio antes dela, mas sinceramente isso foi praticamente um alívio. Poderia dizer que a maior parte dos nomes e dos poucos diálogos são ridículos (Rictus Erectus? People Eater? Bullet Farmer?), mas isso é parte do charme da série. Poderia dizer que o plot em si é praticamente inexistente e absolutamente previsível, mas ele funciona perfeitamente para emoldurar o que realmente interessa que é a ação. Enfim, deixo aqui a única crítica negativa que encontrei para tentar balancear um possível miopia da minha parte e oficializo que, para mim, o sarrafo subiu a nível estratosféricos para os filmes de ação com Mad Max: Estrada da Fúria, e boa sorte para quem for tentar se igualar a essa façanha daqui para frente.

P.S.: Claro que não poderia deixar de ser mencionado: o carro com os tambores e o guitarrista... Soooooooo awesome! 

quinta-feira, 20 de dezembro de 2012

As aventuras de Pi - O livro

O espírito humano e a arte de contar uma estória

A "regra das vinte páginas", aquela que diz que é possível saber se vale a pena continuar lendo um livro ou não dependendo do efeito das primeiras vinte páginas sobre o leitor, não se aplica para As aventuras de Pi. Como muitas das melhores obras da literatura, essa só demonstra toda sua genialidade quando a última página do livro é virada.

Podem ser apenas os próximos minutos ou podem ser os próximos dias, mas pelo menos por algum período mínimo o leitor vai ficar pensando na estória literal que acabou de ser contada, depois pensará nas camadas metafóricas do texto, depois nos símbolos espalhadas ao longo das mais de 200 páginas, depois passará por uma reflexão interna sobre seus próprios valores, depois... Enfim, é impossível embarcar nessa jornada (um clichê muito adequado para esse caso) e sair dela incólume.

Simplesmente ao olhar a capa do livro você sabe o que vem pela frente: estamos falando da improvável estória de sobrevivência de um garoto à deriva em um pequeno bote com um tigre de bengala. Contudo ao ir desvendando cada uma das camadas do livro, você percebe que aceitar essa definição é o mesmo que dizer que o Novo Testamento é apenas a biografia de Jesus Cristo.

As Aventuras de Pi é um livro magistralmente escrito, cada parágrafo, frase ou palavra é sabiamente escolhido e como todas as boas estórias contadas em primeira pessoa, o narrador influencia o enredo, criando um filtro de emoções, pensamentos e ideologias que modifica e muito a interpretação da mesma. 

Informações técnicas dos campos da zoologia e botânica são cuidadosamente entrelaçadas aos acontecimentos e um mosaico perfeito é construído aos poucos onde cada peça se encaixa para fazer com que o todo faça sentido. Todos os fundamentos apresentados casualmente na primeira parte do livro servem para garantir a factibilidade dos eventos na segunda parte e as duas primeiras garantem à terceira parte, formada na maior parte por diálogos, uma profundidade emocionante.

A narrativa de Pi não é linear, principalmente a da segunda e maior parte que versa sobre os dias de Pi à deriva, o narrador vai e volta contando estórias do começo e do fim da viagem, um capítulo inteiro perpassando desde o primeiro dia até o último, um outro que fala de um evento específico. Uma estrutura narrativa que tenta replicar as recordações de um naufrago. 

Apesar de sabermos desde o começo de que o protagonista vai ficar vivo até o final já que ele está narrando a estória, todos os momentos tensos do livro conseguem manter o nível de angústia esperado, já que não sabemos "como" o protagonista chegou ao final ou o que aconteceu com os outros personagens. 

Escrever muito mais sobre o assunto é estragar a experiência, uma que pode acabar com sorrisos, em expressões de espanto ou mesmo em lágrimas. Essa amplitude de emoções é mérito da habilidade narrativa de Pi e do autor Yann Martel, mas também do próprio leitor que traz a própria bagagem de valores e  percepções e interpreta a estória a sua própria e peculiar maneira.

Acho que uma das passagens do livro que define perfeitamente o meu sentimento em relação a ele seria:

"My greatest wish — other than salvation — was to have a book. A long book with a never-ending story. One I could read again and again, with new eyes and a fresh understanding each time. Alas, there was no scripture in the lifeboat."

Yann Martel constrói um livro denso como uma escritura ou um livro sagrado (já que esse é um tema onipresente), para o qual você pode voltar metaforica e literalmente muitas e muitas vezes, aproveitar um novo ângulo e talvez entender mais sobre si mesmo. As "aventuras" de Pi são um veículo para algo muito maior do que a sua estória: uma discussão sobre crença, sobre fé, sobre religiões e principalmente sobre o poder das estórias em nossas vidas. 

Observações adicionais:

- Life of Pi ganhou o Booker Prize, o "Oscar" da literatura de língua inglesa, em 2002. Mais do que merecido.

- A polêmica sobre o plágio ao material do Moacir Scliar ("Mas e os Felinos") é válida, mas não altera em nada a qualidade do livro de Martel. Foi inspirado sim, sem a menor sombra de dúvida, mas com propósitos e resultados completamente diferentes.

- Vou agora mesmo assistir ao filme de Ang Lee e ver como essa obra-prima se comporta ao ser contada com imagens e comprimida em apenas duas horas. O desafio é realmente grande porque o livro não parece prestar-se a uma adaptação. Voltamos com mais uma crítica sobre As aventuras de Pi amanhã!

domingo, 19 de junho de 2011

Game of Thrones

A promessa de uma obra-prima


E mais uma bola dentro da HBO!

Fãs de O Senhor dos Anéis, Game of Thrones é um programa imperdível para vocês.

Restante do mundo, Game of Thrones é um programa imperdível para vocês também.

O novo seriado da HBO agrupa quase dez horas de entretenimento que entregam exatamente o que seu título parece propor: intrigas palacianas, traições, vinganças e uma dezena de personagens sem escrúpulos (ou com mais escrúpulos do que deveriam) fazendo de tudo para sentar no cobiçado trono de ferro. 

Os primeiros capítulos da série, ainda que muito mais lentos que os finais, deixam qualquer um completamente perdido com um batalhão de personagens. O problema não são apenas os que aparecem na tela, mas também todos aqueles que são citados rotineiramente na maioria dos diálogos. Cada personagem refere-se a antepassados de seu clã ou a personagens que ainda não estão aparecendo na trama e criam um mundo complexo cheio de interligações e histórias ainda não contadas (ou que nunca serão).

Só mais para o final da temporada, consegui me localizar entre os diversos clãs e seus totens e entender suas vantagens competitivas no jogo pelo trono - dinheiro, poder militar, hereditariedade ou simplesmente "honra". Nesse ponto da narrativa, você já está totalmente envolvido na estória e o destino de cada uma daquelas "pessoas" torna-se crucial e o roteiro não decepciona, usando seus pré-conceitos para te surpreender ao mesmo tempo em que você percebe a "virada" era, na verdade, o resultado mais óbvio de uma sequência longa de eventos.

Um fantástico roteiro realmente já é meio caminho andado, mas a escolha do elenco e das locações também fazem toda a diferença. Há excelentes atores, mas o que mais rouba cenas é Peter Dinklage, o anão protagonista do independente O Agente da Estação. Com uma atuação digna de Emmy, mesmo que não leve o prêmio para casa, tem que ser ao menos indicado. A presença de tela de seu personagem aumenta consideravelmente ao longo dos episódios e parece até que tenha crescido de acordo com sua popularidade - ainda que eu não tenha como confirmar se todos os episódios já haviam sido gravados quando o piloto foi ao ar.
Ele, no entanto, está longe de ser exceção em um elenco transbordando de bons atores e, ainda mais, de boas atrizes. Particularmente, meu "arco de estória" favorito é certamente o que mostra a evolução da ótima Emilia Clarke e sua Daenerys Targarien, a melhor de todas as fortes e envolventes personagens femininas. As mulheres deixam, na maior parte do tempo, a violência a cargo dos homens, mas são elas, que com suas intrigas e ambições que realmente dão o tom da série - exceção às tradicionais mulheres-objeto das séries da HBO que já são um elemento esperado (assim como o uso de drogas).

Ainda que a série seja fantástica, Game of Thrones tem seus poucos pontos baixos: os episódios três a cinco mal avançam a história e o cenário que menos empolga é também um dos mais importantes: The Wall, a grande muralha que separa os sete reinos das terras geladas e aparentemente repleta de seres místicos ao norte. A história de Jon Snow segue extremamente devagar e quase sempre arrasta o ritmo dos episódios, ainda que, mais para o final, percebe-se que é dali que muitas estórias vão sair.

O show segue sua primeira temporada praticamente inteira com muitos poucos elementos de fantasia em si, apenas referenciando-os como parte de uma realidade que já ficou perdida na história desse mundo. Se não cair no erro de True Blood que começou a focar mais em seus elementos fantasiosos relegando as verdadeiras estórias, as dos personagens, a um papel coadjuvante, Game of Thrones tem tudo para ser uma das melhores séries já produzidas na televisão. 

Descobriremos daqui a alguns meses quando o inverno, e a segunda temporada, chegar...

Bônus: a fanstástica animação da abertura



sexta-feira, 11 de fevereiro de 2011

O discurso do rei

Genuinamente um candidato ao Oscar

Direção: Tom Hooper
Título original: The king's speech
Duração: 118 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2011


O discurso do rei é um filme visivelmente idealizado para ser indicado ao Oscar e dada a competência da execução fica fácil entender porque acabou levando a estatueta. Uma história sobre amizade com pano de fundo político e histórico e dois atores de peso para contracenar - como poderia dar errado? Infelizmente, essa ânsia pela premiação acaba sendo o maior defeito do filme, que torna cenas mais triviais (o próprio discurso do título) em momentos apoteóticos de superação humana. Uma extravagância que, no entanto, não tira o brilho das interpretações geniais de Colin Firth (merecido Oscar) e Geoffrey Rush ou dos diálogos inspirados do roteiro de David Seidler. Nem sempre o vencedor do Oscar é um filme que valha o tempo investido, mas certamente não é esse o caso.

sexta-feira, 4 de fevereiro de 2011

Cisne negro


Angustiante Obssessão

Direção: Darren Aronofsky
Título original: Black Swan
Duração: 108 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Fev/2011

Já se falou tanto nesse filme, que nem vale a pena perder muito tempo na resenha: sim, ele é fantástico e cai facilmente na categoria "obrigatório". Foi merecido o Oscar de melhor atriz que Natalie Portman levou por seu retrato angustiante de uma obssessão auto-destrutiva pela perfeição, assim como também foi merecida a nominação para a direção tensa e enervante de Darren Aronofsky. O filme conta ainda com outras estrelas em atuações "naturais", resultantes de acertada escolha de elenco: Mila Kunis, Winona Ryder e Barbara Hershey. Outro ponto positivo é que não é necessário entender nada do competitivo mundo do balé clássico, pois o roteiro é didático o suficiente para te colocar a par não só do enredo de O Lago dos Cisnes, obviamente essencial à trama, mas também do que essa montagem e a posição de primeira-bailarina significam para quem respira balé. 

Acompanhar a degradação alucinante de Nina Sayers em busca da perfeição é uma jornada cansativa e desgastante, ainda que recompensadora. Aronofsky já nos tinha colocado antes nessa posição de expectadores de inevitáveis derrocadas - seja pelas drogas (Requiém para um sonho), pela loucura (Pi), pela decadência (O Lutador) ou pela perda (A fonte da vida), e aqui estamos nós mais uma vez para uma sessão de "tortura psicológica" da melhor qualidade.

sexta-feira, 12 de novembro de 2010

Minhas mães e meu pai

Todos estão bem

Direção: Lisa Cholodenko
Título original: The kids are all right
Duração: 106 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Nov/2010

Minhas mães e meu pai fala de relacionamentos, comprometimento e família. É um filme simples em sua premissa, mas extremamente complexo e poderoso na sua execução. O enredo apóia-se na ruptura causada em uma família após os filhos resolverem conhecer o doador do esperma que engravidou as mães, um casal de lésbicas. Annette Bening e Julianne Moore, como sempre, dão um show de interpretação e garantem total veracidade e profundidade a suas personagens. Mark Ruffalo, o pai, e Mia Wasikowska e Josh Hutcherson, os filhos, também entregam atuações convincentes, mas acabam ofuscados pela dupla principal. Boa caracterização, sentimentos familiares e ótimas sacadas cômicas em um filme que trata de temas complexos, com a complexidade que lhes é devida. Essencial.

sexta-feira, 8 de outubro de 2010

Tropa de elite 2

Intenso e catártico


Direção: José Padilha
Título original: Tropa de Elite 2
Duração: 116 min
Idioma: Português
Lançamento: Out/2010

O Coronel (antigo Capitão) Nascimento já foi capa de revista e praticamente todo e qualquer veículo de comunicação mencionou seu nome de uma maneira ou de outra. Tudo que me resta, ainda mais depois de tanto tempo após o pico da euforia, é validar a opinião da esmagadora maioria: o filme é realmente fantástico. Ainda mais inteligente que o primeiro, Tropa de Elite 2 é uma continuação que supera com folga, uma primeira empreitada que já tinha obtido muito sucesso. Mal e mal comparando, remete às duas partes de Kill Bill de Quentin Tarantino: indissociáveis, mas absolutamente diversas em sua essência. Enquanto a primeira parte (de ambos os filmes) exalava hormônios e abusava da ação e violência em uma trama honestamente direta, a segunda parte apela para sentimentos mais complexos, dá mais profundidade aos personagens e exige mais maturidade e reflexão de seus expectadores sem nunca deixar de ser entretenimento. Trama articulada, interpretações impecáveis de praticamente todo o elenco (falar de Wagner Moura é chover no molhado), alta qualidade das cenas de ação, diálogos realistas e emoções sinceras... Enfim, Tropa de Elite 2 é obrigatório para qualquer cinéfilo que se preze. Longe do escopo desse blog analisar os aspectos políticos, sociológicos e éticos do filme (ainda mais nessa nova fase de "microposts"), mas certamente o filme é uma experiência catártica que pode tanto suscitar quanto destroçar a esperança de qualquer brasileiro no futuro de seu país.

sexta-feira, 6 de agosto de 2010

A Origem

Nolan é o cara!

Direção: Christopher Nolan
Título Original: Inception
Duração: 148 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Ago/10


Ele começou em 2000 com a original narrativa invertida de Amnésia. Seguiu com a tensão noir na plena luz do infinito dia de verão do Alasca com Insônia. Na sequência, ele mostrou como montar uma origem impecável para um super-herói em Batman Begins. Com Christian Bale de novo elenco, adicionou Hugh Jackman e Scarlett Johansson e Presto!, um filmaço sobre obsessões com O Grande Truque. Ainda não satisfeito, foi lá e montou o filme "definitivo" do Batman com o Coringa mais aterrorizante já imaginado em The Dark Knight. Agora, Christopher Nolan atinge seu ápice (temporário) com A Origem.

Recomendação baseada única e exclusivamente na minha opinião: A Origem é essencial - vá para o cinema na primeira oportunidade!

Resumo rápido e objetivo do enredo para quem não dá a mínima para a minha opinião e só quer saber o básico sobre o filme para decidir se vai ao cinema: profissional especializado em roubar segredos da mente das pessoas invadindo seus sonhos precisa juntar uma equipe para o seu trabalho final e também o mais complexo e elaborado de todos - implantar uma idéia na cabeça de um jovem milionário.

Resumo rápido e subjetivo para quem acha que a objetividade anterior não ajuda em nada no processo decisório: A Origem = O Plano Perfeito + Waking Life + Matrix - uma história de "roubo de banco" com os usuais planos mega-elaborados dependentes de perfeita sincronia, habilidades especiais e muita dissimulação, só que ao invés de bancos, mentes e ao invés de dinheiro, idéias, tudo isso no esquema Matrix de "o que é real e o que é ilusão?" com efeitos especiais de ponta.

Assim como o último filme que critiquei com Leonardo Di Caprio no elenco (Ilha do Medo), fica difícil falar sobre o roteiro de A Origem de uma maneira que não estrague a experiência. Vale dizer apenas que você pode ir sossegado para o cinema porque, no mínimo, A Origem é um ótimo filme de ação com um roteiro inteligente. Contudo você pode aproveitar também as outras inúmeras "camadas" ou "níveis" de experiência que ele oferece. Deixe seu subconsciente buscar livremente os elementos estranhos, perca-se entre as aparentes incoerências e permita-se enganar pelas ilusões de A Origem.

Ao assistir o filme, tenha em mente que Nolan ficou aparando arestas e revisando o roteiro durante mais de dez anos. Nada escapou a esse refinamento e cada diálogo, cada detalhe da cena foi escolhido e incluído com algum objetivo (ou vários). Lembre-se também do currículo dele e que você está assistindo um filme que trata de quebra-cabeças, labirintos, ilusões. Inevitavelmente, um bom diretor vai incluir uma camada metalinguística nesse texto e te colocar na mesma situação dos personagens: perplexo e desorientado, sem saber o que é real ou não.

A trama é muito envolvente e não perde o ritmo em nenhum ou no máximo em pouquíssimos momentos (geralmente quando repete mais de uma vez a mesma "regra de funcionamento") e o elenco é mais do que sólido. Desde aqueles novatos no universo do diretor como Di Caprio, Joseph Gordon-Levitt (500 dias com ela), Ellen Page (Juno) e Marion Cotillard (Piaf), passando pelos que estão repetindo a dose como Cillian Murphy e Ken Watanabe (Batman Begins) e fechando com a aparição relâmpago, mas sempre relevante do arroz-de-festa Michael Caine (já no seu quarto trabalho com Nolan).

Quanto mais penso e discuto sbore cada uma das cenas, mais idéias vêm à cabeça... Não é a praia de todo mundo, mas certamente vai deixar alguns cinéfilos bem contentes. Gostaria muito de explorar mais o filme nesse espaço, mas é impossível sem spoilers. Guardo para os próximos chopps (ou simplesmente para o espaço de comentários abaixo).

Agora, o jeito é esperar para ver a terceira investida do diretor com o homem-morcego com estréia no longínquo verão (nosso inverno) de 2012 e assistir novamente A Origem assim que der.


PS. - Para balancear com uma avaliação menos positiva, clique aqui.

sexta-feira, 18 de junho de 2010

Toy Story 3

 
Obra-prima da Pixar
Direção: Lee Unkricht
Título Original: Toy Story 3
Duração: 103 min
Idioma: Inglês
Lançamento: Jun/10

Esse post poderia resumir-se a uma frase: Vá ao cinema e veja esse filme!

Até seria melhor que você parasse de ler por aqui e fosse sem muitas expectativas para o cinema e simplesmente aproveitasse.

Se quiser mais algum incentivo, vale saber que Toy Story 3 é o pacote completo:

Você ri com várias sacadas espertas;
Você chora em momentos emotivos e melancólicos;
Você gruda na cadeira em cenas tensas;
Você vibra com cenas de ação empolgantes e bem executadas;
Você se surpreende com viradas inteligentes na história;
Você fica embasbacado com a qualidade da animação e o ótimo uso do efeito 3D;
Você fica triste quando o filme acaba porque queria poder passar mais tempo com aqueles personagens, mesmo sabendo que a história termina como e quando deveria terminar...

E o único problema de Toy Story 3 é esse... em determinado momento, você tem que se levantar e voltar para a casa... ainda que se sentindo leve e recompensado.

Enfim... Vá ao cinema e veja esse filme!

segunda-feira, 24 de maio de 2010

Lost


 A conclusão de uma saga sem conclusão

Depois de seis longas, sofridas e fantásticas temporadas chega ao fim o maior fenômeno da televisão atual. Ainda que "televisão" seja extremamente limitador: inclua-se também internet, telefones celulares, livros, quadrinhos, feiras e até onde mais os produtores da série conseguissem estender a saga de Jack e companhia.

Não há a menor dúvida de que a última temporada como um todo, deixou órfãos todos aqueles que assistiam ao seriado esperando respostas para as dezenas de mistérios criados ao longo dos últimos anos. Arriscaria dizer que esse grupo inclui TODAS as pessoas que se deram ao trabalho/prazer de assistir a mais de oitenta horas de estórias.

O último episódio, no entanto, terminou com dois tipos de expectadores grudados na frente da TV: aqueles que continuaram irados com os autores/produtores da série pela "enganação" de não entregarem o que não prometeram e aqueles que "compraram" a resposta que explicaria tudo o que não ficou explicado: "o que importa é a jornada" e "tudo é arbitrário". O primeiro grupo terminou como Ben e ainda vai demorar a se sentir "pronto" para deixar para trás e o segundo, como Jack, já reconheceu que foi uma experiência e tanto, valeu a pena e bola pra frente.

Nesse sentido, foi um final que cumpriu seu papel, e particularmente estou entre aqueles que consideraram-no satisfatoriamente emocional, compensador e coerente com a série como um todo.

Não explicou nada do que se esperava, mas pelo menos deixou explícito e claro que o importante não era conseguir as respostas para os mistérios da ilha em si, mas sim a jornada de cada um dos personagens em busca de propósito e de redenção, o que no final das contas todos eles alcançaram de uma maneira ou de outra tendo a ilha e seus mistérios como o mecanismo catalisador...


Alguns fechamentos foram mostrados na tela (em especial o de Jack), outros foram mencionados (como Ben sendo pro Hurley, o que Jacob nunca deixou que fosse para ele) e outros ficaram a cargo da imaginação (a vida de Claire e Kate cuidando de Aaron, Sawyer fora da ilha etc.)

As cenas finais dão algumas dicas pra que os fãs terminem de concluir aquilo que não ficou explícito na série em si: arbitrariedade. Porque algumas coisas aconteceram de certa maneira? Porque eram as regras de Jacob, ele que as inventou. Jack posteriormente inventou as dele e a estória tomou um ritmo direto e completamente diferente do resto da série inteira (ainda que a conclusão específica do feudo Jacob-Fumaça Negra tenha ficado com um ar de "ninguém tinha plano porcaria nenhuma) e Hurley fará as coisas de um outro jeito, então não importa...

Na sala com os símbolos religiosos de tudo quanto é religião relevante, somos lembrados exatamente disso: é tudo questão de fé, de acreditar em algo e aquilo se tornar a verdade para você como em qualquer religião. Jack finalmente percebe isso próximo do final (quando pega um garrafinha de plástico qualquer e "adapta" o ritual de passagem de bastão para Hurley). "Acredite e será salvo", simples como isso...

O que ficou por explicar, em sua grande maioria, pode ser explicada pelo que cada um tirou da estória. Considerando que não há mais informação a ser dada, cada um pode pegar o que tem disponível e explicar da sua própria maneira. Óbvio que eles não planejaram tudo que foi feito pelo caminho e claro que não tinha uma resposta pensada pra tudo, mas o mais importante é que eles deixaram suficientemente em aberto para que cada um fechasse como quisesse (uma passada de olho nas teorias escritas por fãs no Lostpedia e rapidamente se encontram várias conclusões bastante satisfatórias e coerentes com o mostrado na tv).

Por mais novela das oito que tenha sido o final em si, foi emocionante ter uma última chance de ver personagens aos quais você se apegou finalmente tendo um "final feliz" e percebendo que eles viveram o que tinham para viver, chegando no fim com aquilo que era importante: um vínculo tão forte com outras pessoas a ponto de "criarem um mundo" para se reencontrarem.


Compensador também ver o quanto os atores em si amadureceram nos últimos anos... Se pegarmos o trabalho mostrado por Matthew Fox e Josh Holloway no começo da série e compararmos com a carga emocional que eles jogaram nas melhores cenas desse episódio, nem parecem ser os mesmos atores. Todos conseguiram entregar o que era esperado deles e muitas cenas ficaram irretocáveis, como a do encontro de Sawyer e da Juliette (esperado durante toda a temporada desde a morte dela no primeiro episódio.

Outro ponto interessante desse episódio foi a carga metalinguística muito mais óbvia que em qualquer outro: Kate tirando sarro do nome óbvio do pai do Jack "Christian Shephard", Sawyer mandando um "foi a enganação/truque (con) mais longo e elaborado da estória", outro personagem contestando as regras arbitrárias e ouvindo um "Confie que é assim e pronto" e a mensagem principal: o que interessa é o que você viveu e sentiu assistindo, agora chegou ao fim e é hora de dar um "let go" and "move on" e ficar com as boas lembranças de seis anos de ótimas estórias.

quarta-feira, 19 de maio de 2010

Modern Family

 
Família, Família...



Modern Family foi, sem dúvida, a melhor entre as estréias da temporada 2009/10 de séries de TV, a ponto do Hollywood Reporter incluí-la ainda nos primeiros episódios entre as dez melhores séries da década.

Polêmicas e exageros à parte, o show realmente conta com diversos pontos a seu favor: roteiros inspirados, atores com ótimo timing para comédia, piadas ágeis e nada politicamente corretas e uma premissa bastante simples, mas com a qual a grande maioria das pessoas consegue identificar-se: viver em família é uma tragicomédia, não importa quão moderna ela seja. 

Valendo-se do já bem-sucedido estilo "mockumentary", cujo exemplar mais icônico é The Office, a série finge ser um "reality show", com comentários para a câmera e tomadas sem corte, sobre uma família estendida (três famílias dentro de uma mesma família maior).



De longe, a melhor personagem é Phil, o pai paspalho da família Dunphy, a mais "tradicional" entre as três. Ele é interpretado com maestria por Ty Burrell (Madrugada dos Mortos), que no mínimo deverá ser indicado para um Emmy como ator coadjuvante.



Fazendo par com Ty e comandando a família Dunphy está Claire, interpretada por Julie Bowen (Ed, Lost), que cresce muito com o passar dos episódios e vai de "escada" no início à protagonista de muitas das melhores cenas da segunda metade da temporada.



Claire é filha de Jay Pritchett, mas pode chamá-lo também de Al Bundy, pois o personagem além de ter muitas características similares às do pai imbecil de Married...with Children é também encarnado por Ed O'Neill.



Jay vive com Gloria e o filho dela, Manny, e nesses dois aparecem alguns dos poucos defeitos da série. Por exemplo, a maioria das piadas que cabem a Sofia Vergara (que claramente não precisa de piada nenhuma para justificar sua presença no programa, os vestidos colados justificam qualquer coisa) envolvem a sua origem latina (ela é colombiana) e só são engraçadas nas primeiras vezes, depois viram versões requentadas da mesma piada.

O outro lado "moderno" da série é a família formada por Mitchell, Cameron e Lily, os quais, assim como acontece com Gloria, às vezes cansam um pouco com as piadas gays. Quando exploram o metodismo de um ou a personalidade "expansiva" do outro, no entanto, a dupla funciona bem.

As crianças/adolescentes de modo geral cumprem bem com seus papéis, principalmente, Rico Rodriguez II, interpréte de Manny. Ele é um dos mais engraçados no começo da temporada, mas infelizmente vai virando uma caricatura de si mesmo mais para a frente. 
 
Certamente, todos os episódios valem uma conferida, mas uma lista dos melhores certamente incluiria: "Pilot" (Ep.01), "Run for your wife" (Ep.06), "Fizbo" (Ep. 09), "Not in my house" , "Truth be told" (Ep.17) e "Hawaii" (Ep.23).
 
A série tem ainda que começar a criar suas piadas internas e desenvolver macro-enredos que ultrapassem o limite dos episódios de vinte minutos para dar um ar de continuidade para ela. Porém, mesmo nos seus momentos mais fracos, Modern Family ainda é melhor que a maioria das comédias no ar atualmente.
 
Então, que venha a segunda temporada!

sexta-feira, 12 de março de 2010

Ilha do medo

Sombrio e meticuloso quebra-cabeça

Direção: Martin Scorcese
Título original: Shutter Island
Duração: 138 min
Idioma: Inglês
Lançamento: fev/2010
 
Como em quase todas as resenhas, é difícil dissertar sobre a qualidade de um filme sem estragar a experiência de quem ainda não o viu, mesmo quando essa não é calcada em "surpresas" ou "segredos". Quanto menos você souber de um bom filme, mais significativa e compensadora tende a ser essa experiência. Então, você pode assumir que seu leitor já assistiu ao filme e comentar cenas, divagar sobre referências e símbolos e dissecar o roteiro como se fosse uma discussão pós-saída do cinema ou apenas indicar genericamente as principais característica para recomendá-lo (ou não). Escolho a segunda para que ninguém se pegue eventualmente surpreendido por uma informação indesejada. Reservemos possíveis discussões sobre detalhes desse (e de outros) filmes para a seção de comentários.

O enredo é simples e sob certo ângulo não muito original: dois policiais navegam até uma ilha que abriga um manicômio para investigar o desaparecimento de uma das pacientes. Som, fotografia, cenografia e direção de arte constroem o ambiente e a atmosfera perfeitos que por si já valem o filme. Alie-se a isso um bom elenco com ótimas atuações, em especial de Di Caprio e Ruffalo, a dupla de protagonistas, e você já garantiu um bom entretenimento.

Além disso, o roteiro é muito bem amarrado: todas as cenas estão no filme por algum motivo, todos os detalhes fazem sentido, nenhum diálogo é desperdiçado e a história vai construindo-se pouco a pouco e sempre. Algumas cenas, no entanto, especialmente as mais próximas do final, estendem-se um pouco mais do que necessário e prejudicam ligeiramente o ritmo do filme. No mais, a construção do quebra-cabeças é tão meticulosa e detalhista que o processo, ou o "como" a história é contada, acaba sobressaindo-se à história em si.

No fim das contas, é um prazer tanto deixar-se imergir no universo do filme e sua história, quanto imaginar o trabalho de construção de cada uma das cenas pelo diretor com suas diversas leituras e referências a outras obras do gênero.